O Piolho Viajante/LXIII

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça LXIII


Depois da cabeça do tendeiro onde estive, esta é uma das mais fartas. Tomara muita gente capaz os sobejos que ali havia! Então do que eu mais me admirava era ver um indivíduo destes da moda ir ali jantar. O ar com que ele entrava de Mylord pela casa dentro, dava volta pelas casas todas, entrava a chamar ó Manuel? ó Joaquim? Esta casa vai dando em droga! Vai sendo muito mal servida! Oh rapazes! Sentava-se, carregava o chapéu para a ilharga, perna em cima uma da outra. Aparecia o moço e a primeira coisa que lhe pedia era: — Dá cá lume e vai dizendo o que há. Vinha luz, cachimbo no caso e, entretanto, o criado ia vomitando o que havia na casa. Começa com a perlenga do costume: — Há sopa de três qualidades, arroz de cinco, carne de sete, vitela de nove, lardeados, presunto, isto, estoutro, aqueloutro &c.

— Bem! Venha do melhor e não te esqueça rosbife. Traze vinho do Porto. Oh!, tem vindo por cá aquele fulano do outro dia? — Veio ontem.

— Perguntou por mim? — Não senhor. ­— Avia-me depressa, anda, que tenho ainda que ir cobrar um pouco de dinheiro. Traze-me salada e venham azeitonas. Não presta a vitela, venha lombo.

Depois de petiscar em cada coisa, um peralvilho destes deixa mais de metade em sobejos e, muitas vezes, em sua casa não sobeja nada porque falta tudo. Ora isto não é uma desgraça? Vem outro que justamente o seu cabedal não lhe chega senão para comer favas no tempo delas e quer ervilhas com ovos. Deixa muitas vezes em casa um quarteirão de sardinhas para comerem oito pessoas e vem para a casa de pasto comer corvina e linguado porque já para pescada lhe torce o nariz. Ora isto não é uma miséria? Pois assim vai o mundo. E o dono da casa rindo e comendo com estes tolos. E que comer ali se come! É tudo o mais caro e o mais barato, porque o dono da casa, quando compra, não lhe importa se o macarrão está podre, se o azeite tem saibo ou se a carne é de cavalo. O caso está em que tudo seja o mais barato. E o pobre que o come, tudo paga como se tudo fosse do melhor. Que fizesse isto um homem que está fora de sua casa e longe da sua terra, paciência, coitado, bem lhe basta o seu desarranjo. Mas que um passe por sua casa e vá mais adiante jantar à casa de pasto! E o mais, é que se encontra algum amigo que não sabe onde ele mora e lhe pergunta, Que é isso? Você por cá?, responde-lhe muito sisudo: — Fiquei hoje cá por baixo porque tenho que fazer de tarde. E vai dali à sua casa vinte passos! Que tal é a história? Um conhecia eu, destes que em indo para casa com a barriga feita, sempre se queixava de dores de cabeça e a mulher era tão tola que julgava ser verdade. Tudo era perguntar-lhe se queria tomar um banho aos pés. Ele, apenas se deitava, roncava como um porco e a mulher punha-se a dizer aos filhos: — Não façam bulha que o pai está doente. E ele o que estava muitas vezes era bêbado.

Havia também muitos fregueses em que andava sempre o dono da casa com o olho em cima porque em eles podendo escapulir-se sem pagar, não perdiam ocasião.

Havia um, que esse era muito galante. Nunca aceitava cobre por demasia. Chamava-lhe porcaria. Já os moços lhe conheciam a balda. Se dava uma peça para se pagarem de um jantar, traziam-lhe a demasia toda em cobre e ele dizia muito inchado: — Tira lá essa porcaria, rapaz! Queres que eu suje a algibeira? O moço ia-se rindo e arrecadando. Havia outros que tendo feito de despesa um cruzado-novo, davam os seus oito tostões e o resto não o aceitavam que era para o moço que tinha servido à mesa. E ao moço que lhe servia em casa não lhe pagava o mês! Que tal é a economia?

Entre os fregueses certos ia um que era muito parco. O seu jantar, muitas vezes, não passava de sete vinténs de despesa. O que lhe fazia mal era o vinho, porque sempre bebia quatro garrafas do ordinário e uma de madeira seco que lhe chamava ele o seu café. E ia pelo seu pé para casa, como se não tivesse conversado com as tais garrafas.

O dono da casa também era uma boa vasilha no seu tanto. Não arriava mas não bebia do seu. Os criados bebiam dos restos e, quando chegava a noite, estavam atestados. E havia alguns que mesmo antes de chegar a noite já não viam nada. Não é mau ofício o ser criado de casa de pasto. Há dia que ainda ganha mais do que o amo e bem se deixa ver que assim há-de ser; porque o criado não precisa comprar nada para a casa. Ali pilham tudo de graça, até às vezes vão para o hospital pelo que pilham.

Muitos iam a esta casa jantar, porque ali se encontrava a bela companhia, tanto de homens como de mulheres. E alguns caíam em oferecer de jantar às ditas, ao que elas logo respondiam que não era preciso, que lhes ficavam muito obrigadas, mas iam-se sentando ao pé e deitavam-lhes, de quando em quando, a sua olhadura que lhes dava com os pés na alma. Se algum tolo, de novo perguntava a alguma, muito de mansinho: — Então a senhora não janta? Não se quer servir de nada? Enfastiam-na as minhas ofertas? Vossa mercê é tão bela! Ela tornava-lhe com uns olhos muito mais maviosos: — Vossa mercê tem um modo que cativa. Eu não aceito, porque vim aqui para ver se encontrava uma pessoa com quem precisava falar. Como a não vejo, vou-me embora porque nem eu estou acostumada a andar por estas casas.

— Nada! Isso não consinto eu, já que tive a fortuna de a ver e a senhora de se achar aqui! Não se há-de ir sem jantar. Isso não! Hei-de ter a satisfação de a senhora se servir dos meus pequenos oferecimentos. Oh, rapaz? Jantar para esta senhora, do melhor, e o que ela pedir.

— Eu não peço. Mande o senhor vir o que quiser.

— Então traze de tudo que tiveres e a senhora escolherá.

­— Ai, isso não! Mande vir o que lhe parecer. Para mim qualquer coisa me basta!

— Nada, nada! A senhora há-de me fazer a graça. Há-de mandar. — Então se entra com isso, vou-me embora!

Enfim, venha cozido, venha assado, venha ave de pena e para sobremesa o que houver. Partia o moço, que nesta ocasião esperava gorjeta grossa, visto ele ser tão tolo. Vinha a prata abaixo, tudo do melhor e do mais caro. Da primeira garrafa para diante, começava o suplicante a indagar onde morava a suplicada que, com um copo na mão e um ar de riso, lhe respondia:

— Muito longe, muito longe.

— Pois não importa, lhe respondia ele, fazendo a razão, seja aonde for. Hei-de ter o gosto de acompanhá-la, permitindo-me a senhora licença.

— Com muito gosto, lhe tornava ela, mas eu tenho primeiro que ir comprar umas coisinhas em acabando daqui. Se vossa mercê quiser, pode-me esperar na esquina de tal rua, que eu o mais que me posso demorar são três quartos de hora. Mas espero da sua honra que não me faça esperar, pois que terei muita vergonha de estar posta no meio da rua e isto sozinha!

— Não! Eu já voo ao sítio assinalado, esperar tanta ventura. Acabava-se o jantar, despediam-se com os sinais da maior paixão e um: — Não falte! Ela sumia-se e ele ficava pagando os seus quatro pintos[1], tanto importava o jantar. E o patau partia à desfilada, porque tinha ficado sem real, a casa de um amigo pedir-lhe meia moeda emprestada para não perder uma fortuna que tinha encontrado e que a pressa não lhe dava lugar a contar. Safa dali esbaforido, ia pôr-se à espera e sempre podia esperar três dias e três noites porque ela nunca teve tenção de por lá passar. Dobrava e desdobrava a rua as suas quarenta vezes e já um sapateiro que o via nesta derrota lhe ia dando seu assobio, cada vez que lhe passava pela frente, até que se ia desesperado por lhe ter escapado aquela grande fortuna, parecendo-lhe sempre impossível que o enganassem, antes julgando não tivesse sucedido alguma desgraça à senhora. E mordia-se de raiva por lhe ter esquecido não indagar a fundo onde morava aquela beleza. E o mais é que isto rendia muitas vezes mais trinta jantares ao dono da casa porque o tolo teimava em lá ir e ver se encontrava aquela Dulcineia.

O dono da casa, meu patrão, cada vez ia em mais aumento. Já saía aos Domingos de sege. Já tinha um burro que lhe servia a casa e uns poucos de lagalhés que se lhe tinham juntado à casa sem ordenado, só por alguma lambuje, e desbrugavam favas e ervilhas, e sacavam algum lenço aos concorrentes ou algum vintém que lhes davam, que tudo vale o mesmo.

Ora se havia uma casa onde eu pudesse escolher a cabeça à minha vontade, era esta, pelas diferentes que ali iam. Eu andei fazendo minhas observações e tentei-me com uma de um alfaiate que ali ia e que era um falador eterno. Uma noite, indo ele cear, fui-lhe à cabeça e fiz-lhe a

Notas[editar]

  1. Pintos é uma linguagem própria de taful que quer dizer cruzados-novos. [N. do A.]