O Homem/XVI

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O Homem por Aluísio Azevedo
Capítulo XVI


Esta crise prostrou-a de cama por dois dias, dois dias de febre e delírios, em que ela não deu acordo de si e falava de coisas inteiramente estranhas para os mais. Sonhava-se na ilha do Segredo.

- Quando, enfim, se levantou havia já entrado totalmente no terceiro período da moléstia. Estava cadavérica; os olhos muito fundos; as faces cavadas e a pele estalando em pequeninas rugas, como porcelana velha. Contudo, em nenhum dos seus gestos, como em nenhuma de suas palavras se lhe notava desarranjo cerebral; aparentemente era a mesma em orgulho, em virtudes e em fidelidade aos seus princípios religiosos, apenas sucedia que todas estas qualidades cada vez mais se acentuavam com certo exagero progressivo. O cheiro de magnólia e o gosto de sangue ainda a perseguiam com maior ou menor intensidade. De novo o que Magdá apresentava agora de mais notável eram umas espécies de alucinações letárgicas, muito rápidas, que a acometiam de vez em quando e nas quais reatava quase sempre o seu último sonho; mas não falava durante essas crises, ficava num estado comatoso, estática, de olhos bem abertos, dentes cerrados, um ligeiro rubor nas faces; às vezes sorrindo e às vezes deixando que as lágrimas lhe corressem surdamente pelo rosto.

O médico recomendou que não a despertassem dessas letargias. "Deixassem-na lá, que por si mesma havia de recuperar a razão."

Outra novidade era que já não parecia sentir, como dantes, repugnância em ouvir falar no futuro cunhado de Justina; agora, ao contrário, quando esta se referia ao rapaz, a senhora escutava-a com interesse e até já lhe fazia perguntas a respeito do pobre diabo. Uma ocasião quis saber que tal era ele de gênio; quais os seus costumes, se bons ou maus; se estimava muito a noiva; se pretendia realizar em breve o casamento; se era homem dado a bebidas, ou ao jogo, ou a outras coisas feias. A criada informou muito a favor do Luiz: elogiou-lhe o caráter; contou as suas boas ações; falou na sua economia, no seu amor pela mãe e pela avó, e terminou declarando que a Rosinha apanhara um homem às direitas. "Às direitas, como não?"

À filha do Conselheiro contrariaram um tanto estes elogios. Não sabia porque, mas intimamente desejava que aquele imbecil fosse mais desgraçado e menos digno de estima; preferia ouvir dizer pelos outros os horrores que ela tinha vontade e não podia despejar contra o miserável; preferia saber que ele era um perdido, sem a menor idéia de estabelecer família, um bêbado devorado pela vil e baixa crápula das vendas e dos cortiços. E Magdá ficava revoltada, sentia as mãos frias de raiva, quando, ao chegar por acaso à janela, dava com o cavoqueiro que ia ou vinha do trabalho, ostentando o ar satisfeito de quem traz a vida direita e anda em dia com as obrigações.

— Ah! o seu desejo era descarregar-lhe um tiro na cabeça!

Um domingo, em que ela espairecia à porta da chácara, o Luiz passou na rua, todo chibante nas suas roupas de ver a Deus, de braço dado à noiva, e rindo muito e conversando com a mãe e com a velhinha Custódia: contentes que metia gosto vê-los. Pois a filha do Conselheiro, só por causa disso, mostrou-se contrariada e ficou pior esse dia. Tanto que, já de noite, estando a cismar na sala, com os olhos fitos num pequeno grupo de mármore que aí havia, ergueu-se, tomou-o nas mãos e, depois de o examinar com o rosto muito carregado, arremessou-o de encontro à laje da janela. O grupo representava em miniatura: "Amor e Desejo", de Miguel Ângelo — Um casal de quinze anos preso pelos lábios em um beijo ideal e ardente. — Quando o Conselheiro, deveras contrariado, perguntou quem havia quebrado a escultura, ela respondeu sem se alterar:

— Foi a Justina, papai, mas não lhe diga nada, coitada!

Sim, por último dera para isto: pregar destas pequenas mentiras e, se acaso queriam provar o contrário do que afirmava, punha-se furiosa, acabando sempre por desabafar em soluços a sua contrariedade. Assim, tendo uma vez matado um casal de rolas que havia na sala de jantar, só porque o surpreendera em flagrante delito de procriação, não só fugiu à responsabilidade do ato como ainda afetou grande desgosto pela morte dos brutinhos, chegado a revolucionar toda a casa para descobrir o suposto assassino.

Entretanto, os sonhos com Luiz continuavam sem interrupção, e Magdá, a contra gosto, habituava-se com a sua existência em duplicata, ajeitando-se pouco a pouco ao contraste daquelas duas vidas tão diversas e tão inimigas. Não podia ser mais feliz do que era ao lado do seu fantástico amante; ah! mas bem caro pagava depois essa felicidade, quando, acordada, o seu orgulho de mulher honesta abria em luta contra as degradantes lubricidades do sono.

Viviam nus desde o fatal momento em que se prenderam na ilha do Segredo. Luiz construíra uma cabana de bambú, coberta de pindoba, e fez alguns utensílios domésticos; já tinham cama, bancos, um armário para guardar frutas, e dois ou três potes para conservar o mel das abelhas, o vinho do cajú e o leite de uma cabra que apanharam no monte.

Cercaram a choupana com valentes toros de madeira e, quando anoitecia levantavam uma fogueira defronte da porta. É que já se não sentiam tão seguros como dantes; Luiz temia até qualquer invasão, porque, logo que o rio se converteu em mar, estava franqueada a ilha.

E, com efeito, um belo dia, passeavam os dois na praia, secando os cabelos ao sol depois do banho, quando avistaram no horizonte uma vela que se aproximava. Ficaram ambos transidos de sobressalto; Luiz ordenou a Magdá que se metesse em casa e não saísse sem ser chamada por ele.

A filha do Conselheiro obedeceu, mas ficou espiando lá de dentro.

Daí a pouco viu chegar num escaler, tripulado por quatro marinheiros, um magote de seis pessoas que, pela distância, não podia reconhecer, distinguindo apenas que havia quatro mulheres no grupo; que um dos homens trazia farta de oficial de marinha e que o outro estava todo envolvido numa enorme capa negra, que lhe dava aparências de espectro.

O oficial saltou a ilha e fez apeiarem-se as mulheres. Estas, logo que se pilharam em terra, correram de braços abertos sobre Luiz, soltando gritos de contentamento. E, depois de muitos beijos e abraços, puseram-se todos a caminhar na direção da palhoça, acompanhados pelos quatro marinheiros que vinham armados de escopetas e machadinhas de abordagem.

Magdá reconheceu então que o oficial era o Conselheiro, vestido e remoçado como num retrato a óleo, que ele tinha no seu gabinete de trabalho em Botafogo.

Tremeu, quis fugir, mas lembrou-se da ordem de Luiz e deixou-se ficar. Em uma das mulheres descobriu Justina; em outra Rosinha; nas outras a mãe e a avó do moço da pedreira. Vinham todas com as roupas do domingo; as duas velhas traziam lenços de ramagem na cabeça, e nos ombros xales encarnados de Alcobaça. As raparigas, com os seus vestidinhos de chita, tinham o ar contrafeito e grosseiramente sério das moças de cortiço; as mangas do casaquinho muito justas, quase insuficientes, dando difícil saída a punhos grossos, vermelhos e lustrosos, terminados em mãos curtas, socadas, de gordura sanguínea.

O outro, o da túnica negra, é que Magdá não conseguiu reconhecer, a despeito dos esforços que empregava para isso; só pôde distinguir-lhe as feições quando ele lá se achava a uns quarenta passos da choupana. Era seu falecido irmão, o Fernando; vinha cor de cadáver, muito desfeito; parecia ter saído naquele instante da sepultura. Ela estremeceu toda e, com um arranco de anta bravia, pinchou o corpo para fora da toca e abriu num carreirão pelo mato.

— Não fujas! gritou Luiz. — Não tenhas medo, que ninguém aqui te quer fazer mal

— Magdá! Magdá!

— Espera, minha filha!

Era tudo inútil. Magdá, completamente una, os cabelos soltos ao vento, lá ia, por trancos e barrancos, internando-se na floresta. Um fugir vertiginoso de cabrita assustada! Morros e valados desapareciam atrás dela; não havia encruzamento de cipó que lhe tolhesse a marcha, nem espinheiro, por mais bravio, que lhe quebrasse a fúria. E sentia atrás de si uma gritaria infernal e um tropel confuso de passos rápidos.

— Magdá! Magdá! Bradavam-lhe na pista.

E ela corria mais De repente — parou. Uma voz grossa exclamava-lhe pela frente:

— Cerca! Cerca!

Em menos de um minuto fecharam-na por todos os lados gritos de caçadores e passos que se aproximavam com vertigem.

— Cerca! Cerca!

— Por aqui!

— Por ali!

E de cada ponto surgiu logo uma cabeça de marujo, rompendo a argamassa das folhas.

Magdá caiu por terra sem forças, as carnes alanhadas, os pés em sangue, os cabelos arrebentados. Incontinente os homens a rodearam, sem todavia nenhum deles lhe tocar com um dedo; a prisioneira, estarrecida no chão, arquejava, cruzando as pernas e os braços para esconder as suas partes vergonhosas. Afinal chegaram os outros, entre os quais vinha o Luiz, agora mais composto por uma capa, que o Conselheiro lhe pusera aos ombros; o primeiro a aproximar-se dela foi Fernando, que despiu logo a manta e estendeu-a sobre a nudez da irmã.

— Minha filha! minha filha! disse o Conselheiro, vergando-se para lhe dar um beijo. — Em que estado a encontro, meu Deus! E ordenou aos marinheiros que improvisassem uma padiola de bambús e folhas de bananeira.

Daí a pouco Magdá era levada ao ombro daqueles para a cabana. Arrearam-na sobre o tosco leito fabricado pelo amante; deram-lhe a beber os confortativos que se foram buscar a bordo com toda a pressa e lavaram-lhe em arnica as feridas que ainda sangravam.

Quando conseguiu falar, pediu ao pai e ao irmão que não a castigassem.

— Castigar-te, minha filha...? respondeu o Conselheiro, afagando-a. — Não! Nada tenho que te exprobar, porque agora compreendo que o moço da pedreira te salvou a vida, trazendo-te para o seu desterro. Se eu te obrigasse a ficar lá em casa, sozinha comigo, a estas horas estarias sem dúvida debaixo da terra; ao passo que aqui — vives! e estás forte, e bela, e feliz! Não! eu te abençôo, como abençôo a este rapaz, cujos esforços foram muito mais proveitosos que os do Dr. Lobão.

E, palavras ditas, o pai de Magdá abraçou-se a Luiz.

— Não desejo contrariar-te... prosseguiu ele, voltando-se de novo para a rapariga, com os olhos carregados dágua, se quiseres continuar a viver aqui, fica; se quiseres voltar para a minha companhia, eu te receberei e mais ao teu homem; apenas o que lhes peço. quer vão ou fiquem, é que se casem e quanto antes. Trouxe no meu navio um padre e tenho a bordo o necessário para armar o altar.

— Pois está dito, balbuciou Magdá. E chegando os lábios ao ouvido do pai, disse-lhe um segredo, que a ela própria fez corar, mas que a ele encheu de vivo contentamento.

— Um neto, exclamou o Conselheiro. — Oh, que felicidade!

Magdá, afogada em pejo. tapou-lhe a boca com a polpa da mão.

— Ter um neto era o meu sonho dourado! Como vou ser feliz no resto da minha vida!...

— Ora, papai!...

Que mal faz que o saibam todos, se vais esposar de teu filho?... Acaso, desse momento em diante; não ficarás reabilitada aos olhos do mundo inteiro!

— Cale-se, papai...

— Não! Deixe-me falar! Deixa-me dar expansão à minha alegria! Não vês como estou rindo... . e não sentes, minha filha, estas lágrimas que me abandonam, porque o coração, de tão contente que está, as enxota de casa, como inúteis de hoje em diante? Oh! obrigado, Magdá! muito obrigado!

De junto, Fernando contemplava-a silenciosamente com o seu imóvel e apagado olhar de morto; os braços em cruz sobre o casco do peito; a pele sem brilho; as barbas ressequidas e cobertas de pó. Agora é que ele de todo se parecia com o Cristo da Mater Dolorosa; a irmã teve impulsos de ajoelhar-se defronte daquela melancólica imagem e rezar. como fazia dantes nas suas tredas escápulas religiosas.

Ficou resolvido que o casamento se efetuaria daí a dois ou três dias com a maior solenidade que lhe pudessem dar. Começou-se logo a construir outra casa maior, não mais de bambús amarrados com embira e coberta de folhas de pindoba, mas feita de madeiras escolhidas, forrada de tábuas pela parte de fora e de lona pela parte de dentro. Mobiliaram-na depois com muito gosto e sortiram-na com enorme provisão de mantimentos cm conserva, e pipas de vinho e aguardente e latas de bolacha inglesa E vieram também aparelhos de porcelana e lanternas e candieiros, muitas caixas de velas, jarros, quadros, um piano, colchão, colchas lavradas e roupas de toda a espécie, não esquecendo as jóias, os livros e mais objetos de que se privara Magdá ao partir com o cavoqueiro.

— Mas isto é uma mudança completa! Meu pai não deixou nada em terra...! — observou ela, notando as coisas que desembarcavam e reconhecendo-as uma por uma.

Com efeito, vinha tudo; lá estavam as louças da Saxônia, os candelabros bisantinos, as peles da Sibéria. as velhas tapeçarias do salão de Botafogo, os caprichosos kakimanos, os espelhos, os damascos bordados a ouro e prata, e os consolos com mosaicos de Florença. É que o Conselheiro, uma vez que a filha não estivesse resolvida a acompanhá-lo, voltaria à vida inconstante do mar, para nunca mais se desprender do seu navio.

Pronta e armada a casa, principiou-se a fazer defronte dela um altar ao ar livre, com uma imensa cruz de cedro tosco entre duas palmeiras e fincada num grande pedestal de troncos d'árvores, cujos degraus não se viam, era tal a profusão de flores que os carregava de alto a baixo. Arranjaram-se faróis para iluminar toda a ilha, e a tripulação de bordo saiu, em parte armada de espingardas, a caçar pela floresta, e em parte carregada de redes para a pescaria. Engendrou-se uma soberba tenda destinada ao banquete, embandeirou-se tudo e pregaram-se lanternas chinesas em volta da habitação.

No dia das bodas cinqüenta peças de caça e outras tantas de pesca rechinavam e lourejavam sobre braseiros e fogueiras; grandes tachos de cobre luziam ao fogo, soprando nuvens de vapor odorante; fabricavam-se os doces mais estimados; batiam-se as massas mais delicadas. E os marinheiros, agora de avental branco e carapuça de cozinheiro, cruzavam-se no morro, ora levando largas braçadas de frutas, ora carregando enormes travessões de assado, ou conduzindo para & mesa ânforas de prata cheias de vinho. Havia uma grande atividade; a velha Custódia e a tia Zefa não descansavam um segundo, iam e vinham azafamadas, a saia enrodillhada na cintura, os braços arremangados, tão depressa a encher garrafas e cangirões, como preparando ramilhetes para os jarros ou pejando as corbelhas com frutas que lhe traziam os marujos. O Conselheiro, sempre de farda, dirigia todo o serviço tal qual como se manobrasse um navio; só dava as suas ordens apitando ou então gritando por um porta-voz de que se não separava nunca. E ao seu comando afestoava-se toda a ilha, com uma rapidez de serviço de bordo.

A cerimônia religiosa estava marcada para o meio-dia em ponto e devia ser seguida por uma salva de vinte tiros de canhão, toque de caixa e corneta, repiques de sino e vivas da marinhagem. O capelão havia chegado já, acompanhado por dois marujos vestidos de batina e sobrepeliz, vendo-se-lhes por debaixo as botas de couro cru, sentindo-se-lhes ranger o cinturão e adivinhando-se-lhes a navalha grudada aos largos quadris. Os turíbulos e a caldeirinha pareciam em risco de esfarelar-se entre os seus dedos grossos como cabos de enxárcia. Aquelas caras marcadas, com a barba feita de fresco e uma faixa branca no lugar da testa em que o boné não deixara que o sol as encardisse, não pareciam de gente, e, no entanto, coisa singular! ambas lembravam a carranca do Dr. Lobão. Magdá, ao vê-las, retraiu-se intimidada e não se animou a dar palavra, nem a mexer-se do lugar em que estava. Ficou tolhida, a fitá-las por muito tempo.

A voz da Justina despertou-a com uma vibração estranha, que a fez estremecer toda; uma voz que desafinava do resto.

— Que é, mulher perguntou Magdá, arregalando os olhos sobre ela.

Acordara por instantes, mas não chegou a reconhecer o seu quarto da Tijuca.

— Então, minh'ama não se veste?... Fica vosmecê desse modo a olhar para mim?... Vamos, prepare-se...

— Sim, tens razão; são horas. Dá-me o banho.

E acrescentou de si para si:

— Está tudo pronto! Já chegou o padre com os seus ajudantes; meu noivo deve agora parecer lindo como um Deus! Vou perfurmar-me e fazer-me bela, para que ele mais se abrase de amor assim que me veja...

Era o delírio que prosseguia, mesmo sem a intervenção do sono.

A criada trouxe-lhe o banho que lhe servia todos os dias; ela, porém, supondo~se na sua casa da ilha, tinha que se lavava em águas perfumadas e que cortava e brunia as unhas, alisava os cabelos com óleo cheiroso, enchia-se de aromas finos, e em seguida que se cobria toda de rendas e cambraias e punha um vestido de veludo branco bordado de prata, calçava meias de seda finíssima, sapatinhos de cetim e guarnecia a cabeça e o pescoço com longos fios de pérolas.

Mirou-se no espelho e nunca se achou tão bela.

— Está pronta a noiva! Está pronta a noiva! — exclamaram de todos os lados, assim que a viram surgir à porta da habitação, acompanhada pela Justina.

Os marujos soltaram gritos de entusiasmo.

Magdá volveu os olhos em redor de si e notou, sorrindo, que, nem só as pessoas que ali estavam, como também a natureza inteira, pareciam alegrar-se com a sua felicidade; mas deixando cair a vista para o fundo do vale, teve um sobressalto: lá em baixo, na fralda do monte, o espectro de Fernando passeava tristemente por entre as árvores, arremedando Cristo no Horto das Oliveiras; tinha os passos lentos, a figura alquebrada, uma doce resignação na fisionomia. Viu depois uma mulher aproximar-se dele, atirando-se ao chão para lhe beijar os brancos pés descalços e a fímbria da sua túnica rota pelos espinhos e embranquecida pela areia das estradas; reconheceu Rosinha. E a dura melancolia daquele canto de paisagem, mergulhado na sombra, lembrava Jerusalém; e menina do cortiço, com as suas roupas em desalinho, cabelos soltos e cobertos de terra, o rosto escorrendo de lágrimas, parecia estrangulada por uma aflição profunda e fascinadora como a de Maria Madalena. A infeliz abraçava-se às pernas de Fernando, desfazendo-se em queixas e lamentos, que Magdá não conseguia ouvir; ele, afinal, ergueu-a carinhosamente, pousou-lhe a mão aberta sobre a cabeça, e, terno e comovido, tornou para o céu os olhos castos, onde havia súplicas de infinita doçura.

Rosinha pôs-se então a rezar vergada sobre o peito; enquanto o outro se afastava, caminhando sutil, que nem uma sombra, por entre as árvores.

Magdá desceu de carreira pela encosta da montanha na direção que ele tomara. O seu vulto de noiva sobressaia errante na azul penumbra dos caminhos como um lírio levado pelo vento; mas, quando alcançou a campina, já Fernando ia distante.

— Atende! Atende! gritou atrás dele.

O espectro não atendeu e lá foi por diante, agitando às brisas do mar a sua túnica solta.

— Fernando! irmão meu amado de minha alma, não me fujas!

E o lírio precipitava-se pelo vaie, sem conseguir alcançar a sombra dos seus amores.

Venceram assim toda a floresta; a sombra sempre a fugir e o lírio a persegui-la; até que chegaram às margens da ilha, e Magdá viu estender-se o oceano defronte de seus olhos. E a sombra, a fugir-lhe sempre, ganhou as águas, andando por sobre elas, como Jesus sobre o lago de Genezaré.

A sonhadora parou na praia, resignada e triste, e o seu olhar acompanhou aquela estremecida sombra fugitiva que se fazia ao largo, até vê-la desaparecer de todo no infinito das ondas.

"Eu como sol a buscar-te... tu como sombra a fugir-me!.. ." pensou, tornando então sobre seus passos, e ajoelhando-se de vez em quando, para beijar em êxtases as pegadas que Fernando deixara na areia. Afinal penetrou de novo na mata e, caminhando distraidamente, chegou à fralda da montanha sem dar por isso, de tão preocupada que ia.

Uns soluços que vinham do fundo do vale despertaram-na do seu enlevo. Encaminhou-se para lá, e descobriu Rosinha, deitada de bruços à sombra de uma figueira brava, chorando, com o rosto escondido nos braços.

Aproximou-se dela e tocou-lhe no ombro; a outra pôs-se de pé e teve um gesto de cólera quando reconheceu a rival.

— Está zangada comigo?... — perguntou a filha do Conselheiro, fazendo-se meiga.

— E a senhora ainda mo pergunta? Rouba-me o noivo e pergunta se estou zangada! Tem graça!

Magdá procurou acalmá-la, dizendo-lhe com extrema brandura que o Luiz, que Rosinha conhecia do cortiço, o moço da pedreira, era um ser fantástico, um mito; e que o único verdadeiro Luiz, o existente, era o da ilha, o poderoso monarca, o senhor daqueles domínios, um ente superior, um ente privilegiado por Deus, que lhe concedera o dom de tomar na terra a encarnação que lhe aprouvesse. Rosinha que se conformasse com a sorte, coitada! que se resignasse, que tivesse paciência; mas o Luiz, o legítimo, o único, o rei da ilha, esse lhe pertencia a ela, Magdá, e nunca seria de nenhuma outra mulher.

— Isso é o que veremos! — replicou a moça do cortiço, lívida de raiva — Não é a mim que a senhora convence de que este Luiz não é aquele mesmo que me havia prometido casamento! Ah, eu não tenho, bem sei, os seus segredos para o enfeitiçar, mas também juro-lhe que o verdadeiro amor, o amor que ele me inspirou, sincero e ardente, é capaz de tudo e é mais poderoso do que quantos artifícios possam imaginar as bruxas da sua espécie! O que lhe afianço pelo menos é que eu, desprezada como sou, seria mulher para dar por ele a minha vida, ao passo que a senhora, só com o fim de se fazer bonita, lhe tem roubado todo o sangue!

— Cala-te, miserável!

— Ah, pensavas que eu não sabia...? Bem te conheço, vampiro! Não é à toa que o pobre rapaz ultimamente anda tão fraco, que nem pode subir à pedreira sem ficar cansado! Ele, o Luiz, dantes mais rijo e mais ágil que um potro! Ah, mas conto que a tia Zefa há de descobrir que lhes estás matando o filho! Livre-te Deus de que a velha Custódia suspeite de longe o que se tem passado com o neto! Aquela velhinha, ali onde a vês, é capaz de arrancar-te a língua pela boca, ladra fementida!

E a rapariga do cortiço, dando em Magdá um empuxão que lhe abalou o corpo inteiro, exclamou terrível:

— Vai! vai! casa-te com o Luiz! farta-te, loba! A~ festas estão prontas! o altar está armado! a cama está juncada de flores! Vai, deita-te, mais ele, e logo que o tenhas embebedado com o teu almíscar de cobra traiçoeira, suga-lhe o resto do sangue, sorve-lhe a última gota! Vai, agora és a dona do homem, como és a rainha desta ilha! Vai; mas eu te juro, sanguessuga, que te hei de perseguir mesmo depois da tua morte!

— Então, Magdá! então! disse o noivo, aparecendo por entre duas moitas de crotons. Há boas horas que te esperamos lá em cima para a celebração das nossas núpcias, e tu aqui a conversares com esta sujeita. Anda, vamos, meu amor; estou farto de procurar-te!

Ele vinha vestido de veludo carmesim com botões de ouro, calção largo, blusa apertada na cintura, donde lhe pendia uma espada cintilante de pedraria; polainas pretas de couro envernizado; chapéu cinzento de abas largas com uma grande pluma branca que lhe ia até ao pescoço, destacando-se do ébano brilhante dos seus cabelos encaracolados, como um a pena de garça entremetida na asa de um pássaro negro; capa escura com forro cor de sangue e em volta do colo uma reluzente cadeia de esmeraldas, safiras e rubis.

Deu-lhe o braço Magdá; pousando a cabeça sobre o ombro dele. E puseram-se ambos a subir a montanha, salpicados pelo sol que se peneirava por entre as folhas e chicoteados por um olhar ameaçador de Rosinha, que resmungava:

— Vão, vão, mas que a cama de vocês dois se transforme num espinheiro bravo!