O Vaqueano/VI

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O Vaqueano por Apolinário Porto-Alegre
Capítulo VI: Moisés


Moisés era um mulato, cuja vida desde a infância passara na caça.

Não havia na Província mais perito e experimentado caçador. Raro era o mês que não fazia descer aos portos mais freqüentados e comerciais, pelo menos, dez peles, ramo de negócios que, de sobejo, satisfazia as suas necessidades.

Uma exígua e diminuta horda indígena, pálido resto da antiga nação guaicanã, obedecia-lhe como a seus tradicionais caciques, recebendo em retomo da submissão, além da amizade sincera e leal, imensos favores do mestiço. Também ele fazia consistir toda a felicidade e alegria de sua existência naquele mundo à parte que criara para si. Casara há quatro anos com uma das mais gentis índias da tribo, e o novo laço mais reatara as relações que existiam.

Todo o poder de Moisés provinha menos do extremo valor e inteligência superior que incutiam respeito aos índios, que da gratidão pelo amor e simpatia que sempre lhes tributava. Nem há melhores penhores que os das dívidas do coração.

Quando rebentara a revolução, procuraram atraí-lo de ambas as parcialidades; porém, convicto de que os brancos que o desprezariam em qualquer outra ocasião, o chamavam agora por mero interesse ou para constituído ignóbil instrumento de suas lutas, teve a coragem e sabedoria de repulsar os encantos mágicos das promessas.

Respondeu que era bastante rico nos matos para desejar maiores posses e quanto às idéias que se debatiam entre os dois partidos, lhe eram indiferentes: porquanto a cor que trazia no rosto de per si o afastava da comunhão dos brancos, onde seria considerado com desprezo.

As derradeiras palavras aos mensageiros merecem ser rememoradas:

- Liberdade?! Quem é mais livre do que Moisés na serrania, onde não há ódio de raças? Onde o homem domina a terra, onde o amigo não mente ao amigo e a mulher não mente ao marido? Não quero mais liberdade do que tenho. Vede. Desde o cerro ali dependurado até o fundo dos taimbés, isto me pertence. Piso a pedra que traz o ouro e a atiro longe. E é isto que vindes oferecer-me? Parti, adeus. O mulato vive bem nas brenhas.

Eis o estereótipo do novo personagem.

Seu caráter ai se reproduz.

Quando as duas turmas toparam na selva e se seguiu o reconhecimento de Avençal e Moisés, este bradou aos asseclas:

- Soltem os homens.

Feito isto, voltou-se para o vaqueano, dominado por luridas e negras recordações.

- Então, José - pronunciou com carinho e expressão paternal -, como depois de doze anos vim encontrar-te em minhas terras?

- É simples, Moisés, não viste os fogos nas abas da serra?

- Vi e vinha para campear, quando um tiro me dirigiu para aqui.

- Pois são as forças do general Canabarro; faço parte delas como vaqueano.

- E o encontro aqui?

- Não tivemos hoje ração de carne; convidei a meus companheiros para tentarem a caça.

- De tigres?!

- Escuta - e em tom baixo prosseguiu -, o general ia mandar-me amanhã à estância de José Capinchos. Sabes que me era impossível, por isso ataquei a fera com a firme tenção de deixar-me ferir. Nesse estado, outro iria. Devia vir sozinho.

- Caramba! E não pensaste em mim?

- Eu não penso mais, Moisés, desde aquela noite. .. Oh! Não a lembro sem me arrepiar as carnes. Desde então procuro a morte e a morte zomba de mim! Pobre Rosita!

- Não tenhas cuidado, José, ela e o irmão ainda ficaram por cá dois anos; depois venderam campos e gadaria e ninguém mais falou deles, nem soube notícias.

- Nem desconfiam para onde foram?

- Não.

- Rosita deve amaldiçoar-me.

- Qual! rapaz. A doninha por ti era capaz de conchavar alma com o demo.

O caçador, notando que o assunto o mortificava, quis distraí-lo.

- Vamos a meus pagos; distam daqui vinte quadras. Lá temos bons assados de veado, tatu, anta e o mais que queiram.

- Ainda bem, que desde ontem não temos uma rês para carnear - refletiu Manduca.

- Com um tempo assim o gado retirou-se para o mato.

Pouco depois se puseram todos em marcha para a de Moisés.

Demorava a habitação do mulato numa clareira circular, impenetrável e oculta para qualquer outro que não fosse ele ou sua gente. O arvoredo, naturalmente cercado de grossos e longos cipós e pamponosas trepadeiras, tinha recebido retoques artísticos!

Assim, uma cinta de bambus cerrava o âmbito de tal modo que uma saracura ou galinhola com dificuldade romperia o ordume de folhas e espinhos. Em seguida a esta defensão que forrava o exterior, na parte interna via-se uma estacada de pau-a-pique, cujas extremidades chanfravam, formando perigosas puas.

Também a entrada não era por ali.

Dum lado desatava-se um cordão de rochedos alcantilados. Entre eles destacava uma larga fenda, conseqüência dum raio ou de abalo na crosta do globo.

Parecia sumir-se nas entranhas da terra, mas quem penetrasse por ela depararia um conduto ou via subterrânea de cinco a seis braças, terminando numa rua assoberbada pela penedia, que, de fora erguida a pino, por dentro era acessível e de fácil subida.

Constituía uma trincheira natural e inexpugnável pela qual se ia à clareira.

Aqui se desenrolava a taba, não estritamente como a dos selvagens, aperfeiçoada pela influência do mulato, marco miliário entre a civilização e a barbaria. As choças ou copés tinham janelas e portas e as últimas de altura que não obrigava a abaixar-se para entrar, como acontece geralmente nas moradas do gentio.

Farroupilhas e índios entraram e momentos após refestelavam-se em torno dum braseiro, onde o cheiro de apetitosa carne lhes pruria o olfato, prometendo em pouco dar o que fazer ao paladar.

Enquanto não começava o br6dio, foram desentanguindo-se com alguns borrachões de chifre cheios de aguardente de palmito.

O vaqueano era o único que se mostrava sombrio no meio da alegria geral.