O Vaqueano/XIII

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O Vaqueano por Apolinário Porto-Alegre
Capítulo XIII: A lenda


O posteiro estava desesperado, chorava sobre os cadáveres da inditosa família e, na exaltação de seu ressentimento, acusava o mulatinho Moisés do horrendo crime.

A dor que lhe arrancava lágrimas e suspiros em borbotões tinha tal caráter de sinceridade, que ninguém poderia duvidar da amizade que ele tributava a Gil de Avençal.

Mas foi injusto em suas recriminações contra Moisés.

O que então era este da casa? Que papel representava na família?

Nascera de uma escrava e fora liberto na pia batismal. Nas senzalas afirmavam que era filho do estanceiro. Faltavam as provas e quem as pudera apresentar, sua mãe, morrera na ocasião de dá-lo à luz. Todavia o fato da manumissão, sem motivos plausíveis, mormente nesta época, deixara entrever, porventura, alguma coisa de verdadeiro no boato espalhado pelos negros da fazenda.

Quando se consumou a catástrofe sanguinária, ele estava ausente; saíra a tropear, fato que ou Capinchos desconhecia na acusação que lhe fez, ou então de que quis aproveitar para distrair a atenção de sobre si.

De volta, encontra de pé a calúnia, apesar de o defenderem todos os escravos de Gil, e diante da imputação de crime tão horrendo desvaira, foge, busca os sítios mais impérvios da serra, quando poderia demonstrar sua inocência com o depoimento das pessoas entre quem se achava, quando se dera o acontecimento.

Só um ano depois, serenado o espírito, deseeu dos retiros onde convivera com indômitas feras e a já minguada tribo dos guaicanã, procurou a justificação que devia lavar a pecha infamante atirada a seu nome.

Pela ciência criminal a evasão agravaria o suposto delito. Pobre ciência, pois vê no rosto conturbado um documento comprobativo! Pobre ciência que não tenta sondar o oceano dos fenômenos morais, que afasta de si, repele com ar severo e movimentos ríspidos o testemunho da fisiologia! que admitiu uma craveira invariável para o gênero humano, como se todos os corações fossem vazados num mesmo molde e todas as naturezas tivessem idêntica manifestação do sentimento! que, enfim, não deduz dos fastos dos tribunais a luz da verdade que deve conduzi-la e aclará-la, e onde, no entretanto, a face de Lacenaire desorienta os juizes pela cínica cotagem e doce placidez que a reveste, e o inocente Lesurques estremece, titubeia, desmaia ante o aparato e espetáculo da vindita social!

Por ela Moisés fora um sicário, sofreria a última pena; para a consciência do mulato, e para Deus a justiça da terra cometeria a mais clamorosa das iniqüidades. Felizmente, nos tempos que iam, a vítima da caluniosa imputação saiu sã e salva. A ação judiciária não chegava senão tíbia a lugares distantes; até garantia a impunidade. Ninguém, portanto, teve a lembrança de fazer averiguações relativas aos verdadeiros culpados. O ano decorrido começara a apagar a triste impressão, e o pó do esquecimento depusera a primeira camada sobre a tela de horrores.

Moisés tinha lá consigo desconfianças pouco mais ou menos verossímeis. Recaíam de cheio em José Capinchos. O posteiro tornara-se dono da estância, senhor opulento que trajava como o mais guapo monarca das cochilhas, despendia à larga e pretendia os foros de caudilho, quando não havia muito arrastava as chilenas à sombra de Gil. Fortuna e maneiras tão de rebate faziam-no refletir, mas na falta de um indício veemente, que o guiasse à verdade, recalcava na alma a suspeita e suspendia os juizos.

Soube então que o filho mais velho de Avençal conseguira escapar milagrosamente ao ferro homicida. Era José. Procurou-o. Três anos despendeu ele em pesquisas infrutíferas, até que foi depará-lo numa distância de cem léguas. Foi nessa ocasião sabedor do que ignorava a respeito dos episódios da noite do ano de 1813. O pequeno José fora deitar-se e uma negra, que servia na casa de mucama e o estimava como filho, o entretinha antes de conciliar o sono com um desses contos que todo o mundo relembra saudoso dos dias da infância. O menino a escutava preso da atenção que se lhe difundia na pálpebra largamente descerrada.

A história, vamos reproduzi-la pelo caráter peculiar de pertencer à Província e mais certo ao Brasil inteiro. É uma lenda que suaviza o cálice amargo da escravidão, grinalda de odorosas flores entrelaçados às algemas, bálsamo anódino sobre a úlcera que sangra no peito do cativo. Ai vai. Falta-lhe em nosso estilo o pitoresco da linguagem e a fidelidade no desenho dos costumes; resta-lhe, porém, a verdade de fundo:

O RESSUSCITADO

O pai Curruira, filho do reino de Benin, acaba de morrer com 93 anos pelos cálculos de seus companheiros. Morreu, e a tristeza não se estereotipa nos rostos azevichados da cafraria; a angústia e o alarido de carpideiras não cercam o corpo do finado, como última homenagem a seus restos. Ao contrário, o urucongo e o bujamé despedem sons festivos. Cada matrona e cada rapariga se enastrou do melhor que pôde. Colares e manilhas de missangas de coral e vidrilho com caurins entremeados ou pendentes lhe cingem a garganta e os pulsos, fazendo ao reflexo variegado realçar o ébano da cútis. O candombe deslaçado em meneios lascivos, o canto de diapasão áspero e monótono formam o cortejo mortuário em roda do cadáver.

Presidia a festa, que simulava estranha macabra de vampiros ou bruxas, Maria a Conga, a quem a senzala venerava como rainha ou fetiche de um culto profundo.

- Mãe Maria - perguntou um crioulo vivo e esperto como um demônio traquinas como todo moleque -, por que o branco chora quando morre um dos seus e o negro ri?

- O negro - respondeu a respeitável veterana, passando a masca de fumo de um lado para o outro da bochecha - morre aqui para viver na África. Vai ver o berço em que nasceu debaixo das tamareiras e abóboras, vai correr as areias em que brincou em tempo de criança, vai ver a pátria.

O crioulo arregalou ao princípio os olhos, pensou por instantes e, em seguida, coçando a cabeça, a sacudiu em ar de dúvida.

- Quem morre então vive depois? - ajuntou.

- Não crês, menino? Vou contar o que aconteceu ao irmão de Inhabané.

- Mãe Maria vai contar uma história! Hih! Hih! Hih! Venham ouvir.

E de contente saltava como um cabrito. Logo um cardume de cabeças infantis e alegres, mostrando os dentes alvos como as presas do elefante, com as pupilas de gazela avivadas pela curiosidade, ferveu em torno da velha negra.

Músicas, cantos e danças sustaram.

Todos quiseram ouvir a palavra do oráculo de suas crenças, da pitonisa africana que guardava no coração as memórias da pátria distante. Mãe Maria tomou um cepo junto ao fogo. Os mais cruzaram as pernas no chão de argila pousando o cotovelo sobre elas e a face sobre a mão. É a atitude de quem quer ouvir atentamente.

Em pouco nem o mais leve ruído saía do círculo, de gente, cujo centro era a venerando Maria. Até a respiração parecia estar sufocada.

Ela começou pausada como a prudência, solene como um mistério:

- Muitos anos já vão, filhos, desde o tempo em que Inhabané, junto às águas de Cuanza, fazia guerra aos homens do outro lado do mar! Muitos! Quantas vezes já as árvores não despiram as folhas?

- Quem era Inhabané, Mãe Maria? Quem era Inhabané? - interrogaram em coro.

- Rei e senhor de Cassange... A velha que fala agora não era como vêem. Hoje está curvada ao peso dos anos, não caminha, nem pode trabalhar... Oh, naqueles tempos ! Bons tempos em que tinha por cama finas esteiras de Loanda, e vestia lindas roupas de pele e tinha os caurins do mar e pisava o tibar, ambição do branco. Então meu corpo era direito como a palmeira, ligeiro como o gamo dos montes de Kong... Ah! Bons tempos de Cassange que Maria há de tornar a ver!...

- Bons tempos de Cassange! Bons tempos! - repetia multidão com a fidelidade de um eco quando ela curvava fronte senil no seio das recordações e nas saudades do berço.

Depois de instantes de místico recolhimento, prosseguiu:

- Os homens do outro lado do mar venceram a Inhabané, o guerreiro, o valente, a esperança de Cassange. Ele foi preso, ligado e vendido para as terras dos Brasis.

- Mau branco! Mau branco! - rumorejavam os ouvintes com assomos de ódio.

- Inhabané teve um ruim senhor que amou a mulher do cativo e quis tomá-la. Era Kuniah, formosa entre as formosas. E Kuniah resistiu, porque tinha um coração que não era dela, era de Inhabané, seu senhor e seu rei e pai de seus filhos. Kuniah resistiu e teve o corpo cortado ao açoite e foi vendida longe dos filhos e do marido, alegria e sol de sua vida.

- Que dor, Mãe Maria! Que dor! - gemia a turma.

- Inhabané teve uma tempestade aqui - e a velha pôs a mão rugosa sobre o peito -, feriu o perseguidor de Kuniah. Pobre rei! Foi levado ao tronco como o último dos servos, o laço regoou suas carnes, o sangue do príncipe de Cassange ensopou a terra do cativeiro.

Ah! quizília de branco! - E a cafraria saltava de pé, trêmula e fula de cólera, o olhar ardente e sanguíneo, as crispadas pelo ódio e desejo de vingança, o gesto saturado de ameaças.

- Filhos, silêncio! - E desatou um ademane imperativo para que sentassem.

Tudo voltou à imobilidade das cariátides no sopé do antigo monumento.

- O rei de Camange sofreu muito. .. muito! Desonrado procurou um jerivá que recordava a pátria em suas palmas, subiu até o olho do coqueiro, atou um cipó e enforcou-se.

- Pobre Inhabané! - murmuraram em tom pungente.

- Feliz! feliz! repeti, filhos... - E atirava longe de si a masca com um movimento de inspirada.

Todos a fitaram pasmados, Ela continuou.

- Ninguém viu dependurado o príncipe, sem chorá-lo. Quando foram no outro dia buscar o corpo para enterrar tinha desaparecido.

- Tinha desaparecido!? - perguntaram boquiabertos.

- É verdade, Inhabané tinha dormido nas terras do cativeiro para acordar nas terras da pátria.

- Quem viu? - interrogou o crioulo que der, motivo narração.

- Maria viu, menino. Era de madrugada. Maria inda era livre, ia banhar-se nas águas do Cuanza. Então Inhabané saíra dentre as palmas de uma tamareira, contemplava como num sonho o país que há tanto deixara e vinha de novo possuir. Desceu e começou uma guerra de morte contra os inimigos. Esperemos, filhos. O pai Curruira foi hoje, amanhã nós iremos. Quem diz é Mãe Maria.

- Amanhã iremos... nós iremos - repetiam profunda fé.

Por momentos trataram do caso, sem comentários, e em seguida foram renovar com mais entusiasmo as festas em tomo do finado.

Eis o que a escrava narrara ao pequeno José Avençal, pouco mais ou menos.

Era uma cena a que havia pouco assistira nos galpões da senzala.