O moço loiro/XX

Wikisource, a biblioteca livre
< O moço loiro
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
O moço loiro por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XX: Honorina


Era meia-noite.

A tempestade tinha passado: o tempo se havia tornado chão, a atmosfera fresca e leve.

Honorina dormia.

O médico chamado para prestar seus cuidados à jovem senhora, conseguira facilmente fazer desaparecer a síncope, que a salvara no momento da submersão, e que ainda durava algum tempo depois; segundo ele, Honorina não corre perigo algum.

A câmara de Honorina está fracamente iluminada; três pessoas velam junto de seu leito.

Ema reza piedosamente defronte da querida neta; Raquel, à cabeceira de sua amiga, tem uma das mãos dela entre as suas; Lúcia suspira sentada aos pés da filha de seu leite; Raquel e Lúcia mostram-se mais agitadas e aflitas do que já pedia o caso.

E Honorina dorme: vestida com um ligeiro roupão branco, com seus belos e longos cabelos, ainda molhados, espargidos pela almofada, com seu rosto meigo e formoso, então ainda mais pálido, com suas pálpebras cerradas, ocultando seus grandes e brilhantes olhos, estava encantadora e poética; e o sono da virgem semelhava o dormir de um anjo; porque suavíssimo era ele, e quase imperceptível a respiração que pelos lábios da moça saía. Tão bela, tão pálida, tão imóvel, alguém poderia crê-la estátua de puro mármore, exposta como triunfo de mestre.

Por algum tempo reinou na câmara profundo silêncio, apenas de momento a momento interrompido pelo baque das contas do rosário, em que a religiosa velha marcava suas orações; e às vezes levantava-se alguma das três pessoas, que aí velavam, e ia pé por pé até junto da moça para, chegando o rosto perto dos lábios dela, receber a impressão de seu respirar de pomba.

Depois de algum tempo ainda de não quebrado silêncio, Lúcia, cujo desassossego não diminuía, apesar do lisonjeiro estado de Honorina, murmurou baixinho:

— Mas ele... ele... o salvador de nossa querida menina!...

— Hugo foi dar todas as providências, disse Ema no mesmo tom, e é de crer que o possamos abraçar e recompensar...

— Recompensar?! tornou Lúcia, o homem, que assim se expôs à morte, tem por força um coração muito elevado para que chegue até a ele a idéia de uma recompensa.

— E isso não nos dispensa do dever da gratidão.

— De uma outra gratidão, senhora.

— Tu estás de mau humor, mãe Lúcia.

— Perdão, senhora; mas aquele homem... ferir-se...

— Aquele homem é um herói da têmpera de nossos avós... nos dias de hoje não se encontram dois homens como ele.

— Outra vez perdão, senhora; mas eu sei de um que seria capaz de praticar a mesma ação que ele praticou.

— Capaz de, em uma noite tempestuosa, atirar-se ao mar borrascoso para salvar uma moça, que não é sua irmã, nem sua amiga?... perguntou Ema sacudindo a cabeça em sinal de dúvida.

— Sim, senhora, respondeu Lúcia com a firmeza da convicção; capaz talvez de mais ainda.

— E quem é esse?...

— Eu tenho medo de desgostar a senhora.

— Não! dize, dize.

— Esse, disse Lúcia enxugando duas grossas lágrimas; esse não está conosco... está bem longe daqui... é o homem que bebeu o leite de meus peitos... é seu neto...

— Mãe Lúcia, não me fales dele!

— Aquele, senhora, que foi capaz de arrojar-se às chamas para salvar uma moça que não era sua irmã, nem sua amiga, atirava-se também pelo mesmo motivo ao mar, embora o visse tempestuoso.

— Há uma diferença, mãe Lúcia; o homem, que se lançou ao mar para salvar Honorina, fê-lo, porque era um bravo; e Lauro arrojou-se às chamas porque não passa de um louco.

— Está bem... basta, senhora! disse Lúcia chorando amargamente.

Sem tomar parte no diálogo, que entretinham as duas, sem talvez muita atenção prestar-lhe, Raquel guardava triste silêncio. Sossegada a respeito do estado de Honorina, ela parecia ter em seu espírito alguma outra consideração que a fazia sofrer: na vida dessa moça, que até então tinha corrido toda em fios cor-de-rosa, aparecia, enfim, uma nuvem de abafado padecer; em sua alma, que brilhara sempre com a luz viva do prazer, desenhava-se já a sombra de um desgosto. Raquel, tendo os olhos embebidos no rosto da sua amiga da infância, às vezes deixava pendurar-se em seus longos cílios uma grossa lágrima escapada insensivelmente de seus belos olhos, como gota de orvalho caída do céu; qual será a causa dessa lágrima?... será porventura exprimida de dentro do coração?... será seu destino ir nas asas de algum terno pensamento a outrem, que ali não esteja?...

Quase ao mesmo tempo em que Ema e Lúcia punham termo às suas observações sobre o salvador de Honorina, Hugo entrou no quarto pé por pé.

— Minha mãe, como vai ela?...

— Dorme tranqüilamente.

— Graças a Deus! disse Hugo.

E, chegando-se para o leito em que descansava sua filha, ele... pobre e amante pai, que se culpava de todas as desgraças daquela fatal noite, foi, como o faziam as três senhoras, beber ao pé dos lábios de Honorina o ar de seu bafo, como um favônio de esperança e de vida; e depois, temendo muito acordá-la daquele sono reparador, outra vez com seu sagrado amor de pai, com as faces cobertas de lágrimas, beijou com ternura e fervor as belas madeixas de Honorina, que úmidas caíam pela almofada.

— E ele?... disseram ao mesmo tempo Ema e Lúcia, ao ver que Hugo se desprendia do leito da filha.

— Não... não... não façam bulha, balbuciou o extremoso pai com um receio infantil desenhado no rosto; não a despertem... venham para fora, que eu falarei então.

Ema e Lúcia logo se ergueram, saíram do quarto com Hugo, e dirigiram-se para a sala; Raquel, que não menos curiosa se mostrava pela sorte do salvador de sua amiga, encaminhou-se depois de vê-los desaparecer, como quem pretendia ir furtivamente escutá-los; porém, antes de chegar à porta, voltou de novo ao lugar que ocupava, pois um brando suspiro tinha estremecido nos lábios de Honorina.

Apenas chegados à sala, Hugo atirou-se, soluçando fortemente sobre o canapé, e com uma como delirante demonstração de prazer ele exclamou repetidas vezes:

— Está salva!... está salva!... minha filha está salva!...

Era o amor de pai! o amor de pai, que por toda a parte transpirava nele... pelos soluços que o sufocavam... pelas lágrimas que de seus olhos corriam, pelo riso que em seus lábios brincava. O amor dos pais é assim, e é ainda belo, grande, majestoso, como nenhum outro.

— Está salva, meu filho, disse Ema; e Deus te há dado esta lição para te emendares.

— Sim, sim, minha mãe, contanto que me reste Honorina, eu lhe prometo tudo, minha mãe!... deixaremos esta casa... não veremos mais esta praia... iremos de uma vez para a corte, e lá Honorina estará sempre debaixo dos olhos de minha mãe...

— E ele, senhor?... perguntou Lúcia ansiosa, e ele?...

— Ele?... é verdade: eu tinha vindo para falar dele...

— E então?...

— Nós seguimos os seus passos: à mercê de nossos fachos acompanhamos suas pisadas; oh! era impossível perdê-las de vista... estavam horrivelmente marcadas!... sobre cada uma delas havia gotas de sangue...

— Oh!... desgraçado!... exclamaram as duas.

— Fomos indo assim até que chegamos ao sítio da praia, onde se acham reunidas as faluas; aí toda a esperança de encontrá-lo se perdeu: alguns patrões viram-no embarcar-se, e mandar, a despeito do horrível temporal, abrir as velas e sair...

— Pobre homem! quem sabe se estará ainda vivo?!

— Oh! senhora, exclamou Lúcia, não diga semelhante coisa!...

— Mas por que se esconde ele... por que se furta tão misteriosamente a nossos olhos?!...

Era essa uma pergunta à qual nenhum dos três se achava em estado de responder, por isso contentaram-se com guardar triste e profundo silêncio.

Enquanto isto se passava na sala, Raquel, ouvindo o suspiro que estremecera nos lábios de sua pobre amiga, foi outra vez de manso sentar-se junto dela; de novo tomou entre as suas uma das mãos de Honorina, que, ao doce contato, fez um movimento e abriu os olhos. Raquel estremeceu como se temesse haver cometido uma grande falta; Honorina talvez a compreendeu, pois que sossegou-a com o meigo sorrir de seus lábios.

— Honorina, tu estás muito melhor, não é assim?... perguntou Raquel.

— Sim, Raquel... agora só falta a cabeça... que me anda à roda... e me pesa muito...

— Está bem... não fales mais: isso há de passar... dorme, Honorina.

Honorina, parecendo obedecer ao conselho de sua amiga, fechou os olhos; mas bem depressa os abriu de novo, e uma ligeira nuvem cor-de-rosa se espalhou em suas faces.

— Raquel, disse ela com voz comovida e trêmula, Raquel... perdoa-me, porém sossega-me...

— Que queres, pois, Honorina? fala.

— Tu viste?... perguntou ela, enrubescendo ainda mais.

— Quem, Honorina?

— O homem que me salvou?...

Aquela pergunta deveria ter feito mal a Raquel, porque ela se tornou de repente mais pálida do que há pouco estava Honorina, e foi quase gemendo que respondeu:

— Era... ele.

Honorina, como se acabasse de experimentar a influência de um choque elétrico, estremeceu toda, e com viva expressão de agradecimento levou a mão de sua amiga até os lábios.

— Dorme agora, Honorina.

Dir-se-ia que a moça cedera ao encanto da voz de Raquel; pois pareceu imediatamente adormecida. Momentos depois Ema e Lúcia entraram de novo no quarto.

— Como vai ela?... perguntou Ema.

— Esteve um momento acordada... queixou-se ainda da cabeça; mas tornou a adormecer sossegadamente.

— Pobre menina! disse a velha.

Honorina tinha os olhos fechados; porém, estava ouvindo tudo com a curiosidade própria de um enfermo.

— E ele?... perguntou Raquel; sabe-se alguma notícia?

— Tristes novas, minha senhora, respondeu Lúcia.

— Pobre homem! disse Ema, deixou suas pisadas marcadas com seu sangue! nós suspeitávamos que ele havia ficado ferido; porém, assim... oh!... é bem triste!

Ouviu-se então um longo gemido... longo... arrancado do coração; Honorina tinha compreendido tudo.

O resto da noite foi cruel e terrível. A dor de Honorina transbordou.

Durante a noite o pensamento é mais arrojado e mais livre; e de ordinário o coração acompanha o pensamento, e ambos se deixam ver em seus vôos, tais como são.

Honorina nem mesmo tratou de esconder o pesar e a aflição que lhe causava aquela fatal nova; parecia ter orgulho de ostentar ambos; parecia querer dizer a todos — eu sofro... eu choro por ele!

Inventou-se e repetiu-se mil vezes uma história para abrandar a dor da interessante moça: jurou-se-lhe que um homem, a quem nenhum de seus amigos conhecia, mas que a tinha salvado, pouco depois se embarcara para a corte; que ele estava ferido sim, porém levemente; que sua vida não corria risco; que tudo ia bem... tudo o melhor possível.

Raquel, sem desamparar um só momento a sua amiga do coração, velou toda a noite por ela e pelo segredo do seu amor; animou-a... fechou-lhe a boca mil vezes, mil vezes deu uma falsa interpretação a seus gemidos para encobrir a verdadeira causa deles; e, finalmente, rendeu graças ao céu ao vê-la adormecer em seus braços ao romper da aurora.

Às dez horas do dia, Honorina despertou melhor e mais sossegada. Então ela se lembrou da terrível noite que se tinha passado... ouviu a relação da catástrofe... e conheceu que em tudo quanto lhe diziam do homem que a tinha salvado, só eram verdadeiras duas coisas: que ele se havia ferido ao salvá-la, e que nada se sabia do seu destino. Mas agora, já razoável; agora, com todo o seu pudor de virgem despertado, esforçou-se ela por sepultar sua dor no fundo do coração, ou por derramá-la somente no seio de Raquel, de cujos lábios ouvia palavras de amizade, que lhe acendiam na alma a esperança.

E, pois, com a dor no coração e a esperança na alma, Honorina, embora abatida e melancólica, mostrava ir restabelecer-se depressa; e assim esvaíram-se prontamente todos os receios que pela sua vida puderam ter seus parentes e seus amigos.



Ao declinar da tarde desse dia as duas amigas tiveram de separar-se: bem quisera Raquel demorar-se mais; porém, seu pai, a quem sempre sobravam sérios negócios, já se tinha deixado ficar em Niterói um dia inteiro, só em atenção à filha do seu amigo.

No instante da despedida, Honorina e Raquel achavam-se a sós; haviam acabado de trocar um beijo, estavam ainda apertadas em estreito abraço, quando a primeira murmurou com voz trêmula:

— Raquel, minha amiga! eu não devo, nem quero ter segredos para ti...

— O que há, pois, Honorina?

— É que já não posso duvidar do que sinto; eu amo!... conheço, enfim, que amo, e muito!...

— Sim... sim... eu já o sabia, Honorina! balbuciou a custo a outra moça.

— E eu te queria ainda pedir...

— Dize!

— Raquel! tu és boa, tu és bela e virtuosa; e, portanto, tuas orações deverão chegar até o céu, como o perfume de uma pura flor!... e, pois, pela santa amizade que nos liga, pelo amor de teu pai, reza para que Deus abençoe e proteja o meu amor!...

— Sim... sim... sim... disse a amiga de Honorina com voz abafada.

Quando Raquel deixou a câmara de Honorina e foi juntar-se a seu pai para partir, este notou no rosto contraído de sua filha a expressão de um sofrimento acerbo... terrível... e profundamente concentrado.