O Piolho Viajante/LVII

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça LVII


Esta cabecinha é de trinque, tem muita novidade e eu não quero ser como aquele que acanhava os capotes. Eu hei-de pôr na carapuça a fazenda que lhe pertencer. Por mais um bocado, visto haver por onde cortar, quero que lhe fique à larga ainda que não lhe fique à sua vontade. Este amigo tinha uma tesoura de cortar que não era como aquele alfaiate que engenhou do capote do pai um capotinho para o filho. Cá este amigo fazia de um capotinho do filho um capotão para o pai. E que pena não era não ter aprendido a cirurgião, porque sangrar como aquilo, ainda até agora não apareceu outro! Uns calções para um rapaz de nove anos, calçava-os pelas suas mãos a um galego de trinta e embutia de tal forma o galego neles que o pobre, só depois de os ter em casa, quando os ia calçar pela sua mão, é que conhecia que lhe não serviam nem para trás nem para diante. E um destes, uma vez, jogou os socos com um companheiro parecendo-lhe que lhos tinha trocado.

Umas casas feitas pela sua mão pareciam choupanas. Com meia vara de riscadilho fazia umas calças e um jaleco tão justo que, à segunda vez que se vestia, arrebentava por todas as ilhargas com riso, por ver o ópio em que caiu quem o comprou.

Também não tinha escrúpulo em comprar o seu capote velho, mandá-lo tingir e fazer suas véstias que ficavam tão novas como os novatos que as compravam. Baetão e pano avariado era o seu forte para comprar. Tinha-se acostumado àquela fazenda por ser melhor para coser e para ganhar. Comprava mais depressa linhas podres do que sãs. O caso era que fossem mais baratas e dizia, muito sério, que era mais útil ao comprador porque, como a fazenda em que trabalhava era fraca, se a linha fosse forte, puxava pela peça e fazia-a durar muito menos. No pedir, então, é que ele era largo! Não tinha nenhuma dúvida de pedir seis mil réis por uma peça que tinha tenção de dar por oito tostões. Em alguma coisa havia de ser farto. Vendia seus retalhos para carapuças e destes mesmos é que eu lhe faço a sua e lhe sei a vida. Grande coisa é andar na cabeça de qualquer indivíduo. Nada nos escapa, só se nós queremos. É certo que o risco é grande mas a curiosidade é cheia e como eu estou posto neste costume, havia-me de custar muito não saber das vidas alheias. Mas, graças à minha fortuna, espero que poucas me escapem, ainda que muitas hão-de ficar em silêncio. Mas como eu as fico sabendo, este é o ponto essencial. E lá virá outro piolho que acabe o que eu principiei e das que eu não escrevo, ele escreverá, porque lá diz o ditado: atrás de mim virá quem bom me fará. Ainda que sempre é pena conhecê-las eu no meu tempo e deixá-las no tinteiro. Mas, enfim, nem tudo vai ao saco. Vamo-nos contentando com o que vai indo, que não vai tão mau, e vamos findar esta Carapuça que tenho já a tesoura aberta para outra.

Tratei de passar de cabeça, mas não queria ir para outro algibebe porque alguém mais que por ali aparecia eram homens de bem e a mim não me fazia conta senão cabeça em que eu tivesse que depenar. Até que apareceu um sujeito que negociava em bestas e, ainda que eu tive algum receio de lhe ir à cabeça, porque não apanhasse algum coice, a cobiça de lhe saber a vida pôde mais que o medo. Fui-me a ele e fazer-lhe a sua Carapuça que é a