O Vaqueano/XV

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O Vaqueano por Apolinário Porto-Alegre
Capítulo XV: À sombra do umbu


José Capinchos, com faro de tigre que pressente a vítima, muito antes de Moisés, descobriu o esconderijo do mísero arpão.

Uma tarde, Amaral recebeu três hóspedes. Eram o capataz e dois asseclas do antigo posteiro. Vinham em embaixada para reclamar a criança.

O cavalheiro recebeu-os com altivez, sem quebra das leis de hospitalidade.

- Dize a teu amo que o menino me pertence, já o estimo muito para privar-me de sua companhia. Sou casado e não tenho filhos. Vou instituí-lo meu herdeiro. Não duvido, quero crer mesmo com toda a lealdade que ele fosse amigo dos pais; no entretanto, devo recordar-lhe o abandono e menosprezo lançado ao último descendente de uma mal-aventurada gente, pois deixaram-no de tão longe vir bater à minha porta.

Quis insistir o capataz. Ele fê-lo emudecer pelo tom em que continuou:

- Porfiar é inútil. Disputá-lo-ei como a um lance de cenas. Agradeço as boas intenções, sem todavia aceitá-las. Patenteia a teu amo os respeitos e estima de que lhe sou credor, desde que se interessa tanto pelo filho do finado Avençal.

O mensageiro enfiou e retirou-se murcho e cabisbaixo qual raposa apanhada por galinhas. Planejara contudo o rapto da criança e o pusera em prática, se no dia seguinte não vira no curral possantes e rápidos ginetes prontos à menor eventualidade, como peões armados de ponto em branco, na casa, nos campos, por toda a parte, enfim.

Amaral tivera um pressentimento ou o raio do crepúsculo lhe foi bom conselheiro.

Refletira que, para de tão longínquas terras virem em demanda do órfão, era necessário um grande móvel, por isso pusera desde o cambar do dia em armas toda a gente de que dispunha.

Adivinhara. O enviado de Capinchos teve de voltar, abanando as mãos, e com reconcentrado despeito contra o providencial protetor do menino. Meses mal passados surgiu Moisés.

- Venho visitar o pequeno Avençal - disse logo de entrada.

O cavalheiro franziu o sobrolho e perguntou com presteza:

- De onde vem?

- Da Vacaria.

Visos de cólera reverberaram-lhe de todo a fisionomia.

- É muito teimar - disse.

- Como?

- Como?! - E a voz estremecia-lhe nas arcas do peito com estranho rumor. - Ninguém o vê com mil diabos!

- Ninguém o vê! - repetia o outro já meio quente com os modos de Amaral.

- Ninguém o vê o repito. Minha casa é franca para todos, menos para habitantes da Vacaria. - E ia virar-lhe as costas com medo de si mesmo.

- Quem deu ao senhor tal direito? - exclamou o mulato com sobranceria.

- Quem me deu, vilão?! E vens perguntar a mim que stou em meus senhorios? - E o diapasão de estentor casou formidável como o estrondar de rochas que despencam e embatem no declive dos morros.

- E eu reclamo meu irmão - saltou o outro com esfuziada de pampeiro.

A tempestade já desfeita na alma do cavalheiro esvaeceu como um manto de brumas à luz do sol.

- Seu irmão?! ... - E a interjeição prolongou-se semelhante ao som nos acidentes do terreno derramado em despenhos e montes.

- Seu irmão?!!... - E procurava associar no pensamento duas coisas que ele separaria em outra qualquer ocasião, como impossíveis de liga, harmonia ou de qualquer laço de relação. Ainda o prejuízo não desvanecera inteiramente. A intervalos voltava.

Dentro de pouco foi ciente de tudo.

O caçador não ocultou a menor circunstância, concluindo assim:

- Uma coisa peço a vossa mercê, não lhe diga jamais que o mesmo sangue, nos corre nas veias. Pode algum dia envergonhá-lo.

Amaral contemplou aquela fronte bronzeada, com admiração. Uma só frase não lhe ocorreu de momento. Apertou com força a mão do mestiço. Tinha dito tudo. Com mais eloqüência falavam as pálpebras rorejantes ...

Nessa noite tornaram as considerações sobre as raças, ficando indeciso sobre qual delas obteria a primazia. Relativamente, pondo em conta a objeção a que estava votada a negra, a balança de seus juízos propendia contra a branca.

- É admirável! - acrescentou. - Se estivesse em Portugal, juraria por todos os santos do calendário que um filho da África valia tanto como um macaco! Até Moisés, criação híbrida, mescla de diversos sangues, nos atos é um gentil homem de boa estofa!

No dia seguinte, vamos encontrá-los em animado colóquio. O sol sumia a fronte no arrebol auri-róseo da tarde.

Em face à vivenda, anoso umbu espalmava os galhos. As raízes erguidas em socalco formavam cômodo assento. Numa delas está sentado Moisés com o pequeno de Avençal sobre os joelhos. Ao lado Amaral numa dessas poltronas clássicas de espaldo elevado, forradas de couro lavrado de São Vicente, com tabões amarelos e as pernas em cruz.

A réstia loura de crepúsculo dourava a paisagem.

Era um soberbo painel.

De vez em vez Moisés osculava a face do pequerrucho adormecido, em cujo sorriso se adunava o tênue raio da tarde e o raio da inocência.

- A vingança é doce, mas os frutos são amar. Eu quero diga o quanto custa. Não fossem uns endemoninhados botes de espada, estaria a essa hora tranquilo no solar de meus avós.

- Mas... isso de matarem crianças como a perros... Caramba!

- É horrível, é! ...

- Só tigres! Só tigres! ... José deve ser forte, valente guapo, manejador de toda a casta de armas: flecha, pistolão, mosquete, adaga, lança e mais coisas ainda; deve atirar o laço desembaraçado e reter o mais xucro dos novilhos, jogar bolas de maneira a não perder um tiro. Seus inimigos, pelo que penso, são todos campeiros.

- Enquanto ao que sei, homem, bem ou mal há de sair-se, mas lá da flecha, adaga, bolas e laço... Cáspite! Não sei por onde as tomar.

- Não dê cuidado a vossa mercè; aqui passo um ano e... caramba! Verá que o muchachito se tira melhor que o mestre.

- E os adversários?

- Irei desencavá-los, ainda que nas bibocas do inferno.

- E se o matarem, o que não é difícil de prever em negócios assim...

O mulato sorriu e ajuntou.

- Matarem o menino! Deus não seria Deus, e poderiam dizer que Moisés mal avisado andou, quando tomou a espingarda para viver nos matos. Se me chamasse Moisés de Avençal não esperaria tanto tempo, em pessoa iria buscá-los um por um e esmagar-lhes a cabeeça... raça de cobras!