O Piolho Viajante/Prólogo da Parte II

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Prólogo da Parte II


Il est plus facile de tromper le monde, que de le détromper.
Lettres de Lord Chesterfield à son Fils.

Tenho decidido fazer um prólogo no início de cada tomo desta minha tradução. Alguns julgarão isto loucura. Mas deixa-los julgar. Se repararem bem no primeiro folheto, eu lá lhe disse que o fim era encher papel. Logo que é este o fim, o caso está em ir escrevendo a torto e a direito. E eu sou como algumas mulheres de venda que o primeiro mês, enquanto estão envergonhadas, respondem bem aos compradores, mas em se avezando, cada resposta é uma carretilha. Assim estou eu. Os primeiros quatro folhetos fizeram boa viagem, perdi o medo ao mar, adeus minhas encomendas. Hão-de me aturar tudo quanto me vier à testa, tudo hei-de dizer. Só hei-de ter muito cuidado (e mesmo é do meu génio) não escandalizar ninguém. Hei-de ir pondo as minhas carapuças mas não quero conhecer os fregueses e antes hei-de perder meia dúzia delas, que talhá-las para nenhum indivíduo em particular. Só tenho a encomenda de uma dúzia para cabeça certa, que me está custando bem o fazê-las, e são todas para mim; que eu não sou daqueles, —com bem o digamos—, que tenha só um defeito: tenho uma dúzia. Isto é, meus conhecidos. Sabe Deus se vossas mercês me descobrirão uma grosa. Também, quer descubram quer não, se vossas mercês tiverem boa língua hão-de calar-se e ter dó de mim. E se a não tiverem, ainda que lho peça, é perder o meu tempo. Antes me levantarão por obséquio algum testemunho, que isso quem tem má língua trata essas coisas de bagatelas; um testemunho que ponha um homem no estado de opositor à forca; uma mentira que tira os bens à gente e outras frioleiras destas, não valem nada nem são coisas de suposição. Quem perde lá o sono com estas ninharias? Isto não é coisa que faça mal a ninguém, nem dá nem tira, é o mesmo que prata quebrada e roupa branca. Com isso se hão-de achar, vão vivendo que não vão mal. Não percam o costume que alguém lhes dará os agradecimentos. O ter má língua é o mesmo que andar a cavalo por ofício: mais dia menos dia, sempre dá queda ou leva coice. Ele, também, se fossem todos de boa língua era urna desordem! Nem havia nada que dizer! Até mesmo não se precisava fala, para quê? Para dizer, Fulano é honrado? Isso pelas acções se conhecia. Não senhor, bom é que hajam destas tesourinhas que se vão amolando no corpo da gente... Mas que tem isto com o Prólogo? Ora eu sempre sou bem miserável a escrever. Em me descuidando, estou com a minha favorita. Adiante. E falo dos que têm má língua como se eu a tivera boa! Ninguém se conhece. Essa é a verdade. Vamos a começar outra vez o Prólogo.

Meus senhores, altos e baixos, gordos e magros, — creio que estão todos incluídos e cada um tome o lugar que quiser. Aqui não há sol nem sombra, todos hão-de ver a função pelo mesmo preço e não há-de haver portas travessas. Não tenham medo que ninguém entra de graça. Aqui não há sócios. Há um só a ganhar. Que o ganho também não há-de dar para carro triunfante. A festa há-de ser pobre... E que lhe parecem esta? Aqui outra vez desviado do Prólogo! Não importa, torno a começar. Suponham suas mercês que é o Cavaleiro que está fazendo as cortesias aos assinantes e o cavalo não quer recuar (que eu também não tenho grande lição de picaria). O cavalo é aprendiz e talvez que muitos com quem eu fale, de vossas mercês, não sejam Mestres. Agora sim, vou-me ao Prólogo como gato a bofes. Prólogo. Senhores críticos, eu julgo que vossas mercês estão de acordo comigo. Vossas mercês certamente dizem: — Não presta para nada a obra. Quem meteu na cabeça a este bolas falar diante de gente, falar em público? Ele não sabe português, não tem erudição, não tem engenho, enfada, repete, fusta &c. Eu estou também pelo mesmo e o mesmo tenho dito a mim muitas vezes. Perdem o seu tempo se escreverem sobre essa matéria, e se se resolverem a fazê-lo, desde já lhes louvo a acção. Fazem muito bem. Queira Deus que pegue e tenha boa saída. Vossas mercês são muito mais capazes, têm muito mais juízo. Enfim, têm tudo quanto vossas mercês quiserem de mais e eu ficarei com tudo de menos que os Senhores ordenarem, contanto que não me peçam dinheiro. Que isso ainda ninguém levou à boca de mim, não só porque o não tenho mas ainda por outras circunstâncias maiores.

Ora eu estava com vontade de dar um conselho, por dar alguma coisa, mas tenho medo que me venham ao fato. Mas, enfim, vai. Não é meu. É de um livro impresso que tem letra redonda. Não o direi bem ao pé da letra porque tenho pouca memória. Se faltas de memória fossem erros de entendimento, aquele que fosse mais asno do que havia de saber muito. Está na tinta. Se ele fosse como cem, eu havia de ser como mil. Mas deixemo-nos de histórias e vamos ao que importa e ao tal conselho.

Não vou falar a respeito desta minha obra, que é coisa tão pequena, que só merece porem-lhe os olhos de compaixão. É uma coisa tão pobre... Mas que posso eu mais aniquilá-la e mostrar-lhe a sua insuficiência? Tendo-lhe chamado pobre, basta. Este nome pobre é pior que o de cão danado. Todo o mundo lhe foge e ninguém lhe dá nada. E aos cães alguns lhes põem água para se certificarem. Mas ao pobre não há dúvida, logo que se diz pobre é danado perfeito, nome sagrado para ninguém lhe bulir, mas infeliz para ser socorrido. Eu achava razão a um Médico, lá da Ásia, que em lhe caindo pobre nas unhas, requiescat in pace. E dizia ele que era um benefício que fazia ao mundo e ao pobre, concebido desta forma: — O pobre aflige o mundo; o mundo é o tirano, do pobre. Quem mata a este salva a ambos. Ora esperem, meti-me a Missionário. Vejam que tem isto com o conselho que eu ia dar. Vou a isso.

Para ser Poeta é preciso ter nascido Poeta, é preciso génio. Para ser Crítico é preciso gosto, é preciso ter nascido Crítico. Os talentos de um e de outro são um dom do Céu. Há muitos poetas que têm cabedal mas não são capazes para fazer obra alguma. Agora, quando se une o génio e o cabedal, então se vê o primor da Arte e da Natureza. Assim é o Crítico. Para o ser, precisa de olhar muito para si, ver se tem gosto e se tem cabedal para a obra. E olhe que aqui não lhe vale crédito. Há-de mostrar que o cabedal é seu e adquirido pelo seu trabalho. Aqui não vale deixa de parentes, nem testamentaria, nem roubo, ainda que mate o roubado. Hão-de o apanhar com o furto nas mãos e dizerem-lhe quem é o dono. Com que, senhor Crítico, tome o meu conselho. Faça exame de consciência, recolha-se a si mesmo, indague os seus teres, meça bem a extensão do seu génio, do seu gosto, das suas luzes. Sonde bem até onde chegam os seus conhecimentos, ponha-lhe uma baliza e não dê um só passo adiante. Olhe que têm havido muitos que tendo passado algum tempo por instruídos, por quererem dar um pique ao passo adiante do que sabem, têm acabado bem miseravelmente, e até perdido o que tinham adquirido.

A toleima pega logo no fim do juízo e, senão, repare vossa mercê que eu lhe faço um exemplo não para que melhor o entenda, mas para melhor me explicar. Suponha vossa mercê que vosssa mercê tem juízo com o valor de trinta, e que até este número ninguém tem que lhe dizer. Em tudo acerta, tudo conclui, tudo arranja, e, enfim, tem merecido a atenção do público. Pois apesar de tudo isso, em vossa mercê querendo ser como trinta e um, começa logo a toleima e no instante se lha conhece porque passou o termo e um só fez esta desordem toda. E aqui tem vossa mercê como um discreto até trinta, começa a ser tolo se quer ser trinta e um.

A natureza prescreveu justos limites a todas as coisas. Se vossa mercê sabe o Abecedário até à letra M, não se meta, nem tenha inveja àquele que o sabe até à letra P. Olhe para trás e console-se, que muitos não passam do A, e não queira que a este A lhe juntem mais três letras e lho digam na cara.

Venho a concluir que no criticar é preciso três coisas: gosto, juízo e cabedal. E pode-se-lhe juntar sem nojo a quarta, a de conhecer bem a matéria do que vai criticar. Esta minha obra não está nessas circunstâncias. Coitadinha, ela não vale nada, não merece a pena de algum sábio a ler senão por um simples passatempo, sem lhe importar os erros, apenas gostando do génio. Suponham que é uma donzela pobre, mas feia, que anda pedindo esmola para se amparar, que, se alguém lha dá é com a mão para trás e cara para banda, louvando-lhe a acção e chamando-lhe consigo enorme. Assim é esta obra. É donzela, é primogénita, é desamparada, é feia mas, comunicada, não deixa de ter sua graça. Eu tenho visto em letra redonda muitas piores, e terem muito boa saída sem haver por onde entrar com elas. Mas muitas vezes têm um padrinho que as ajuda, um Compadre que lhes dá a mão, um nome alheio, &c. Esta minha vai moura, não leva padrinho, nem nome, simplesmente papel e letra redonda. Comprem-na se a quiserem comprar. Eu não a hei-de meter à cara de ninguém, nem gabá-la. Porque eu não a pretendo casar e o que aqui está, no odre veio. Se lhe serve, dá-se o troco do dinheiro. Se não serve, saúde. Se vossa mercê pode passar seta ela, eu também passarei sem vossa mercê e há muita gente que sabe ler e sabe muita letra. Eu tenho um criado de servir, Galego de nação e génio, que veio há pouco da terra e dou-lhe menos um cruzado cada mês por lhe deixar ler a Gazeta e explicar-lhe o que ele me quer perguntar a respeito dela. E o maroto, às vezes, tem que perguntar as suas duas horas. Com que, sim senhor, há já quem leia. Não hei-de sentir muita falta com a falta de vossa mercê.

Outra coisa tenho eu mais a dizer: Senhor ou Senhores Críticos, que não sejam vossas mercês daqueles que dizem mal de uma obra de manhã e a gabam de tarde. E alguns que nem a lêem e decidem dela! Outros que apenas a começam, botam-na para a banda e avaliam logo do seu merecimento! Olhem vossas mercês que o bom Médico não se contenta só com o tomar o pulso. Manda botar a língua de fora, apalpa, pergunta se dorme bem de ambos os lados, se teve bostelhas na cabeça, em pequeno, e lhas recolheram para dentro. E ainda assim, não decide. Faz as suas experiências, dá algum remédio, deixa passar vinte e quatro horas e reconhece a moléstia. Com que façam vossas mercês o mesmo ainda que vejam um nome ridículo na obra e um princípio baixo e jocoso. Não a desprezem por isto. Demóstenes também ria, e por essa mesma boca de riso saíam as orações as mais eloquentes. Não desprezem vossas mercês a obra do pobre, olhem que debaixo de uma ruim capa se encontra um bom bebedor. Pode ser que o Leitor seja um sábio e encontre numa obra de nada o que ignora. Pode ser que o Leitor seja um verdadeiro homem de bem, e encontre numa frioleira o modo de se livrar de um engano em que caíra pelo seu bom e honrado coração; pode ser que o Leitor seja um perverso e que, envergonhando-se do que lê, mude os costumes; e que uma simples, e ao parecer insignificante leitura, torne ao seu dever um cidadão que já estava contado de menos na Pátria. Sim senhores, é preciso cuidado no tratar das coisas que, não parecendo nada, são, às vezes, de muita monta. Tudo no mundo tem dois lados: Alexandre bebia vinho, embriagava-se, mas ninguém lhe chamou senão o Herói da Ásia e o Conquistador do Mundo. Vejam que dois lados tão opostos. Uma obra pode ser cheia de galantarias e extravagâncias que provoquem o riso e, ao mesmo tempo, ser cheia de lição. A mordidela de Tarântula, que é mortal, cura-se tocando o fandango. O remédio amargoso, que é dado em massa, disfarça-se embrulhado em oiro e o doente não lhe desagrada ver o que se mastigasse o afligiria muito e cura muitas vezes a moléstia sem sentir a repugnância do remédio. Igualmente o jocoso quando vai servir de embrulho à verdade, que se diz, que muitas vezes aproveita, rindo-se e gostando o que lê. Nada mais de conselhos a este respeito, façam lá o que quiserem. Vamos a falar de outra matéria, em que também entra um conselho que lhes quero dar, e vem a ser:

Que vossas mercês todos compreendam esta obra porquanto não lhes fazendo isto mal nenhum, me faz a mim muito bem e animam-me para eu ir ocupando o tempo, pois graças a Deus não tenho muito que fazer nem muita vontade (que eu tenho alguma propensão para a preguiça). Mas se eu entrar a ver dinheiro pelo meu trabalho, não sou tão tolo que não continue. Como até agora, por mais que trabalhe, não me têm dado nem os agradecimentos, que gosto hei-de tomar ao trabalho? Enfim, comprem vossas mercês que eu quero fazer a experiência, se a minha preguiça é natural ou desconsolação e eu lhes darei parte do sucesso. Mas creio que se me vejo com dinheiro sou capaz de correr monte e

Vale.