O moço loiro/VIII

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O moço loiro por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo VIII: O primo Félix


Era a hora em que (segundo a fraseologia das moças) se prega no ponto: e da costura ou do bordado corre-se para a janela. Entendamo-nos; não queremos com isto dizer que a nossa civilização esteja tão atrasada, que se imponha ainda ao belo sexo o importuno cativeiro da agulha: nada; isso não! É somente propósito nosso fazer sentir que tinha chegado o momento feliz em que o sol não reflete mais os seus raios sobre as janelas das casas da nossa cidade, e conseguintemente apareceram naquelas as elegantes e mimosas filhas de Niterói.

D. Rosinha estava, conforme o seu costume, de janela, e então conversava fortemente com uma vizinha tão sua amiga, que já uma vez chegara a sustentar seriamente que ela não era feia; sentia-se, pois, tão enlevada, no que praticava com o seu pensamento, como a chamava, que não viu entrar o primo Félix.

Antes de irmos por diante convém lembrar que temos aqui dois objetos que, sendo muito comuns, merecem, todavia, momentos de reflexão: são eles uma moça, que está de janela, e um primo da moça bonita.

Mas é preciso prevenir também que as observações, que vão ser lidas sobre o primeiro ponto, não poderão caber senão a um restrito número de jovens, que não podem formar regra, que são tristes exceções entre as do seu sexo. E, para ofender ainda menos a susceptibilidade de quem quer que seja tratando delas, não diremos "uma moça"; diremos uma moça loureira.

Uma moça loureira, que está de janela e que é do número dessas que sabem estar de janela, põe em ação a ciência mais difícil do mundo, e que é ao mesmo tempo tão positiva como matemática, e tão cheia de coisas nenhumas como a diplomacia. Ela tem vista tão segura, que pelo menear da bengalinha conhece o jovem que vem no princípio da rua; pelo tirar do chapéu adivinha se é moça ou velha a pessoa a quem ele cortejou; e pelo cortejo que recebe, se o padecente inda tem de voltar pela mesma rua ou não. Tem o ouvido tão apurado, que, pelo som da corneta, prediz o oficial que comanda a guarda que vai passar; pelo longínquo tropear de um ginete, quem é o cavaleiro que o cavalga; e pela boa-tarde que lhe dá a vizinha, sabe logo se ela já o viu... ou se ainda espera. E a mãozinha de moça loureira que está de janela?... com os seus dedinhos cor-de-rosa, fala essa mão ainda mais que um papagaio de seminário! um lenço nessa mão move-se e dá mais sinais que o telégrafo do castelo; uma rosa ou um cravo entre os seus dedos é mais brilhante que a fogueira de Sesto, mais eloqüente que um discurso de Lamartine.

E uma moça loureira não perde nada; antes de tudo tira partido nessa posição: se, por exemplo, apanha um mocinho, um sobrinho, uma criança enfim de poucos meses... que de carícias não recebe o pobre inocente!... ensina-lhe adeus a com mãozinha... abraça-a mil vezes... e em conclusão a criança não é mais do que um trunfo, no qual se embarca uma bisca.

E se há loureiras como ela?... misericórdia! isso sim é que é maçonaria, onde não penetra o vulgo profano; elas fazem elas um tratado de aliança tal, que deve causar inveja a todos os diplomatas das quatro grandes potências: a mais sonsa delas vale o dobro do príncipe de Meternich. Velha ou moça, que passa, não vai sem sofrer uma análise crítica e miúda de todos os seus vestidos, e a enumeração de todas as imperfeições do seu físico; velho ou moço, que tem a desgraça de fazer por ali seu caminho, não volta o canto sem levar nas costas a sua alcunha; e os senhores apaixonados tenham também paciência; será bom que vão passando com a certeza de que, se as queridas lhe perdoam, as vizinhas não podem deixar de lhes fazer ao menos uma careta, de dizer ao menos — que tolo! Ainda o que vale é que às vezes tais enredos e ciúmes se levantam entre elas, que mutuamente se beliscam e se atrapalham, que faz gosto ouvi-las e vê-las, de tão lindamente arrufadas que ficam.

Julga muita gente que, logo que olha para a moça loureira que está de janela, pode dizer a respeito do que está ela pensando, do que ela cuida, e o que ela sente; pois elas riem-se! e riem-se com razão; porque lá dos segredos da arte das janelas ainda ninguém tocou o fundo... Os vaidosos acreditam ter compreendido assaz, por haver tirado as seguintes conseqüências:

1ª — Moça que estando de janela tem os olhos fitos no lado do mar, é porque espera que venha alguém desse lado.

2ª — Moça que não conversa com as vizinhas, que olha ora para baixo, ora para cima, sempre cuidadosa e suspirante, é porque não sabe por onde surdirá um rapagão, que, por ciumento ou adoidado, não tem nem hora, nem ponto certo em que apareça.

3ª — Moça sentada à janela com a face pousada sobre a mão tem saudades.

4ª — Moça que, quando sente vir o predileto da parte de cima, fita os olhos no lado de baixo, e, ao senti-lo defronte da janela, faz com a cabeça um movimento, formando um arco de círculo, e olha para a parte donde ele veio, fingindo não tê-lo visto, está de arrufos.

5ª — Moça que, ao ver aproximar-se o jovem que a requesta, volta-lhe as costas e foge para dentro, morre por ele.

Mas basta de falar em janelas, e já que por demais foi longe a reflexão sobre tal ponto, seja em compensação ligeira a que tocar aos primos.

Um jovem primo é pouco mais ou menos o espírito maligno em forma humana, calçando botas e vestindo casaca; há uma tal queda para os primos, que se faz preciso andar sempre com os olhos bem abertos sobre eles.

Um jovem primo foi uma criança, que brincou o tempo será com as primas, que chamou a uma delas minha mulher, e foi por essa chamado meu marido; que se acostumou desde então a entrar em casa delas sem bater palmas, que fez quadrinhas para os lenços delas, que é o compadre das suas bonecas, e que agora ou é desses que fazem garbo da liberdade que têm com as primas, e, à vista de gente, grita, corre e patusca com elas, e então não passa de moço de bom-tom fogo de palha, casca de grande coisa com âmago de coisa nenhuma; ou, pelo contrário, é um primo com cara de tolo, que não perde terço nem novena, que reza muito na presença dos tios, e tem um oratório em casa, onde faz festas aos santos da sua devoção, e que, enfim, em noites de reunião em casa das primas, enquanto elas palestram, dançam e se divertem, ele se deixa ficar em um dos cantos da sala, bocejando e cochilando, uma vez por outra dando tabaco ao tio, espevitando as velas, e indo ajudar as primas a preparar o chá.

Esta é que é a casta de primos mais perigosa no seio de uma família do que um doente de sarampo ou bexigas.

Félix, a quem de antes conhecemos, pois que já o encontramos almoçando com a família de Venâncio, é um primo do primeiro gênero; perdido de amores por sua prima Rosinha, tem mais ciúmes dela do que uma criança do colo de sua mãe; Rosa, que o vê com olhos de quem quer casar, e que além disso é moça entendida em negócios diplomáticos, o julga um moço que, por falta de outro, lhe poderá servir para marido; e por conseqüência, segundo a tática, que em outras pode ser observada, nem o despede, nem se deixa dominar; trá-lo atrás de si, como o seu gatinho; se o vê exasperado e disposto a fugir-lhe, sorri-se para ele, e assim o amansa, e o faz beijar-lhe os ferros; se o observa muito altaneiro e confiado em sua constância, não olha para ele um dia inteiro, e o põe com o juízo em voltas, e a esperança em alarma. Já se vê, portanto, que Félix pertence ao número dos tolos de amor.

Pois ele não se quis fazer anunciar: com toda a sua perigosa liberdade de primo, entrou pé por pé para a sala; vendo aberto o piano, em que tantas vezes tocava a sua querida Rosinha, o foi beijando tecla por tecla... já tinha lambido metade do teclado, quando se lembrou de causar um susto à prima, que, no fervor da sua conversa com a vizinha, não o tinha ainda percebido; mas não tardou a mudar de resolução, e, encobrindo-se atrás de um aparador, dispôs-se a escutar o que diziam as duas.

— Mas, o meu pensamento, perguntava nesse instante a vizinha, isso é sempre assim?...

— Sempre assim de três dias a esta parte!... foi há três dias a primeira vez que o vi, e desde então tanto eu o amo como minha mãe o mostra aborrecer.

— Amar há três dias?... pensou o ciumento do primo; há três dias viu ela Otávio no teatro?... mas como é que a mãe o detesta, e o manda convidar para o sarau?...

E prestou dobrada atenção.

— Mas por que tanto ódio, meu pensamento?...

— Porque diz que é indigno de mim, e que eu me não devo ocupar com ele; oh! isto já me aborrece!... talvez que em breve vá descansar.

— Sim!... estimarei bem.

— Sou capaz de, em menos de dois meses, estar casada com meu primo Félix.

— E ele que te há de amar tanto!

— Por certo; morre por mim.

— Disseram-me que é excessivamente ciumento.

— Sim... sim... mas embora; ainda quando lhe não tivesse amor algum casar-me-ia com ele, só para ver-me livre do mau gênio de minha mãe; ora... só o ódio que ela vota ao meu querido...

— A quem?... a teu primo?...

— Não: quando eu digo meu querido deves adivinhar que não é a meu primo que me refiro.

— Ah!... disse a vizinha de D. Rosa; porém, como ainda me não disseste o nome...

— É que o seu nome não tem nada com o amor que eu lhe tenho.

Félix começava a sentir-se cada vez mais curioso.

— Pois bem, começou D. Rosa, como te eu dizia, minha mãe vota-lhe um ódio de morte; diz que por causa dele não coso, não bordo, e não estudo piano há três dias.

— Que injustiça!...

— É verdade! então ele, que gosta tanto de me ouvir tocar!... uma vez, quando levantei-me do piano, ele estava ao pé de mim, sem que eu saiba ainda como pôde entrar na sala; e sabes o que fez?... beijou-me a mão.

— Que amor! disse a amiga.

Félix já estava realmente incomodado.

— Aí está! não diria isso minha mãe; não sei por que o detesta; ainda ontem, depois de ralhar comigo e de amaldiçoá-lo, perguntou-me, afetando um sorriso irônico: "por que te não casas com ele?...

— Que mau gênio de senhora!...

— Ainda mais, a todo o momento o chama desenxabido e feio.

— Outra injustiça, não é assim, meu pensamento?...

— Sem dúvida; e respondo chamando o teu testemunho: dize, meu pensamento, serão feios aqueles olhos vivos e travessos, será feio aquele rosto redondo e branco?... serão feios aqueles pés tão pequeninos, e feias aquelas mãos tão finas e tão macias?... oh!... como deixar de amá-lo?...

— Bem se vê que tens toda a razão.

— Sim!... eu o amo... amo-o e muito! será um capricho, uma loucura; mas não posso passar sem ele... eu dou-lhe os meus sorrisos de dia e sonho com ele de noite!...

— Que paixão, meu pensamento!...

— E o mais é que eu entendo que tenho todo o direito de amar a quem bem me parecer...

— Eu também sou da sua opinião, meu pensamento: a vontade do cidadão é livre.

— Pois não é assim?... não se fala tanto em direitos e garantias?... quanto a mim, o direito e a garantia da mulher é amar a quem lhe agradar.

— Apoiado! meu pensamento, apoiadíssimo.

— Por conseqüência, minha mãe não me pode coagir a não amar o meu querido.

— Não, decerto; isso seria uma suspensão de garantias...

— E, portanto, hei de amá-lo sempre, e cada vez mais...

— E fará muito bem.

— Quando vier tocar piano, deixarei a porta da sala aberta para que ele venha ouvir-me... e beijar-me a mão...

— Isso... isso...

— Em todas as tardes, enquanto a minha mãe dormir a sesta, eu e ele havemos de comer, no mesmo prato, do melhor doce que tivermos em casa...

— Assim, assim, meu pensamento.

— E, apesar de minha mãe, hei de sempre achar meios de acariciá-lo e de gozar suas carícias; ao levantar-me da cama... durante o dia... de noite mesmo, procurarei vê-lo... mostrarei que o amo.

— Ora, aí está como deveríamos ser todas nós... fortes... decididas...

O infeliz primo Félix já se não podia suster... suava ciúme por todos os poros do seu corpo.

— Agora minha mãe, para afligir-me, diz que quer ver se quando eu me casar, e for dona-de-casa, ainda farei as mesmas meiguices, e me portarei do mesmo modo com ele.

— E tu que pensas?

— Penso que posso muito bem, depois de casada, amá-lo como agora; penso que terei tempo de me ocupar dele, sendo mesmo dona-de-casa; penso, enfim, que me será fácil conseguir que meu marido me ame também.

— Eu também julgo tudo isso muito possível e natural.

— O meu querido!... o meu querido!... prosseguiu D. Rosa; ah!... mal podes conceber o susto que por causa dele passei ainda há pouco; eu te conto. Minha mãe mandou-me estudar a lição de piano; eu vim e apenas tinha tocado a introdução de uma peça, entrou ele pela porta da escada, que estava aberta, como agora, e, segundo seu costume de três dias, veio encostar sua linda cabeça no meu colo para ouvir-me tocar; mas cinco minutos não se haviam passado, quando senti os passos de minha mãe... ah!... não tive tempo, senão de entrar na alcova, e de escondê-lo atrás das cortinas do leito... então ele, que é tão medroso!...

— E depois?

— E depois, minha mãe não me deixou mais; vim para a janela para não fazê-la desconfiar, e, se o meu querido ainda não fugiu, vou agora dar-lhe escapula.

E D. Rosa voltou-se para ir abrir a porta da alcova, quando Félix ergueu-se e mostrou-se pálido, trêmulo e desfigurado.

— Ouvi tudo!... balbuciou ele a custo.

— Senhor!... meu primo!... exclamou a moça.

— Digo que eu estava ali, continuou o infeliz ciumento com voz rouca e sinistra, estava ali e ouvi tudo!... tudo!...

— Que quer dizer?... perguntou D. Rosa confusa.

— Quero dizer que, se há uma mulher que reúna em si quanta perfídia, quanta ingratidão, quanta astúcia e vileza tem vomitado o inferno, essa mulher... é a senhora.

— Senhor!...

— E a prova do que eu digo está bem perto de nós... vai mostrar-se já; porque eu vou abrir a porta desta alcova, e o infame há de aparecer para logo depois sair daqui... comigo.

D. Rosa soltou uma risada de escárnio.

— Escarneça!... escarneça!... mas o escárnio que me está lançando, há de ser lavado com o sangue do covarde!

E Félix dirigiu-se à porta da alcova.

— Um duelo?! exclamou D. Rosa com indizível expressão de ironia; um duelo?... nunca o acreditei tão intrépido.

— E será um duelo de morte?...

— Vergonha a quem recuar! disse a moça.

— Não serei eu! bradou Félix enfurecido.

— Vergonha a quem recuar!... repetiu a moça, abrindo em par as portas da alcova.

Félix avançou furioso para o leito...

Com as mãos trêmulas, correu as cortinas...

Olhou com olhos flamejantes de cólera.

Soltou uma gargalhada...

E entrou de novo na sala, trazendo o seu rival nos braços.

O querido de D. Rosa era o seu cachorrinho; o seu branco e felpudo dogue.