O Vaqueano/XVIII

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O Vaqueano por Apolinário Porto-Alegre
Capítulo XVIII: A marca dos Capinchos


Estava-se em 1827.

Era por uma noite de procela. O ribombo dos trovões aumentava de intensidade nas cavernas e profundezas seris, a chuva caía em grossas bátegas, que iam açoitar freneticamente a casa da estância, e a rajada do vendaval tinha escassas intermitências. A terra convulsava ao clarear incessante dos relâmpagos. Era a epilepsia da natureza!

O pandemônio transmudado para a Vacaria!

Torrentes espúmeas, levando de envolta troncos e rochas, despenhavam pela rampa dos morros, coleavam em catadupas pelos couvales e desfiladeiros, e frementes e rápidas arrojavam as vagas da inundação sobre as ubérrimas pastagens.

A abóbada do céu era de uma fosforescência deslumbrante e assustadora, Cuspindo, a raros intervalos, um chuveiro de faíscas elétricas.

No entretanto, um homem desvivia fora daquele túmulo. Na sala, recostado à mesa, alheio a quaisquer sensações transmitidas do exterior, em íntimo recolho da alma, ele transbordava de prazer na contemplação de urna imagem que se havia encarnado em sua pessoa. Ele com os cílios semicerrados em doce languidez a via destacar dentro da retina; a sentia unida a seu coração, tão unida como dois cactos gêmeos, como dois raios de uma mesma estrela, duas pétalas de uma mesma flor.

A imaginação o arrebatava do mundo em suas asas coloridas e o deixava entrever uma mansão de felicidade celeste ao lado do anjo que lhe absorvia todos os sentidos.

Bateram de rijo à porta, e antes que o despertassem, foi necessário repetir as pancadas por várias vezes.

Ergueu-se ao ruido, sacudiu os anéis de cabelo derramados sobre a testa e foi abrir.

- Que noite horrível! Quem será capaz de andar a tais desoras e com um temporal destes?

Correu os ferrolhos.

A lufada escancarou os batentes.

O mulato, que há muito não lhe aparecia, surgiu entre os umbrais, entrou e arremessando de si o ponche talar impregnado de água, cingiu com ternura o mancebo.

- Com tal tempo, Moisés?

- Cumpro um voto, Avençal - respondeu com solenidade.

- Qual?

Não obteve resposta.

- Eu te quero como um filho.

- Tenho bem vivas provas...

Ele atalhou-o:

- Isso não! Que não pude dar ainda como sinto, aquilo - e pôs a mão sobre o peito. - Sabes o que recorda esta sala?

- Um crime que clama vingança.

E uma ligeira sombra turvou-lhe o rosto.

- Pois bem, pé no estribo e avante!

- Descobriste? - interrogou com impetuosidade.

- Sabes que teu pai, se morreu, foi fora daqui.

- Sei.

- Amanhã, antes que as barras do dia apontem, estaremos de marcha.

- Uma viagem?

- Perto, umas 50 quadras.

Com escuro partiram. O tempo estiava e prometia um dia bonito.

Breve deixaram o campo e sumiram-se sob o dócil da folhagem pendente em laçarias que gotejavam brilhantes à luz matutina.

Iam silenciosos, embebidos em negros cogitares.

Em torno tudo respirava alegria.

Após uma noite tempestuosa, nada há de comparável ao albor da bonança. A vegetação, que abatera, retoma mais viço e esmeraldino esmalte, mais espalma e estende as ramas; o chilro dos pássaros tem mais frescura e melodia; é o idílio grandioso da natureza, que se expande depois de um espasmo de terror.

O sol já mareava seis horas, quando chegaram junto a uma cajarana secular.

- Aqui - disse o caçador.

Pararam.

No chão havia grande parte de um esqueleto. Faltava-lhe o lado direito desde o fêmur.

- Eis os restos de teu pai.

O moço curvou-se reverente. Orou.

Moisés fez outro tanto.

Igual motivo os unia.

A prece no sertão é sublime. Parece que Deus deve ser mais visível no espetáculo maravilhoso de criação. Crer-se-ia ali que cada folha, cada brisa, cada volátil murmura seu nome em místico segredar, cada gota espelha sua imensidade. Quantas vezes o homem, a sós, no regaço da floresta, não ouve ruídos indefiníveis, que ele não pode adunar no espírito a coisa alguma conhecida? Ora suave cicio como a nota de uma harpa eólia a lhe prurir a alma; ora um som profundo e misterioso a premar-lhe o anélito no lábio? Sempre como uma voz que faz vibrar-lhe as fibras do sensório, uma por uma, chamando-o a cogitações transcendentes sobre imaterial?

Quem fala nas solidões?

De onde vem o mistério que recolhe a alma nas mais recônditas dobras de sua essência?

Por que essa espécie de respeito, melancolia e terror, que nos possui sob o pavilhão viridante das selvas?

Não será a intuição do infinito?

O mesmo fenômeno moral que observamos nos vastos plainos do mar, quando aos pés temos os abismos imperscrutáveis das águas, e sobre a fronte os abismos sem fim do firmamento?

Por isso, cremos que não há templo onde a oração seja mais sincera e mais ouvida.

Em nossas cidades, estábulos em que se embotam as santas Crenças e os ternos sentimentos, o lábio balbucia geralmente o que não sente o coração. Dos fiéis que enchem o recinto de uma igreja, poucos rezam com unção, os mais satisfazem as conveniências sociais, cumprindo automaticamente as fórmulas de uma etiqueta. O culto das cidades, nos tempos que vão, é uma mentira, uma profanação, conseqüentemente. Também o Senhor não se mostra nos focos de egoísmo e hipocrisia; não, tendo levitas, nem adoradores, deixa os rebanhos contaminados pela febre da ouro, pelo vírus de interesses reprovados, e deixa-os para não os ver escravos de si, dos vícios e do crime...

Vai receber o voto das almas como Avençal e Moisés.

Ergueram-se os dois homens bastante comovidos.

Moisés mostrou uma verônica de metal no torso do esqueleto.

- Eis como o conheci. Sabes onde foi ferido? No coragão, traiçoeiramente. E tirou dentre as duas costelas uma faca cravada até o cabo. Apenas saiu este, o ferro estava carcomido pela ferrugem.

- Enterremos os ossos - e mostrou a Avençal uma cova feita.

O moço preencheu para com os despojos paternos as últimas honras fúnebres, resoluto, porém, sem dizer palavra. O mulato afastou-se por espaço, voltando logo. Trazia o fêmur e a ossada da perna e do pé.

- Alguma fera os levou, de certo, para longe.

Cheia de terra a cova, puseram sobre um cruzeiro tosco de madeira, de antemão preparado.

Avençal estendeu o braço para o símbolo das redenções e deixou cair com ligeira emoção estas palavras:

- Meu pai, mais três dias, o teu assassino não verá o sol nascer.

Voltou-se para Moisés.

- Agora partamos. .. Antes, dize quem foi ele... Quem foi?

- Vês isto? - E indigitou-lhe um isqueiro meio soterrado no solo e oxidado pela ação do tempo. Tomou-o do chão e entregou-o juntamente com o cabo da faca, que era de chifre com rudes lavores.

- Então?

- Continuemos.

- Moisés?!

- Ainda mais provas hás de ver. Continuemos.

Devoraram mais algumas dez braças.

Moisés parou. Fez-lhe ver um novo objeto que, pelos vestígios, mostrava ter estado também encravado na terra. Era uma enorme chilena de prata.

Entregou-a ao moço, que a contemplava como quem não o compreendia.

Retrocedeu, sem lhe responder à muda interrogação do gesto, e em igual distância da cajarana, na parte oposta, colheu um fragmento de pau, um tanto eivado e sem cor distinta.

- Era de cotia - disse -, foi cabo de relho, a açoiteira apodreceu, eis o buraco em que entrava o tento e ali está a argola. Gil de Avençal foi batido primeiro com isto... aqui. A bordoada atordoou-o e depois chegou a vez da faca... Sim, foi aqui, pela banda de lá, fugiu. - E emudeceu vergando a fronte.

- Ainda não?

O caçador falou grave e pausadamente:

- Há cinco dias fiz a descoberta que vês, meu amigo, meu filho. Passei muito por perto desta árvore e nada via... As provas do crime estavam escondidas debaixo da galheira seca e troncos atravessados. Descobri por um bambúrrio. Eu corria uma anta. O animal na carreira desembestada levou a madeira por diante e deixou-me ver a ossada. Mas eu tremo em dizer o nome de quem...

Foi interrompido por uma explosão:

- Não sou nenhuma criança, Moisés! Se vivo, sabes bem para que é.

- Então...

E vacilava.

- Oh fala, por Deus!

- Tens na mão o nome... No cabo da faca e do relho, no insqueiro e na chilena... Olha a marca... Coragem, meu irmão!...

O moço reparou, desprendeu um grito desesperado e terrível, abraçou-se ao estípite de um coqueiro, porque os olhos se empanavam na vertigem ao estalar do coração, e caiu nos braços de Moisés.

A marca era a mesma que tinha o gado de José Capinchos.