O Piolho Viajante/LXI

Wikisource, a biblioteca livre
< O Piolho Viajante
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça LXI


Este corcunda era casado com uma mulher muito alta, de forma que o marido dava-lhe pela cintura. Mas é preciso advertir a vossas mercês que nesse tempo não havia cinturas curtas. Era no tempo que ainda as mulheres nasciam com o corpo dividido, metade para baixo, metade para cima. Presentemente, o meio corpo para cima está quase acabado. Quem usava desta moda de hoje era o corcunda, porque tinha a cintura muito certinha. Em casa todos eram altos. Uma irmã da mulher, que dizia por ali a vizinhança que era sua cunhada; uma hóspeda que estava em casa depositada para casar; a avó do dito, que me parecia um lingueirão. Quando esta família se punha toda à mesa, o dono da casa parecia um frasco posto em cima de uma cadeira. Mas era muito bom homem e muito sincero. Podiam fazer o que quisessem dele e diante dele, que ele, por si, nem sentia nem via. Mas, na verdade, era muito infeliz. Tudo lhe ia para trás, além do que já lá tinha. Eu, às vezes, tinha dó dele. Mas a mulher era muito ladina e, ao mesmo tempo, muito governada e tratava do seu homem com muito cuidado. Penteava-o, vestia-o, enfim, tratava dele como se fora uma criança. Porém, de que servia tanto amor se faltava o comer? Grande antídoto é a fome para o amor. O ofício dos sabonetes não rendia quase nada, mas a mulher ajudava-o e já os fazia muito melhor do que ele. Tanto assim, que os compradores não queriam senão os sabonetes da senhora e algum gasto mais ia havendo, porque os fregueses iam acudindo mas o ganho era uma ninharia. Não chegava para nada.

A depositada casou e fez-se a função em casa. Eu esperei esse dia para escolher cabeça entre os convidados, nos quais estava um que me parecia homem de propósito. E vim a saber pela conversa que o seu ofício era ter casa de jogo, no que eu fiquei muito contente porque logo pensei que tinha cabeça para uma folha de papel ou mais, no que não me enganei, como vossas mercês depressa vão a ver. O corcunda fazia-lhe muita festa porque queria ver se ele lhe ensinava alguma coisa pertencente ao seu ofício em que pudesse ganhar algum vintém. Numa destas ocasiões, em que estavam ao pé um do outro, resolvi passar para o dito. Mas com muito grande trabalho porque daqui não podia ir de salto. Só se voasse e os piolhos têm muitos pés, mas asas nenhumas. Saí da cabeça do corcunda e passei para os cós dos calções do outro que era justamente a altura por onde ficava a cabeça do corcunda e aí fiquei até à noite em que lhe passei para a cabeça, antes que ele se despisse. E, logo pela manhã, lhe comecei a