O Piolho Viajante/LX

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça LX


Valei-me Gil Brás! Dai-me um mordomo como aquele que vós achastes! Esta cabeça é difícil. Para esta qualidade tem talhado muita gente. O que me consola é que quase todas têm saído boas. Talvez que esta saia menos má. O assunto é vasto; ainda que muitas vezes dito, está como o fazer sonetos para anos, que já há bem pouco que dizer. Mas, enfim, meti-me em trabalhos por minhas mãos e não tenho que me queixar de ninguém. Eu não quero mais que escrever e falar, sem tomar primeiro sentido se posso falar. Vou escrevendo sem mais reflexão, —passo à primeira cabeça que me lembra e, depois de a ter dito, é que entro na dificuldade. Pois deixá-la haver, já agora hei-de descrevê-la. Se ficar mal, deixá-lo ficar. Noutra ocasião ficarei melhor. Quem não tem ouro, também gasta prata e, quem não tem ouro nem prata, vale-se do cobre; e quem não tem nenhum dos três, chucha no dedo. Ora, agora, quero eu falar-lhes a verdade, senhores Leitores. Tenho feito todas estas demoras e rodeios por ver se acabava o folheto sem falar no mordomo. Mas o demónio do papel parece que cresce e eu já não sei o que hei-de dizer. Se eu tivesse a fortuna de me ir lembrando de alguma coisa com que o enchesse e me ficasse o tal mordomo para me governar o folheto décimo quinto? Mas é impossível. Está por instantes acabando-se a prosa e eu não hei-de aqui meter versos, porque isso é uma asneira e uma asneira de bom lote, ainda que eu tenho feito tantas que, por fazer mais esta, não ficava mais asno. Mas isso era contradizer-me, porque eu me lembro muito bem que já disse num dos Prólogos a vossas mercês que um discreto até trinta, começava a ser tolo se queria ser trinta e um. E quem sabe também agora se fazendo eu mais uma asneira passo por amor dela de ser asno a ser asníssimo? Não, senhores, não há outro remédio. Ë preciso entrar na festa e não pode deixar de vir o mordomo. Entre para cá, meu senhor, não precisa trazer chapéu que cá se lhe porá a sua carapuça. O mais, é que eu tenho tanto que dizer dele que não sei por onde hei-de começar. Acabar é que é impossível, porque desta cabeça podia eu fazer dois volumes e ainda ficar muito volume. Ainda assim, tenho-me demorado sem ter dito nada do tal amigo. O certo é que quem quiser dizer, sempre tem que dizer... principalmente quando se quer dizer mal! Porque lembram muitas coisas e sempre há muito quem ajude. Para esta causa nunca faltam procuradores nem testemunhas. É muito mais fácil pôr um homem na forca que livrá-lo. Tomara eu ter de quem falar, que o que eu hei-de dizer dele isso sei eu muito bem, nisso nunca há dúvida. Mas, com efeito, basta já de seca e vamos ao tal mordomo, porque vossas mercês já hão-de estar com o olho nele e mais em mim. Nele, por verem o que ele é e em mim por ouvirem o que eu digo dele. Pois olhem, posso já certificar de antemão que bem não tenho nada que dizer. Se é isso que vossas mercês esperam, então escusam de ler esta Carapuça porque eu vou a dizer cobras e lagartos e pode ser que lhes misture alguma saramantiga. E se vossas mercês hão-de ter medo e fugir do folheto, então deixemo-nos disso e passemos esta Carapuça em claro. Mas que não diriam vossas mercês de mim se eu já agora não falasse dela? Haviam de dizer que eu era um paroleiro, um basófio e haviam de fazer de mim o mesmo que eu tenho tenção de fazer ao mordomo. Pois não! Nesse caso recaia o mal sobre ele e salve eu a minha pele. Primeiro nós, depois, então, vós, diz lá o ditado e, para que não haja mais demora e vossas mercês não entrem a cuidar que sou boticário e que lhes dou ópio, vou começar a vida do tal amigo que é vida e mais alguma coisa. É vida que tem dado morte a muitos. E se não começo já, nunca acabo, porque me entram a lembrar tantas coisas e quero acudir a todas. Quero escrever tudo quanto me lembra e faço uma tal miscelânea que, para às vezes me entender com ela, dou-me a perros. Mas por esta vez não será assim. Ponho já tudo de parte. Dou descanso à memória para nada mais me lembrar e começo a falar no mofino do mordomo.

O meu mordomo era um homem de setenta anos, baixo, cabeça grande, com os olhos olhando para o cachaço, o nariz quebrado de nascença, bastante largo de ombros, única coisa em que era largo. Tinha um joanete no pé direito e um lobinho na testa, que se equivocavam muito estas duas peças no feitio, apesar da latitude em que estavam. Tinha quatro dedos numa mão e dois deles pegados um no outro que vinham a ser, na configuração, só três dedos, defeito este que lhe embaraçava muito abrir a bolsa. Mas assim mesmo se servia, porque ninguém lha abria. Tinha uma tosse contínua mas muito pouca febre era bastante surdo. A única coisa que tinha ainda menos má, era o tacto e uma casaca alvadia, abotoada até abaixo com botões de canastra. Tinha muito poucas palavras. Tudo eram obras, mas obras que apenas lhe serviam para um quintal que tinha numas casas que comprou a uns órfãos, ficando-lhe logo o dinheiro na sua mão, a juro. E andava na diligência de ser seu tutor para que não lhes levasse o diabo o que tinham, dizia ele. Fazia a barba a si e rapava o cachaço, porque ele usava de cabeleira, mas nunca se rapou a si. A única coisa que eu lhe via às vezes rapar, eram os pratos onde comia. E se acaso rapava lá mais alguma coisa, era tanto às escondidas e à chucha calada que ninguém o percebia. Nestes termos trazia sempre a grenha em tal altura que eu tinha suficiente mato por onde pastasse e me escondesse. E eu, nesta cabeça, engordei bastante porque ele tinha o sangue muito sossegado. Nada o alterava. Tanto lhe importava ele que as coisas fossem por baixo como por cima. Se pachorra fosse coisa que se vendesse, ninguém tinha mais fazenda. Se ele, todos os dias, depois das despesas feitas, guardasse quatro mil e oitocentos réis no cofre, nada mais lhe importava. E fazia isto porque se tinha posto naquele costume. Era uma acção quase involuntária. Era o hábito que insensivelmente o tinha posto naquele uso e ajuntava aquele dinheiro por ajuntar, que não se servia dele. Quando o ia guardar, dizia, com graça: — Deixa-te estar por aí que não fazes mal a ninguém.

Este belíssimo homem tinha nascido para governar uma casa. Tinham nascido com ele a economia e a indústria. A casa que ele no meu tempo governava, tinha os seus vinte mil cruzados de renda anual, gastava catorze todos os anos e todos os anos ficava empenhada em quatro. Ele havia cinco que a dirigia, apenas o seu empenho era de vinte. Mas estava-se esperando o vencimento de uma causa muito interessante de que havia duas sentenças contra, mas ainda esperavam recurso para se porem as coisas a direito. E, certamente, o dono da casa se não fosse este hábil homem, não ficava perdido tão depressa. Tudo ali andava por cálculo, até se sabia pouco mais ou menos quanto uma besta poderia durar em casa. Porque, como o mordomo não queria que se desse mais que uma oitava de cevada para duas, já sabiam os criados que em uma besta vindo para casa, o mais que chegava era a dezoito meses. Vejam que regime, que igualdade, que homem tão honrado! Também não queria que seu amo se valesse de privilégios. Todos os géneros que comprava para a mesa, tudo pagava sisa porque tudo passava primeiro pela sua casa. E ele era casado com uma velha que se chamava Arpia, que pelo primeiro nome não perca, e que desempenhava o segundo como ninguém. Moravam ali muito perto. Não fazia diferença ao comprador vir primeiro por lá. Se havia alguma diferença era na quantidade, porque o demónio da velha tinha um calor tamanho nas mãos que tudo nelas se lhe derretia e o alvar do galego, que era o que comprava, ia tomando a mesma manha. Em que lindas mãos estava metido o dono da casa!

Os criados faziam-lhe muito mais festa do que ao amo. Olhem lál, não passasse ele por parte onde eles estivessem que logo se não pusessem a prumo! E, ao amo, muitas vezes nem lhe tiravam o chapéu e chamavam-lhe tolo. Que, até aqui, verdade seja, não lhe levantavam testemunho nenhum!

Havia rendeiro que nunca tinha visto a cara ao seu senhorio e este com todos estava mal, porque o mordomo o tinha persuadido que não havia um só que não lhe estivesse devendo, quando havia tal que tinha pago três anos adiantado para não se enganar.

O pobre dono da casa já ia conhecendo a ladroeira, mas não lhe podia escapar das mãos porque a esse tempo já lhe estava a dever alguns oito mil cruzados. E isto sem ganharem juro, dinheiro que ele tinha emprestado gratuitamente para acudir aos seus vexames e, demais a mais, vexames de brio. Mas este dinheiro também não era do mordomo. Eram amigos que lho tinham emprestado e eram tão bons amigos que, quando ele veio servir, nem lhe quiseram emprestar uma casaca, que veio em véstia para casa, com os cotovelos de fora, e todo o seu fato o trouxe numa caixa de linhas, destas crespas, que a tinha mandado uma Freira a sua avó e era o único traste que tinha herdado da casa de seu pai. Mas ventou-lhe tanto a fortuna, pelo bem, limpeza e amor com que servia seu amo, que em quatro anos se pôs em estado de ser um vilão ruim perfeito, porque não servia a ninguém. E até mesmo dizia e eu lho ouvi muitas vezes (que eu não sou Piolho que assevere aquilo que não tiver visto ou apalpado) que, se estava ali, era por compaixão, por não desamparar seu amo, por isso mesmo que o via agora empenhado. Porque ele, da sua parte, não necessitava nada, nem tinha nascido para servir. Isto de criados e criadas, é preciso que os amos tenham muito cuidado de não lhes entrar a indagar a geração porque, averiguadas elas, quase sempre saem eles mais que os amos e dizem logo, muito embespinhados: — E que mal cuidava a roda dos meus parentes que ainda eu viesse a servir! (e é verdade que muitos não servem para nada). Pois se entram a falar em quem Deus tem, então Deus nos acuda! E quando elas fazem de um Alcaide um Desembargador? A uma já ouvi eu dizer que seu pai lhe tinha cortado a fortuna porque, tendo tido três casamentos, o qual melhor, seu pai embirrou em a não querer dar a nenhum por serem todos três mecânicos. Mas eu já fiz uma Carapuça a uma Criada que julgo que ainda estará em bom uso e não precisará virada. Vamos acabar a que comecei!

É assim que o meu mordomo arrotava postas de pescada, mas era daqueles que arrotava do que comia. Não era basófio. Era um homem de pé-de-boi, mas creio que era só pé, valha a verdade, que também isso não se precisa para o caso. Quero contar algumas economias que ele tinha para beneficiar a casa do amo. Entrou ele no conhecimento que tendo as coisas por junto gastava mais. Mas também via que o comer da tenda era sustentar duas casas. Que fez ele? Tirou daqui o meio termo. Nem casa, nem tenda. Comprava tudo por junto e vendia-o por pesos pequenos para a cozinha e o que havia de ganhar o tendeiro, ganhava-o ele e dizia, muito enxuto (que isto era de Verão) — Ele alguém o há-de vender e alguém o há-de ganhar. E, neste caso, antes eu que ele. E fazia muito bem. Quem tem lá a culpa de cada um se não saber governar?

Deus reparte com todos; a uns dá o dinheiro e a outros o governo, assim como a uns dá o juízo e a outros não, ainda que eu nunca ouvi queixar ninguém por falta de juízo. O mais que tenho ouvido dizer e queixar é falta de memória. Mas, enfim, cada um contente-se com a sua sorte. Nem a este mordomo se lhe podia chamar ladrão, pois parece não ser furto quando eu, à vista do dono, lhe levo o dinheiro e ele me não diz nada. Vem um criado para casa que apenas traz pés em que possa meter sapatos, quando os tiver, e no fim de dois meses já anda de niza e empresta dinheiro ao amo. E o amo está por isto. Então, querem-no mais claro? Está visto que o testamento é cumprido à vontade do testador. Que lhe importa a ninguém isso? E não cuidem vossas mercês que eu falo deste homem por dizer mal, nem que ele é este e aquele. Cada um é como Deus o fez. Se é mau, alguém lhe dará o pago. Se é bom, certo o tem. Numa palavra, eu não conto senão o que vejo. Se é mau, porque é mau; se é bom, porque é bom. É certo que vossas mercês dirão: — Mas este piolho ainda não viu uma coisa boa, porque tudo quanto nos conta é mau. Mas os que repararem nisso, metam a mão na consciência, se a tiverem, e lembrem-se do que têm visto, além do que são, e recordar-se-ão que não têm visto nada de bom, ou tão pouco que, confundido entre o mau, mal se pode distinguir e achar. Assim ia vivendo este traste do mordomo, feito hera e o amo parede. Mas como ele já se achava que nem uma sanguessuga, receava não lhe dessem alguma tesourada e andava só esperando ocasião oportuna de se ir embora. Mas ainda estava com desejo de lhe meter uma vez mais o rojão para lhe dar o último golpe, pois não lhe parecia próprio da sua honra que seu amo fosse morrer noutras mãos. Para conseguir este fim, meteu-lhe então na cabeça que aforasse uma quinta que tinha, por cujo aforamento lhe davam um par de luvas avaliadas em seis mil cruzados. Mas como era só um par serviu-se ele delas, que se fossem dois, então era natural que desse umas a seu amo, o qual esteve por tudo, porque ele entrou-lhe a dizer que não havia renda melhor que a dos foros e metia-lhe logo à cara aquele ditado: de foro nem um ovo. Que assim ele houvesse quem lhe aforasse quanto ele tinha, porque o seu voto seria que o fizesse, sem hesitar nem procurar mais um voto sobre isso.

Ultimamente o mordomo ajustou as suas contas. Fez um mapa em que mostrava como o amo, daí por diante, se devia governar e um dia, depois de jantar, foi com as lágrimas nos olhos despedir-se do amo, e o amo também chorando, não sei porquê, rogou-lhe que, já agora, desse cabo do resto. Mas ele resistiu com toda a força dizendo que queria ir acabar com a sua velhice servindo a Deus, que a sua consciência não o acusava de que o não tivesse servido com aquele zelo e perspicácia própria da sua honra. Mas, enfim, já estava cansado e que só lhe pedia que se lembrasse dele quando pudesse com o dinheiro que lhe devia. Abraçou-o pelos pés e não lhe pôde dizer mais nada tal era a pressa com que estava.

Posto na rua o tal amigo, foi direito para casa e eu antes quis ir com ele do que escolher nenhuma cabeça de casa porque todas elas me metiam dó e eu também andava alguma coisa doente por uma constipação que tinha tomado. Nenhuma cabeça era então mais própria para a minha moléstia do que esta, em razão de andar muito abafado. Porque a cabeleira, entre sebo e poeira velha, tinha os seus quatro arráteis seguros. Fui melhorando e fui-me dispondo a procurar cabeça. Ali iam todas as noites dois amigos vizinhos jogar com ele a arrenegada. Eram eles um mulato que ensinava a espada preta e um corcunda que fazia sabonetes de cheiro. Tentou-me o cheiro. Uma tarde que eles estavam a uma janela tomando o fresco, o corcunda ficava-me à direita e, donde eu estava, a cabeça dele ia um bom palmo e meio abaixo de mim. Deixei-me cair. E nessa noite fui com ele para casa e vossas mercês verão agora a