O moço loiro/XIX

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O moço loiro por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XIX: Noite no mar


O vapor das seis horas da tarde do dia seguinte trouxe Hugo de Mendonça e o seu guarda-livros Félix, Jorge e Otávio, que todos vinham, como tratado estava, tomar parte no agradável passatempo em que se projetava empregar a noite. Venâncio, Manuel e Brás-mimoso se tinham deixado ficar em Niterói, como homens a quem não importavam negócios, ou de negócios careciam.

As senhoras haviam de sua parte passado o dia o mais monótono que é possível: Lucrécia, obrigada a permanecer em casa com seus hóspedes, deixava de empregar junto de Honorina horas que ela considerava por demais preciosas. Honorina e Raquel, tristes e taciturnas, bordavam sem descansar ao pé de Ema, que gastou o dia inteiro em falar contra o que chamava loucuras próprias somente do gênio extravagante de Hugo. Ela não compreendia como um homem de juízo podia expor a sua filha e a si mesmo a todos os riscos de um passeio noturno e marítimo; exasperava-se, lembrando-se de que seu filho já não atendia aos conselhos que lhe dava, e temia muito que nem mesmo suas próprias orações pudessem salvar Honorina da vida de desatinos, por onde começava a levá-la seu imprudente pai.

Hugo fez quanto pôde para sossegar sua mãe, a quem ainda encontrou despeitada; enfim, jurou-lhe que seria o primeiro e último passeio marítimo que fariam; mas que então era impossível desfazer o que estava projetado, e que a todos parecia dar tanto prazer. Às oito horas da noite ergueram-se para partir; e Ema, que até à porta os acompanhou, levantou o braço e, com sua mão trêmula, mostrou uma nuvem negra que se deixava ver no horizonte.

— Não é nada, minha mãe, disse Hugo; não vê como a lua está clara e bela?...

— A lua turvar-se-á.

— Nada de maus agouros, minha mãe, até à volta... e prometemos cear bastante.

— Minha Honorina, disse tristemente a velha, Deus te acompanhe!...

A sociedade partiu: três batelões já se achavam na praia prestes para recebê-los, e imediatamente tratou-se de embarcar. Uma boa meia hora se empregou na divisão da companhia. À exceção de Jorge, que por gênio e sistema achava que tudo no mundo corria sempre bem, e não abria a boca para falar, senão quando era absolutamente necessário que fizesse uma pergunta ou desse uma resposta; à exceção ainda de Venâncio, que pensava e desejava pela alma de sua mulher, todos os outros homens empenhavam-se valorosamente por ir no batelão em que se embarcasse Honorina.

O único, que só por gestos havia demostrado esse desejo, fora Brás-mimoso; porque logo no princípio da questão, querendo expor muito parlamentarmente os seus direitos, e tendo para isso já a boca aberta, foi obrigado a fechá-la incontinenti; pois Manduca, que junto dele se achava, deu-lhe um beliscão com tão boa vontade, que o fez ir às nuvens.

Hugo divertia-se extraordinariamente com a discussão suscitada; finalmente, para se pôr um termo a ela, decidiu-se que Honorina escolhesse três companheiros.

Honorina respondeu sem hesitar:

— Escolho a meu pai, a Raquel e ao Sr. Félix, que deverá acompanhar-me, se meu pai quiser que eu cante.

— No que não haverá dúvida nenhuma, respondeu Hugo.

Rosa achou um não sei quê de pouco bonito na escolha, que de seu primo fez Honorina para ir com ela no mesmo batel.

Venâncio chegou-se respeitosamente para ao pé de sua mulher, e falou-lhe ao ouvido.

— Tomásia, em que batel julgas tu mais conveniente que eu me embarque?

— Naquele em que eu não for, respondeu imperiosamente Tomásia: não é justo nem decente que ande o senhor sempre atrás de mim.

O resto da companhia embarcou-se sem demora. Lucrécia, Rosa, Venâncio e Otávio no segundo batel, e no terceiro, enfim, Tomásia, Jorge, Brás-mimoso e Manduca, que havia tomado por timbre andar constantemente à pista do seu rival. Brás-mimoso já tinha jurado cem vezes aos seus botões que aquele rapaz era o homem mais impertinente do mundo todo.

Os batéis afastaram-se da praia.

Era belo vê-los como graciosos, iluminados e galhardos docemente se deslizavam pela superfície do mar sereno de Niterói!...

Soprava uma aragem suave e deleitosa; a noite estava clara, brilhante e fresca.

A lua gostosa se namorava, mirando-se no espelho das ondas.

E os três batéis iam indo... e dos remos que se erguiam do seio do verde lago, caía uma chuva de lágrimas brilhantes, que se diria um enxame de pirilampos.

A hora e o sítio pareciam ainda mais próprios para doces meditações do que para o ruído do prazer.

Honorina e Raquel, predispostas como se achavam para deixar ir suas almas enlevando-se e perdendo-se no encanto agridoce da melancolia, não puderam furtar-se à influência de tudo isso que se passava em derredor delas: o monótono ruído dos remos; o fraco murmúrio das ondas; a suave frescura do favônio; o sossego do sítio; o silêncio da hora, tudo, tudo as convidava a meditar... e elas meditavam.

E uma jovem, quando medita, é sempre sobre amor.

A mímica dessas duas moças demonstrava que havia um ponto de notável dessemelhança em a natureza de seus pensamentos.

Raquel tinha a cabeça inclinada para baixo e os olhos fitos no fundo do batel; cedendo a inexplicáveis movimentos de desassossego, suas mãos, que se achavam unidas uma à outra sobre o colo, apertavam-se mútua e cruelmente; seus lábios às vezes estremeciam, como dando passagem a um suspiro; e então ela olhava cuidadosa por um instante para seus três companheiros de passeio, e de novo caía na sua primeira posição.

Dir-se-ia que Raquel tinha na alma um pensamento doloroso e fatal que desejava esconder de todos, e abafá-lo dentro de si mesma.

Honorina, ao contrário, estava um pouco voltada para fora, e tinha os olhos embebidos em um único ponto do mar; brando e meigo sorriso se deslizava em seus lábios; os negros caracóis de suas belas madeixas brincavam, mercê do zéfiro, sobre suas faces... e ela também suspirava.

E, pois, Honorina como que se aprazia em abrir as portas de sua alma, em deixar sair pelos olhos o pensamento que a ocupava.

A meditação da primeira é, portanto, um segredo; o pensamento da segunda podia ser perfeitamente compreendido, ao menos pela sua amiga.

Honorina pensava sempre no moço loiro.

Vós, que haveis amado mesmo há dez ou vinte anos passados, nunca parastes junto de uma árvore, como procurando o vestígio dos passos, ou o aroma dos vestidos do objeto de vosso amor, que outrora vistes descansando à sombra dela?... vós que amais ainda hoje, não buscastes com os olhos, ao entrar no jardim, o mesmo banco de relva, em que ontem vistes sentada a bela de vossos pensamentos, e não ficastes estático... enlevado com as vistas fitas nele uma hora inteira, como se ela ainda estivesse lá sorrindo-se para as flores, ou adormecida entre elas?...

Pois bem: naquele ponto do mar, onde tem Honorina embebidos os seus olhos, esteve ele... sobre o seu gracioso batel noturno; foi dali que ele respondeu ao hino da virgem; e Honorina pede, sem sentir, ao mar, que lhe mostre um sinal do rosto de seu batel, e às auras, que lhe tragam em suas asas ainda o eco de suas vozes!

Mas é que Hugo não se dava muito bem com cenas mudas, e ainda pior com semblantes melancólicos:

— Então, que é isto? gritou ele, saímos porventura de casa para entristecer-nos? será crível que estejam aqui as senhoras com medo deste mar de leite... ou quem sabe se estão ainda pensando no bateleiro de ontem à noite?

Honorina e Raquel olharam-se ao mesmo tempo... talvez Hugo tivesse, sem querer, compreendido os pensamentos de ambas.

— Vamos! ânimo! não sentem o prazer que reina nos outros dois batelões?... eu pensava que o nosso seria o mais divertido de todos! remadores... à esquerda e com força... avante!...

As duas moças viram-se obrigadas a fazer-se alegres para satisfazer a Hugo, e, desde então, somente começaram a tomar parte no divertimento noturno.

A primeira hora foi toda empregada em correr indistintamente pelo mar: os batelões, ora aproximavam-se, ora fugiam rapidamente da praia... depois todos três emparelhados empenhavam-se em disputar a primazia na rapidez da carreira, e ouviam-se conseqüentemente os aplausos de vitória, dentro do que alcançava o triunfo, e as admoestações e pragas aos remeiros daqueles que eram vencidos.

Enfim, quando já se achavam fastigados ou começavam a sentir-se aborrecidos do passeio, os três batéis reuniram-se, e de acordo comum se foram postar diante dessas belas casas, que situadas ficam entre S. Domingos e a Praia do Gravatá: tratava-se de ouvir cantar a Honorina.

Embebidos, enlevados e perdidos na embriaguez de seu prazer, a companhia não notava que a lua se ia turvando, o mar tornando-se crespo e cavado, e que o vento, que refrescava, caía às vezes sobre eles em tufões, que faziam jogar os batéis.

Honorina deixou, pois, ouvir sua voz melodiosa e terna: aquele canto no meio do mar, levado nas asas do vento, perdido no longo espaço, ouvido no silêncio da noite, tinha um não sei quê de místico e poderoso, que cativava as almas!

A praia ficou para logo coberta de curiosos expectadores, que, quando sentiram terminar o hino da virgem, fizeram soar seus aplausos de mistura com aqueles que prorrompiam dos batéis.

E as aclamações não deixaram ouvir bem distintamente o surdo mugido de um trovão longínquo, que, enfezado, bramia; um fuzil se desabriu e fez estremecer Honorina.

— Meu pai, meu pai, veja como fuzila, como o horizonte se tem tornado escuro... oh! minha avó tinha bem razão... vamos desembarcar!

— Não!... não!... disseram os moços, ainda uma vez o hino!... uma segunda vez, minha senhora!

— Sim, Honorina, repete o teu belo hino; que apenas o terminares, desembarcaremos.

— Mas, meu pai, Raquel e eu estamos tremendo!

— Que medo então é esse? não vês que estamos a dois palmos de distância da terra?... canta... canta.

Nesse momento uma pequena canoa, guiada por duas únicas pessoas, aproximou-se dos batelões, e deu fundo.

— Oh! temos companheiros? disse Hugo.

— Quem sabe se será o nosso cantor de ontem?...

— Em todo o caso não faz mal reconhecê-lo, disse Otávio; remadores... para junto daquela canoa...

— Remadores, repetiu Manduca no batel em que estava, para junto daquela canoa...

— Mas o que eu não sei, murmurou Brás-mimoso, é o que temos nós de ir entender com quem está quieto.

— Oh! Sr. Brás! até disto tem medo?...

— Quem?... eu?... medo?... as senhoras ainda me não conhecem a fundo.

No entanto, os batéis tinham chegado até encostar-se à canoa; Otávio e Manduca puseram-se a examiná-la em pé sobre a borda de seus batelões, e todos os outros fitaram os olhos dentro dela. Estavam lá duas únicas pessoas: um velho pobremente vestido, e com a cabeça toda branca, e um negro, que era talvez seu escravo; dentro da canoa viam-se todos os objetos próprios de uma pescaria.

— É um pescador, disse Otávio.

— Sim, falou o velho com voz trêmula, um pobre pescador, que vai fugindo da tempestade que se avizinha.

— Mas, meu velho, quem foge não pára.

É que eu ouvi uma voz bem suave!...

— E, portanto, esqueceu-se da tempestade?...

— Porque desde então, senhores, todos os meus sentidos... toda a minha alma se passou para meus ouvidos

— Pois então, disse Hugo, escuta de novo, meu pescador!

O canto soou talvez mais docemente ainda; porque a voz de Honorina estava levemente trêmula do medo que sentia do temporal que se aproximava.

Mas ela não pôde acabar...

Um relâmpago deslumbrador pareceu abrir uma fenda de fogo horrível no horizonte; um trovão medonho estalante rebentou terrivelmente, e um tufão desesperado rugiu sobre o mar, que se levantou encapelado e bravo...

Um grito geral prorrompeu de dentro dos três batéis...

Ao já fraco clarão da lua sucedeu a mais completa escuridade: a dois passos ninguém podia ver um companheiro.

O batel em que ia Honorina ficou cheio de água. Ouvindo a custo os gritos de Hugo, de Félix e das duas moças, os outros dois batéis, e a canoa do pescador, acudiram prontamente: aquele em que vinha Otávio foi o primeiro que se encostou ao de Hugo, que, tomando sua filha nos braços, inclinou-se para depô-la no batel que os socorrera; mas neste momento a borrasca rugiu de novo... o fuzil... o trovão... o raio!... os batéis, cedendo à força das vagas que cavavam sumidouros debaixo deles, afastaram-se, jogando terrível e desordenadamente... Hugo caiu sobre os bancos dos remeiros, e Honorina, escapando de seus braços, desapareceu no abismo do mar...

Um novo grito horrível... desesperado... arrancado das entranhas se ouviu, apesar da tempestade, sair do triste batel...

Félix agarrou pela cintura a Hugo, que se queria lançar ao meio das ondas...

Sentiu-se o baque de um corpo que caía na água...

Tudo isso foi obra de um rápido instante.

No auge da maior dor, do mais cruel desespero, entre mil idéias sem ordem, sem nexo, tudo se perguntando e nada se fazendo, a companhia ainda há pouco tão alegre, e tão aflita agora, deixava perder momentos de valor inqualificável...

Mas um brado de vida se levantou na praia.

— Salva!... salva!... salva!...

Oh!... quando se diz a um pai, que crê sua filha já morta — salva!... salva!... tua filha está salva!... — tem-se como uma voz de anjo... como um poder de providência...

Salva!... exclamou Hugo; à praia!... à praia!...

E os batéis atiraram-se para a praia.

Tinham-se passado apenas breves minutos depois da fatal catástrofe!

Com efeito, Honorina tinha sido arrancada do seio das ondas.

O velho pescador apenas ouviu o grito de Hugo, atirou-se na água; desgraçadamente esteve a ponto de sucumbir, pois que um dos batéis foi em seu tempestuoso jogo de encontro a ele, no instante mesmo em que acabava de cair no mar.

Depois...

É, enfim, e de uma vez para sempre, necessário convir que o dedo de Deus guia continuadamente o homem na prática das boas ações.

O velho mergulhou... e a Providência Divina fez com que sua mão tocasse o corpo de uma mulher; então ele nadou para terra com o seu precioso fardo.

Honorina devia a vida a esse homem, e também à sua própria organização.

O mesmo fenômeno, que sem ter por muitas vezes observado em idênticas circunstâncias, naqueles em quem predomina o sistema nervoso, sucedeu à moça: no momento da submersão, foi presa de uma síncope, e caiu no fundo do mar.

Houve então um homem eminentemente bravo que soube, arriscando a própria vida, salvar a filha de Hugo de Mendonça.

Quando o velho pescador surgiu no meio das vagas, trazendo a moça em seus braços, os espectadores levantaram seu brado de alegria e correram a prestar à cena a luz de velas e fachos, de que já se tinham munido.

Depondo o corpo da jovem na areia, o velho curvou-se, como para observar seu semblante, e, erguendo logo depois as mãos para o céu, com indizível expressão de ventura, exclamou:

— Era ela!

Palavras cheias de nobreza, de generosidade e grandeza de alma; porque provavam que esse homem se arrojara ao mar para salvar uma vítima qualquer... uma vítima que ele não sabia quem era.

— Vive!... vive!... ela ainda vive!... bradava o pescador, sentindo que Honorina começava a reanimar-se.

— Mas o senhor feriu-se?... perguntou um dos espectadores.

— Eu?... ferido... que importa?... respondeu o velho.

E pela primeira vez lembrando-se de si, ele viu seus vestidos cobertos de sangue, que abundantemente lhe corria da cabeça.

Nesse momento os três batéis chegaram à praia.

Mas, ao senti-los arrastar o bojo pela areia, o velho afastou com força os espectadores que o cercavam, abriu passagem por entre eles, e, correndo, desapareceu.

— Salva!... exclamou Hugo caindo sobre sua filha.

— E quem a salvou?... quem a salvou?...

— Um velho...

— O velho pescador...

— Qual velho! disse um dos espectadores, ele não era velho.

— Oh! acudiu Otávio; eu o observei de bem perto: tinha os cabelos completamente brancos.

— Ei-los ali!... era uma cabeleira!...

E todos viram sobre a praia uma cabeleira branca coberta de sangue.

— E, portanto, pensou Raquel, era ainda ele!...