O Piolho Viajante/XX

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça XX


Eis o Piolho gaiteiro! E gaiteiro com poucas férias, principalmente Domingos e dias Santos, e despedidas de galegos para a terra, que não havia oitavário. Era um sopro contínuo em que andava aquele corpo todo e cabeça. Quantas vezes de noite ele estava a soprar com quanta força tinha, parecendo-lhe que estava na folia? Havia dia que tinha cinco e seis funções. Ele, então, era brioso, nunca queria ajustar e com tudo ficava contente, contanto que houvesse bastante vinho, o que raras vezes deixava de haver.

Fomos a uma função aonde não teve a boca desembaraçada nem um minuto e isto sem dar uma palavra, ou gaita ou copo. Também bailava tocando que, entre eles, é mais primor. Todos os mais galegos chamavam-lhe por Senhor. O que é a dependência! Teve uma molestiazinha de pouca entidade. Pois enquanto o não deixou, nunca o deixaram os amigos, nem os oferecimentos sinceros que algumas vezes chegaram ao fim. E bem sabem vossas mercês que homem pobre e sem dependência morre como o espargo do monte.

Função de arranchar nunca se fazia sem ele e a sua gaita. Tinham sítio certo onde iam tocar todos os domingos, o que fez muita diferença aos senhorios, porque perderam as casas muito o seu valor. E ultimamente chegaram a estar com escritos todo o ano, até que os donos se queixaram e os puseram dali para fora. Mas eles requereram que lhe marcassem sítio para tocar a gaita. Não sei o que surdiu mas eu parece-me que tinham razão porque logo se concedeu e permitiu o toque da gaita, — o mais antigo de todos os instrumentos. Devia haver sítio para se tocar que não se havia de ir com nenhuma máquina aerostática tocar por esses ares. Também há gente impertinente, ainda que muitas vezes não seja impertinência, é inveja de não saberem tocar, porque nestes instrumentos há poucos músicos e quase nenhuns curiosos. Eu, a ser juiz deste requerimento, dava-lhe a serra de Sintra e a Trafaria, sem prejuízo de terceiro, ficando-lhe o direito salvo para requererem para o antigo, no caso de terem justiça.

O pobre gaiteiro, vendo que não tinha aonde tocar e estando acostumado àquele exercício, entrou a emagrecer que ninguém o conhecia. Despediu um rapaz que lhe tocava tambor e entrou a tocar num machinho que lhe dava muito coice de forma que se aborreceu logo dele. Os amigos aconselhavam-lhe que tocasse berimbau mas ele escandalizou-se disso porque era um instrumento de preto e cada vez ia a pior. Até que aprendeu a tocar piano, e forte, e era um gosto vê-lo ao cravo. O que nunca pôde entender era a razão do nome. Porque chamando-lhe piano acabava em forte, e isto deu-lhe que fazer e quase ia endoidecendo. E porque um dia, estando neste argumento, passa pela rua uma mulher apregoando chocos frescos, o gaiteiro, que já estava esquentado por não entender o que era piano forte, ficou muito pior com os chocos frescos, clamando e gritando: — Se eles são chocos como são frescos? E se eles são frescos, como são chocos? Levaram-no então para fora da terra, a tomar ares. Lá pôde tornar à gaita, que de todo o desvaneceu e restabeleceu do estado em que se achava. Que, na verdade, metia dó. Ultimamente casou com uma rapariga que se agradou dele pela prenda. Ela tocava pandeiro que era uma suspensão, de forma que naquela freguesia, em aparecendo o casal, todos saíam à porta, a vê-los e a recebê-los, e era função certa. Mas, passados tempos, todos estavam satisfeitos e já pouca saída tinham. Vieram para a Corte. Ele resolveu-se a ensinar. Pôs escritos com uma gaita pintada em cima, acudiu muita gente a ver, entre os quais foi o caixeiro de uma loja, o rapaz mais prendado daquele tempo. Procurou logo o gaiteiro, ajustou-se para lhe dar lição de madrugada por ser esta a hora de não incomodar a sua vizinhança. Mandou-lhe fazer uma gaita muito boa e destinou-se o primeiro dia da lição. Eu, que tinha ouvido o contrato, e desejava passar para fora daquela cabeça pelo costume em que me tinha posto de viajar, — e a mania de escrever a minha história, por me parecer que seria a primeira que aparecesse depois da minha morte, tendo a fortuna de ir cair em mão capaz de me entender e traduzir —, tratei logo na véspera da primeira e dita lição, quando o gaiteiro se deitou, tendo a gaita ao pé de si por amor das bruxas, aonde também tinha a nova, do novo freguês, apenas o vi dormindo, de pôr-me ao fresco. Encaixei-me na franja da nova gaita do meu gaiteiro que, não falhando de madrugada, levou a primeira lição e, apenas ele pegou na gaita, eu não me descuidei de lhe passar para o corpo e, por conseguinte, para a cabeça, lugar do meu destino, onde de novo me ocupei na minha