O Piolho Viajante/XLVI

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça XLVI


Fui para a cabeça deste homem julgando muito mal dele. Mas, às duas por três, mudei de conceito. Era casado, tinha seis filhos, sustentava treze pessoas, tomava tabaco, bebia a sua gota de vinho e devia bastante. Mas eu tomara que me dissessem quem com doze pessoas ou mais, e um par de demandas a nutrir, não há-de dever os cabelos? Pois sou obrigado a dizer que era um homem que merecia dó, olhadas bem as circunstâncias. Os credores, por mais desculpas que ele lhes desse, tomavam tudo por peta. Ora sede lá juiz com tais fregueses!

O homem parecia-me, às vezes, como um grão de milho rodeado de formigas a puxarem por ele; assim, estava com os credores.

Pela manhã, erguia-se e pediam-lhe logo dezasseis tostões para as despesas da casa e ele, muitas vezes, tinha só um quartinho e ainda lhe era preciso ir procurar um cruzado para acabar as despesas do dia. Vinha um, neste meio tempo, pedir-lhe quatro moedas. Que havia ele de responder a isto? Muitas vezes despropositava. O credor gritava, blasfemava, que ainda em cima o descompunham por pedir o que era seu. Que, sabe Deus, se o era! Ora vamos nós agora analisar o credor, o qual era um homem que passava por muito honrado e verdadeiro e a quem o caloteiro devia trinta moedas, mas a quem este mesmo caloteiro tinha feito ganhar, pelas suas mãos, em vários negócios, e em menos de três anos, o melhor de setecentos mil réis. E o bom e verdadeiro homem, sem reconhecimento nenhum a isto, afligia aquele mesmo homem que lhe tinha dado a ganhar muito e muito mais. Mas como o credor gritava contra ele e o devedor se calava pedindo espera, todos lhe chamavam velhaco, sem indagar mais circunstância nenhuma. Que isto tem o mundo. Se se diz Fulano é mau, todos o aprovam; se se diz que é bom, há muito quem duvide.

Outro credor tinha pedido, quase com as mãos erguidas, que lhe fizesse a mercê de lhe mandar para a América uns poucos de contrabandos, visto ter lá correspondências, do que o velhaco se desculpou muitas vezes, para não se meter em coisas que nada lhe rendiam, dizendo-lhe que não podia e que temia descaminho. O outro todas as dúvidas aplainava até que foi a fazenda. Algumas das remessas faliram da boa correspondência que se esperava, porque se os homens estão presentemente enganando uns aos outros de cara a cara, que fará em estando distantes! Por consequência, foi o pobre velhaco pagando aos poucos o que não comeu nem bebeu e quando podia dizer muito bem que não queria pagar, porque não era dívida, nem fazenda de lei e quem perdeu, perdeu. Apesar de tudo, confessava e pedia espera, mas o credor gritava por toda a parte que fulano era um velhaco, que lhe devia tantos e quantos, mas não contava as circunstâncias da dívida. Todos quantos o ouviam, diziam: — É um velhaco que não tem alma nem consciência, tirando o sangue aos pobres.

Havia outro, a quem o meu velhaco tinha feito mil bens e mil presentes, mas como já não continuava, dizia mal dele com os outros, ainda que, com efeito, nada lhe devesse. Pois sou obrigado a dizer que o fundo deste velhaco era o de um homem verdadeiro. Muitas e muitas vezes vi que não podia dormir lembrando-se das suas dívidas e, tendo uma alma assaz grande, sucumbia debaixo de um peso que não podia sacudir, desabafando muitas vezes com estas palavras: — Se chego a tempo de não dever nada a estes bêbados, quanto não passarei o resto dos meus dias consolado! Mas que posso eu fazer! Algum dinheiro que tinha de sobresselente, chuparam-mo por um engano que me fizeram. A renda que tenho, por ora mal me chega para me sustentar. O alimento da família é um dos deveres mais sagrados que tem o homem. Eu, ou hei-de faltar a um ou a outro e o segundo tem mais perigo que o primeiro. Pois então, deixai falar estes maus homens, que virá tempo que os outros conheçam que eu não sou o que me chamam.

Como o mundo vai errado!, dizia eu (ainda que piolho). Quebra um negociante de má-fé, chamam-lhe menino. Rouba outro trinta mil cruzados, chamam-lhe esperto. Faz aquele um negócio lesivo, chamam-lhe económico. Rouba este dez mil cruzados, e reparte cinco, chamam-lhe liberal. Vem dacolá outro que descobre um segredo que lhe comunicaram, no que ganha alguns tostões, e com eles melhora de fortuna, e dizem que tem sido feliz. Outro vive de algumas letras que tirou do A.B.C. e com elas faz um nome e dizem todos que é amigo de ganhar a sua vida. Outro não faz senão ouvir aqui para dizer acolá e chamam-lhe engraçado e que não tem nada de tolo. Um pobre homem que é singelo, que não é capaz de negar o alheio, que não furta, que é capaz de valer a um desgraçado, de chorar com ele, de lhe dar a camisa para o suprir, mas como deve, como tem maus credores, como não pode pagar, fazem-lhe uma carta de nomes que os amigos todos assinam e, se for preciso ir jurar para o porem na forca, vão como se fossem para uma função. Que tal vai o mundo! Quem pode dar satisfação a isto? Eu, na verdade, tinha dó do homem quando lhe ouvia chamar velhaco porque nunca vi quem menos o merecesse. Mas hoje ninguém indaga nada. Todos são papagaios. Se ouvem dizer, Fuão é santo, repetem: é santo. Fuão é diabo; é diabo. E assim é que marcha tudo. Anda um homem em sege, tem criados, dá os seus jantares, dá o seu chá, tem companhia de senhoras. É um bom homem e não se pergunta mais nada. Bem entendido que há muitos e muitos que têm tudo isto e o fazem porque podem e são homens muito verdadeiros. Eu só falo daqueles que o fazem sem poder e ninguém lhes diz nada, nem pergunta como é aquela habilidade. Outro, dali, anda a pé, não dá nem água quente, jantares tomara-os ele para si, fala aos amigos sem mandar vir as senhoras para fazer companhia e ei-lo um pedinte, um tratante, um caloteiro sem brio nem vergonha. E então que tal vai o mundo, não vai umas natas? Sustenta um homem uma demanda injustamente mas, enfim, vence-a apesar da injustiça. O que a perdeu é que era um velhaco, que intentava tirar o que não era seu. Furta um vinte mil cruzados e o outro, outros vinte. Um escapa, outro é apanhado. O apanhado é ladrão e o que fugiu, vivíssimo e esperto como um azougue. E então? Que tal vai o mundo cá pela Ásia?

Outro vai a casa de umas raparigas, desinquieta uma delas com todo o segredo, parece uma mosquinha atordoada, não conta histórias que não sejam virtudes, tudo o que vê lhe parece mal, diz às raparigas que fujam do mundo, diz mal de tudo e de todos. Chega aos fins a que se propôs dando sempre muito conselho. Outro vê uma rapariga, gosta dela, confessa-lhe que a ama, não esconde a sua paixão e, sem passar dos limites do dever, resfolega e não ofende ninguém. Apesar disso, o primeiro é um homem de bem, que entra nas casas honradas como deve. O segundo, um sedutor, um velhaco, um tratante. Então? Que tal vai o mundo?

Basta de filosofar, senhor piolho. Vossemecê não toma emenda. Vai a contar o que sabe de uma cabeça e entra a envolver muitas na mesma carapuça. Sempre é grande defeito esta mania que eu tomei de escrever. Meto trapos e frangalhos, que às vezes nem eu mesmo me entendo com a carapuça e nem sei por onde lhe hei-de pegar. Vamos outra vez ao velhaco, que é a cabeça da carapuça presente. O homem todos os dias botava as suas linhas. Mas a maior parte das vezes baralhavam-se-lhe e ele cada vez mais metido em mais aflições, e o nome a crescer apesar de ele não fazer mais dívidas do que as que tinha quando adquiriu o nome. As despesas cresciam, as cobranças cada vez iam a pior, o nome cada vez se ia espalhando mais e perigava um homem que era todo o contrário do que diziam dele. Um dia que ele estava bastante agoniado, apareceu-lhe um amigo de confiança, perseguiu-o para que lhe dissesse o que o afligia. Enfim, conseguiu dele o confessar-lhe a verdade e desabafar com ele. O amigo riu-se e disse-lhe:

— Ora sabes o que te digo? É que tu não és velhaco. És tolo. Então porque te consomes tu, porque julgas que te chamam velhaco? Como te enganas! Por melhor homem que tu fosses, sempre te haviam de chamar alguma coisa. Presentemente, não há senão dois divertimentos: jogar e dizer mal. Olha cá! Tudo neste mundo é dividido em duas metades. Dizem mal de ti três sujeitos, outros três dirão bem. O principal objecto é que a tua consciência te não condene, que dessa é que um homem se não pode livrar. Ela pesa e ela afere o bom e o mau. Tu deves, mas deves porque não podes pagar. Não o fazes por costume, mas sim por necessidade. Deixa-te de tolices. Se os homens soubessem entre si o que dizem uns dos outros, não tinha havido Pílades e Orestes. Vai bugiar. Torna à tua alegria. Se precisas de alguma coisa, dize-mo que eu não te hei-de chamar velhaco. Sabes tu uma das coisas que se precisa neste mundo? É saber escolher os credores. O credor honrado pede a sua dívida mas não desacredita o seu devedor. O credor tratante até gosta que lhe devam só para ter que dizer, deve-me fulano tanto, sicrano tanto, beltrano isto, Bonifácio aquilo e, muitas vezes, não tem chegado o empréstimo a oito moedas por trinta pessoas.

E com esta se foi o tal amigo, deixando mais consolado o outro. Nesta ocasião, o meu velhaco não tinha nem real. Resolveu-se ir a casa de um homem que diziam todos ser o melhor homem do mundo, muito cheio de caridade e verdadeiro, a ver se lhe emprestava algum dinheiro sobre uns trastes de prata. O que logo pôs em execução. Fomos à tal casa, onde o dito nos recebeu com muito agasalho, falou pelos cotovelos e em coisas tão boas que eu tive cobiça de ficar ali, para o que desci para a cadeira, onde o meu velhaco estava sentado, que, por fortuna, sucedeu ser aquela onde o verdadeiro se costumava sentar. Despediram-se e, na volta, fui-me à sua cabeça e é a Carapuça XLVII.