O Piolho Viajante/LXIV

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça LXIV


Isto era o chefe e o primor dos alfaiates! E de boa consciência! Fazia a três fregueses iguais, e da mesma altura, três pares de calças e a um levava-lhe côvado e meio de pano, a outro, dois côvados e a outro um côvado e terça. E dizia ele que lhas fazia conforme os seus teres. Ao mais pobre levava-lhe menos fazenda, ao mais rico metia-lhe mais a unha e ao mais tolo cravava-lha de todo. Isto é ser um homem arrazoado e não querer o alheio! Era alfaiate que nunca mentia, pois todo o mundo sabia que, em ele prometendo nunca cumpria a promessa. Por consequência, quem se fiava nele era tolo, pois que razão havia de esperar que ele fizesse uma coisa que nunca tinha feito? O uso faz o costume e, às vezes, até uma lei. Trinta vestidos que lhe dessem num Sábado para ele dar ao Domingo, nunca disse que não, nem também declarava que Domingo era. Também não lhe dava maior cuidado se se enganava nas medidas e de muitas vezes suceder-lhe fazer uns calções que eram de um magro para um gordo e dizia muito fresco ao freguês quando se lhe queixava de que não lhe serviam: — Se vossa mercê tem engordado tanto! Freguês nunca via da sua mão retalho, apenas aparas e, antes que lhe dissessem alguma coisa, dizia ele: — Eu não sou desses alfaiates que destroem a fazenda a seus donos. Peço-lhes à risca o que se precisa. No que era miserável era com cortes de seda. Tantas voltas lhes dava que sempre lhes puxava para um par de sapatos. No seu ser de alfaiate era muito largo, principalmente nos pontos. A obra na sua mão era um assombro. E se alguém quisesse virar vestido que ele tivesse feito, não custava a descoser. Vestido que lhe ficasse com defeito e que o freguês lhe tornasse a mandar para emendar, nunca teve o remédio senão do cabide. Passados cinco ou seis dias tornava a levá-lo e então era ver o desembaraço com que ele o fazia vestir ao freguês e lhe dizia: — Agora está-lhe nascendo. Ficou-lhe melhor do que se logo do princípio lhe tivesse ficado bem. Há-de me ficar a lembrança deste para daqui por diante lhos fazer todos assim. Vire-se para cá! Bravo! Vossemecê também tem um corpo bem talhado. Qualquer coisa em estando bem feita brilha mais em vossemecê que nos outros. Ficava o pobre homem muito contente e ainda em cima lhe dava para a neve, se isto era pelo Verão. Teve a grande habilidade, num Inverno, de capacitar nove fregueses a comprarem de um mesmo baetão de que ele lhes levou a amostra, para capotes. Disse-lhes que como era muito estreito, que precisavam dez côvados para um capote. Deram-lhe dinheiro. E, com efeito, ele não lhes mentiu, nem lhes furtou nada. Empregou todo o dinheiro em baetão. O mais que lhe sucedeu foi, ao cortá-los, ver que lhe sobejava muito baetão e fez dez capotes. E como os fregueses eram só nove, ele não havia de botar o décimo à rua. Serviu-se dele e com ele mesmo é que foi levar os outros e disse a cada um de per si: — Gostei tanto da cor e da qualilidade do baetão que também me tentei com um para mim. E a moda vai pegando, que ao mercador acabaram-se-lhe trinta peças que tinha dele. E tem mandado por mais com muita pressa. Olhe!, mau é que eu diga que é bom e é de gosto. Que ainda não tive quem dissesse o contrário.

Tinha muito boa tesoura. Tinha-lhe custado dois mil réis. Os retalhos, no fim do ano, não falando em sapatos, cortes de calções e véstias, sempre lhe davam para pagar as casas. Eram os percalços do ofício. Má obra é aquela de que o carpinteiro não leva aparas e o seu cavaco para casa. E depois de um vestido feito, de que serve ao dono o sobejo? Hoje já ninguém recomenda cotovelos nem bota fundilhos em calções. Sabe Deus o que custa a muitos virar vestidos! E eu sou do mesmo voto. Solar sapatos, tingir chapéu e virar vestido, é botar dinheiro à rua. Hoje o gosto é diferente. Do terremoto para cá tudo ficou de tremer, que é o que eu oiço dizer a tudo. Vê-se uma rapariga como uma cera

Diz logo um taful: — É uma moça de tremer. Vé-se um traste bom diz logo outro: — É de tremer! E, enfim, presentemente, tudo anda a tremer até de medo, estes amigos que se explicam assim. Eu passei sumamente divertido porque o tal alfaiate não lhe escapava ópera nem feira de fora da terra, nem funçãozinha de arraial e tinha seus lábios de cómico. No meu tempo entrou numa comédia particular e fez o papel de primeira-dama mas era feio como um... e disseram os professores que tinha desempenhado o papel como um homem! Com isso ficou ele tão ufano que quem lhe quisesse apanhar a sua meia canada era falar-lhe na ópera. Também nunca lhe conheci outro vício. Mas é certo que este ia-lhe botando a perder o ofício porque, em estando decorando, se acaso estava cortando, fazia destempero. E, uma vez lhe sucedeu, estando cortando uma casaca séria, cortar um saiote, porque se estava então lembrando de uma comédia onde se precisava deste traste. Agora, por fim, também cortava para senhoras, para o que tinha um jeito notável e cortava com muita graça. E isto deixava-lhe mais que tudo pelos sobejos. Vejam vossas mercês: a ele davam-lhe fazenda para um vestido e ele fazia-lhe um mantéu porque, naquele tempo, era o que estava na moda. Umas roupinhas feitas por ele, fosse de que fazenda fosse, nunca lhe levavam mais que uma sesma, porque a cinturazinha muito curta, com as costas e no seu redondo todo à mostra, que diabo poderiam levar? Quase nada. Neste meu tempo estavam as modas muito apuradas nas senhoras e vestia-se uma senhora com quase nada. Não andavam feitas cabide com seiscentas coisas em cima de si. Em tendo um vestidinho, meias e sapatos, punham-se na rua e os que curavam pediam a Deus que não se acabasse esta moda porque trazia consigo muitas doenças e as constipações ferviam, acabavam em tísica, e volaverunt. Também se não fossem estas doencinhas, o clima não era mau e morreria muito pouca gente e, neste caso, morreríamos de fome. Deixá-las ir. As que morrem de moléstias originadas por estas causas, também não nos fazem cá falta nenhuma. E demais, a moda é preciso que se use a benefício dos artistas. Morram, minhas senhoras, que lhes faça muito bom proveito. Eu, a pena. que tenho, é ainda em cima a sua memória ficar ultrajada, porque os que cá ficam, ficam-lhe chamando... Eu não tenho ânimo de lho dizer. É um nome que quer dizer pouco juízo. Mas o que lhes importa a vossas mercês o que se diz depois da sua morte? O que a mim me admira é não tomarem emenda as que cá ficam. Mas vamos ao alfaiate que para outro lugar lhes guardo a sua Carapuça, minhas meninas, e queira Deus que a usem que pelo servir-lhes fico eu.

O meu alfaiate, depois que se meteu a fazer obra para senhoras, estava muito melhor de dinheiro, mas de saúde ia a menos. Mas cada vez andava por mais funções e por mais divertimentos. Ele já não cortava. Tinha contramestre e já comiam dois do ofício e comiam muito bem. Só de molhaduras podiam eles regar um quintal que tinham nas casas, que de Verão secava-lhe tudo. Os fregueses e freguesas choviam, uns traziam os outros. A fama voava, o dinheiro corria para casa ainda que também correndo ia para fora. Mas o mestre tinha-lhe dado o peco. Cada vez mais engoiado, não sei que demo de doença tinha que estava cheio de dores e tinha uma botica em casa. Era raro o dia que não se purgava e a doençazinha sempre o mesmo. Parecia uma moléstia de teima. Ele, de tudo o que mais o afligia, era não poder entrar numa comédia em que fazia de primeiro-galã. Já sabia o papel de cor como um papagaio e tinha quebrado três espelhos a accionar defronte deles, porque o papel que ele fazia tirava, às vezes, a espada e ele o fez com tanta ânsia, ensaiando-se, que o quebrou. Até que ultimamente tinha preso um cordel no pé direito para não poder chegar ao espelho e assim acabou de aprender o seu papel, que o fazia, na verdade, como gente. Com o gosto com que estava nisto, entrou a pedir ao Médico que o pusesse no estado de poder concluir esta acção. Ainda que depois ficasse pior, não se lhe dava. Por lhe fazerem o gosto, como o papel que tinha que fazer era muito agitado, deram-lhe um pouco de azougue para melhor desempenhá-lo. Entrou então a babar-se de gosto por ver que ainda entrava na comédia. Mas pouco lhe durou o seu contentamento. De hora para hora estava pior. Mandou chamar os seus amigos, despediu-se deles e declarou que era sua vontade que fulano (um dos seus sócios) entrasse em seu lugar na comédia de Demofoonte. E foi então que eu soube qual era a peça que estava para se representar. O Médico ainda o animou, dizendo-lhe que podia ainda viver pois que não se tinha esgotado a medicina. Mas o homem achava-se muito abatido para o animarem esperanças.

Assim fomos vivendo e eu à espera se aparecia alguma cabeça de gosto para onde fosse. Vinham concorrendo muitos amigos mas que eu todos muito bem conhecia e nenhum me fazia conta. Pois que de todos pouco mais ou menos lhes sabia a vida e eu, o que queria, era um onde encontrasse alguma novidade com que me instruísse. Pois como o meu fim sempre foi, depois que acabassem as minhas viagens, escrever a minha vida, incluindo nela a dos outros em cujas cabeças eu tivesse andado. Por isso não queria cabeça senão que me servisse a este fim.

O alfaiate ia-se aproximando à morte. Os amigos iam-se indo. O Médico declarou que era esta a última visita que lhe fazia. Eu, vendo as coisas nestes apertos, resolvi-me a passar para a cabeça do Médico, para onde fui, dizendo comigo: — Se ele for bom Médico e sábio, nada direi. Ficarei ali em silêncio, até passar para outra cabeça. Se ele for mau e charlatão, contar-lhe-ei a vida para se livrarem dele. Também Gil Brás falou do seu Doutor Sangrado e ninguém lhe disse nada.

Nestes termos, assim acaba a Carapuça e começarei a seguinte, do Médico, que é a