O Vaqueano/XVI

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O Vaqueano por Apolinário Porto-Alegre
Capítulo XVI: Volta aos pagos


O menino cresceu. O rebento fez-se tronco. Mas a harpa fremente de seu coração vibrava a uma idéia fulminante, fibra por fibra estremecia a uma só palavra do vocabulário das paixões humanas: - Vingança!

Vingança?! Vertigem do ultraje, ebriez de sangue, desforço da honra e simultaneamente justiça fora dos códigos.

Vingança?! Mancenilha - pomo de ouro no galho, no lábio fel e veneno!

Vingança?! Abraço da alma sorridente num sonho e da alma esmoída ecúleo de angústia!

Vingança! És tu também uma das sombras a embruscar os traços magistrais do caráter rio-grandense, falha que ninguém pode, nem deve ocultar. Que importa no entretanto?!

Talvez seja o quinhão ou partilha dos povos cavalheirescos, a quem a hospitalidade, a lhaneza, a honra e a lealdade parecem antes virtudes inatas do que obediência às leis do dever ou o resultado de obrigações morais. Lá no fundo de seu deserto envolto no largo cafta, como o árabe se assemelha contigo! Como a própiria generosidade, que tanto o distingue, pare arrancar-lhe do imo do peito o grito de ódio e morte, quando foi cruelmente ofendido.

Avençal, rota a crisálida da puerícia, não via outro fanal nos horizontes da mocidade. Crescera dado a um sentimento que tudo fazia recordar, ora a voz insinuativa e grata de Amaral devassando-lhe os segredos da esgrima, ora a solicitude maternal de Moisés, preparando-lhe o braço nos rudes manejos do campo.

Infante, não teve outra balata acalentando-o no berço; homem, não tinha outra rota a seguir. Era a fatalidade de uma romagem: a herança que o punhal do assassino codicilara na garganta ensanguentada de seus pais.

O céu diria a ele pela voz do Evangelho: - O perdão resgata o crime.

A lógica das paixões dizia-lhe: - Nódoa de sangue lava-se com sangue.

Fora forçoso obedecer aos próprios pensamentos pessoais, e aos ditames de uma educação recebida e conforme às leis que todas as idades têm chamado de honra.

A vingança o armara, ela só devia desarmá-lo um dia.

O cavalheiro nada descurou; mais previdente que o caçador, juntara aos predicados corporais os predicados do espírito. Iniciou-o nos conhecimentos a seu alcance. Deu-lhe mesmo uma tintura da arte heráldica, que enfim de nada servia para o moço mas que satisfazia um dos gostos especiais do preceptor evocando recordações européias.

Quem censurará o esmero e cuidados para lance tão tremendo? Quem? Se a própria história louva em Amílcar o ódio que perpetuou no filho desde tenros anos? Que tamanha diferença existe entre pátria e família, dúplices origens de sentimentos idênticos e fecundos, focos luminosos na esfera da vida social, cujos eflúvios se embebem, amalgamam, liquescem confundidos e se entornam na mesma âmbula - o coração?

Arranquem a víscera que o produz, e, morto o homem, ei-lo destruido para sempre nas desoladoras ruínas da humanidade. Então - vingança -, como todos os sentimentos bons ou maus, sublimes ou repugnantes, não será mais que uma articulação sem sentido, acordando o silêncio de um ermo, o hieróglifo estampado na pirâmide de uma raça extinta.

José de Avençal atingira os 18 anos.

Em casa de Amaral havia grande rebuliço. Corriam daqui para ali em contínua dodadoura. Ajoujavam bois, enfreavam cavalos, carregavam carros, os homens de guerra poliam as armas. Balbúrdia por toda a parte. Dir-se-ia que marchavam à grande expedição como um magote de bandeirantes em véspera de partir.

Afinal saiu a caravana.

A mulher do cavalheiro, a negra que salvara o moço e os escravos que a auxiliaram também seguiam na comitiva.

Decorreram muitos sóis em viagem.

Uma manhã foram surpreendidos por Moisés, que trazia o concurso de seus guaicanã.

O que era? Para que levantar tantos escarcéus? Iam instalar Avençal nos seus domínios como "legítimo senhor de juro e herdade" na frase da antiga etiqueta mantida por Amaral no bando que mandou deitar entre a gente reunida.

Chegaram em pouco na estância que, se com a catástrofe de 1813 ficara durante dois anos uma tapera, depois pelos cuidados de Moisés prosperara mais que em mãos do primeiro dono.

À chegada, festas e bródios, "arruídos e folgares", como dizia esfregando as mãos jovialmente o cavalheiro autor de tanto barulho.

Avençal não sentiu alegria, como era natural. Abalou-o funda comoção apenas viu o teatro do sanguinolento drama, onde pais e irmãos haviam sucumbido sob o punhal vibrado por mão covarde, traiçoeira, infame e anônima, pois nem tivera a coragem de deixar um sinal, a assinatura que se a reconhecesse!... Seu peito arfou semelhante à primeira mareta formada ao cair da tempestade, Soltou das arcas um gemido, de cruciante mágoa e desespero. .. Foi laboriosa a sístole, sufocava-o, todo o sangue afluíara em tufos ao coração.

Quis falar... nenhuma palavra!

Acudiu-lhe aos olhos copioso pranto, refluxo salutar do sofrimento, rocio vivificante na extenuação da vida, que, como a aura suave e o orvalho das névoas erguendo a flor debruçada no hastil, ergueram sua fronte pendida.

- Dize onde o encontrarei, Moisés... Dize e irei buscá-lo além do mundo.

O caçador já desesperava por essa época de levantar o véu ao misterioso acontecimento. Todavia tinha esperança de, mais dia menos dia, descobrir um só vestígio e tanto bastaria para achar o resto. Era o seu fio de Ariadne.

Conversando consigo, sempre repetia entre dentes:

- Deixa estar, teatino fuá, hás de dar a mão e depois corcoveia... e verás!