O Piolho Viajante/XLII

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça XLII


Um ofício ou arte que se aprende por princípios, exercitá-la por curiosidade é coisa linda. E o mais é que muita gente morreu por ter a curiosidade de se curar com este curioso. Tinha cento e tantos livros, em manuscrito, de remédios caseiros. E era tão bom homem que em ouvindo dizer a alguém eu tive tal moléstia, ensinaram-me tal remédio e melhorei, para ele era um evangelho. Vinha para casa escrevê-lo e aplicava-o ao primeiro paciente que se lhe queixava. Sucederam-lhe anedotas galantíssimas, de que contarei algumas que me parecem que menos enfastiarão os meus leitores. E se ainda assim lhes souberem mal, leiam-nas com limão ou botem-lhe mostarda, ou o que quiserem. Vamos à história.

Queixou-se uma vez um sujeito, diante do meu curioso de medicina, que tinha tido umas sezões tão impertinentes e tão malcriadas que a remédio nenhum obedeciam e ele, de dia em dia, se sentia morrer. Uma noite, deu-lhe uma sezão com mais força, sobreveio-lhe a febre e viu-se tão aflito que se ergueu nu da cama e foi à cozinha para beber água pois o calor parecia que o queria queimar. Porém, por mais diligências que fez, não deu com o pote, marrou com uma banca, apalpou, encontrou uma panela e chocalhando-a, sentiu água. Pô-la à boca, bebeu toda a dita água, que era para lavar a loiça de uma olha de vaca que tinha sido feita nela e em que a bêbeda da cozinheira até lhe tinha esquecido dentro o esfregão da loiça. Com efeito, era uma aguazinha muito grossa e muito saborosa. Porém, tinha sido uma água milagrosa porque, depois que a bebera, nunca mais teve sezões nem sinais delas. Tanto que o meu médico de curiosidade ouviu o remédio, não se demorou nem um minuto. Foi para casa num salto lançá-lo no livro dos remédios correntes e estampou-o sem lhe faltar um apêndice. Passados tempos, estando noutra sociedade, queixou-se um nobre estrangeiro de que estava morrendo com sezões e que já não havia remédio que não tivesse feito. Acudiu o meu amigo a ensinar-lhe o remédio como infalível, dizendo-lhe que tivesse pronta uma panela, onde se tivesse cozido vaca, que não esquecesse ter o esfregão da loiça dentro e que, tendo-lhe botado coisa de meia canada de água, na acção da febre se erguesse da cama, nu como sua mãe o pariu, e desse com a jeropiga em baixo. Veria o milagroso efeito do remédio que lhe aplicava. O estrangeiro, que estava cansado de ter sezões, esteve por tudo. Foi para casa, aprontou o remédio que tomou à risca, com a infelicidade de além das sezões se lhe não irem, ter uma boa constipação que lhe malignou e em que todos os dias nones esteve jogado aos dados. Por fim melhorou e queixava-se amargamente do meu patrão, dizendo abertamente que se o encontrasse, o havia de mandar para o outro mundo. Quis a desgraça que assim sucedesse e agora ouvireis. Foi descomposto de palavras injuriosas e esteve em vésperas de o ser por obras. Mas o meu curioso era tão crédulo e fazia tanta fé no remédio que veio para casa e pôs uma nota à ilharga da receita, com estas palavras: Não é bom para estrangeiros. E foi continuando a dá-lo a quem se queixava. O que é a fé!

Eu bem conheço que a experiência é quem tem dado e descoberto os remédios e que o acaso é, muitas vezes, o melhor professor. Mas sempre é bom que essa experiência e esse acaso sejam primeiro combinados por um conhecedor. Morra-se, embora, mas seja segundo a arte. Quando um homem vai tourear, é pena que morra nas pontas de um boi. Mas, enfim, morreu no seu ofício. Era bom cavaleiro, gostava da arte e foi uma desgraça. Mas foi uma desgraça que ele procurou. Que vá, porém, um que não sabe tourear, metido numa sege ou a pé, e se desmande de lá da manada um touro que o espiche por uma ponta, mandando-o ao ar em ar de pela, isso é que é pena, porque o pobre homem não teve culpa. O mesmo digo eu: quero morrer, mas com quem o entenda. Vem dali um curioso dar-me um remédio só porque ouviu dizer que era bom, e encaixa-mo no bucho e mata-me sem ao menos saber que aquele remédio era para matar. Pelo menos, o que entende dá-mo, mas sabe que efeitos ele deve fazer. Ou é de crer que o sabe. Até conheci um maganão que se metia a curar malignas e não havia uma maligna que o levasse. E o desaforo com que sustentava que era muito capaz de as curar! Uma vez lhe ouvi eu dizer este barbarismo, disputando com outro: Sim, senhor, eu lhe mostro como curo malignas e como os outros as curam. Vem um médico chamado para uma doença destas, chega, toma o pulso, manda botar a língua fora, põe os olhos no tecto, faz duas caretas, pede papel. Recipe: tártaro para limpar o estômago, causa primária de todas as moléstias. Coisa que entre si se contradiz. Se houver um que não coma, ninguém poderá ter o estômago mais limpo. Mas ele morre de fome e a fome é uma grande maligna. Vai o doente a pior, cataplasmas, dieta, quina, cáusticos &c. Pergunta o interessado na melhora: — Então que me diz, senhor Doutor, que tal vai o nosso doente? Ao que este responde em ar de oráculo: — Veremos. Tenho esgotado a medicina. Agora a natureza é quem há-de decidir. Eis aqui como cura um médico. E eu, que faço? Ponho-o logo de dieta e sem arais moxinifadas. Faço-lhe logo no princípio o que ele fez no fim. Deixo à natureza o que é dela. Não a ajudo porque não conheço por que banda ela precisa de amparo. Nem me oponho, porque corno não sei do que ela gosta, deixo-a ir à sua vontade. Ela, que verdadeiramente é sábia, não tendo quem a contradiga, faz tudo perfeito. E assim o doente escapa sem o afligirem e, se morre, morre com menos dor porque a natureza, menos agitada pelas drogas que a estroem, (pois a natureza não gosta do que para nada presta), faz as suas funções, levando à morte o que ela, com a sua força, já não pode sustentar e ao que forças humanas não se podem opor.

Assim falava este túnica, do que todos se riam muito. Mas eu, como nunca entendi de medicina, não sabia para qual dos métodos me havia de encostar e nós, os piolhos, como somos pobres, nunca chamamos médicos para as nossas moléstias. Cada um cura-se conforme pode. O caso está em curar a grande e má moléstia de pobre que mata lentamente. E o mais a que eu acho graça, é perguntar muita gente: — De que morreu fulano? Se ele é pobre há mais que perguntar? Morreu de fome.

Um piolho conheci eu muito galante e de quem eu era muito amigo. Ele é que não era tanto meu porque era mais rico do que eu, e pobre com rico não faz boa liga. Teve uma moléstia, como se chama?, não me lembra bem o nome. Parece-me que é cronológica, ou crónica, uma coisa assim. Fez-se junta, e o piolho, tanto que viu vir chegando os deputados do expediente da outra vida, perguntou: — Para que são aqueles meus senhores? Ao que lhe responderam que eram vários sábios que se juntavam para decidir da sua moléstia. Ao que respondeu o doente com muita graça: — Pois eu sou algum Hércules que precise tanta gente para me matarem? Não senhores, podem ir-se embora. O assistente é suficiente para isso. Ele dará conta do negócio e mesmo eu já me sinto com poucas forças.

Desamparam todos o lugar e o assistente nunca mais o quis ver, despedindo-se até de se verem no outro mundo. Mas a natureza picou-se contra os tais senhores e vendo ela o doente livre de opressores, o melhorou. E eu o encontrei na cabeça de um dos julgadores, que lhe chupava sangue infinito para se desforrar das sangrias que ele lhe tinha feito dar. Demorei-me muito nesta cabeça porque neste tempo adoeci de um flato que se me meteu num quadril. De sorte que não podia dar uma passada e, para estar doente, esta cabeça era óptima porque tinha provimento e o dono raras vezes punha a mão na cabeça. Também havia muita sociedade, porque ali vivia uma lêndea que dava partida em casa e tinha quatro filhas menos más. Eu não desgostava de uma, mas ela já andava com o sentido noutro piolho que também ali se ajuntava. Era estrangeiro e piolho espigado e louro, muito bem parecido e fazia versos menos mal. Isto desconsolou-me bastante até que o patrão veio-lhe um defluxo, deste de narizes entupidos, sem poder espirrar. Não tratou bem dele, caiu-lhe nos dentes e veio-lhe uma tal dor a um dos queixais que passou três noites sem cear, pela não ter. Foi apertando-lhe de tal forma que se resolveu a tirá-lo. Mandou chamar um dentista que os tirava sem lhe custar nada, pois a quem o tirava é que lhe custava, e por duas formas: porque lhe doía e porque lhe custava uma de doze. Eu quis também saber desta arriosca de tirar dentes e, quando o dito se lhe pôs a cavalo, para lhe meter pela boca uma botica grande, quero dizer, um boticão, que é o mesmo, estava com os braços mesmo em cima da cabeça do réu. Eu então fui-lhe ao corpo e mesmo nesse dia lhe passei para a cabeça a fazer-lhe a carapuça XLIII.