O moço loiro/XVIII

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O moço loiro por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XVIII: As duas amigas


Enfim, elas se viam sós; não como da outra vez, recostadas na janela, que deitava para o jardim, porque Honorina receava uma aparição noturna e repentina daquele homem singular, que em toda a parte e a todas as horas velava por ela. Mas agora, sentadas ambas em um sofá, e livres de seus atavios, com a liberdade da solidão, independentes das prisões das modas, esquecidas de si próprias no doce enleio da amizade, Honorina e Raquel se dispunham para encetar a conversação que tanto desejavam; e, todavia, ainda em silêncio se conservavam, e já uma vez tinha cantado o galo.

O silêncio de Honorina não era difícil de explicar-se: havia nela por força todo esse belo receio, todo esse encantador acanhamento de virgem, que, quando ama pela primeira vez, hesita e treme ao falar de seus sentimentos à própria amiga de seu peito, e até cora, quando pensa consigo mesma... nele.

Mas Raquel?... a jovial e feliz Raquel, por que não compreende a hesitação da pobre Honorina?... por que também docemente melancólica deixa ir correndo assim a noite?...

O galo cantou segunda vez; e Honorina, como para a todo custo dar princípio à conversação, disse:

— Que dia! Raquel, que dia enfadonho passamos!...

— Eu o sinto, Honorina; melhor valera se sós o tivéssemos gozado.

— Oh! é verdade... e tanta gente... e esses homens!

— Que te perseguiram, não é assim?...

— É que eu sou bem infeliz, Raquel; não bastava Otávio, que me diz tantas coisas; que me obriga a ouvi-las; que se enche de esperanças, que eu não alimento!... eram precisos ainda mais dois que me atormentassem todo o dia com suas loucas palavras e ridículas ações!...

— E que remédio tem uma mulher, senão às vezes deixar-se requestar por tolos?... quem diz tolo, diz vaidoso.

— Oh! mas é necessário ter ou vaidade de mais, ou então um espírito muito miserável, para que eles não compreendam que eu desprezo formalmente seus obséquios!

— Porém, quem te manda desprezá-los?... pelo menos podias animar o velho... um velho namorado, Honorina, serve muito para a gente rir-se...

— É... que... eu não posso rir-me!...

— Por que, Honorina?...

— Raquel!... exclamou a moça, escondendo por instantes o rosto no seio da sua amiga.

— Fala, Honorina; desafoga-te comigo.

Passou-se ainda um momento de silêncio, em que o rosto de Honorina se foi tornando cor-de-rosa; depois ela falou:

— Raquel!... Raquel!... tu não sabes o que se tem passado comigo desde aquela fatal noite, em que conversamos, ambas encostadas nessa janela; lembras-te daquele papel, que achamos e lemos na manhã do dia seguinte?...

— Lembra-me... sim.

— Pois eu tenho involuntariamente recebido outros da mesma natureza, que trazem todas essas palavras que eu pronunciei, falando-te de amor, escritas... repetidas, como a divisa de um cavalheiro, ou como o estribilho de um hino de triunfo...

— E o homem que as escreve?...

— Oh!... esse homem?... eu o tenho visto... eu o tenho ouvido... e eu não te posso dizer ao certo qual é o seu verdadeiro rosto, nem qual é o som de sua voz!...

— Mas o que tu dizes, Honorina, é ainda bem ininteligível!...

— E, todavia, é a própria verdade; o homem que me escreve é um ente que muda de aspecto, de voz, de vestidos, de condição, de ofício e de tudo, segundo as circunstâncias em que me quer aparecer.

Raquel chegou-se para mais perto de Honorina, como não querendo perder uma só palavra do que lhe ia dizer a amiga.

— Lembras-te que te mandei pedir, continuou Honorina, que me enviasses um cabeleireiro para me toucar no dia do sarau de D. Tomásia?... tu me tinhas respondido que às cinco horas da tarde o cabeleireiro se me apresentaria...

— E então?...

— Pouco depois das quatro aparece aqui um homem para pentear-me; um homem que não dizia uma só palavra, vestido de mil cores, com o rosto muito vermelho, com os cabelos ruivos, um homem que beijou minhas madeixas, que roubou-me um anel delas, e que inopinadamente deixou-me ainda destoucada; Raquel... era ele!...

— Mas o cabeleireiro que eu te mandei?...

— Chegou depois; exatamente às cinco horas da tarde. Ouve mais: de volta do sarau, somos trazidas aqui por um jovem marinheiro, rude, grosseiro... malvestido... com cabelos pretos tão longos como hirtos; no meio da viagem, enquanto meu pai dormia, e eu receosa dele fingia dormir, apanha uma de minhas luvas, que o vento levantara, beija-a, guarda-a junto do coração... e ao chegar à praia, vendo que eu buscava a minha luva, ma entrega, tendo posto dentro dela um papel; Raquel... era ele!...

— E esse papel, Honorina?

— Estavam nele escritas as palavras fatais... o meu imprudente pensamento sobre o amor... aquilo que eu te disse, Raquel, pensando que ninguém mais me ouvia!...

— E depois?

— Tu te recordas, Raquel, daquele jovem loiro que no sarau de D. Tomásia sentou-se no terrado defronte de nós?... Raquel! Raquel! tu te recordas de seu sonho?... tu te lembras o que ele disse sobre uma sempre-viva?...

— Oh!... muito!... muito, Honorina!... eu me lembro muito!

— Pois bem... eu não pude dormir... a imagem desse moço esteve sempre diante de meus olhos! eu passei o resto da noite febril... ardente... desassossegada!... eu comparava o amor desse moço tão singular, mas tão respeitoso, que ele temia fazer corar de pejo o objeto de seus cuidados, com esse amor misterioso... noturno... e talvez terrível do homem que me persegue!... eu comparava aquele rosto melancólico e doce... aqueles belos cabelos loiros com o semblante vermelho ou agreste, com os cabelos ruivos ou pretos que no outro tinha visto!... comparava sua voz branda e comovida com a voz áspera, grossa e desagradável do bateleiro... ah! tudo isso era um paralelo cruel para o desconhecido que me amava!... Agitada... com a cabeça em fogo... aflita enfim, eu me ergui, à primeira luz do dia... abri aquela janela... levantei a vidraça... Raquel!... eu achei aí um papel, e sobre ele a sempre-viva!... a sempre-viva!...

— E o papel?... o que dizia o papel?... perguntou Raquel violentamente comovida.

— Lê tu mesma, disse Honorina, mostrando-lhe um breve escrito, que desde que se fora sentar tinha fechado em uma mão.

Raquel devorou rapidamente as poucas palavras escritas nesse papel, e entregou-o de novo a Honorina com mão visivelmente trêmula.

— Portanto, continuou esta, o moço loiro era ele!

— Sim... sim... era ele... eu o deveria ter previsto!...

Honorina abafou um suspiro.

— E a sempre-viva?... perguntou Raquel.

— Ei-la aqui! disse Honorina abrindo a outra mão.

— Tu a guardaste?!... e então foi o mesmo que responder eu também te amo!...

— Oh!... não me olhes assim Raquel, não me olhes com esses olhos tão ardentes, se não queres fazer-me abaixar os meus, e fechar-me a boca!...

— Enfim... tu guardaste a sempre-viva, Honorina?

— Não... não fui eu!... escuta. Acabando de ler essas palavras, que aí vês escritas, confesso que hesitei um momento; mas depois... eu dei um passo para a janela... estendi o meu braço... eu ia... eu devia deitar fora a sempre-viva, não é assim, Raquel?...

— Sim... sim...

— Mas... soprava uma branda aragem... o favônio da manhã, Raquel!... eu vi que cedendo a seu sopro... a sempre-viva rolou sobre a janela até cair a meus pés!...

— E depois... tu a guardaste?...

— Oh! Raquel! aquele zéfiro matutino tão fresco, tão doce, me pareceu então enviado pelo céu!... tu sabes, tens dito mil vezes, que eu tenho uma imaginação de louca, que à força de uma organização toda inflamável e de uma educação recebida na solidão, longe do mundo e dos homens, meu pensamento não se acomoda com o gelo das realidades e vive do fogo das quimeras; pois bem! será mais uma quimera; mas naquele instante eu pensei que o zéfiro que fazia rolar a flor para meu quarto, era como a mão do destino, que me arrastava para aquele homem! nos meus delírios... na exacerbação em que me achava, Raquel, eu contemplei a sempre-viva, que tinha tombado a meus pés, e sem ter ânimo para lançá-la fora... temendo mesmo cometer um sacrilégio, se o fizesse, eu disse, desculpando-me a mim mesma: — Oh!... ainda bem que não fui eu... foi o teu sopro, meu Deus!...

— O sopro de Deus!... balbuciou Raquel.

— O sopro de Deus!... sim... o sopro de Deus!...

— E, portanto, ele cantava ainda agora um pensamento que tu só podias compreender!...

— Mas Raquel... Raquel, como é que esse homem ouviu o que eu murmurei baixinho escondida no meu quarto?... pois então ele está também em toda a parte, assim como se veste de todos os semblantes?...

— Quem sabe... talvez ele estivesse mesmo de longe... talvez ele visse rolar a sua flor à força do zéfiro... e então pensasse também, como tu pensaste em um sopro de Deus!

— Mas podem acaso ter duas almas, ao mesmo tempo, um só e igual pensamento?...

Raquel respondeu com voz sumida e melancólica:

— Quando se amam, Honorina; porque já não há dúvida que tu amas...

— Oh! Raquel!... eu tenho medo de o pensar!...

— Como tu és feliz, Honorina!... disse docemente Raquel.

— E ele?... e ele? fala-me tu dele, Raquel.

— Minha bela vaidosa, que queres, pois, que eu diga?

— Se tu pudesses dizer-me, Raquel; se tu o soubesses!... é que há uma eterna pergunta no meu coração, e uma dúvida cruel dentro do meu espírito!... quem é ele?... quem é esse homem?...

— Posso eu sabê-lo?

— Será um moço ou um velho?... será um belo jovem ou um homem que faça medo?... qual é o seu rosto? qual a sua voz? quais os seus cabelos?...

— Pois duvidas que seja o moço loiro, Honorina?

— Sim, Raquel, ele foi o moço loiro de alguns momentos!... eu tenho ainda no meu espírito aquela graciosa cabeça... eu sinto ainda o fogo ardente de seus olhos... eu vejo, Raquel, eu vejo sempre aquele triste sorriso, que ele derramava em seus lábios... soa sempre em meus ouvidos, ainda mais docemente que o seu canto desta noite, aquela voz suave e comovida, com que ele dizia — eu amo!... muito!... como ninguém amou ainda!...

— E então, que queres tu mais, linda ambiciosa?...

— Raquel, Raquel, eu tenho medo, que assim como foi uma mentira aquela cabeça ruiva de ridículo cabeleireiro, assim como foi uma máscara ilusória aquela cabeça hirta de selvagem marinheiro, eu tenho medo, Raquel, de ver esvair-se como um sonho a minha mais bela ilusão... eu tenho medo de que aquele engraçado semblante de mancebo seja ainda um semblante emprestado, de que seus belos cabelos loiros sejam ainda uma pérfida cabeleira!...

Raquel não pôde deixar de sorrir-se do inocente receio de sua amiga.

— Sim... tu te estás rindo de minhas loucuras... perdoa-me, perdoa-me; porque eu estou talvez a ponto de ir ser bem desgraçada...

— Tu, Honorina, desgraçada?... e por quê?...

— Pois já te não lembras do que outrora me dizias?... Raquel, desgraçada; porque eu penso que já amo.

— Mas quando sabes que és amada?...

— Porém, isto é quase amar uma idealidade... uma sombra, que, quando pensamos tocar com o dedo, desaparece a nossos olhos!... isto é viver em um sonho eterno...

— Oh!... exclamou Raquel apertando a mão de Honorina, esse homem estudou bem a mulher de quem queria ser amado!... ele foi direito ao ponto mais fraco... atacou... e venceu!

— É porque eu sou uma mulher bem fraca, não é assim?...

— Não: é porque tu tens uma imaginação muito ardente, um coração muito cheio de fogo!... é porque tu terias amado a Torquato, como Eleonora, e a Camões, como Catarina de Ataíde!... e esse homem, que não tem certamente podido ser poeta para vir ajoelhar-se a teus pés, com sua lira nos braços, a oferecer-te a glória de um renome; que não tem certamente podido ser um herói para com os louros na fronte deslumbrar teus olhos e cativar teu espírito... esse homem, sagaz, sem dúvida, apelou para o mistério, chamou a seu favor o que achou que podia parecer-te maravilhoso... apresentou-se diante de ti coberto com um véu para te fazer desejar rompê-lo... trouxe uma centelha em seus olhos... atirou-a sobre a tua imaginação... ateou-a... venceu... é amado!...

— E tu, Raquel, terias resistido, não é assim?...

A pergunta pareceu contrariar a Raquel, que, depois de hesitar um momento, como se abafasse um gemido, respondeu:

— Honorina, não se trata de mim agora.

— Sim... sim, eu sei... terias resistido; porque tu não és como eu... tu és prudente.

— Oh!... e de que vale a prudência, Honorina?...

— A experiência e sábios conselhos de teu pai te armaram de uma fortaleza que nenhuma outra teve ainda... teu coração para amor está forrado de aço... tu só és sensível à amizade...

— Pelo amor de Deus, Honorina, não fales de mim agora!...

— Tu podes sofrer sem estremecer o olhar atrevido de um homem fixado uma hora inteira sobre teu rosto... tu zombas do poder dos olhos... tu és surda para as palavras de amor... a influência de um homem não chega nunca a teu espírito!... tu és feliz... bem feliz!...

— Honorina!... Honorina... tu ignoras o mal que me estás fazendo!...

— Eu te invejo, Raquel!...

— Desgraçada!... tu não sabes o que dizes!...

— Oh! eu me lembro bem daquelas frias palavras que uma vez me disseste!... eu as decorei: porque elas me espantaram! porque seu pensamento, enunciado por uma mulher, me pareceu um milagre... tu disseste...

— Não... não... Honorina, não as repita...

— Tu disseste: — Amor é uma vã mentira!... amor não é mais que uma das muitas quimeras com que a imaginação nos entretém na vida, como a boneca que se dá à criança para conservá-la quieta no berço... amor não é mais que a flor de um só dia, que se abre de manhã, e antes da noite está murcha!...

— Perdão!... perdão!... Honorina; pode ser que eu me tivesse enganado!...

Honorina olhou espantada para Raquel, ouvindo suas últimas palavras.

— Raquel! exclamou a moça, tu me deves um segredo!

O semblante de Raquel tornou-se pálido, semelhante ao de uma moribunda: seus olhos se fecharam, como para não deixar que os de Honorina fossem nos seus beber o arcano que ela escondia; e, parecendo haver tomado uma repentina resolução, disse tremendo:

— Honorina, eu também amo.

— Amas?... amas?... e a quem?...

— Tu vais corar, Honorina!...

— Dize, dize...

— A um homem casado.

— Desgraçada!... exclamou Honorina abraçando sua amiga.

Sorriso amargo e irônico se derramou pelos lábios de Raquel, ouvindo a exclamação da moça.

Raquel havia mentido.