O Piolho Viajante/XVIII

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça XVIII


Tomaram muitos ricos passar como passava este Pobre! Era negociante de pobres. Andavam pobres a pedir esmola por sua conta. Tinha Borrador, Livro de Razão, Livro-Mestre e Auxiliares; três Caixeiros e uma Caixeira vendiam fatias de pão para dezasseis casas de pasto de que tiravam guapa sopa.

Ensinava o método de pedir esmola muito e muito melhor que o Mestre Gusmão de Alfarache. Tinha um mapa com todos os bairros, ruas, becos, etc., e tudo tinha dividido pelo ano. Tinha o nome de todos os que eram esmoleres, assim como os nomes e ocupações daqueles que só o davam atacando-os por balda certa, como era v. gr.: — Senhoria! Meu fidalgo! Assim como é gentil na terra o seja no céu!, ou estar senhora à janela com ele, ou defronte, e outras coisas desta categoria.

Compôs um pequeno tratado intitulado: Método de pedir esmola a torto e a direito. O qual descrevo aqui por me parecer útil se algum dos meus Leitores cair em pobreza ou a mandriice lhe der vocação para isso. Porque é bem certo que, a não ser coxo, cego ou muito velho, ela é quem conduz à relaxação da pedintaria.

Método de pedir esmola a torto e a direito,
pelas diferentes classes das pessoas.

Depois de se erguer, o que deve ser ainda com luzes acesas (apesar de ser cego), beberá o seu golo da aguardente, e comerá o seu dente de alho bafejando depois muito bem a parede para lhe tirar o cheiro da boca, porque não digam os esmoleres que logo pela manhã vai bêbado.

Pensará o seu cão, se o tiver, sendo-lhe preciso fingir-se cego. Se tiver moço, lhe dará logo depois do almoço dois bofetões bem puxados e, depois, com muito amor o industriará do trabalho daquele dia, repreendendo-o dos erros do passado, pois que nunca faltam. Terá a cautela de meter na algibeira trinta moedas de cinco réis e outras tantas de três réis por amor do câmbio. Mil e duzentos em trocos pequenos de meios tostões, e três vinténs, e seis mil e quatrocentos em trocos de ouro. Porque no caso que haja quem queira trocar uma peça (já se sabe, vindo por portas travessas), não lhe falte troco para vir para o cofre moeda inteira, pois sempre é dinheiro que alegra o olho e faz melhor conta ao contar.

Nunca lavará a cara em casa, mas sim no chafariz, o que mete muito dó, e muitas vezes os mesmos aguadeiros (o que parece impossível! ) caem com os seus cinco réis. E se passam mulheres e é tempo de Inverno, entram a chorar e a lamentar o pobrezinho, dizendo: — Coitadinho, talvez que nem água tenha em casa! E, com tamanho frio! Bem-criado foi ele!

É preciso advertir que a pobreza não faz a porcaria e pilha-se muitas vezes nisto, que não parece nada, o seu vintém. O ter lugar certo é coisa muito precisa e é o que faz ter crédito entre os outros pobres porque é o mesmo que ser homem de loja aberta, sem passar pelos dois meses de cortesia que tem o ano. Eu conheci um senhorio de casas que nunca queria fiador das suas, senão esta qualidade de abonadores.

O pobre nunca deve entrar em loja de bebidas, senão só para pedir uma gotinha de água quente para aquecer o estômago. Vinho, deve-o ter por junto em casa, tendo nisto três conveniências: ser melhor, mais barato e não o verem beber. Deve-se embebedar logo à noite, para pela madrugada estar pronto para a sua ocupação, sem ter dela vergonha, porque nenhuma ocupação é má, se rende, e se aquele que a ocupa não a sevandija. Não deve ter amores senão com outra pobre. Em ocasião de ajuntamento de pobres, deve repartir o pão que tiver, com os outros, e três ou quatro moedas de três réis, dizendo publicamente que para aquele dia não precisa mais nada. Que isto lhe dará grandes créditos e os que o presenciarem ficarão com o olho nele, e tem moeda de cinco réis todas as vezes que o encontrarem.

À esmola de enterro e dia certo de semana com barulho, deve andar os seus caixeiros cobrar esta letra, que tem o privilégio de nunca ser recambiada. E só deve ir pessoalmente um ou dois dias na semana por casa dos seus devotos, a cujas portas rezará sem pedir e só, sim, perguntará pela saúde dos donos da casa. Ainda que falhe a esmola um mês, nunca deixe de ir que há-de ganhar em tresdobro. Se houver filhos pequenos, faça-lhes muita festa e diga à mãe: — Meus pais criaram-me com muito mimo. Mal sabiam eles que eu ainda mendigaria às portas alheias! Quando vejo inocentes nos braços de seus pais, sempre peço a Deus que os livre de semelhantes trabalhos.

E apenas lhe vir as lágrimas nos olhos, ou voz truncada de compaixão, peça-lhe logo uma camisinha para consolar o corpo, que nesta ocasião é capaz de deixar o marido sem ela, só para lha dar.

Aos Domingos e dias santos, de tarde, dia próprio de estar muita gente à janela, reparta com algum cão que encontrar o pão mais duro que tiver, comendo também ao mesmo tempo, que não deixa de servir. A homem com cara de bem e bom cristão (que ainda há muitos) peça simplesmente esmola pelo amor de Deus. A um rapaz de quinze, até vinte anos, de-lhe senhoria e peça-lhe esmola pela sua saúde e não entre lá pela alma de seu pai e de sua mãe, se no outro mundo os tiver. Porque um rapaz até essa idade, com fumos de nobre, e algum dinheiro, não lhe importa lá pai nem mãe.

Outra coisa a advertir. Se o dito viver muito aparelhado não será mau dizer-lhe: — Ora dê-me um vintenzinho para pão! Que por isso mesmo que lhe pedem muito julgam que lhe conhecem a grandeza e os teres e dão muitas vezes o seu meio tostão, e não lhes fica às vezes nem para uma pada, que em eles andando muito asseados por fora, também o andam por dentro. A negociante mais taludo peça pelos que andam sobre as águas do mar, que nosso Senhor os traga a porto e salvamento, porque quase sempre têm interesse em algum navio. Se o vir com cara de usurário, — que isso não tem nada que conhecer, há-de ser muito alto, ou muito pequeno, muito magro ou muito gordo, sempre extremos; o nariz grande, ainda que isso algumas vezes tem a sua falha; mas há mais alguns sinais que não falham, como é trazer sempre chapéu debaixo do braço, ser muito macilento, palavras cheias de açúcar, ensinar remédios caseiros, espantar-se de qualquer coisa, e outras coisas mais que na língua Piolha têm tanta força que não é possível traduzi-las —, a este tal pedir-se-lhe-á esmola para que Nosso Senhor o adiante nos seus negócios ainda que melhor será não perder tempo com ele. A estes que têm cara de bom coração (que também é fácil de conhecer pela fisionomia), diga que tem fome, que lhe dêem para um bocadinho de pão. Aos que tiverem cara de pais de família, peça para alimentar cinco filhos, que ainda hoje não comeram nada de lume. A uma mãe com cara de propósito, levando filhas adiante: — Que Deus lhes dê uma boa sorte e uma boa ventura. A preto: — Que Deus o livre de cativeiro. A mulher de venda: — Pelas almas. A soldado: — Que assim como tem escapado de tantos perigos, o livre Deus de seus inimigos. A homem oficial: — Que Deus o livre de maus vizinhos do pé da porta, doenças e enfermidades, perigos e trabalhos e lhe dê saúde na alma e no corpo. A lacaio: — que o livre de quedas. A marujo: — por Nossa Senhora da Penha. A rapariga: — que Nosso Senhor a case cedo com um rapaz tão gentil como ela. A homem rico, faça que não o vê, que isso não tem meio termo. Se é esmoler, não precisa que lhe peça. Se não o é, nada lhe arranca, é perder tempo.

Nada de caldo que isso é sevandijar-se. É lá para os aprendizes. Mas é preciso passar por esta Academia de que se tiram muitas luzes. Outra coisa que me esquecia: nunca assoar a lenço. Mão, parede ou capote de companheiro, se é verdadeiramente cego. Não trazer dinheiro nos remendos que isso é coisa muito trivial. Deve-se trazer um pau grosso que em cima tenha a sua concavidade tapada com um taco de pau da mesma cor e no centro pode haver algum dinheiro. Aqui é o lugar mais seguro porque ninguém lhe importa o pau do pobre, antes todos fogem da bordoada do cego. E se é preciso ir para fora da terra e lá aparece um negócio que faz conta, como duas pipas de azeite, alguma carne ensacada, &c., não haja falta de dinheiro. E mesmo se é preciso matar a um homem (que um pobre deste calibre há-de ser capaz de tudo), e por isso seja preciso passar-se a outra terra, que vá um homem seguro.

Nada de morar com outro pobre que seja mestre na arte. Casamento, apartamento. Cão, moço, vizinho &c. Também é preciso cuidado no tomar do moço, não seja simplório; velhaco e mais velhaco, próprio para o ofício. Lá pobre que precise e que peça por verdadeira necessidade, nada de amizade com ele. Isso são uns pobres e quase sempre são tolos. Botam a perder o ofício. Nada, nada.

Se derem uns feijões, ainda que sejam azedos e de quinze dias, botá-los para a tijela, dando tempo a que se julgue que se comeram. E dizer em cima (lambendo os beiços) que lhe souberam como gaitas.

Para a outra vez dão galinha, se a têm. E se o não fizer assim, hão-de dizer-lhe, quando for bater àquela porta: — Quer feijões? Não há-de querer, que é pobre grave. Deve também haver um adelo fixo para lhe vender o fato velho que lhe deram, que ainda que lho pague por menos é melhor que, indo a muitos, correr de plano entre todos que vende fato e ser apontado a dedo, o que faria um grande desfalque na negociação.

Há também uma descoberta que eu não devia nem queria aqui pôr, por ser muito nova, e de muita utilidade. Mas pessoas a quem sou obrigado e mostrei esta minha tradução, tanto instaram comigo que fizesse esta caridade que não tenho outro remédio senão estendê-la neste papel. Pois olhem que é coisa de grande suposição. Vá, que bem me custa. Enfim, vá. Pedir pelas portas onde for, que lhe dêem um bocadinho de papel sujo que é para a primeira coisa que lhe lembrar.

Isto é uma coisa muito grande. Sei de um pobre que tirou num dia dois arráteis de papel que vendeu pelos seus oito vinténs. Isto é muito fácil de dar e dá muito de si. Coisa de tocar e cantar não serve para nada. Isso é para os primeiros seis meses, depois fica-se às moscas. Boa retórica e boas máximas, que é o sólido. Catar os bichos na rua também não serve de nada, é uma porcaria que não mete cobiça nenhuma de favorecer e perde-se o tempo. Fazer chagas, isso era bom para outro tempo. Hoje há meninos muito espertos que até das verdadeiras zombam. Torno a lembrar: retórica, sistema e boas máximas, que nestas ratoeiras poucos escapam. Não comprar nunca gulodices e se alguma vez cair nisso, sempre comprá-las pelo moço e que não lhas dê senão em casa. Porque, quando muito, se as vêem comprar põem a culpa ao moço.

O pobre, mestre do seu ofício, deve fazer este cálculo: que se é a Capital que ele habita, tem um milhão de almas, e dentro de dez anos tem tirado dez réis de cada pessoa; porque quando cem mil não dêem, têm os outros cem mil dado três e quatro vezes e, desta forma, tem ele de capital cinco contos de réis que, a ser muito perdulário, deve ter gasto um em dinheiro e de fundo tem os seus dez mil cruzados, fora os negócios que tiver feito. Quem pode lá julgar que um pobre tira por mês trinta mil réis? Como eles se enganam! Há mês de mais. Tenho tido Quaresma de oitenta mil réis, fora a roupa, negócio e venda de fatias. Deve também ter cuidado de morar em casa de porta de rua e que seja em beco, para que não saibam quando sai nem quando entra &c.

Eis aqui a obra que o meu pobre deu à luz, fora muitas coisas mais que ele ia ideando e que ainda não tinha escrito. E o mais é que eu estava tão acostumado à pedintaria que, apesar de não ter sido criado com aquela choradeira, já não estranhava e receava ficar numa vida lânguida. Razão por que fiz tenção de passar daquela cabeça, o que fiz num dia em que ali foi um Preto que lhe costumava fazer a barba e cortar-lhe o cabelo. O que fazia de sua curiosidade, porquanto era outro o seu ofício, como direi quando lhe talhar a sua carapuça. Mas como ia dizendo, foi uma noite o Preto cortar-lhe o cabelo e fazer-lhe a barba e durante ela tive eu ocasião de lhe passar para a véstia, indo-lhe logo imediatamente para a cabeça a fazer-lhe a