O longo exílio

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O Longo Exílio
Liev Tolstói, traduzido por Henry Alfred Bugalho


Na cidade de Vladimir, vivia um jovem mercador chamado Ivan Dmitrich Aksionov. Ele possuía duas lojas e uma casa própria.

Aksionov era uma rapaz bonito, cabelos loiros encaracolados, divertido e que gostava duma cantoria. Ainda bastante jovem, ele era dado a beber e, quando passava da conta, se tornava um baderneiro; mas, após se casar, ele parou de beber, tirando uma vez ou outra.

Certo verão, Aksionov ia para a Feira de Nizhny e, ao se despedir de sua família, a esposa lhe disse:

— Ivan Dmitrich, não vai hoje; eu tive pesadelo com você.

Aksionov riu, e disse:

— Você tem medo de que, quando eu chegar na feira, eu caia na farra.

A esposa respondeu:

— Não sei do que tenho medo; tudo que sei é que tive um pesadelo. Sonhei que você retornava para a cidade e, ao tirar seu chapéu, vi que seu cabelo estava grisalho.

Aksionov riu.

— Este é um sinal de boa sorte, ele disse. Aposto que venderei todas minhas mercadores, e trarei alguns presentes para você da feira.

Ele disse adeus à família e partiu.

Após ter viajado metade do trajeto, ele encontrou um mercador a quem conhecia, e eles pernoitaram na mesma estalagem. Beberam chá juntos, depois foram dormir, em quartos contíguos. Aksionov não tinha o costume de dormir tarde e, como desejava viajar enquanto o dia ainda estava fresco, ele despertou o condutor antes de amanhecer e o instruiu a preparar os cavalos.

Então ele se dirigiu ao proprietário da estalagem (que vivia num chalé nos fundos), pagou sua conta e prosseguiu em sua viagem.

Quando havia percorrido uns quinze quilômetros, ele parou para alimentar os cavalos. Aksionov descansou um pouco na entrada duma estalagem, depois adentrou a varanda e, ordenando que aquececem o samovar, tirou seu violão e começou a tocá-lo.

De repente, uma troika apareceu, sinos tilitando, e um oficial desembarcou, seguido por dois soldados. Ele se aproximou de Aksionov e começou a questioná-lo, perguntou com quem ele esteve e de onde ele estava vindo. Aksionov respondeu tudo, e perguntou:

— Não quer tomar um chá comigo?

Mas o oficial continuou interrogando-o:

— Onde você passou a noite anterior? Você estava sozinho, ou com um outro mercador? Você viu este mercador hoje de manhã? Por que você partiu da estalagem ainda de madrugada?

Aksionov tentava imaginar o porquê de ele fazer todas estas perguntas, mas descreveu tudo que tinha acontecido, e então acrescentou:

— Por que você me interroga como se eu fosse um ladrão ou bandido? Estou viajando a negócios, sozinho, e não há necessidade de me interrogar.

Então o oficial, chamando os soldados, esclareceu:

— Eu sou o oficial da polícia deste distrito, e eu o interrogo porque o mercador com o qual você passou a última noite foi encontrado com a garganta cortada. Precisamos vasculhar seus pertences.

Eles entraram na casa. Os soldados e o oficial da polícia abriram as bagagens de Aksionov e as reviraram. Repentinamente, o oficial retirou, dum saco, uma mala, gritando:

— De quem é esta faca?

Aksionov olhou, e, diante da visão da faca enangüentada encontrada em sua mala, ele se assustou:

— E por que há sangue nesta faca?

Aksionov tentou responder, mas mal conseguia pronunciar uma palavra, e apenas gaguejou :

— Eu — não sei — não... minha.

Então o oficial da polícia disse:

— Nesta manhã, um mercador foi encontrado na cama com a garganta cortada. Você é a única pessoa que poderia ter feito isto. A casa estava trancada por dentro e não havia mais ninguém lá. Há uma faca ensangüentada na sua mala, e seu rosto e suas expressões o traem! Diga-me como você o matou e quanto você roubou dele?

Aksionov jurou que não havia feito nada; que não havia visto o mercador depois de eles terem tomado chá juntos; que ele não tinha dinheiro, com exceção de oito mil rublos que lhe pertencia, e que a faca não era dele. Mas sua voz estava trêmula, o rosto, pálido, e ele tremia de medo, como se ele fosse culpado.

O oficial da polícia deu ordem aos soldados para prendê-lo e pô-lo na carroça. Enquanto eles amarravam-no os pés e o arremessavam para dentro da carroça, Aksionov fazia o sinal da cruz e se lamentava. Seu dinheiro e mercadorias foram confiscadas, e ele foi enviado para a cidade mais perto e aprisionado. Investigações sobre seu caráter foram feitas em Vladimir. Os mercadores e outros habitantes da cidade disseram que, no passado, ele costumava beber e vagabundear, mas que ele era um bom homem. Chegou o dia do julgamento: ele foi acusado de ter assassinado um mercador de Ryazan e roubado dele vinte mil rublos.

Sua esposa se desesperou e não sabia no quê acreditar. Os filhos dela eram todos pequenos: um ainda era bebê de colo. Levando todos consigo, ela foi até a cidade onde seu marido estava preso. A princípio, não permitiram que ela o visitasse, mas depois de muito implorar, ela obteve permissão dos oficiais, e o encaminharam até ele. Ao ver seu marido com uniforme de presidiário e acorrentado, trancafiado com ladrões e criminosos, ela desmaiou, e não voltou a si por longos minutos. Então ela trouxe para perto de si as crianças e se sentou ao lado dele. Ela contou para como estavam as coisas em casa e perguntou sobre o que havia acontecido com ele. Ele explicou tudo, e ela perguntou:

— O que podemos fazer agora? Temos de pedir ao Czar para não deixar um homem inocente perecer.

Sua esposa lhe disse que haviam enviado uma petição ao Czar, mas que não havia sido aceita.

Aksionov não respondeu, apenas baixou o olhar.

Então sua esposa disse:

— Não foi em vão eu ter sonhado que seu cabelo tinha ficado grisalho. Você se lembra? Você não devia ter viajado naquele dia.

E deslizando os dedos pelos cabelos dele, ela perguntou:

— Vanya, querido, diga a verdade para sua esposa; não foi você quem fez isto?

— Até você suspeita de mim também! disse Aksionov e, escondendo o rosto com as mãos, começou a chorar. Então um soldado veio e disse que a esposa e as crianças tinham de ir embora; Aksionov se despediu da sua família pela última vez.

Quando eles haviam partido, Aksionov se recordou do que tinha sido dito, e se lembrou que sua esposa também havia suspeitado dele, e falou para si mesmo:

— Parece que só Deus sabe a verdade; é para Ele apenas que devemos recorrer, e Dele apenas que devemos esperar misericórdia.

E Aksionov não escreveu mais petições; perdeu toda a esperança e apenas rezava para Deus.

Akvionov foi condenado a ser chibatado e enviado para as minas. Ele foi açoitado com um chicote, e quando os ferimentos feitos pelo chicote foram curados, ele foi mandado para a Sibéria com outros condenados.

Por vinte e seis anos, Aksionov viveu como um prisioneiro na Sibéria. Seu cabelo ficou branco como a neve, e sua barba cresceu longa, fina e cinza. Toda sua alegria se esvaiu; ele se acorcundou; caminhava vagarosamente, falava pouco, nunca ria, mas orava constantemente.

Na prisão, Aksionov aprendeu a fazer botas, o que lhe rendia algum dinheiro, com o qual ele comprou A Vida dos Santos. Ele lia este livro enquanto havia luz suficiente na prisão; e, aos domingos, na capela da prisão, ele lia as lições e cantava no coro; pois sua voz ainda estava boa.

As autoridades da prisão gostavam de Aksionov por sua submissão, e seus colegas de cárcere o respeitavam: chamavam-no “padrinho”, ou “o Santo”. Quando eles queriam pedir algo para as autoridades da prisão sobre qualquer assunto, eles sempre faziam de Aksionov seu porta-voz, e quando havia disputas entre os prisioneiros, eles vinham a ele como conciliador, para julgar a questão.

Aksionov não recebia notícias de casa e não sabia até mesmo se sua esposa e filhos estavam vivos.

Um dia, uma nova leva de condenados chegou à prisão. À noite, os antigos prisioneiros reuniram os novos e os perguntaram de quais cidades ou vilas eles tinham vindo, e quais eram suas condenações. Aksionov se sentou no meio deles, perto dos recém-chegados, e ouviu, com ar pesaroso, ao que eles diziam.

Um dos novos condenados, um homem alto, por volta dos sessenta anos, barba grisalha bem aparada, contava aos outros porque ele foi preso.

— Bem, amigos, ele disse, eu apenas peguei um cavalo que estava atado a um trenó, fui preso e acusado de roubo. Aleguei que eu o havia pegado apenas para chegar em casa mais rápido e que depois eu o devolveria; além disto, o condutor era um amigo pessoal meu. Eu disse, então:

— Está tudo bem.

— Não, eles responderam, você o roubou.

Mas como e onde eu o havia roubado eles não conseguiam determinar. Certa vez, eu fiz algo realmente errado e devia, com razão, ter vindo para cá há muito tempo, mas, àquela época, eu não fui pego. Agora, fui enviado pra cá por nada.... hum, mas eu estou mentindo pra vocês; já estive na Sibéria antes, mas não fiquei por muito tempo.

— De onde você é? — alguém perguntou.

— De Vladimir. Minha família é daquela cidade. Meu nome é Makar, e eles também me chamam Semyonich.

Aksionov ergueu a cabeça e perguntou:

— Diga-me, Semyonich, você sabe alguma coisa sobre a família de mercadores Aksionovs de Vladimir? Eles ainda vivem?

— Conhecê-los? Claro que sim. Os Aksionovs são ricos, apesar de o pai estar na Sibéria — um pecador como a gente, pelo que tudo indica! E você, vovô, como veio parar aqui?

Aksionov não gostava de falar sobre sua desgraça. Ele apenas suspirou e disse:

— Por meus pecados, estou na prisão há vinte e seis anos.

— Quais pecados? — indagou Makar Semyonich.

Mas Aksionov apenas respondeu:

— Bem, bem — eu devo ter merecido!

Ele não teria contado mais anda, mas seus companheiros narraram aos recém-chegados como Aksionov havia vindo parar na Sibéria; que alguém havia matado um mercador, posto a faca em meio os pertences de Aksionov, e como ele havia sido condenado injustamente.

Ao ouvir isto, Makar Semyonich fitou Aksionov, deu um tapa no próprio joelho e exclamou:

— Nossa, isto é incrível! Realmente inacreditável! Como você envelheceu, vovô!

Os outros o perguntaram por que ele estava tão surpreso, e onde ele havia visto Aksionov antes; mas Makar Semyonich não respondeu. Ele apenas disse:

— É incrível que nós tenhamos nos encontrado aqui, camaradas!

Estas palavras fizeram Aksionov imaginar se este homem sabia quem havia matado o mercador; então ele perguntou:

— Será que você, Semyonich, já não ouviu sobre este caso antes, ou talvez tenha me visto?

— Como pude não ter ouvido? O mundo está repleto de boatos. Mas isto foi muito tempo atrás, e já me esqueci do que ouvi.

— Será que você não ouviu quem matou o mercador? — perguntou Aksionov.

Makar Semyonich riu, depois respondeu:

— Deve ter sido aquele em cuja mala a faca foi encontrada! E se outra pessoa a escondeu lá, “ele não é um ladrão, até ter sido pego” como diz o ditado. Como ele poderia ter posto uma faca em sua mala, enquanto você escorava sua cabeça nela? Você certamente teria acordado.

Ouvir estas palavras fez com que Aksionov tivesse certeza de que este era o homem quem havia matado o mercador. Ele se levantou e saiu dali. Durante toda a noite, Aksionov ficou acordado. Ele se sentia terrivelmente infeliz e todo tipo de imagens surgiu em sua mente. Havia a imagem de como era a sua esposa quando ele se despediu dela para ir à feira. Ele a via como se ela estivesse presente; o rosto e os olhos dela surgiam diante dele; ele a ouvia falar e rir. Então ele viu seus filhos, pequeninos, assim como eles eram àquela época: um vestindo um casaquinho, o outro, no colo da mãe. E, então, ele se lembrou de como ele costumava ser — jovem e feliz. Ele se lembrou de como ele estava sentado, tocando violão na varanda da estalagem, quando ele foi preso, e como ele estava livre de preocupação. Ele viu, em sua mente, o local onde ele foi açoitado, o verdugo, e as pessoas ao seu redor; as correntes, os condenados, todos os vinte e seis anos que passou na cadeira, e seu envelhecimento precoce. Pensar em tudo isto o fez se sentir tão miserável que ele estava prestes a se matar.

— E tudo isto é obra daquele vilão! — pensou Aksionov. E sua raiva contra Makar Semyonich era tão grande que ele ansiava por vingança, mesmo que ele se arruinasse por causa disto. Ele continuou recitando as preces durante toda a noite, mas não obtinha paz. De dia, ele não conseguia chegar perto de Makar Semyonich, nem mesmo olhar para ele.

Duas semanas se passaram deste jeito. Aksionov não conseguia dormir à noite, tão infeliz que não sabia o que fazer.

Numa noite, enquanto ele andava pela prisão, ele reparou que um pouco de terra saía de sob um dos beliches nos quais dormiam os prisioneiros. Ele parou para ver o que era. De repente, Malar Semyonich se arrastou de sob o beliche, e olhou assustado para Aksionov. Este tentou passar sem olhar para ele, mas Makar o agarrou pela mão e lhe contou que ele havia cavado um buraco sob a parede, livrando-se da terra ao escondê-la em suas botas de cano longo, e esvaziando-as todos os dias na estrada por onde os prisioneiros eram encaminhados ao trabalho.

— Bico fechado, velho, e você poderá fugir também. Se você der com a língua nos dentes, eles me açoitarão até tirar meu couro, mas eu darei um fim em você primeiro.

Aksionov tremia de raiva, enquanto fitava seu inimigo. Ele desvencilhou sua mão, dizendo:

— Não tenho vontade de fugir, e você não precisa me matar; você me matou muito tempo atrás! E sobre delatá-lo — talvez eu o faça, talvez não, dependendo de como Deus me orientar.

No dia seguinte, enquanto os condenados eram levados para o trabalho, os soldados do comboio perceberam que um ou outro dos prisioneiros esvaziava um pouco de terra de suas botas. A prisão foi vasculhada e encontraram o túnel. O governador veio e interrogou todos os prisioneiros para descobrir quem havia cavado o buraco. Todos negaram ter algum conhecimento sobre isto. Aqueles que sabiam, não trairiam Makar Semyonich, cientes de que ele seria chibatado até quase a morte. Por fim, o governador se voltou para Aksionov, que ele sabia ser um homem justo, e questionou:

— Você é um ancião de confiança; diga-me, diante de Deus, quem cavou o buraco?

Makar Semyonich agia como se ele não estivesse preocupado, olhando para o governador e quase sem espiar Aksionov. Os lábios e mãos de Aksionov tremiam e, por um longo tempo, ele não conseguiu pronunciar uma palavra sequer. Ele pensou, “por que eu deveria proteger aquele que arruinou minha vida? Deixe que ele pague por aquilo que eu sofri. Mas, se eu contar, eles provavelmente o açoitarão até lhe arrancar o couro, e talvez eu tenha suspeitado dele erroneamente. E, no final das contas, que bem isto fará para mim?”

— Bem, ancião, repetiu o governador, diga-me a verdade: Quem andou cavando sob a parede?

Aksionov fitou Makar Semyonich, e disse:

— Não posso contar, sua excelência. Não é a vontade de Deus que eu fale! Faça o que quiser comigo; estou em suas mãos.

Independente de quanto o governador tentasse, Aksionov não disse mais nada, e tiveram de abandonar a questão.

Naquela noite, quando Aksionov estava deitado em seu leito e quase começando a adormecer, alguém veio, em silêncio, e se sentou na cama dele. Ele perscrutou a escuridão e reconheceu Makar.

— O que mais você quer de mim? — perguntou Aksionov — Por que veio até aqui?

Makar Semyonich permaneceu em silêncio. Então Aksionov se sentou e perguntou:

— O que você quer? Vá embora, ou eu chamarei a guarda!

Makar Semyonich se inclinou em direção a Aksionov e sussurrou:

— Ivan Dmitrich, perdoa-me!

— Por quê? — perguntou Aksionov.

— Fui eu quem matou mercador e escondeu a faca em suas coisas. Eu pretendia matar você também, mas eu ouvi um barulho vindo de fora, então escondi minha faca em sua mala e fugi pela janela.

Aksionov se calou, não sabia o que dizer. Makar Semyonich deslizou para fora do beliche e se ajoelhou no chão.

— Ivan Dmitrich, ele suplicou, perdoa me! Por amor de Deus, perdoa me! Vou confessar que fui eu quem matou o mercador, você será libertado e poderá voltar pra casa.

— É fácil para você falar, disse Aksionov, mas eu sofri por sua causa durante estes vinte e seis anos. Para onde eu iria agora? Minha esposa está morta, e meus filhos se esqueceram de mim. Não tenho para onde ir...

Makar Semyonich não se levantou, mas batia com a cabeça no chão.

— Ivan Dmitrich, perdoa-me! — ele gritava — Quando eles me açoitaram com o chicote, não foi tão difícil de suportar quanto é agora olhar para você... Mesmo assim você teve pena de mim e não me entregou. Por Cristo, perdoa-me, eu sou um desgraçado!

E ele começou a soluçar.

Quando Aksionov o ouviu soluçando, ele também desatou a chorar.

— Deus o perdoará! — ele disse — Talvez eu seja cem vezes pior do que você.

E ao dizer estas palavras seu coração se tornou leve e a saudades de casa o deixou. Ele não desejava mais deixar a prisão, mas apenas esperava pela chegada da hora derradeira.

A despeito do que Aksionov havia dito, Makar Semyonich confessou sua culpa. Mas quando a ordem de soltura foi emitida, Aksionov já havia morrido.