O Piolho Viajante/XLVII

Wikisource, a biblioteca livre
< O Piolho Viajante
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça XLVII


Como o mundo vai errado! Como os homens ainda estão néscios! Não podem conhecer outro homem e querem saber coisas que ficam tanto acima deles! A falarmos a verdade, se a Barca dos tolos acarretar uma pequena parte dos que há, grande trabalho receio ao seu construtor. Vive-se com um homem toda a vida, julga-se um virtuoso e é um vicioso sem limites.

Conhecer o coração do homem é a ciência mais difícil e ele, muitas vezes, não se conhece a si próprio. Julga-se um e é outro, muito diferente do que pensa. O nosso amor-próprio sempre desculpa os nossos erros e o nosso amor-próprio é a mãe do crime, ainda que muitas vezes se precisa desse amor-próprio, porque é preciso ter mãe. A mãe é a agasalhadora do crime do filho, desvia-o da justiça do pai, todos os erros lhe parecem pequenos e sempre espera a emenda, sem reflectir que o homem é como a árvore: quanto mais idade tem, mais raízes a seguram na terra. O amor-próprio é igualmente como a mãe. Pinta-nos os vícios, enverniza-nos os defeitos, doira-nos os nossos erros e quando o nosso mau comportamento nos conduz ao precipício, chama-lhe desgraça e nunca nos diz que é culpa. Mas este mesmo amor-próprio também é como a boa mãe que influi a virtude nos filhos, que os capacita na honra e que os faz amar o Rei e a Pátria. O amor-próprio, bem conduzido, eleva-nos muitas vezes acima de nós mesmos e faz-nos igualar com aqueles que mereceram nome no mundo.

Parece-me que para piolho já não vou falando muito mal ou talvez que isto também seja amor-próprio. Seja o que for, vou dizendo o que entendo, se é que o entendo, que muitos falam que ninguém os entende, nem eles se entendem. Olhem, não entender o que tenho escrito, isso me tem a mim sucedido muitas vezes quando o quero ler. Entro a gaguejar e não lhe posso meter dente.

Enfim, Senhores, tudo quanto eu tenho dito quer dizer que o tal homem verdadeiro, em cuja cabeça estou, não é como dizem, mas sim um verdadeiro velhaco. É um velhaco malicioso e feroz. É um gato que se finge manso e esconde as unhas quando o dono brinca com ele, para melhor as fincar em carne e aguçar em sangue. Eis aqui a cabeça onde eu estou. Vou descortinar-lhe a vida e vossas mercês ficarão admirados. Mas não têm que ficar, porque há muitos assim. O peneiro para joeirar e separar os bons dos maus é muito fino. Poucos deixa passar. Saem muitos, porque rompem o pano e como saíram todos juntos, não se conhece qual deles fez o rasgão.

Os homens não se podem julgar pelo que parecem, mas sim pelo que são. E o que são muitas vezes se esconde até se esconder a vida. A vida do meu verdadeiro consistia na vida mais regular que se pode observar. Erguia-se pela manhã muito cedo, cuidava logo das suas devoções, almoçava e lavava-se. Falava a todo o mundo porque nunca soube o que era negar-se a ninguém. Má palavra nunca a deu. Na sua boca tudo era doce, ainda que do coração lhe viesse o azedo. Nada comprava que não fosse com o dinheirinho na mão e pagava à risca tudo quanto ajustava. Dava a sua esmola a pessoas da sua freguesia e dizia bem de todo o mundo. E quem dirá que este homem é mau? Pois digo-o eu. Era um homem muito rico. O seu dinheiro andava espalhado por toda a parte e os negócios ninguém os tinha com ele, eram com os seus agentes. Como tudo comprava a dinheiro, os mais necessitados eram as suas vítimas. Numa ocasião salvou um sujeito de quebrar com trinta mil cruzados, por letras, a pagar, comprando-lhe a fazenda, que valia sessenta, por trinta. Mas o mesmo quebrou dali a dois anos com duzentos mil cruzados, atendendo aos sólidos negócios que fazia. Muitas vezes sucedeu dar um cruzado-novo de esmola àquele mesmo que ele tinha feito chegar ao estado de pedir e, quem via dar de esmola um cruzado-novo, louvava-lhe a caridade e a liberalidade, mas não conhecia o resto. Era tão mau homem que, ganhando todos os anos trinta ou quarenta mil cruzados, gastava dois ou três e dava dez moedas de esmola. E, por amontoar ouro, não se lhe dava de amontoar desgraçados. Pode ser um bom homem aquele que, cheio do metal, daquele metal que por nossa desgraça é hoje o pão, o fecha em burras chapeadas de ferro sem lhe importar a macilenta fome pintada no rosto do seu semelhante ou, julgando que dando-lhe dez réis, tem preenchido os deveres da humanidade? Não, Senhores, cá por mim este homem é o pior do mundo. Aquele homem que, tendo renda para sustentar vinte, sem desfalcar seus filhos, sustenta vinte, ainda que tenha alguns defeitos, é humano. Aquele homem que, podendo sustentar trinta, sustenta dois, guardando o alimento de vinte e oito, será bom. Mas, no meu juízo, não tem esse nome. Se vissem um homem acarretar terra para um quintal que já tinha suficiente para nutrir o que se lhe semeava, que chamariam a esse homem? E que chamaríamos a um que acarreta ouro ou, para melhor dizer, fecha o pão e deixa-o endurecer enquanto os outros morrem de fome? Pois é velhaco aquele que deve dez e não paga, e não é velhaco aquele que guarda cem, duzentos, mil, trinta mil (que os valha trinta mil!), e não os dá a quem os precisa. Como não deve nada, é verdadeiro! As avessas o julgo eu. O que deve ser é velhaco, mas aquele que junta mais do que deve e que, tendo já o estabelecimento de seus filhos, só o ouro é o seu Deus, não é só velhaco, é... Eis aqui as circunstâncias em que estava o meu verdadeiro. Não devia nada ao seu próximo mas roubava o próximo não lhe ficando devendo nada. Amava o seu próximo, mas deixava morrer o próximo de fome. E enquanto a sua burra prenhe de ouro vergava sobre os sobrados, os estômagos dos seus vizinhos estavam vazios de alimento. Porque é a regra quase geral: onde mora um muito rico, são pobres todos os que o cercam porque, como é árvore maior, chupa todo o suco da terra. O rico, bem comparado, é como o Tubarão[1]; sempre traz consigo Romeiros e Apegadores.

Eis aqui o tal homem verdadeiro que não devia nada a ninguém e, por consequência, não era velhaco. Vamos agora às suas esmolas. Não se compadecia dos velhos, dos moços é que tinha mais dó. Se uma mãe carregada de anos e trabalhos se chegava a ele, dava-lhe os seus dez réis. Mas se esta mãe era acompanhada de uma filha na flor da idade, a sua caridade estendia-se mais. Basta! Não falemos deste verdadeiro de cuja cabeça eu estava aborrecido e só desejava ocasião de sair. Ocasião que encontrei com muita facilidade, aparecendo um sujeito que lhe trazia um pouco de dinheiro, de um interesse que tinha numa sociedade. Vinha a ser uma estalagem que havia lá num sítio na qual era sócio e caixeiro.

Fez-se-lhe muita festa e, depois da ceia, foi o estalajadeiro para o quarto onde dormíamos para ali falarem à sua vontade. Chegaram-se ambos para uma banca, e depois de feitas as contas e recebido o dinheiro, entraram a falar nalgumas vidas, sem ser das suas. Eu, que os vi tão entretidos, achei que não era má esta ocasião para ir à cabeça do estalajadeiro o que fiz com muito trabalho. No outro dia pusemo-nos a caminho. E é a carapuça XLVIII.

Notas[editar]

  1. Tubarão é um grande peixe, pela figura de um cação, que aparece em alto mar. Nunca se vê que não traga uns pequenos peixes agarrados a si, a que chamam Apegadores, e outros de outra espécie, também pequenos e que andam adiante dele e sc chamam Romeiros. [N. do A.]