O Piolho Viajante/XVI

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça XVI


Também se os piolhos houvessem de ser escudeiros, era vida que eu não tomava, se acaso todos a passam como este a passava. A ama era capaz de apurar a paciência ao diabo. Chamava-o na roda do dia as suas trezentas vezes. E então para quê? As vezes para perguntar--lhe se tinha cobre, que lhe comprasse tâmaras. O comer não era muito. Mas o dinheiro era muito menos. Às veres esperava ele que se acabasse de botar uma tomba nas botas para poder sair com a Senhora. Era vício ter escudeiro. Ela não tinha nem para si. A sege, os lacaios, os machos, o escudeiro e ela eram um gabinete de História Natural no reino animal. A caixa da sege tinha uma pintura de Rafael. Tudo naquela casa era raro, o mesmo comer e o dinheiro.

Tinha uns brincos que os tinha dado Eneias a Dido quando se despediu dela (que há votos que ele se despedira) e tinham já bastante ferrugem. O trabalho diário deste pobre homem era erguer-se com as estrelas no céu, cujas via até ao meio-dia (era regalia da casa). Chamava o criado da traseira para alimpar as bestas por fora, que por dentro andavam elas sempre como um espelho. Assistia a dar-lhe a ração, que era duas xícaras de chá com suas fatias. Em dia de anos, já se sabe, sempre havia bolos. Os moços almoçavam café de cevada e a ama chicharros. O jantar muitas vezes disfarçava-se, que ninguém o conhecia.

Punha-se depois a jogar o gamão com uma criada de casa que nunca falhava. Botava muito, havia suas gritarias. Acudia a Senhora e descontava-lhes na soldada o motim que lhe faziam. Houve mês que ainda eles lhe ficavam a dever os seus dois tostões cada um. Dava querena às botas com cuspo, com tanta quantidade e força que havia bota que lhe levava meio quartilho de cuspo, (e isto era um homem que não tinha substância nenhuma). Ele é que governava a casa, mas isso não lhe levava dois minutos. Também cobrava as rendas que juntas às de um ano não chegavam para uma anágua.

Ali tudo era providência! De tarde saía para fora com a Senhora. As bestas estavam tão bem-criadas e eram tão políticas que ajoelhavam mal viam a Senhora. O macho das varas era muito alto e o da boleia muito pequeno. O boleeiro, para anão, não lhe faltava mais do que sê-lo. Era uma coisa galante! Quando ele puxava pelo fiador ao macho das varas, levantava este a cabeça, virando-a para o lacaio, e ficavam boca com boca, que pareciam que iam conversando ou beijando-se.

O escudeiro ia num cavalo galiziano, sempre aos saltos. A Senhora a gritar com o criado que fosse mais devagar, o que lhe era impossível, só se parassem de todo; o cavalinho da boleia às vezes pegava-se (tinha-me esquecido de dizer que o da boleia era cavalo) de tal forma que era preciso o boleeiro, o moço, o escudeiro, a Senhora saltarem todos no cavalinho e a nada o bruto se movia. De uma vez, lembra-me que estivemos parados cinco horas a fio, até que o cavalinho lembrou-se lá de seu moto próprio ir para casa e fomos: era célebre! Em passando por carro que levasse palha, punha-se na traseira e ninguém dali o separava. Era muito amigo do campo. Folhinha verde que visse na rua era sua. Conhecia o comer pelos ares, nem que fosse criado com ele. Tinha uma laje em casa que estava toda gasta de a lamber, para refrescar, e dar uso à língua. Mas, enfim, deixemos a vida do cavalo e vamos à do criado. À noite jogava os centos com a Senhora, no que havia primeiro um cento de cerimónias primeiro que se sentasse, como v. gr.: — Senta-te! — Não me sento. — Não teimes. — Hei-de teimar! — Soer eu que mando! — Isso é outra coisa. E depois de muita volta para aqui, volta para acolá, sentava-se o criado numa cadeira que não tinha assento nenhum. Tinha sido uma valdevinos. Havia um baralho de cartas tão sebento que, numas luminárias que houve no meu tempo, puseram-se duas cartas de oito e de nove, em cada janela, acesas, e duraram até se apagarem. Acabavam o joguinho, ceavam. No tempo das beldroegas sempre havia um caldinho destas ervas para a Senhora de que ela era muito apaixonada. E os seus craveiros nunca tiveram outra coisa senão beldroegas. A família tinha farinha-de-pau por conta, mas água a olho quanta quisesse.

Depois ia o pobre criado deitar-se numa cama a que tinham posto esta alcunha, porque se parecia alguma coisa com ela. Não lhe faltava para ser vera-efígie senão colchões e lençóis. Não tinha tempo de fazer caso das mordeduras que eu lhe dava porque apenas se deitava, saltava um destacamento de pulgas com ele, que lhe punham o corpo que parecia uma fazenda que há, chamada sal e pimenta. Gastava o homem quantas forças tinha para agarrar no sono e nem assim podia. Lá pela noite velha punha-se a roncar e a assobiar, fungando pelo nariz de tal sorte que muitas vezes acudiu gente, julgando que se tocava a fogo. De madrugada acordava e seguia-se o trabalho da véspera. Depois que chegou de Coimbra um sobrinho da Senhora que era Filósofo, como havia tanta falta de quartos e de camas, como de tudo o mais, dormia o tal sobrinho com o meu Escudeiro. Eu andava com gosto de morder numa cabeça filosófica, ainda que fosse só com presunção de o ser tal, qual esta, para onde passei, e fiz a minha