O Vaqueano/XIV

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O Vaqueano por Apolinário Porto-Alegre
Capítulo XIV: Amaral


Mal terminava, ouve um grito tremendo, seguido de gemidos dolorosos. Corre a ver o que era.

Na varanda, à luz de uma candeia de garavato, cujo eslabão fora torcido com grande esforço para arrancá-lo do muro, onde estava pregado, presenciou um quadro, que a pena não traça com suas mais negras cores, e compreende-o só quem pôde assisti-lo.

Sobre o soalho estorcendo-se em cruas vaseas, Maria, a esposa de Gil; junto um homem degolando o filhinho que a desventurada mãe amamentava. A miséria toda retalhada de golpes, rotas as artérias, arquejante, ainda tinha forças nas derradeiras convulsões da vida para erguer o corpo a meio e pedir com palavras, que vinham em ondas de sangue, pela inocente vítima. Sublime arranco da maternidade! ...

A escrava não pôde reconhecer o assassino, pois estava envolto num imenso poncho talar e mergulhava o semblante nas largas abas de um sombreiro. Recuou espavorida, voou ao quarto de José, fechou a porta por dentro, tomou o menino ao colo, e, abrindo uma janela que dava para o campo, vingou-a de um salto. De passagem incorporou à fugida três companheiros que encontrara, contando-lhes o ocorrido em frases rápidas e interjectivas.

Depois, como caminheiro que embebe sob as patas do cavalo, cochilhas, canhadas, sangas e várzeas, fugindo aos olhos azuis dos boitatás, eles atravessaram durante meses larga extensão da capitania, tendo o cuidado de evitar os povoados.

Grandes e nobres romeiros!

Quando podiam quebrar os grilhões da servidão, faziam timbre em mantê-los, guardando a infância do único senhor com todo desvelo, todo o amor capaz de conter o coração humano para um filho, todo o culto, que se derrama nas aras divinas! Não digam que era a fidelidade do cão! Não, por Deus! Onde há uma alma livre, uma consciência, só pode haver sacrifício e abnegação, nunca o rastejar do animal que é servil, submisso, feliz atido ao jugo, porque não concebe a liberdade e muito menos pode aspirá-la.

Detiveram os passos numa casa nas imediações do sítio em que hoje existe a freguesia de Taim.

Pertencia ao cavalheiro de Amaral, que, em conseqüência de uma série de duelos contrários às disposições da Ordenação, fora obrigado a expatriar-se de Portugal. Nobre pela ascendência, como pelos sentimentos que o exornavam, tivera até o momento em que embarcara ocultamente para o Brasil uma existência agitada e cheia de dissabores, pelo caráter independente que manifestara sempre, como por dissensões com outra família do reino. Então casado e sem filhos, feliz e tranquilo num recanto da América, era um verdadeiro filósofo a ver os dias deslizarem sem nuvens e tempestades, a pensar cotidianamente sobre o homem e a natureza, modificando assim idéias errôneas e grosseiros prejuízos que a educação e determinadas circunstâncias conseguiram inocular-lhe no espírito. Entre os últimos sobressaíam duas estranhas teorias sobre as raças e sobre os castelhanos, mormente estes, que por meio de alguns falsos raciocínios ele chegava a separar do gênero humano.

Não tinha outros senões. Quanto aos motivos que lhe impuseram o voluntário desterro, ninguém os sabia nem mesmo os dizia ele, evitando com desgosto pronunciado a conversação sobre semelhante assunto.

Eis a nova personagem em breve bosquejo.

Quando Amaral ouviu o acontecimento relatado no estilo rústico da negra, conveio de si para si que a catástrofe era extraordinária e deliberou tomar averiguações. O que feito, confirmou-se a verdade.

O tópico final, a salvação da criança, que lhe sugerira a mais tenaz objeção, pela gente que a tinha realizado, veio trazer alguma mudança em sua maneira de pensar.

Foi a ocasião de admirar as frontes cafres, aureoladas da estema de uma realeza que eclipsava o ignóbil ferrete da escravidão. Pela primeira vez, sugeriram-lhe pensamentos, os quais a educação do tempo e os preconceitos sociais não haviam ainda provocado. O negro deixou de ser o orangotango, o ente inferior julgado não só incompleto e defeituoso pelas formas, como pela inteligência que lhe transparecia do crânio. O pobre pongo, o poleá da colômbia terra, a seus olhos começou a reassumir os direitos que lhe negavam por aferro de opinião ou torpe especulação de negreiro; desde então merecia para ele o título de homem. Ponderou com justeza que a inteligência e virtude não se tornavam privativas de uma espécie da grande família humana, e recebeu a caravana de infelizes com os braços abertos e o mesmo entusiasmo que manifestaria por qualquer dos seus.

Trabalhou, enfim, para descobrir o motor de tantas desgraças, porém, como era de esperar, a distância neutralizou a boa vontade e o empenho empregados.