O moço loiro/VII

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O moço loiro por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo VII: A cruz da família


Subida tinha sido a atenção com que Honorina escutava aquela velha história; espalhou-se no seu espírito ardente e romanesco aquele firme e inabalável propósito de um homem, que a todo o custo queria uma herança para sua filha e que, enxotado de seus teres pela má fortuna, foi correr mundo, até que a preço do seu sangue e vida conseguiu haver e deixar à herdeira do seu nome um legado tão novo como santo: achara, enfim, eco em seu coração esse amor puro e nunca vencido de rico fidalgo, que, por não ser aceito pela pobre aldeã, esquecera nome, riquezas e mundo, eremita se fizera, e em tão poucos anos tanto o pungira a sua paixão veemente e desgraçada, que lhe enrugara o rosto, que lhe tornara grisalhos os cabelos, e prematuramente o envelhecera por tal modo, que nem o seu próprio rival, nem sua antiga amada puderam conhecer no hábito de eremita o antigo Sr. D. Rui Vaz.

Passados alguns momentos, e, quando ainda duas lágrimas, mimosas pérolas de ternura, alvejavam pendentes nos negri longos cílios da bela moça, Ema prosseguiu dizendo:

— Eis aí pois, Honorina, a origem dessa cruz, que em tão grande amor e devoção tínhamos, e que tanto devemos eternamente chorar.

Certamente; uma cruz sagrada, arrancada por semelhante maneira das mãos de homens loucos e ferozes, tinha de ser o talismã protetor dos descendentes desse homem, que seu sangue derramara, e dera a sua vida para não a ver menoscabada.

"Assim foi, porque, minha filha, Deus não se esquece daqueles que dele se lembram e nele confiam.

"Desde que o sagrado lenho entrou em casa de Arabela, a ventura começou a sorrir-se para a sua família; as privações foram desaparecendo como por encanto, seus bens se aumentaram de dia em dia, e o sossego e prazer presidiram de mãos dadas à corrente de seus anos.

"Os desejos e a recomendação de Gil Mendonça foram completamente satisfeitos; a cruz de sua filha fez-se a cruz da família, a cruz que aos nove anos de idade recebia a herdeira de seu nome. Essa obrigação cumpriu-se religiosamente talvez seis séculos; essa herança chegou ainda até nós pura, como a tinha recebido Isabel de Mendonça.

"E nunca houve uma herdeira dessa cruz, que não passasse vida feliz e sossegada.

"Enfim, forçados pelo império das circunstâncias, nós, que jamais havíamos deixado a nossa pátria, vimos buscar seguro asilo na terra de Santa Cruz, fugindo dos horrores, da destruição e da impiedade que a todos os cantos da Europa levava a espada terrível de um monstro que se chamou Bonaparte.

"Além de um tão cruel desgosto um outro, Honorina, me acompanhava. Eu não tinha tido senão dois filhos; o céu me tinha negado uma herdeira para a cruz da família; casamos Raul de Mendonça, nosso filho mais velho; porém, o primeiro fruto desse himeneu foi ainda um varão, e minha nora não concebeu mais. Restou-nos uma única esperança, era Hugo; nós o casamos também, e graças a Deus, Honorina, um ano depois desse casamento, nasceste tu para sossegar-nos, para ser a herdeira da cruz da família."

Ema suspendeu por um momento na relação que fazia, e voltando-se, para Hugo, disse com voz pausada e grave:

— Hugo, eu hei de dizer tudo o que penso e que sinto a Honorina; se não te achas disposto a ouvir-me, ou se temes incomodar-te com o que vou dizer, será melhor que te retires.

— Pois bem, minha mãe, respondeu Hugo sorrindo-se, eu saio para a deixar em completa liberdade; Honorina fará justiça a seu pai.

Logo que Hugo saiu, Ema continuou:

"O mundo, minha filha, tinha passado, estava e está passando por uma revolução espantosa; revolução que nada respeita, desde a política e a religião até mesmo as mais nobres e generosas crenças de idéias individuais. Demônios eloqüentes, penas temperadas no fogo do inferno, tinham antes espalhado e pregado, segundo mil vezes me repetiu o meu santo confessor, princípios fatais à humanidade, desorganizadores dos tronos e do altar; máximas ardentes e perigosas eram oferecidas ao povo, e como incensavam a sua vaidade, foram bebidas e aceitas com entusiasmo por muitos; um vulcão se preparava, vulcão horrível, que rebentou primeiro na América, que logo depois prorrompeu em França, e do qual se ressentiu o mundo todo; depois adiante da infernal propaganda, na frente da ímpia cruzada, apareceu esse inqualificável flagelo, essa vingança de Deus, chamada Bonaparte, que fez estremecer os templos do Senhor e os tronos dos reis; que regou com ondas de sangue humano a árvore da impiedade. Enfim, esse homem sucumbiu, depois de triunfar mil vezes; porém, as idéias que ele replantou com a ponta da sua espada germinaram e vegetam ainda hoje!

"Uma palavra mentirosa, mas de fogo, embriagava os homens; era ela — liberdade! em nome da liberdade os grandes homens subiam a infamantes patíbulos... esgotavam-se os cofres públicos... cometiam-se horríveis sacrilégios... desterravam-se e exterminavam-se modestos religiosos!... ninguém mais se supôs pequeno. Uma outra palavra também mentirosa, mas também de fogo, fazia gigantes os mais desprezíveis anões... era ela — igualdade!

"Ninguém concebe quantos milhões de vítimas se tem sacrificado nos falsos altares desses dois ídolos de fumo.

"Como precisa conseqüência de tão nefandos princípios, o gênio do mal, para alimentar e dar mais intensidade ao facho da anarquia, vomitou sobre e contra nós a liberdade da imprensa... máquina de calúnias e de intrigas... veneno dos espíritos... guarda avançada das revoltas.

"Tudo mudou. Os meninos deixaram de aprender a rezar para ler periódicos e discutir presumidos direitos do homem; os operários abandonaram as suas fábricas para cuidar em eleições; a plebe imunda e perigosa agitou-se radiosa e triunfante em todas as nações.

"A peste chegou até ao Brasil. Esta nação, criança, que ainda mal andava sustida pelos bracinhos, levantou orgulhosa a cabeça, dizendo que era um gigante, que não corria porque lhe atavam as pernas; que era uma águia, que não voava porque lhe prendiam as asas; que queria, que havia de caminhar só e livre; e, o que é mais, Honorina, um príncipe, um homem, em cujas veias corria o sangue mais nobre do mundo, foi o mesmo que, cheio de mal-empregado entusiasmo e bravura, tomou a dianteira ao povo, e bradou — independência ou morte!

"Portanto, a embriaguez se tornou mais notável. As idéias deste século pervertido são contagiosas; povos inteiros padeceram o mesmo mal; o brasileiro não podia formar exceção.

"E não se falou mais aqui senão em liberdade, câmaras, deputados e constituição...

"Os velhos tornaram-se crianças... os meninos não tomaram mais a bênção aos pais... as moças desprezaram os véus da modéstia e a vida sossegada da solidão para ir com o rosto bem à mostra, e, carregadas de adornos e de modas indecentes, dançar em saraus, onde a licença e o desregramento tomaram o nome de civilização e de progresso!

"Tudo isso foi devido à liberdade...

"A peste também entrou em nossa família: teu avô, teu tio e eu nos conservamos firmes em nossos antigos princípios, com as belas inspirações dos nossos antepassados, desprezando todos esses erros, detestando todos esses crimes da época, todas essas mentiras de liberdade, igualdade, direitos do homem, constituição, e não sei quê mais! tenho finalmente por única glória sermos sempre devotados ao altar e trono, e mais nada.

"No meio de nós, porém, levantava-se uma cabeça de louco, a criava-se um coração de serpente.

"Teu pai, Honorina, apesar da educação que lhe demos, e dos exemplos que sem cessar lhe oferecíamos, tinha-se feito sectário das novas idéias: era um liberal delirante, que trouxe no braço a sua legenda, como na cabeça as suas loucuras; que cem vezes se enfeitava com flores e folhas para ir bramar nas praças, para tomar parte nas orgias do povo desenfreado.

"Era uma cabeça de louco.

"E o filho de Raul, teu primo Lauro, Honorina, desprezando os conselhos de nós todos, a despeito dos castigos que seu pai lhe fazia sofrer, cedendo a seu gênio inquieto e desastrado, crescia correndo pela estrada da perdição. Vivo e sagaz, travesso e imprudente como nenhum outro; sempre cheio de resolução e audácia, possuindo talento e habilidade em alto grau, poder-se-ia fazer dele um grande homem, se o tempo em que vivemos não bastasse para pervertê-lo. Tentamos aproveitá-lo, e o fizemos estudar; compreendia as lições com facilidade espantosa, progredia rapidamente; mas ao mesmo tempo opunha-se com repreensível obstinação às idéias de seus mestres, quando não lhe agradavam; ria-se diante deles, se os ouvia dizer o que ele chamava um absurdo; abandonava as aulas para passar horas inteiras nas galerias da câmara dos deputados; decorava os discursos mais veementes, e arremedava os mais fortes oradores; enfim, mesmo na minha presença, atrevia-se a combater e zombar das minhas nobres crenças, a que ele ousava dar o nome de prejuízos dos séculos de escravidão e ignorância!

"Era um coração de serpente.

"Não: nem os avós, nem o pai desse menino protegerão com criminoso desleixo ou estúpida indiferença os erros, filhos da sua má índole; mas ele tinha uma mãe... indulgente como quase todas; uma mãe, que o amava extremosamente, que fechava os olhos às suas faltas, e que, finalmente, sem o querer, cooperou para a sua perdição...

"Ao correr dos seus dezesseis anos, esse menino tinha concluído os seus estudos preparatórios e redobrado a viveza, a resolução, a audácia e a insolência que lhe eram naturais.

"Então... a serpente mordeu-nos.

"Tu, Honorina, chegavas à época feliz dos nove anos... De antemão nós fruíamos o prazer de ver brilhar esse dia, em que a cruz da família tinha de passar às tuas mãos...

"Mas eu nunca me enganei... eu tive pressentimentos de que uma grande desgraça estava prestes a cair sobre ti... sobre nós... Essa desgraça foi preparada por teu próprio pai.

"Sentindo aproximar-se o dia do teu nono aniversário, Hugo declarou-nos que queria mandar ornar a cruz da família com preciosos brilhantes; teu avô e teu tio, Honorina, aplaudiram essa idéia, porque pensavam assim demonstrar o muito apreço em que tinham a sagrada cruz, e porque também isso satisfazia a ternura com que todos te amavam.

"Fui eu a única que me opus; eu sempre entendi que cumpria conservar pura e intacta a nobre herança havida dos nossos avós, a nobre herança de Isabel deixada por Gil Mendonça. Mas que podia eu triste mulher contra todos os parentes?... Foi com lágrimas nos olhos que eu vi levarem a cruz da família...

"Chegou o dia do teu nono aniversário.

"Jantamos todos reunidos. Duas únicas pessoas que não tinham o nome de Mendonça jantaram conosco: Lúcia, que dera de mamar a teu primo Lauro e a ti, e Félix, que é hoje o guarda-livros de teu pai; pobre e desvalido moço a quem por compaixão recebemos para nossa casa, e que nos tem sabido pagar com admirável gratidão.

"Acabado o jantar, Honorina, eu chamei-te para junto de mim; todos vieram cercar-me e ouviram-me repetir a história da cruz que ias receber, e que conseqüentemente foi lançada ao teu pescoço.

"Tu, Honorina, posto que contasses nove anos, eras inocentinha como uma pomba; porque na falta de tua mãe (pois já a tinhas perdido), nós, teus avós, te guardávamos, e zelávamos sobre a tua educação, para que teu pai te não enlouquecesse com as tuas extravagantes idéias.

"Inocentinha como eras, tu beijaste a cruz com alegria infantil, e, sem ainda compreender o valor dela, orgulhosa a andavas mostrando a nós todos.

"Então, Lauro disse-te sorrindo-se:

"Honorina... eis uma bela cruz para ser furtada! tem ricos brilhantes, que se podem vender...

"Tu correste instintivamente para mim; e eu respondi a teu primo:

"Lauro, tu és louco: não se graceja com um objeto sagrado.

"Este episódio não passou daí. Às sete horas da noite adormeceste, e a tua cruz foi depositada perto do teu leito numa salva de prata.

"Às dez horas da noite a cruz da família tinha desaparecido.

"A dor que sentimos não se pode descrever; e antes de procurar conhecer o ladrão, teus avós e eu, Honorina, já tínhamos adivinhado quem fora.

"Todas as suspeitas recaíram sobre Lauro.

"Félix e uma velha parente nossa declararam que o tinham visto entrar no teu quarto com precaução e cuidado; que ele por algum tempo aí se demorara, tendo tomado e examinado a cruz atentamente.

"Lauro, ouvindo o testemunho de ambos, corou e disse com a sua costumada audácia:

— Tudo isso é verdade.

— E a cruz?... onde a puseste?... bradamos nós.

— Deixei-a lá mesmo; foi a sua única resposta.

"O resto tu o sabes, Honorina; a carta, que ouviste ler a teu pai, me poupa o trabalho de referir a cena de maldição, em que eu proferi as palavras de que ele se lembra, palavras que nunca me arrependi de ter proferido, palavras, que repito ainda..."

E a velha Ema, levantando a voz, disse com força:

— Torne-se em pedra o pão que ele comprar com o dinheiro pelo qual vendeu os brilhantes da cruz da família!... o ladrão não me obrigue a corar de vergonha, aparecendo ainda diante de mim!...