O Piolho Viajante/XLIX

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça XLIX


Este chefe de ladrões era um homem alto, membrudo, muito bem-parecido. Tinha uma fisionomia que estava dizendo bondade e, certamente, ninguém pela cara, diria o ofício que exercitava. Nem sempre pela cara se conhece quem tem lombrigas. Este diabo para mim, falha. Pelo coração, sim. Por isso, podem conhecer-se indivíduos, mas esse, como anda muito às escondidas, sempre aparece de máscara e o seu dono veste-o como bem lhe parece e ficamos no mesmo estado de conhecimentos. Quem diz o contrário, declaro-lhe que é basófio. O tempo, a experiência, e um juízo menos mau é que nos podem aclarar alguma coisa e mesmo muito pouca coisa a respeito dos homens. Que lá a respeito de senhoras, isso então, nada, porque aí não há senão caprichos. Salta para cá, piolho, aí me ia eu descuidando a escrever destemperos, deixando o necessário. Sim senhores, uma fisionomia, que estava dizendo bondade e era mau como aqueles que o são. Eram vinte companheiros com ele e todos de dar e levar. Viviam uma légua distante dali, num subterrâneo qual nos pinta Gil Brás a sua cova. Mas não tinham velha Leonarda, nem preto Domingos[1] a enganar. Eles mesmo é que se serviam. Sempre ficava um ou dois de guarda ao covil no qual havia pouco trem e nada de sobresselente. A companhia era muito nova. O mais veterano no ofício era o capitão que se tinha ali estabelecido por ter fugido da terra com medo de perder a cabeça, que lhe andavam à caça dela, sendo, aliás, um traste a que ele tinha muito amor e muita estimação. E, mesmo, estava capacitado de que, se lha tiravam, morreria. O que faz um homem entrar a cismar!

Era um homem inteligente no seu ofício, esforçado, liberal, agasalhador dos seus sócios. Era pena que não exercitasse o valor que tinha a benefício do Estado. Porque o que tinha de mau, sendo ladrão, trocado em soldado, seria maravilhoso. Vejam como uma pequena mudança faz mudar as coisas sem tirar a essência às mesmas. Porque este não precisava mudar de costumes. Bastava só que seguisse os que tinha contra os inimigos da pátria. Mas ele pensava de outra forma e dizia que todos os que tinham dinheiro eram seus inimigos capitais e que haviam de escolher uma das duas: ou dar-lhe a vida ou o dinheiro. E achava tolos que quase sempre lhe davam o segundo, ainda que alguns davam uma e outra coisa. O que mais me admirava era ver como este homem dormia a sono solto sobre um colchão de crimes e homicídios. Muitas vezes, com um pequeno rebuliço se atemorizavam os companheiros e ele nem se levantava. Dali indagava a causa e prevenia o perigo. E, se era preciso assistir em pessoa, o valor e o sangue-frio eram os seus companheiros. Era capaz de infundir valor aos mais cobardes.

Ora ele não há tradição que houvesse piolho valente. Pois até eu confesso que tive ocasiões de desejar entrar nas acções. Ele raríssimas vezes puxava pela espada ou atirava tiro. Para ele não lhe fazia dúvida ir atacar sete ou oito, ainda que os seus ficassem longe dele meia légua. E, então, o ar com que ele fazia isto! Cuidam vossas mercês que era lá de faca ao peitos! Não senhores, quase sempre roubava com o chapéu na mão e com ele na mão se despedia daqueles a quem, muitas vezes, nem deixava o chapéu. Eu, vendo este modo, dizia comigo:

— Valha-me Deus, este maroto rouba nas estradas como se rouba nas Cortes, que é com o chapéu na mão, com muitas cortesias e vários rodeios mais que eu não digo por não ser importuno e mesmo porque são muito sabidos e até quase de ninguém ignorados, pois, mais ou menos, têm passado por todos: uns pela activa, outros pela passiva. Também se encontrava pobres passageiros que nada levassem, dava-lhes a sua esmola e eu clamava outra vez comigo:

— Justamente é como se faz nas Cortes que furtam os carneiros e dão os pés por amor de Deus. É um célebre ladrão! Furta com toda a caridade!

Quem vinha algumas vezes jantar connosco era o estalajadeiro que também era sócio no negócio cuja firma era: Estalajadeiro, Ladrão & Companhia.

O capitão gostava de uma das filhas e queria casar com ela. Mas queria primeiro mudar de ofício, ainda que a rapariga não quisesse que ele mudasse de ocupação. Tinha-lhe dado no goto aquele modo de vida, dava-se-lhe com o génio. E o sogro também gritava contra ele quando tal lhe ouvia dizer e aconselhava-o, dizendo-lhe que não encontraria ofício de mais valor e proveito e que mesmo para o negócio da estalagem lhe convinha não o deixar, pois que bem sabia e conhecia que liga faziam estas duas ocupações. O capitão, vendo que era do gosto da moça, do contento do pai e próprio do seu génio, tratou de se encartar e estava o casamento a concluir-se. Andavam com obras na cova para preparar um quarto decente para os noivos.

Uma ocasião apanharam um homem de cabelo curto que roubaram e lhes achei graça e razão. O tal vinha a cavalo num macho e trazia uma mala com cinco mil cruzados que tinha furtado numa feira, segundo ele confessou depois a um corretor, o qual corretor também os tinha furtado a outro num negócio que tiveram e lhos negara depois; o qual outro também os tinha furtado a um que os tinha furtado a outro. Mas esta história vem mais de trás, e por isso me não meto com ela. Baste que fiquem sabendo que os cinco mil cruzados, quando chegaram à mão do capitão, já vinham em quinta mão e sempre furtados. Isto é o que nós sabemos, que sabe Deus se a genealogia do furto era mais antiga. Mas aqui não há que admirar, porque o dinheiro sempre correu muito e sempre andou nas palmas de todos. Isto de ter muito dinheiro, indagada bem a geração do mesmo, quase sempre vem por bastardia. Mas dá com bons pais porque todos tratam da sua legitimação e dizem que estes filhos são muito afortunados. E não há dúvida que é assim, porque uma das coisas que eu conheço de mais feliz é o dinheiro, ainda que muitos dizem que é Inferno. História! No Inferno não pode haver nada bonito e o dinheiro é coisa muito linda. Os mesmos inocentes, que não lhe conhecem o valor, lhe acham graça. Nem ele há coisa mais inocente do que o dinheiro. Quem lhe põe a malícia é quem lhe dá o uso. Vejam se há coisa mais inocente que comprar com um vintém, um vintém de pão (visto não se dar sem isso). Vai dacolá um e compra com um vintém uma carga de pólvora e chumbo e mata um amigo (que hoje são os que se matam uns aos outros). Porventura o vintém é que teve a culpa? Se o levassem à tenda para pão, diria ele que não? Ou importava-se-lhe isso? Quanto a mim não há nada mais inocente que o dinheiro. É tão inocente que nem sabe quando o furtam. Tanto se deixa ele ir com o seu dono, como com aquele que o não é. Esperam-lhe mais bondade? Não senhores, eu nunca vi enforcar nenhuma faca por dar uma facada. Cortar a mão ao que pegou na faca e tirar-lhe um palmo de comprimento do corpo a quem com ela deu, isso sim, isso tenho visto. Com que assentemos de não pôr culpa ao dinheiro, mas sim aos que o têm e que lhe dão má educação. Que o dinheiro, por si, tem boa índole e um génio de um santo. Basta que seja um metal tão comedido que, apesar de tão desejado, aparece tão poucas vezes e é um amigo verdadeiro que, quando chega a dar a mão a um homem, o é deveras. Não é como muitos amigos que por aí há que dão a mão a todos ao mesmo tempo. A única coisa que eu acho de mau no dinheiro é ser muito estranho e bravio e ir à mão de poucos. Tem muitas vezes um velho sovina e rico, uma grande burra e quatro ou cinco filhas. Encerra a burra numa casa e as filhas noutra. Apesar disso, as filhas sempre andam às furtadelas pelas janelas e, às vezes, apanham o sereno e a burra sossegadinha, sem lhe importar nada, ainda que oiça mil burros a zurrar. Olhem que honestidade! Isto é que é ser donzela! Há burra que nunca ninguém lhe pôs a vista em cima nem se deixou tocar com um só dedo e o dinheiro está todo amarelo porque nunca viu o sol. Mas ai que estou perdido! Aqui estou eu outra vez desviado da cabeça! Se fosse tocador de cravo, em fantasias havia de ser insigne! Salta para cá, piolho, vamos outra vez ao ladrão e deixa-te de burras. Não sejas burro, não fales no que não te importa. Morde, não sejas falador, olha que é ridícula manha. Estava na antiguidade do furto, que, na verdade, é das coisas mais antigas.

Julgo eu que o furto começou logo no tempo em que os homens se acostumaram a vestir (e, certamente, aos alfaiates deve-se grande parte desta arte). Enquanto andaram nus, estou calado, mas depois que tiveram burjaca, sou capaz de jurar que logo começaram a furtar, e creio que houve tempos em que não era tido em má conta quem furtava. Hoje mesmo não é nenhuma bicha de sete cabeças. É um animal muito doméstico. O caso está em furtar com decência. Mas muitos metem-se a furtar sem saber. Para tudo é preciso haver princípios e princípios certos. Meter a mão na algibeira a um homem e sacar-lhe a bolsa, isto é porco, é de quem não sabe o ofício. O bom cavaleiro procura o boi em círculo e não desfila para ele cara a cara. Isso seria ser tolo e logo morto, o que ainda é pior. O ser tolo, vade in pace, não é das piores coisas, se se é tolo a tempo. Ai, meus pecados! Aí me tornei a desviar do caminho! Salta para cá, piolho, vai para a cabeça do ladrão. Eu estava na antiguidade do furto. Agora me lembravam a mim coisas a este respeito, que são uma obra-prima. Mas basta de desvio. Vamos acabar a carapuça e não faltarão ocasiões em que eu desabafe o que tinha agora para dizer. Certamente que é um sacrifício que faço em calar-me e tenho pena de não ter continuado para diante, pois são bocadinhos de oiro as palavras que eu tinha de soltar da boca para fora a respeito do verbo furtar. Mas agora já não há outro remédio. São mãos perdidas. Acabe-se a carapuça e fiquem-me na ponta da língua as palavras que certamente me hão-de custar a engolir. Mas, para agora tornar atrás, parece mal e não estarão para me aturar. Que eu, por mim, já tinha perdido a vergonha e começaria outra vez, porque o que teria de dizer são coisas de muita suposição e que, muitas vezes esquecidas, nunca mais tornam a lembrar. Mas lembraram, porque, como são a respeito de furtar, e isso é coisa que anda hoje mais entre mãos, espero me não fiquem no tinteiro, e damos por concluída esta carapuça. Ora, para onde lhes parece a vossas mercês que eu passei? Pois foi para a cabeça de um vinagreiro. E foi o caso: o capitão casou com a filha do estalajadeiro, de que vossas mercês estarão lembrados, e de quem já falei bastante: a mulher era muito amiga de comer envinagrado (e a cara era mesmo de vinagre), na terra havia muito pouco, porque, mesmo algum que havia, venda-se por vinho. O que fez o capitão, por satisfazer o apetite à mulher? Vestiu-se em traje de quem não é ladrão grosso, quero dizer, em traje de homem pobre e, com dois companheiros e uma besta, foram a casa de um vinagreiro, que morava três léguas distante, onde tinha a sua fábrica. Carregaram a besta com dois odres, tendo tido o cuidado de escolher do melhor e o dono da fábrica de lhes dar do pior. Depois tratou-se do pagamento, que gostei, porque, perguntando o vinagreiro ao capitão de que sítio era, e ele dizendo-lhe de onde, no que não mentiu disse-lhe o vinagreiro: — Aí, nesse sítio, me roubaram a mim no passado e dizem que anda por lá uma companhia de ladrões. Mas o capitão certificou-lhe que podia ir agora quando quisesse, porque tinham dado uma assaltada aos ladrões e, mudando eles de poiso, e por isso havia muito tempo que ninguém se queixava. — Ora estimo saber isso, tornou o vinagreiro, por aí é o meu caminho e eu ia dar uma volta muito grande só para não passar por aí. Assim lhe pagou o capitão, talvez com o mesmo dinheiro que lhe tinha roubado. Enquanto durou esta pequena conversa, tive a curiosidade de passar para a banca onde se contou o dinheiro e, quando de volta o vinagreiro o veio arrecadar, eu lhe fui para a cabeça que é a carapuça L.

Notas[editar]

  1. A velha Leonarda e o preto Domingos são os dois serventes na bela Novela de Gil Brás que acompanhavam o capitão Rolando na cova dos ladrões onde Gil Brás foi conduzido e donde fugiu enganando os ditos. [N. do A.]