O Piolho Viajante/XXXVII

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça XXXVII


Caí na cabeça de um homem que me parecia muito asseado e era um porcalhão de todos os quatro costados. Tudo era aparência, à excepção de amor, porque era o mais amoroso homem daquele tempo e contarei coisas dele, galantíssimas e raras.

Tinha, ao tempo que eu lhe caí na cabeça, só catorze raparigas. Coitado! Tinha então falta delas porque ouvi-lhe dizer uma vez que chegou a ter quarenta e cinco, fora três velhas que o andavam perseguindo e que ainda não tinha decidido se lhes corresponderia ou não. Ao menos ainda as tinha no borrador.

Eu via-lhe todos os livros pertencentes a esta negociação. Eram três: borrador, carga e descarga. As catorze todas morriam por ele e ele morria por todas as catorze. Elas, entre si, é que tinham às vezes alguma escarapela', se sabiam umas das outras, mas ele acautelava-se muito nisso.

Parece à primeira vista que este homem teria muito trabalho para a correspondência. Pois não senhor, os seus escritos eram como letras de câmbio. Primeira via, segunda, terceira &c., até chegar a catorze. Em tendo feito o primeiro escrito, os mais eram cópias. E se não levasse o negócio assim, precisava ao menos quatro caixeiros. O que ele tinha era mais sócios que entravam no negócio e que repartiam os ganhos sem ele o saber. E muitas vezes perdia, que era o mais.

Mas que galante peça era vê-lo preparar para entrar na derrota do namoro! Ele era tão pobre que para lhe chover em coisa sua era preciso que pusesse o capote à janela. Tinha umas meias de seda branca que tinham sido palmilhadas sete vezes. Isto soube eu porque a palmilhadeira lho escarrou na cara, pedindo-lhe o conserto de seis vezes. Andavam já tão azuis do anil como o coração, que o trazia em contínuo ciúme; tinha umas calças muito apertadas de forma que ainda depois de feitas, o Alfaiate apertava com ele para que lhas pagasse, mas ele nisso tinha a consciência larga. Ora por não me demorar no fato, digo de uma vez, e sem mentira, que de tudo que trazia vestido e tinha guardado, posto na feira da ladra na mão de um adelo hábil não se tiravam dois cruzados-novos. Mas escova e greda não lhe eram falsas. O comer era correspondente ao vestuário. Pode-se dizer que vivia de amor. E eu vim no conhecimento que o amor é a febre que sustenta. E as noites que ele passava à vela por qualquer coisa, umas por satisfeito, outras por arrenegado! Qualquer coisa o punha nos extremos. As vezes vinha para casa tão desesperado que, ainda mesmo que tivesse de comer, não ceava nada. Punha-se então a passear e de quando em quando parava. Dava um suspiro (que era pena que não fosse o último) e entrava a gritar e a dizer: — Aquela ingrata, ir-se pôr ao pé daquele tratante depois de eu lhe ter dito que não queria, que nem lhe pusesse os olhos! Fazer pouco caso dos meus mandados! E que não possa eu vencer do meu coração e deixá-la!

E punha-se a chorar como uma criança. Forte vontade tinha eu de lhe dar com um chicote quando o ouvia soluçar. Outra noite vinha desesperado porque esperou até às três da manhã e a cachorra não tinha aparecido e esteve a dormir a sono solto. Outra noite porque não lhe tinha sido possível passar-lhe um escrito e o galego já lhos aceitava de má vontade, depois que lhe prometeu uma de seis a qual ainda não apareceu. Outra noite, porque embirrou num carro que estava a pino no meio da rua e lhe esmurrou as ventas, que sabe Deus se foi carro se foi alguém que lho fez por caridade, a ver se tomava emenda. Outra noite, porque quando chegou já foi tarde e já outro mais aguçoso estava falando com a suplicada. Nessa noite cuidei eu que se enforcava (mas nada de novo) e prometeu que havia de matar o tal madrugador. Vejam se ele não tinha tido ânimo de lhe dar naquela ocasião tão própria, como o faria daí a tempos e sem estar à vista o motivo da desgraça! Outra noite, porque tinha metido o pé numa poça e tinha sujado a meia até ao quadrado e não podia sair cedo no outro dia, porque era preciso que fossem primeiro lavadas e enxutas. E ele era tão asseado que fazia tudo pelas suas mãos e mais não tinha ninguém que lho fizesse. E uma noite que esteve a conversar com uma das catorze Marílias, e era o pai dela! Que, no fim de tudo, descompo-lo e desceu abaixo para lhe dizer um segredo. Correu tanto que, quando chegou a casa, trazia os bofes da camisa delidos e mais não eram muitos bofes. Que ele não tinha maus bofes e um coração tão bom que era de todas.

Tinha passado quarenta e tantos escritos de casamento e isso foi no tempo em que ele ainda não sabia escrever. Que depois que não tinha precisão de incomodar os amigos, havia dia de meia dúzia. E uma carta que lhe escreveu uma moça que ele, toda uma noite, não fez mais que lê-Ia, de forma que não tendo eu boa memória, fiquei-a sabendo de cor e era assim:

Senhor Manuel Pachorra.

Se não fora o muito amor que eu lhe conservo, não tornaria a pôr a minha mão em pena para lhe escrever. Porque além de meu pai me dizer absolutamente que não quer que eu me case com vossemecê; que vossemecê é um peralvilho; que vossemecê bebe a sua gota mais do que devera; que vossemecê tem por ofício andar desinquietando as raparigas honestas de casa de seus pais; que a vossemecê todas lhe parecem bem; que vossemecê, se tem ocasião, saca o seu lenço da algibeira, sem ser da sua; que vossemecê, vintém que pede não o paga; que vossemecê me há-de pôr um pau às costas; que vossemecê não me há-de dar de comer &c., eu não tenho feito caso de tudo isto porque o meu amor é maior que isto tudo. Mas que vossemecê nas minhas barbas venha namorar a contrabandista minha vizinha, para ela agora me fazer pirraças da janela abaixo, isto é que eu não posso levar à paciência. E se vossemecê não põe cobro nisto, certamente me enforco. Mande-me vossemecê a resposta pela chaminé e tenha cuidado de a não deitar a horas que o lume esteja aceso, que o que botou ontem à noite caiu nas brasas, incendiou-se e deixou-me como uma brasa, por não saber o que me dizia na sua. De vossemecê,

Afonsa.

Ele picou-se da carta e respondeu-lhe nestes termos:

Senhora Afonsa.

Se seu pai tivesse mais juizo e vossemecê não fosse tão tola, nem seu pai diria a vossemecê o que lhe disse de mim, nem vossemecê me diria a mim o que lhe disse seu pai. Mas a culpa tenho eu por não me meter com gente da minha qualidade. A honra que eu lhe queria fazer da minha mão, era em razão do amor que lhe tinha, que na verdade era um amor como nunca tive a ninguém. Mas nem vossemecê o merece, nem vossemecê sabe o que é amor, nem vossemecê sabe o que é ter às suas ordens um amante desta categoria. De hoje por diante pode vossemecê procurar sua vida, e também pode procurar pai, porque o que Deus lhe deu e que teve o atrevimento de abocanhar a minha pessoa, tenho resolvido mandá-lo para a outra vida no prefixo termo de vinte e quatro horas, a quem vossemecê dará este aviso para que se disponha para a jornada e que não tenha o trabalho de me meter empenhos porque estou resolvido. A vossemecê não a castigo como merecia, pois bem lhe basta a desgraça de descair da minha graça e perder um coração deste calibre, de que hoje nem os fígados lhe quero dar. Muito seu

Manuel Pachorra Sovaço.

Depois de tudo isto, ele sempre cedeu. A rapariga mandou-lhe dizer que o pai confessava a sua inópia e remeteu-lhe, demais, dois cortes para véstias. Fizeram logo as pazes.

Tinha também uma velha que namorava. A essa lhe pilhei eu três escritos que ponho aqui por me parecer que hão-de interessar os meus Leitores.

Primeiro

Tomo a confiança de ser a primeira em escrever-lhe porque a sua verónica tem atacado de tal forma a minha formosura, que ainda que seja indecente ao meu carácter ser eu a primeira que persuado, a paixão de que me vejo possuída não deixa pôr reparo à decência que se me deve. Vossa mercê certamente terá visto nos meus olhos, se bem tem reparado, que lhe estão dizendo amor e o meu coração, na sua presença, palpita tanto que parece que quer sair fora do peito para se lhe mostrar. Conheça a sua fortuna e o meu merecimento e saiba que é a primeira pessoa que me possui com tão pouco custo. De vossa mercê

Esmeralda.

Segundo

Cada vez se aumenta mais a minha paixão e certamente, se o amor lhe não põe limites, nem o Terreiro do Paço será suficiente para tanto amor, e mais vossa mercê tem algum bocadinho de ingratidão. Mas vossa mercê sabe a quem o faz, conhece que ainda estou muito rapariga e que estou no fogo das minhas paixões e, como esperto, conhece que uma noviça de amor custa a perder e a deixar o amante que lhe encadeou a alma. Mas não se engane vossa mercê com isso que pode muito bem a sua esquivez apanhar-me de vez, que eu, sem vossa mercê ser ouvido, entregue o coração a algum dessa roda de amadores que me andam ao socairo. Segur se, e o mais fica por conta da sua

Esmeralda.

Terceiro

Já basta de lhe aturar os seus pinotes. Se eu soubera que vossa mercê era uma alimária anfíbia, há mais tempo que eu tivera escamoteado o meu amor para outra parte. Mas a tola tenho sido eu em lhe fazer confissão e entrega dele, mas desde já lhe digo que de hoje em diante não quero com vossa mercê mais nada, e não se lembre mais dos meus extremos, que eu ponho a sua pessoa num total esquecimento. E se eu pensara que a minha memória se ocupava o mais pequeno minuto com a pessoa de vossa mercê, era capaz de a arrancar da cabeça para a fazer em mil bocadinhos. Deus guarde a pessoa de vossa mercê.

Esmeralda.

Tenho mostrado que tal era o menino e que tais eram as meninas. Mas ele sempre era muito papelão, sem lhe fazer favor nenhum. Comia ópios que elas lhe pregavam como quem comia requeijão e o mais era ele prezar-se de muito esperto e que ninguém lhe fazia o ninho atrás da orelha, quando lho faziam na testa sem ele o sentir. Se ele era tão papalvo que, em vendo moça, já julgava que estava morrendo por ele. Em se sorrindo para ele, ainda que fosse escárnio, já o tomava por amor. Podiam-lhe dar cacholetas que, para ele, tudo era amor e mais amor. Não estava mais na sua mão, tinha nascido para amor e para morrer de amor. Se o derretessem ou metessem num alambique, saía a quinta-essência do amor. Se o amor paga os serviços, forte comenda havia de ter o tal amor em pé.

Mas que desgraca! Que mau pago que lhe deu o amor! Quanto mais se faz, menos se merece! Meteu-se ali a namorar uma rapariga sua vizinha, que o conhecia e sabia muito bem que tal era a peia. A moça fez-lhe mil desfeitas, capacitou-o bem de que não queria nada de semelhante bandalhinho e ele a teimar. A rapariga era sisuda, de cuja qualidade era a primeira que ele encontrava. Receou que a vizinhança lhe imputasse um crime de que não tinha a mais leve culpa. O tolo teimava. Jamais a moça abria a janela que não encontrasse aquele guarda-sol diante de si. Em vez de tomar emenda, começou a dar-lhe descantes até que a rapariga se resolveu a contar tudo ao pai, tintim por tintim. O pai, que era um homem honrado e de bem, mas com um tal entusiasmo de valente, que tinha comprado todos os livros que a sobrinha e a ama de D. Quixote tinham secado ao tio; e a filha, que além de filha lhe parecia uma Helena na formosura e uma Lucrécia na honra, não fez nada, salva tal lugar, Sábado de Nossa Senhora é hoje. Pegou na durindana, pôs-se de parte. Vem o miserável com a guitarrinha e outro que fazia versos da mão para o pé, entra a afinar a garganta e cá o meu paizinho a afiar a espada. E quando ele começava a abrir a boca para entoar a modinha, desentoa-lhe o outro uma cutilada com tal ânsia que se o pilha parte-o de meio a meio. Mas teve a fortuna que, quando levantava a espada, caiu-lhe ao meu amorudo a escaravelha da viola e, quando a cutilada ia a pino, virava-se ele para a ir apanhar (já se sabe, a escaravelha). Não foi nada, bagatela. Tocou no chão com tanta ânsia que partiu, de lés a lés, cinco pedras da calçada. Feriu lume e pegou fogo num cão muito peludo que estava ao pé e que se não é ser cão de água, morre queimado. Com a força da pancada, atormentou-se-lhe a mão, que lhe saltou a espada em Cacilhas, tendo sido o caso no Cais da Pedra. Mas sem perder tempo, antes que o outro apanhasse a escaravelha, apresentou-lhe com a outra mão um tão grande bofetão que fez outra vez lume, porque veio aos olhos de quem o levou. Acabou-se a função com mais dois ou três bofetões e uma roda de pontapés, como quem amassa barro.

Recolheu-se para casa moído como salada. Mandou chamar o cirurgião que o quis logo sangrar, mas ele não consentiu porque tinha muito medo. Levou então umas bichas nas fontes que lhe veio botar uma velha vizinha, a maior faladeira que eu tinha ouvido, para cuja cabeça eu passei porque tive cobiça de saber a fundo de uma velha da qualidade desta, segundo me parecia, e a ela vai a