O Gaúcho/III/XIV

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O Gaúcho por José de Alencar
Livro Terceiro, Capítulo XIV: Visão

Alcançando Verdum, Manuel embora disposto a partilhar a sorte do combate, declarou ao coronel que o ataque naquelas circunstâncias, com tão pouca gente, era uma imprudência; porque o inimigo estava alerta e não se deixaria surpreender.

O oriental insistiu; o resultado foi uma carnificina que ele pagou com a vida. Era a primeira derrota da revolução, a que devia seguir-se em poucos dias a do capitão Porciúncula no Arroio Grande.

Manuel e Juca bateram-se como leões e vingaram a Morena de uma maneira terrível. Quando passavam no meio de um turbilhão por entre os inimigos, dir-se-ia o gênio do extermínio cavalgando um corcel de asas de fogo.

Vem do que de seus companheiros já não restavam no campo senão cadáveres, o gaúcho como um tigre saciado da carnificina, escapou-se. Perseguido de longe pelo inimigo avistou ele adiante o furriel, cuja cavalgadura estropiada galopava sobre três pés.

Passar, suspender Lucas nos ares e encaixá-lo no lombo do Ruão, foi coisa de relance. O miliciano ainda supunha-se espetado na ponta da lança inimiga, que já corria à desfilada, tangido pelo gaúcho.

Era alta noite, quando avistaram as torres de Piratinim. Manuel dirigiu-se ao raleiro onde havia deixado Catita e Morena; a escuridão não permitia distinguir os objetos; mas ele reconheceu logo que o sítio estava deserto e fora recentemente o teatro de uma luta; havia ali um tépido odor de sangue. Com o coração estringido por um terrível pressentimento, faiscou lume do fuzil e acendeu um molho de capim seco.

— Cães! murmurou Manuel transido.

Que horrível espetáculo! No meio do chão revolto viam-se grandes charcos de sangue; e ossos ainda mal despojados da carne, esparsos aqui e ali pela orla do mato. Em um desses acervos de detritos animais, descobriu Canho um pano que ergueu com a ponta da faca e aproximou do fogo.

— Conhece? disse ele para Lucas pasmo ante esta cena.

A voz de Canho pronunciando aquela palavra tinha um acento medonho. Um calafrio percorreu o corpo do alferes, cujo espírito parecia recuar espavorido ante a idéia que assomava. Seu olhar esbugalhado era uma ânsia e uma interrogação.

— É da saia de sua filha!

— Catita!

O nome da filha envolto em um gemido dilacerante, eis tudo quanto se exalou dessa alma selada pela estupidez da dor.

— Foi o senhor quem matou-as, a ambas, arrancando-me daqui. Agora havemos nós de ficar também; os cães naturalmente voltam.

Um estranho riso, que repercutiu na treva como o crocito da coruja, acompanhou estas palavras. O furriel era sem dúvida um homem destemido; mas aquele riso penetrou no seu cérebro como a lâmina de um estoque; súbita alucinação mostrou-lhe o quadro espantoso dos cães famintos esgarçando-lhe em lanhos as carnes palpitantes.

Assombrado, Lucas fugiu.

Manuel, porém, o perseguiu escarniçadamente, e conseguiu afinal agarrá-lo.

Como ia voltar com ele ao sítio donde saíra, encontrou em caminho um troço de dez cavaleiros.

— Quem vai lá?

— Passe seu caminho.

— Manuel!... Escute!

— Quem é?

— Não conhece mais o Chico Baeta? E os outros?

— Lá ficaram.

— Todos?

— Menos os dois que vê. Antes lá ficassem também.

— Até Verdum?

— Foi dos primeiros.

— A coisa vai mal. Agora mesmo chegou este camarada com uma notícia. O Marques sabendo que Bento Gonçalves já estava em Camacã para reunir-se a Neto, mandou uma partida...

— Contra o coronel?

— Sim, para prendê-lo ou matá-lo, que é o mais certo.

Manuel não quis ouvir o resto; assobiou para chamar a tropilha; e saltando no lombo do primeiro cavalo que se aproximou partiu com o Chico e os outros peões, para baterem campo até Camacã, e derrotarem qualquer emboscada, ou morrerem defendendo Bento Gonçalves.

A notícia não era muito exata; o major Marques, o atual visconde de Porto Alegre, comtemporizava diante das forças de Porciúncula, esperando a junção com Silva Tavares, para atacar o chefe rebelde e derrotá-lo, como sucedeu em princípio de outubro.

Quanto a Bento Gonçalves, Manuel o encontrou dias depois na margem do Camacã além do passo do Mendonça. O coronel reunia alguma força para marchar sobre Pelotas, quando soube que Neto havia derrotado Silva Tavares no passo do Retiro.

Manuel, outra vez bombeiro, foi incumbido pelo coronel de espiar os movimentos da força do major Marques, o qual podia ameaçar Piratinim, e dirigir-se à capital desde que achasse o caminho desimpedido.

Eram oito horas do dia.

Oculto na coroa de mato, que cingia a crista de uma pequena coxilha a cerca de duas léguas de Piratinim, o Canho espreitava a campanha, especialmente um ponto distante, à margem do rio. Ali arranchara uma partida de exploradores destacados da força do major Marques.

Manuel a observava desde a véspera e suspeitava que achando a vila desprevenida, tentasse uma surpresa; por isso a precedia obra de uma légua, pronto a dar aviso aos rebeldes, no caso de ataque.

Com os olhos fitos no alvo, e o corpo debruçado sobre o pescoço de Juca, Manuel absorvia-se no pego de recordações dolorosas em que se debatia sua alma desde a noite terrível do combate. Nas trevas de seu espírito ressurgia, tocado pela doce luz da esperança, o quadro que ele vira partindo: Catita a velar com terna solicitude pela Morena, sua irmã na beleza e na dedicação. Súbito aqueles dois vultos queridos sumiam-se num turbilhão espesso; e o painel suave não era mais do que um charco de sangue coalhado de ossos.

A alma do gaúcho se embotara; nem para a vingança tinha mais as energias de outrora. Vingar-se de quem, de um vil animal faminto, que saciara a rafa? Nessa existência fulminada só palpitava ainda uma fibra: a do dever, ou antes, da lealdade. Dedicara-se a uma causa: não podia repudiá-la.

No meio destas cogitações, o pêlo do alazão que Manuel cobrira de uma crosta de lama para disfarçá-lo, hispou-se com um ligeiro arrepio, e a ponta das orelhas afiladas canutaram-se com excessiva rijeza, o que denotava extrema atenção. Despertado por estes sinais, e vendo o largo peito do corcel que sublevava-se num amplo resfôlego, Manuel lançando rapidamente a mão às narinas do cavalo, pôde recalcar a tempo o possante nitro que se desatava já.

Devia ser bem poderosa a causa, que assim perturbava o inteligente corcel, fazendo-o esquecer sua prudência e calma inalterável em face do inimigo. O gaúcho embebeu o olhar na pupila cintilante do cavalo e pela primeira vez não o compreendeu. Entretanto nos ares passava uma repercussão quase imperceptível, como o zumbir de uma vespa.

Os exploradores ao longe arreavam os animais para partir. Manuel voltando às suas lucubrações, observava maquinalmente o que ali passava, mas através da visão horrível que não o abandonava; ele via tudo por entre aquele prisma negro.

Outra vez o quadro suave da despedida assomou a seus olhos; mas a pouco e pouco as imagens se debuxaram com mais vigor; os vultos animavam-se e viviam. A Morena se erguera espasmando os flancos; o talhe esbelto de Catita ondulava-lhe sobre o dorso, ufano deste troféu. A moça e a baia não formavam mais do que uma só existência e uma só pessoa. Era o tipo da beleza esplêndida da campanha; a rainha dos pampas; a gazela do deserto, a amante do centauro americano; a gaúcha enfim.

— Manuel!

Quando esta palavra suspirou entre as folhas, como um arpejo da brisa, Canho levou rapidamente as mãos ao rosto para espancar a alucinação dos sentidos.

Mas era realidade e não sonho a suave aparição. Catita assomava entre a ramagem, por onde perpassou ligeiro o vulto da Morena. foram seus lábios que murmuraram o nome dele; foram seus olhos que cintilaram na espessura.

— Viva! balbuciou o gaúcho.

É ocasião de referir a cena que se passou depois do assalto dos chimarrões.

Resignada a morrer, Catita ficara debruçada sobre o corpo da Morena. um dos molossos primeiro arrojou-se, e abocanhando-lhe a saia arrancou uma tira. Com o grito da moça, a égua despertou; e vibrando o casco, esborrachou o focinho do cão.

O curativo da ferida e a nutrição que recebera tinham restituído à baia algum vigor; e fazendo um esforço pôde erguer-se sobre as três patas, e preparou-se para defender valentemente a vida da amiga que velara sobre ela com tanta solicitude.

Nesse momento os latidos que a moça ouvira em distância aproximaram-se; e um turbilhão passou ante seus olhos. Era uma rês com sua cria assaltada por outra matilha de cães. o animal já ensangüentado, às vezes voltava a face ao inimigo para defender o filho; mas acossado fugia após o bezerro.

Os molossos que haviam atacado Catita seguiram os outros e desapareceram com eles. Aproveitando o respiro, a moça rompeu com a égua por dentro do mato, e afastou-se o mais que pôde daquele sítio funesto. Morena a acompanhava a custo; de vez em quando cedia à fraqueza; mas afinal chegaram à vila.

Entanto a rês exausta da fadiga, depois de muitas voltas pelo campo fora, veio cair com o filho no mesmo lugar onde estivera a égua, pensando achar ali um refúgio. A matilha famulenta devorou-os ainda vivos: o banquete durara até a noite, poucas horas antes da chegada do Canho.

Já então Catita tinha abrigado no quintal da casa a baia, que seus desvelos breve restabeleceram. Depois de alguns dias, a moça pela manhã, quando ia ao banho, montava mesmo em pêlo na Morena, que gineteava com ela pelo caminho, juntas brincavam nadando no rio, e folgavam escaramuçando pelo campo.

Pareciam duas amigas de infância, a fazer travessuras de criança.

Nesse dia a baia despediu como uma flecha pelo campo afora; quando a moça a quis reter, ela soltou um nitrido vibrante e redobrou a corrida. O coração de Catita palpitou em doce alvoroço; pressentira a aproximação de Manuel.

Não se enganara; ao cabo de meia hora, a baia resvalou sutilmente pela coroa de mato, onde estava oculto o bombeiro: foi então que a moça murmurou o nome do Canho, a quem seus olhos agora distinguiam entre a folhagem.

Ei-los em face. Morena acariciou o senhor, e abraçou o filho com o pescoço. Manuel olhava Catita; e a moça embebia-se nesse olhar. Todo o tempo que a alma dele tinha deixado de beber essa imagem querida; todo o tempo que a paixão dela se tinha guardado, como o perfume de uma flor agreste, para influir-se no coração do amante; todo esse longo passado, não vivido, resumiu-se naquele olhar.

Entretanto os exploradores, que tinham visto a baia passar ao longe e sumir-se na coroa do mato, botaram os cavalos nessa direção, e suspeitando alguma emboscada, deram uma descarga para desmascarar o inimigo.

As balas que sibilavam por cima de suas cabeças, não arrancaram os dois amantes ao enlevo da paixão. Suas mãos se tocaram: Catita reclinou a frente enrubescida; e Manuel colheu a flor dos seus lábios mimosos que soluçaram num beijo.

O tropel que reboou perto arrancou o gaúcho àquele êxtase inefável. Impelindo a Morena com um gesto, acompanhou de longe com os olhos o vulto da moça que afastava-se rápida e sutil por entre a folhagem; depois arremeteu contra o inimigo.

Quem já observou os ziguezagues de um raio que listra o horizonte, pode fazer uma idéia do que foi a corrida do gaúcho pelo campo, através dos muitos inimigos que o atacavam. Passou entre eles como a centelha elétrica, deixando um rastro sinistro; e apagou-se de repente, submergindo-se no seio da terra.

Metidos, ele e Juca, em tremedal profundo, zombaram durante muitas horas das pesquisas dos exploradores.