O Vaqueano/VII

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O Vaqueano por Apolinário Porto-Alegre
Capítulo VII: Os quero-queros


Estamos a 22 de julho.

Anoitecera.

A vila de Laguna, à margem oriental do lago do mesmo nome, destacava nas sombras com suas casas que resplendiam caiadas com cal de marisco.

Era um lugar triste sob o céu invernoso, entre os nevoeiros hibernais, uma cena desoladora, uma perspectiva que estringia o coração.

Mal entardecia, o silêncio reinava.

Os balidos do lago e os bufidos do oceano, quase a meia légua de distância, perturbavam somente a mudez que selava aquele como movimento funerário branquejando no escuro da noite.

À borda do lago, na margem oposta, resvalou uma canoa em direção à vila.

Dois homens a tripulavam.

Talvez pescadores, diria quem os visse.

Abicaram à praia em horas mortas, ataram o barco a uma estaca e cautelosos começaram a subir uma cochilha que demora junto à povoação.

Mal haviam dado alguns passos, um bando de quero-queros levantou vôo fazendo desmesurado alarido.

- Diacho! Os malditos vêm até aqui! - murmurou um deles em tom baixo, em que se sentia a modulação trémula da cólera reconcentrada.

O outro enfiou o olhar pela espessa escuridão e respondeu:

- O irmão não receie, o pássaro da campina vela mais que o branco. O branco. O branco dorme.

No entretanto, as aves pervígeis dos vargedos pátrios continuavam a despertar a solidão com o gárrulo e ruidoso acento.

Os dois vultos deitaram-se por terra, por precaução.

É admirável o papel que representaram na revolução os quero-queros. Eram bombeiros que ambos os partidos tiveram sempre a seu serviço.

Os gansos, um dia, salvaram Roma de cair no poder dos gauleses; eles muitas vezes fizeram abortar ciladas e surpresas bem combinadas e amadurecidos.

Quantos que ainda subsistem daquele cataclismo político não se recordam agradecidos dos amigos voláteis que lhes salvaram a vida de traiçoeira emboscada, em que de certo pereceriam?

Quantos não lhes votam ainda hoje uma espécie de culto, como o romeiro árabe ao katã do deserto!

Quantos?

Porto Alegre sitiada, raro era o dia em que na Várzea e caminhos do Meio, da Azenha e outros não houvesse sanguinários tiroteios e correrias.

De parte a parte inventavam meios de destruição. As guerrilhas não cessavam. Os assaltos noturnos e de surpresa, protegidos pelo arvoredo dos arredores, eram diários.

Também ali velavam os pássaros das campinas do sul, como sentinelas incomparáveis que nunca conciliavam o sono.

Eram eles que davam sempre o sinal de alarma, que frustravam os ardis, onde o sangue espadanaria em tufos, e mais algumas vítimas seriam o êxito da empresa.

Os dois homens, quando viram que tudo permanecia no mesmo estado, continuaram em sua incursão.

Num sobrado, nas imediações da igreja de Santo Antônio dos Anjos, por uma vidraça, derramava-se abundante luz.

O que primeiro ouvimos disse:

- Quem está tão tranqüilamente não se teme de perigos. Esta gente não teve aviso.

- Irmão, a macega está sossegada e oculta a jararaca e a jararaca traz a morte no dente. Vou pedir pousada na casa em que vemos luz. Tomarei informações. Antes de amanhecer, virei dizer-te o que há para partires. Se te acontecer alguma coisa, faze-me ouvir o grito da gaivota.

E, dito isso, partiu.

Três vezes agitou a aldrava de uma porta de rótulas, antes que viessem abrir-lha. Uma negra apareceu afinal e, ouvindo o pedido de pouso, retirou-se, mandando-o esperar. A demora foi curta. Voltou logo para fazê-lo entrar.