O moço loiro/IX

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O moço loiro por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo IX: Noites de visitas


Félix, com o dogue nos braços, alcançou para logo o perdão das parvoíces que haviam dito a Rosa, que recebeu, apertou contra o peito e beijou cem vezes o feliz felpudo animalzinho, pelo que já o padecente primo começava a fazer uma quadrinha imitante de outras por ele lidas, e principiava a dizer assim:

Quem me dera ser cachorro,

Para...

Quando foi estagnada sua veia poética pela repentina chegada de Tomásia, que, ouvindo as risadas que há pouco tinham soado, vinha pedir a explicação delas. Encontrando o dogue nos braços de sua filha, seu rosto tomou expressão de cólera; mas cedo riu-se também com a melhor vontade, sabendo do qüiproquó de seu sobrinho, e em louvor de tal prometeu a Rosa fechar os olhos à sua paixão pelo cãozinho.

Félix, que já se achava mais a sangue-frio, reparou então que alguma novidade devia haver na casa de sua tia; a sala estava cuidadosamente ornada; havia flores frescas nos vasos, e velas ainda virgens nos castiçais; as duas senhoras mostravam-se vestidas no último apuro da mais afetada simplicidade.

— Então que quer dizer isto? perguntou ele; minha tia, eu aposto que se esperavam visitas aqui!

— E ninguém será tão louco que queira perder apostando contra ti, respondeu Tomásia, sentando-se com um cuidado admirável para não amarrotar o vestido.

— Mas quem são, portanto, as pessoas que se devem mostrar hoje?... eu quero saber se me cumpre fugir ou ficar.

— Fica, fica, meu Félix, ao menos para me ajudares a sofrer com paciência as parvoíces do Sr. Estanislau, de sua terrível metade, desenxabida filha, e malcriado filho... eu bem me não quero meter com semelhante gente... são as amizades de meu marido.

— Porém, minha mãe, disse Rosa, em compensação meu primo apreciará a sociedade de D. Mafalda, que sem dúvida traz consigo a lindeza de sua sobrinha.

— Fico, minha prima, fico; ainda que seja só para ouvir D. Mafalda e ver D. Inácia.

— Pois o que tem de bom ouvir-se D. Mafalda? perguntou Tomásia.

— Muito, tiazinha; ela sabe e conta a crônica dos mortos, dos vivos, e até dos que ainda estão para nascer.

— E o que tem de bom ver D. Inácia? inquiriu Rosa sorrindo-se de antemão.

— Misericórdia!... minha prima!...

— Ora... estou vendo que o senhor não a queria...

— Oh!... se a queria! mas para ganhar minha vida, andando pelo mundo a mostrá-la como raridade; que carão, minha prima, que carão!...

— Quanto mais se ela não andasse de vestido tão comprido.

— Então por quê?

— Tem as pernas enormemente zambras, e um pé duas polegadas maior do que o outro.

— Bravo! que belo achado!

— Mas que é isto, meu primo, que alegria é essa?...

— Um feliz achado; um amigo meu se ocupa em escrever os Mistérios do Rio de Janeiro, e vou oferecer-lhe em D. Inácia, uma cambeta.

— Cala-te, língua má! disse por entre risadas de gosto Tomásia, cala-te e esperemos todos pelas nossas visitas.

No entanto, que estas cenas se passavam em casa de Venâncio, em duas outras casas estiveram desde as sete até às oito horas e meia da noite, demonstrando toda a sua paciência dois pobres homens, mártires da moda.

Porque, em verdade, não é um martírio; mas é a provação mais segura da paciência de um homem, o fazê-lo esperar por uma senhora, gamenha, que se veste para sair; assim como no fogo se prova o ouro e a prata, assim também nessa longa hora, em que o pai ou marido leva a bocejar, coçar a cabeça, passear pela sala e consultar o relógio, fica-lhe provada a santa virtude da paciência, e, o que é mais, são-lhe de justiça descontados boa meia dúzia de seus pequenos pecados.

De ordinário as senhoras fazem voto de sair cedo de casa, pois que, principalmente entre as moças, não se conta uma só que não beba os ares por uma noite de teatro, de visita às amigas, ou de passeio pela Rua do Ouvidor; mas, quando se vêem defronte do toucador (aqui para nós, um toucador é a cachaça das moças) esquecem-se das horas que passam, e de lá se não desgrudam, sem que os pais ou maridos gritem por elas cem vezes, de cansados de esperar que se acham.

Há, no entanto, duas cenas sobremaneira apreciáveis: aqui se vê um homem que, apertado dentro de sua casaca e enforcado por sua gravata, passeia impaciente ao longo da sala; lá, uma ou meia dúzia de moças, que, firmes ante o toucador, dão graças à natureza, pois não há nenhuma que se não julgue bonita, e arengam e gritam com as escravas e criadas para que as apertem até o ponto de sufocá-las.

Na sala, o pobre homem exclama de momento a momento: "andem, senhoras! venham meninas! pois ainda não estão prontas?"... do toucador responde umas delas: "já vamos, meu paizinho! estamos pondo os anéis" e ainda lhes falta todo o ânimo preciso para afastar-se defronte do feiticeiro toucador... e ainda elas se ocupam em beliscar as orelhas para torná-las vermelhas, em morder os lábios para fazê-los rubros, em preparar certo mover neles para fingir um sorriso, com que derrotem, quem o merecer, e ensaiar um quebrar de olhos com que ponham em fino cascalho o coração mais de pedra que lhes venha à mente conquistar.

Finalmente, depois que na sala muito se esperou e se gritou, sai a senhora do toucador, exclamando que não se pode aturar um homem rabujento, e as meninas confessando em segredo que seu paizinho, à medida que se vai fazendo mais velho, se está tornando mais impertinente. Ainda ao descer a escada, e mesmo da porta da rua, elas voltam ou mandam buscar o vidro de essência de rosas, a flor, o leque, o lencinho escolhido e outras coisinhas, de que ordinariamente se esquecem para lembrar-se nesse lugar o que não deixa de ter seu mérito no grande tom. Em resultado é sempre uma vitória de peso o vê-las em ordem de marcha. As senhoras negam estas observações; mas... respondam os mártires. Foi pouco mais ou menos isto mesmo o que se passou com o Sr. Estanislau, e com Brás-mimoso, que tinha sido convidado para acompanhar D. Mafalda.

Às oito horas e meia da noite chegaram as visitas com diferença de minutos uma da outra. Escusado é dizer que muito tempo gastaram as senhoras em dar-se muitos beijos, e em dizer-se mil coisinhas muito lisonjeiras, de que no interior elas mesmas se estavam rindo por havê-las dito.

Achavam-se, pois, presentes o Sr. Estanislau com sua mulher, filha e filho; o Sr. Brás-mimoso com D. Mafalda, e D. Inácia; e Venâncio, Tomásia, Rosa e Félix.

Manduca tinha ido a um teatrinho de bonecos; divertimento de que era muitíssimo apaixonado.

Depois de sentados na sala, a sessão começou, como era de esperar, pela apresentação da recém-nascida, que foi trazida e mostrada a todos, passando pelo colo de todas as senhoras, recebendo um beijinho de cada uma delas.

— Dou-lhe os parabéns, Sr.ª D. Tomásia, disse D. Carlota, que assim se chamava a mulher de Estanislau; sua filha é um perfeito cupidinho.

— E que viveza, minha senhora!... quando me vê já estende os bracinhos e move com os lábios, como para dizer — mamãe; olhe — Má já ela chegou a dizer ontem à tarde... é o meu encanto... ri-se... brinca... conhece a todos de casa... não chora de noite... enfim, não é por ser minha filha, mas eu nunca vi criança como esta.

— Isso é verdade... eu nunca vi criança como esta, disse automaticamente Venâncio.

— Com quem se parece, Sr. Estanislau?...

O Sr. Estanislau, na verdade que quando a criança lhe fora apresentada, havia dito — que lindo anjinho! — mas, aqui para nós, nem de leve lhe reparara nas feições; todavia, ouvindo a pergunta de Tomásia, entendeu que deveria responder satisfatoriamente, e por isso disse sem hesitar:

— Ora, minha senhora... basta um rápido olhar para se reconhecer o retrato de V. S.ª no belo rosto daquele querubim!...

— Então Venâncio, não te tenho eu dito que esta menina é o meu retrato?...

— Basta vê-la, Tomási, eu penso do mesmo modo.

— Olhem... exclamou Tomásia... olhem como ela chupa o dedo!... que graça! que encanto!... quer mamar e não chora: uma outra criança já nos teria ensurdecido com seus vagidos; leva-a rapariga, leva-a com cuidado e dá-lhe de mamar; por esta vez...

— As crianças deste tempo, disse D. Mafalda, são todas vivas e maliciosas logo que nascem; desde que se proclamou a constituição não se vê mais criança tola.

— Tomara eu que chegasse o dia do batizado!...

— Por falar no batizado, já sei que se deve achar em trabalhos com o seu baile.

— O certo é que me tenho visto doida com pedidos de convites!

— A propósito, minha tia, disse Félix, devo dar-lhe conta de minha comissão.

— De que comissão me falas, sobrinho?

— Do convite que me obriguei a oferecer ao Sr. Hugo de Mendonça.

— O Sr. Hugo de Mendonça?... disse Estanislau; é o homem de quem te falei, minha Carlota.

— O homem que tem uma filha que diz ser bonita?...

— Esse mesmo.

— O pai da jovem a quem chamam romântica?... perguntou D. Rita, filha de Estanislau.

— Exatamente, respondeu Félix.

— Mas que tem ela para se chamar romântica?... tornou Carlota.

— Eu não sei; ainda não a vi.

— Eu já tive a honra inapreciável de vê-la, disse com ar meio irônico a sobrinha de D. Mafalda.

— E então?...

— E então?...

— Pinte-nos esse belo anjinho.

Todos se voltaram para D. Inácia e fizeram voto de lhes prestar a maior atenção. Brás-mimoso era, porém, da roda, o que se via mais atrapalhado: o filho de Estanislau, menino de sete anos, o rapazinho mais espirituoso do Rio de Janeiro, como supunha Carlota, o não deixava parar; empregava todo o seu espírito em incomodar o pobre homem; havia principalmente implicado com a corrente do relógio e com os belos cachos da postiça cabeleira de Brás-mimoso.

— Espere, nhonhô... Sr. Juca... espere, disse ele.

— Aquieta-te, Juca... olha que eu te prendo em uma cadeira, acudiu Estanislau.

— Estanislau, deixa a criança, exclamou Carlota; tu sabes como o Sr. Brás ama o nosso Juca... aposto eu, que ele está gostando... Juca é tão engraçado...

— Sem dúvida, tornou Brás-mimoso meio desapontado, eu gosto muito dele... venha, Sr. Juca... sente-se aqui no meu colo.

O Juca não esperou segundo convite; sentou-se no colo de Brás-mimoso que, para vingar-se do menino, que com as mãos lhe torcia a corrente do relógio e com os botins lhe esfregava as calças, deu-lhe um comprido beijo na face, fitando os olhos em D. Rita.

— Mas, meus encantos, disse Rosa a D. Inácia, a romântica, a romântica?...

— A romântica... é... uma moça.

— Até aí sabemos nós; falta o essencial: principiemos pela idade quantos anos tem?...

— Não lhe vi ainda a certidão de batismo; a tal respeito não será bom fiarmo-nos no que ela disser.

— É bonita?...

— Isso é conforme... para mim todas são bonitas.

— Ora...

— Ora, não; se quiserem, o que eu posso fazer é dar os princípios, e depois podem as senhoras tirar a conseqüência.

— Pois comece, meus encantos; não vê a nossa ansiedade?...

— Começarei pelos cabelos... são negros... negros de meter medo!...

— Lisos ou crespos?...

— Não se conhece bem... parecem crespos; mas assim uns crespos à custa de muito trabalho...

— Curtos?...

— Não serão curtos; mas logo se adivinha que ela há de vir a ser calva.

— Oh! exclamavam todas as senhoras a um tempo, isso é horrível!...

— A testa, continuou D. Inácia, é alta; mas sem nobreza...

— Antes fosse baixa... isso é já um defeito, acudiu Rita, uma testa alta sem nobreza... vejam só como há de ser.

— Os olhos?...

— Os olhos... na verdade que são grandes e pretos; mas ao mesmo tempo são amortecidos... requebrados...

— Santa Bárbara! gritou D. Carlota, olhos requebrados são coisas muito indecentes... antes ser cega...

— O nariz... não pequeno... é afilado... a falar seriamente, eu não julgo o nariz dela bem-feito.

— Eu faço idéia, disse D. Rosa, dando uma risada.

— Os lábios são rubros... quando ela os morde... é um hábito que ela tem desde criança.

— Olhem que tal!... assim todos têm lábios bonitos.

— Os dentes muito brancos... ora este excesso...

— É um sinal de tísica pulmonar complicada com tubérculos pulmonares, acudiu Tomásia.

— O queixo... eu não me lembro bem se ela tem queixo!

As senhoras desataram a rir.

— A tez é branca, muito branca... não é amarela; mas também ela não tem a palidez da moda... a palidez romântica...

— É uma cor sem alma.

— Isso mesmo, minha mãe; o colo não é lá essas coisas... os braços podiam ser mais bem-feitos... as mãos um pouco mais brancas... os dedos... os dedos tão finos que causam pena...

— Adiante, adiante, meus encantos.

— Que direi mais... meus encantos, você bem sabe que o corpo se arranja muito bem com algodão, saias e vestidos, de modo que só parece mal feita quem quer assim parecer.

— Por conseqüência?... perguntou Félix rindo-se.

— Há de ser calva, disse uma.

— Tem olhos indecentes, disse a outra.

— Não é bonita.

— É feia.

— É horrível.

— Não, não, tornou D. Inácia, ela não é lá essas coisas que querem dizer; mas também não consinto que a julguem horrível... olhem, eu simpatizei com ela; talvez seja suspeita por isso; pois quem simpatiza com uma moça, sempre a julga melhor do que na verdade é.

— Pois bem, disse Rosa, nós a veremos em poucos dias; porque não creio que seu pai rejeitasse o convite que levou meu primo.

— Ah! acudiu Tomásia; é verdade, Félix, vamos ao resultado da tua comissão.

— Foi uma batalha, minha tia.

— Como?...

— É o caso que a mãe do Sr. Hugo de Mendonça detesta os bailes, tanto como qualquer outro progresso nacional, e por conseqüência opôs-se furiosamente à aceitação do convite.

— Então tem o atrevimento de rejeitar?

— Ela por certo que não virá ao sarau de minha tia.

— Também não se precisa de semelhante original; e o Sr. Hugo?...

— Finalmente aceitou o convite, depois de uma discussão de duas horas, em que a Sr.ª Ema de Mendonça saiu fora da ordem mais de cem vezes.

Um grito de Brás-mimoso interrompeu a Félix. Todos olharam: o mais extravagante sucesso tinha acontecido ao infeliz gamenho; o Juca, que não lhe havia mais deixado o colo, e que tinha passado o divertimento de suas mãos da corrente do relógio exclusivamente para os cabelos emprestados de Brás-mimoso, em um dos arrancos que lhes deu, atirou a cabeleira ao meio da sala, de modo que a linda calva de Brás-mimoso ficou patente aos olhos de toda a sociedade.

Seguiu-se um momento de contração de risadas.

Um outro de hilaridade prolongada.

Enfim, Estanislau passou a repreender o Juca; quando, porém, se dispunha a pô-lo de penitência em uma cadeira, Carlota chamou para junto de si o filho e deu-lhe três beijos seguidos, como mãe muito boa e extremosa que era.

Enquanto Brás-mimoso concertava a cabeleira, chegou o chá.

Depois do chá D. Inácia cantou uma modinha, D. Rita um romance, e Brás-mimoso um lundu.

Às onze horas as senhoras levantaram-se para retirar-se, às onze horas e meia chegaram ao topo da escada, e alguns minutos depois da meia-noite desceram a escada, voltando ainda D. Rita para dar um beijo na filhinha de Tomásia.

Na primeira esquina, as duas famílias deviam separar-se. Aí conversaram ainda boa meia hora; entre muitas coisas disse D. Carlota:

— Aquela D. Tomásia é a velha mais tola e vaidosa que conheço.

— É uma amizade que a gente entretém para não dar que falar, disse D. Mafalda; quanto ao mais, direi que só o pobre do Venâncio podia aturar semelhante bicho.

— E a tonta da filha? disse D. Rita.

— É uma víbora, acudiu D. Inácia; é o retrato da mãe.

— Leva de má língua, disse Estanislau; vamos, que é quase uma hora.

Separadas que foram as duas famílias, cada qual conversou como pôde.

— Estanislau, disse D. Carlota, que peça importante é esta D. Mafalda! que língua venenosa que tem!

— Meu paizinho, e a filha dela? é a moça mais estúpida com quem tenho conversado.

— Oh! Sr. Brás, dizia na outra rua D. Mafalda, já viu mulher como aquela D. Carlota?... enfim, tem os mesmos costumes da avó e da mãe, que por minha desgraça conheci: é uma família de mexeriqueiros.

— E D. Rita, mamãe?... dizia também D. Inácia, que desenxabida maitaca!... que cascavel! não se cala um instante.

— E o Juca, minhas senhoras, respondia Brás-mimoso, que menino malcriado!

Chegando à porta da casa, Brás-mimoso despediu-se das senhoras. Apenas havia voltado as costas:

— De que empada nos fizemos acompanhar, Inácia!... disse D. Mafalda.

E Brás-mimoso ia pela rua, dizendo consigo:

— Oh! que duas pamonhas eu aturei eu esta noite!...

Em casa de Venâncio, Tomásia havia exclamado apenas as visitas saíram:

— Que duas velhas tão detestáveis!...

E Rosa tinha dito:

— Que duas moças tão impertinentes e feias!

Venâncio exclamou coçando a cabeça:

— Que maçada!