O moço loiro/XVII

Wikisource, a biblioteca livre
< O moço loiro
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
O moço loiro por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XVII: Canto ao luar


Um dia inteiro se tinha passado sem que Honorina e Raquel tivessem podido estar a sós alguns momentos. A casa de Hugo se achava cheia de visitas. Lucrécia se havia apresentado às nove horas da manhã. Otávio um pouco depois; às onze horas do dia, Venâncio com sua família, e Brás-mimoso; e, enfim, Félix. Era preciso, pois, que Honorina se repartisse por todas aquelas senhoras, que agradasse àqueles homens, que, em suma, desse alma à sociedade reunida em casa de seu pai.

O dia foi correndo prazenteiro e belo. Ema, apesar de não compreender como era possível tolerar-se a liberdade que aqueles homens tomavam com as senhoras, conversando, gracejando e lisonjeando a todas elas, não podia deixar de encher-se de orgulho, vendo a graça e a nobreza com que se portava a encantadora neta.

O jantar serviu-se tarde; e, já ao anoitecer, a sociedade, levantando-se, derramou-se pelo jardim. Ema, que não podia expor-se ao ar frio da noite, ficou na sala, acompanhada de Venâncio e de Jorge, o pai de Raquel.

Hugo de Mendonça passeava com Tomásia.

Honorina, defendida pela amizade de Raquel, vigiada pelo ciúme de Lucrécia, perseguida pelos impertinentes obséquios de Otávio, espantada das loucas pretensões de Brás-mimoso e do ridículo proceder de Manduca, caía às vezes em doces meditações, nas quais vinha quase sempre a imagem do moço loiro tomar o posto mais nobre.

Félix dava o abraço à sua querida prima; e, único feliz entre tantos, esquecia-se, conversando com ela, do tempo que passava, dos olhos que o cercavam, do passado, do presente e mesmo do futuro.

Porque o homem, que passeia com a mulher que ama, é um ente excepcional, cujo mundo não passa dela e dele; cujo mundo é fechado pelo horizonte de amor... horizonte belo, cor-de-rosa, brilhante, limitado... tão limitado, que dentro dele só cabem dois corações, somente soam as palavras de duas bocas, somente pensam duas almas; troca-se entre ambos uma linguagem, um idioma de fogo, e sempre novo, que se fala pelos olhos e se entende pelo tremer dos braços ou pelo palpitar dos corações; tudo que os cerca está fora do seu mundo, não tem nele existência possível; aí só vivem os dois... e amor.

Depois de algum tempo de passeio, as senhoras recolheram-se. Hugo foi ajuntar-se e tomar parte com Venâncio e Jorge na conversação de sua mãe, que, entusiasmada, se exaltava, fazendo a apologia das belezas, dos prazeres e dos puros costumes do seu tempo.

Otávio uniu-se a Félix, e ambos desapareceram pelas mais obscuras ruas do jardim, como se os ocupasse objeto de muito subido interesse.

Brás-mimoso e Manduca passeavam cada um para seu lado; mas na volta de uma rua encontraram-se, talvez contra a vontade de um deles.

Aqueles dois completos namorados sem ventura eram, em verdade, a personificação de duas classes de homens, que todas as senhoras devem mais ou menos ter encontrado no decurso de sua vida. Vejamos se, dando conta do caráter de cada um deles, poderemos ter a felicidade de chegar ao ponto de que cada moça que tiver estas linhas diante de seus belos olhos, possa dizer consigo ao recordar a coleção de seus impertinentes adoradores: "Brás-mimoso se parece com este; Manduca é o retrato daquele."

Há um sentimento... oh! seria profanação dar-lhe o sagrado nome de amor. Comecemos, pois, de outro modo.

Há homens detestavelmente vaidosos, homens insolentes, que não vêem na mulher senão a mais fraca e humilde das criaturas; homens que não amam nunca, pois são incapazes de tão nobres sentimentos, mas que trabalham para ser e se ufanam de parecer amados. A alma desses homens é torpe, é alma de lodo; e a mulher infeliz, a quem requestam, é por força a vítima de sua vanglória; porque, de duas uma, ou ela é bem desgraçada para corresponder a fingidos extremos, ou deles sabe zombar. No primeiro caso, lá vão os miseráveis ostentar seus triunfos em toda a parte... nas assembléias, nos passeios e no teatro eles desfiam a atenção do público para que todos sintam suas vitórias, invejem suas felicidades, proclamem-nos como conquistadores, embora à custa do nome e do crédito da vítima!... e, quando uma senhora os tem tratado de maneira que em sua própria vaidade não ousam supor-se felizes, eles ousam, contudo, por jactância e por vingança impor... fingir... dizer sê-lo! para eles o nome e a fama de uma mulher não é mais que a flor, que importa pouco ser quebrada, murcha e perdida, contanto que sirva um momento para ornar a coroa de seus improvisados triunfos.

Brás-mimoso, com ser tão ridículo em si mesmo, era um desses homens.

Há outros que, pelo contrário, nem se sabem fazer amantes; outros que, vivamente interessados por uma senhora, ficam duas horas a sós com ela sem lhe dizer palavra, e, quando ela se retira, vingam-se de si mesmos, beijando suas pisadas, e se conservam uma noite inteira contemplando a cadeira em que ela esteve sentada; que comem o palito que lhe caiu dentre os dentes, que beijam em segredo o papelzinho que ela enrolou entre os dedos, que decoram e adoram os versos das balas que se atreveram a estalar com ela, que a servem nas sociedades como um escravo, e depois se retiram para um canto, olhando-a de longe, e abaixando os olhos se encontram com os dela; que quando são obrigados a dar-lhe o braço, tremem como varinhas verdes; se ousam dirigir-lhe a palavra, gaguejam e se perturbam a ponto de causar piedade; e que, finalmente, confiando, a medo, seus extremos a um amigo, lastimam-se, choram e vivem assim.

Manduca era pouco mais ou menos um namorado deste gênero.

Ora, parece depois do que vem dito, que naturalmente o homem que impõe deve ser forte e valente, e aquele que chora, fraco e desanimado; pois por notável contradição sucede o contrário disso: as mais das vezes o chorão é um Hércules, e o impostor um covarde. E mais um exemplo vem para a regra; porque Manduca tem o braço de um atleta; e Brás-mimoso a natureza de um poltrão.

Exatamente por esse motivo, Brás-mimoso, que achava um não sei quê no rosto de Manduca, desde a última noite que havia passado na casa de Venâncio, não tinha lá a maior vontade de encontrar-se com o moço em lugar solitário; porém, tantas voltas deu o filho de Tomásia pelas ruas do jardim, que depois de aturado trabalho conseguiu encontrar-se cara a cara com Brás-mimoso, que, um pouco desapontado, e com o mais desengraçado e menos bem fingido disfarce, ia já se voltando para trás, quando Manduca o chamou dizendo:

— Sr. Brás, faça-me o favor...

— Oh! Sr. Manuel! exclamou Brás-mimoso, ora... muito bem diz o ditado — os que se querem, se encontram sempre.

— Fico-lhe obrigado; mas ouça-me, pois tenho que lhe falar.

— E eu também... quero dar-lhe os parabéns... o senhor tem sido feliz... felicíssimo... o nosso amigo Otávio deve trazê-lo na garganta.

— Pior é estar-me o senhor a trucar de falso!... disse Manduca levantando a voz.

Brás-mimoso estremeceu desde os pés até à cabeça.

— O Sr. Manuel parece um pouco... exacerbado!... creio que não fui eu quem teve a desgraça...

— Então já se esqueceu do que disse em minha casa sexta-feira à noite? perguntou o moço.

— Oh!... pois V. S.ª ainda se lembra disso?

— Lembro-me perfeitamente de que o senhor se fez de grande valentão, porque estava à vista de minha mãe; e, portanto, venho aqui repetir-lhe o que então disse, e dar-lhe um conselho proveitoso.

— Sr. Manuel, V. S.ª abusa da minha posição!...

— Eu quero repetir-lhe na cara que o senhor é um esqueleto de cinqüenta anos, um velho muito ridículo e miserável; pois que, sem se lembrar de que tem cara de avô, anda com pretensões de moço de vinte anos...

— Senhor... eu vejo que devo ser prudente com V. S.ª... eu me recordo de que V. S.ª é o filho de um homem... e de uma senhora.

— Digo-lhe, continuou Manduca, que me não importa que o senhor persiga com suas maneiras ridículas e desprezíveis aquela bela senhora; pois que eu a suponho com bastante juízo para não fazer caso de uma ostra, de um carrança espartilhado como o senhor!...

Brás-mimoso tremia e suava suores frios; por isso ouviu sem dizer palavra aquele ataque feito a seu amor-próprio.

— Porém, prosseguiu Manduca, e aqui vai o conselho; se o senhor tiver o atrevimento de gabar-se uma outra vez em qualquer parte do mundo de ter sido atendido por D. Honorina, já que mostra tão pouco juízo, que parece haver-se tornado de novo criança, tenha a certeza de que me acho disposto a persegui-lo cruelmente.

— Está bem, Sr. Manuel, diga o que lhe parecer...

— Juro-lhe que sou capaz de arrancar-lhe a cabeleira mesmo à vista de D. Honorina.

— Senhor... mas eu não sei em que tenho merecido a inimizade de V. S.ª...

— E como, em todo o caso, faz-se preciso que um castigo acompanhe sempre o crime, e o senhor delinqüiu, falando sem respeito de uma senhora honesta, e chegando mesmo a caluniá-la...

Brás-mimoso, ouvindo falar em castigo, sentiu enfraquecerem-lhe as pernas, e, encostando-se ao tronco de uma árvore, olhava para todos os lados a ver se descobria alguém a quem recorresse.

— Eu exijo, continuou Manduca, que em presença das mesmas pessoas, diante de quem falou sexta-feira, o senhor se desdiga de quanto disse... que confesse que não passa de um tolo...

— Sr. Manuel... V. S.ª...

— Um caluniador...

— Por quem é, Sr. Manuel, não me deite a perder...

— Um...

Manduca foi interrompido: o céu acabava de socorrer Brás-mimoso.

E os dois singulares rivais estenderam os pescoços e ficaram estáticos e boquiabertos, atentando os acentos melodiosos de uma voz doce e branda, que cantava uma música melancólica.

Uma idéia feliz tinha tido Hugo de Mendonça para obsequiar a seus hóspedes: como, à exceção de Brás-mimoso e Manduca, se achassem todos depois de algum tempo sentados debaixo de uma copada mangueira, que ficava próxima do mar, ele lembrou-se que ali, à mercê do silêncio da noite e ao clarão da lua, devia causar efeito bem agradável uma voz harmoniosa, que entoasse um canto; e, orgulhoso do mérito de sua filha, não hesitou em aconselhar-lhe que cantasse.

Félix ofereceu-se para acompanhá-la; apareceu um violão, e Honorina cantava.

Já então era noite fechada; mas a lua cheia e bela derramava sobre a interessante Niterói os raios de sua luz misteriosa. E uma voz entoava um hino melancólico. Oh! fora preciso estar ali, e ouvi-la; e sentir também como toda a natureza harmonizava os seres, punha em concerto os elementos para magicamente acompanhá-la. E, pois, brando favônio lambia apenas as folhagens... as ondas murmuravam docemente ao beijar das praias... a lua prestava à cena essa luz receosa e modesta, mercê da qual o fraco embalançar dos ramos, que a aura embalava, erguia aqui e ali seres fantásticos... místicas sombras noturnas, que, segundo o vaivém dos ramos, ora se agigantavam, ora se iam minguando até sumir-se de todo, para logo renascer outra vez... e por toda a parte o silêncio... e como equilibrando-se sobre ele essa voz... doce, angélica... que diríeis um longo suspirar de anjo... essa voz... um pouco curta talvez... mas tão cheia de encanto e magia... que soar... tocar o ouvido... e cair no coração de quem a escutava, era milagre de um breve instante... Oh! fora preciso ouvi-la!... e também fora preciso ver essa moça que cantava, assentada debaixo de copada mangueira... essa moça bela... pálida... vestida de branco... semelhante talvez à imagem vaporosa que a imaginação escaldada do viandante noturno vê à porta do templo solitário... ou curvada sobre a campa de um finado... essa moça, cuja voz tinha um não sei quê de tão subtil... tão melancólico... tão sobre-humano talvez, que retinia no âmago do coração, e nos seios da alma!...

Honorina escolhera para cantar uma lira que era desde alguns dias a sua favorita; que desde algumas noites ela preferia sempre a mil outras para entoá-la ao lado de seu pai, ou sentada à janela de seu quarto no silêncio das desoras: essa lira parecia como uma prece, que saía do seio de uma virgem para subir ao céu; ela dizia assim:

Inocente, incauta virgem,
Que inda o mundo te sorri...
Esse mundo que te incensa
Laços arma contra ti.
Virgem, mede os passos teus...
Virgem, só confia em Deus!...

Esses olhos que dardejam
Sobre ti chamas de amor,
Podem verter em teu seio
Doce veneno traidor.
Virgem, mede os passos teus...
Virgem, só confia em Deus!...

'Sê, ó virgem, sê somente
Sempre a rosa do Senhor...
Vê que o vento afronta às vezes
A do mundo pobre flor.
Virgem, mede os passos teus,
Virgem, só confia em Deus!...

Honorina calou-se... Os aplausos choveram sobre ela... os dois infelizes amantes, que de longe a tinham escutado, correram a derramar suas felicitações e seus parabéns aos pés da encantadora moça que os enfeitiçava; mas de repente os parabéns, os aplausos se suspenderam, e todos olharam surpreendidos para o mar; porque uma voz também sonora entoava de lá o seu canto, sujeitando-se à mesma música.

Favorecidos pelo luar, eles viram, a pouca distância da praia, um pequeno e lindo batelão parado, e sobre ele a figura branca de um homem, que, voltado para a árvore, debaixo da qual se achavam, cantava com voz comovida; e eles ouviram que seu canto dizia assim:

Inocente, bela virgem,
Que o mundo fazes sorrir...
Amor, que inspira a virtude,
Sabe em teu seio nutrir.
Virgem, mede os passos teus;
Mas cede ao sopro de Deus!...

Lembra, que esse amor de poeta,
Em que pode uma alma arder,
Mesmo acabando na morte
Por força belo há de ser.
Virgem, mede os passos teus;
Mas cede ao sopro de Deus!...

Qual cede a rosa ao favônio
Vivo aroma encantador;
Ao homem nobre e constante
Ceda a virgem seu amor.
Virgem, mede os passos teus;
Mas cede ao sopro de Deus!...

O canto terminou; e o batelão se foi misteriosamente deslizando para o largo.

Insensivelmente toda a companhia se tinha aproximado à praia; só Honorina e Raquel haviam ficado no mesmo lugar, surpreendidas, e tomadas talvez do mesmo sentimento.

— É ele!... murmurou Honorina, quando sentiu que o canto acabava.

— Eu o conheci, disse Raquel; ele falou ainda uma vez no amor de poeta!

— Oh!... tornou Honorina, e o sopro de Deus!... o sopro de Deus!... portanto, ele vê... ele ouve... ele sabe tudo!...

— Que queres dizer, Honorina?

— Logo... logo te direi tudo. Agora silêncio: todos se chegam para nós.

Com efeito, a sociedade tornava a seu primeiro lugar.

— É preciso convir, disse Hugo de Mendonça, que aquele bateleiro é um atrevido, que tem muito boa voz, e canta bem sofrivelmente!

— O que não pode fazer olvidar, disse Otávio, que ele é um insolente, que se aproveita da largueza do mar...

— Como insolente?... acudiu Lucrécia, que se apraziava com o desgosto de Otávio; eu me confundo decerto!... Supunha que nada havia mais natural do que um bateleiro fazer demorar sua viagem para ouvir a voz de uma moça que cantava; nada mais agradável do que responder o canto, que acabava de ouvir, com outro da mesma natureza.

— Mas o homem que cantou não pode ser um rude bateleiro...

— E que podemos nós fazer?... disse Hugo: porventura está no nosso direito impedir que se cante no mar?... deverá Honorina privar-se de sua mais bela prenda só porque houve um homem que, de longe, respondeu uma vez a seu canto?...

— Deus nos livre disso! acudiu Otávio.

— Seja embora um atrevido, continuou Hugo, devemos confessar que causou-nos uma surpresa.

— Mesmo uma agradável surpresa, ajuntou Tomásia.

— Não tem dúvida; uma agradável surpresa, repetiu Venâncio.

— Mas que é isso, Honorina?... tão melancólica de repente?... Será possível que aquele harmônico bateleiro chegasse a incomodar-te até o ponto de te entristecer assim?...

— Meu pai... é que eu não esperava...

— Graças a Deus temos todos essa certeza. Nada... nada de nos ofendermos por tão pouco... Querem saber? se eu pudesse, faria com que o nosso bateleiro repetisse uma outra vez o seu canto...

— Meu pai!

— Não é graça... tem uma bela voz de tenor...

— E o efeito, disse Lucrécia, o grande efeito que produz o canto no silêncio da noite e no mar...

— É verdade!... é verdade!...

— A propósito! exclamou Hugo de Mendonça, daremos uma lição ao nosso bateleiro.

— Como?...

— Se Honorina quiser, aproveitaremos uma ou duas destas belas noites de luar, faremos um passeio marítimo, e no mar... defronte da mais linda praia... levantam-se os remos, e Honorina entoa a sua lira da virgem inocente.

— Oh! não, meu pai!...

— Sim... sim, minha senhora... ceda...

— Porventura tens medo de bateleiro?... lá... o caso é outro: estaremos no mesmo campo, e se ele aparecer veremos qual é o batel que mais voa... então que dizes?...

— Ceda... ceda...

— Eu farei o que meu pai quiser.

— Pois muito bem: estamos tratados; resta marcar a noite; quando deverá ser?...

— A Sr.ª D. Honorina que decida...

— Para mim é indiferente... pode ser qualquer...

— Honorina, disse Raquel, marca a noite de amanhã: eu fico contigo até terça-feira, não é assim, meu pai?...

— Sim, minha filha, respondeu Jorge.

— Amanhã, amanhã, Sr.ª D. Honorina, disse Tomásia, nós temos de passar o dia de amanhã com minha comadre, e pediremos licença para tomar parte em tão agradável passatempo.

— Pois se meu pai quiser, tornou Honorina, seja amanhã.

— Está dito, concluiu Hugo, seja amanhã.

E ao mesmo tempo que todos se levantavam, ouviu-se ao longe muito ao longe, a voz do bateleiro, que repetia:

Virgem, mede os passos teus;

Mas cede ao sopro de Deus!