O Livro de Esopo/O rato da cidade e o da aldeia

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O Livro de Esopo por Esopo
XII - O rato da cidade e o da aldeia
Transcrição e Notas de Leite de Vasconcelos. Vid. também O Rato Cidadão e o Montezinho, traduzida por Manuel Mendes da Vidigueira.


XII. [O rato da cidade e o da aldeia]

[C]omta-sse que hũa vez hũu rrato que moraua em hũa çidade, amdando a hũa aldea omde moraua outro rrato sseu amiguo, quamdo este rrato da çidade chegou aa aldea omde moraua, este rrato sseu amigo ouue com elle gramde prazer, e dey-lhe a comer fauas e trijguo e er/       [Fl. 9-r.]uanços[1] com outros mamjares.

E depois que assaz comerom, o rrato da çidade deu muytas graças ao rrato da aldea, de quamta cortesia lhe fezera, e rrogou-lhe que viesse aa çidade[2] com elle aa casa omde moraua, que aly lhe emtemdya de dar muytas delicadas higuarias. Tamto o rrogou, que o dicto rrato sse ueo com ell aa çidade.

E leuou-ho a hũa cozinha omde elle moraua, na qual avia muytas gallinhas[3] e carne de porco, com outros boos comeres; e rrogou-lhe que comesse aa sua vomtade. E estamdo elles assy comendo sseguros a sseu talamte, chegou o cozinheiro[4] e abrio[5] a porta da cozinha; e o rrato da çidade, que ssabia o custume da casa, fugio loguo, e ho outro rrato, porque nom ssabia o custume, ficou. E o cozinheyro, amdando em pos ell com hũu paao na maão [6] pera o matar, feri’-o[7] muy mall; empero fugio-lhe, e partio-sse muy mall ferido.

E o rrato da çidade, veemdo-o, chamou-ho, que outra vez viesse<m>[8] a comer com elle, e nom ouuesse[9] medo; e o outro rrato lhe respomdeo:

— Amiguo meu, ora fosse eu jajuum[10] do comvite que me fezeste! A mym praz mais de comer trijguo, fauas e heruamços em paz, que gallinhas[11] e capõoes com temor e prijguo de morte. /       [Fl. 9-v.] A paz, a quall eu ssempre tenho comiguo, me faz a mym os meus comeres sseerem delicados. E porem teus comeres guarda-os pera ty, ca eu me comtemto do que hey.

E, as palauras dictas, partirom-sse.





Em aquesta estoria o doctor louua a proveza, e diz que quamdo a probeza sse toma com alegria de coraçom, nom sse deue chamar probeza, mas rriqueza, porque a probeza he a mays ssegura cousa que no mundo sseja; que milhor he a proveza que a rriqueza, a qual rriqueza ssempre faz viuer o homem com gram temor: e o probe que sse comtenta da ssua proveza mais rrico he[12] que ho rrico que nom sse comtemta, mais ssempre e numca he farto.

Notas[editar]

  1. A pagina começa por E eruanços, apesar de na antecedente já estar e er-.
  2. No ms. cidade.
  3. No ms. gªs.
  4. No texto por lapso conhozinheyro (cf. cozinheyro infra). Infl. de conhocer e do nh seguinte.
  5. Depois de abrio ha uma lettra riscada.
  6. No ms. maao.
  7. =ferio-o. No ms. ferio.
  8. No ms. lê-se viessem com todas as lettras, mas deve ser viesse, como se mostra do ouuesse da oração seguinte. O -m resultou da influencia da ideia de «dois ratos» que estava na mente de quem escreveu.
  9. No ms. ouuvesse.
  10. Assim está, e não jajũu, como seria de esperar.
  11. No ms. gªs.
  12. Depois de que ha uma lettra riscada.