O moço loiro/XXII

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O moço loiro por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XXII: Ele


Na manhã do dia seguinte o moço ferido, que se achava na casa da pobre Sara, achou-se melhor; sentia apenas que, ainda nimiamente fraco, não podia deixar aquela casa sem um companheiro que o sustivesse.

Sara e Miguel estavam à mesa almoçando com a melhor disposição, quando viram aparecer à porta da varanda o seu doente.

— Ninguém se desarranje por minha causa, disse ele alegremente; eu me acho melhor e, falando sem-cerimônia, tenho bastante fome.

— Mas...

— Nada... nada de reflexões, continuou sorrindo-se; mãe Sara (permita que lhe chame assim), dê-me uma xícara do seu café e metade do seu pão... eu já estou bom... completamente bom... e sinto uma fome terrível... ah!... então parece que duvidam!... pois, meus bons amigos, eu não faço cerimônia... com licença.

E dizendo isto o moço serviu-se de café e pão, e começou a fazer boa companhia aos seus hóspedes; já se dispunha a repetir segunda dose de café, quando a velha o suspendeu.

— Alto lá, senhor! não se come tanto de uma vez ao entrar em convalescença...

— Também acho-lhe razão, mãe Sara, e sujeito-me agora a suas determinações; porém, ali pelo correr das duas horas há de fazer-me o favor de servir-me com uma... está bem, não vamos tão depressa; com metade de uma galinha ensopada, guisada, assada, ou como lhe parecer. É certo que agora não tenho dinheiro, porém amanhã, mãe Sara, eu lhe prometo que há de ser paga de suas despesas e trabalhos.

— Que despesas, moço! até esta hora ainda não me fez gastar um vintém... não falemos nisso; eu estou bem contente de vê-lo assim alegre...

— Obrigado, mãe Sara; agora tenho um negócio com o Sr. Miguel...

— Então quer que eu faça alguma coisa?

— Sim, meu amigo: eu quero que ao toque das oito horas da noite esteja hoje o senhor junto às grades do templo do Carmo.

— Bem; e depois?...

— Há de aí vir um menino vivo, esperto, loiro, que mostrará ter dezesseis anos... vestido de branco (pelo menos é de esperar que assim venha), e com uma fita preta atada em laço ao pescoço: mostre-lhe o senhor este anel, que lhe vou dar, e diga-lhe que o acompanhe.

— E depois?...

— E depois, Sr. Miguel, não há mais nada a fazer: o senhor entra e fica na sua casa; e o menino terá de conversar comigo.

— Ah!... entendo: quer que traga o menino cá?...

— É exatamente isso mesmo; o Sr. Miguel tem uma penetração admirável!... eis aqui o anel.

Miguel recebeu o anel, escondeu-o no bolso da calça e saiu.

— Agora, mãe Sara, disse o moço, consinta que eu vá descansar um pouco.

— Vá, vá, moço, e não seja desinsofrido.

O moço loiro levantou-se e foi direto para seu quarto, já sem encostar-se às paredes.

— Ora, pois, disse ele entrando, vê-se bem que esta cabeça vai tomando juízo: já não me anda tanto à roda...

E, deitando-se em uma pobre cama, adormeceu de novo.

Mas quem é esse mancebo?... donde veio?... o que pretende?... por que se esconde?... pouco nos é dado dizer a semelhante respeito; nada adiantaremos ao que já qualquer que ler este livro terá compreendido.

É absolutamente o mesmo moço loiro, que se apresentou no sarau de Tomásia diante de Honorina e Raquel; mas seu rosto, que não afeta mais a doce melancolia, que, sem dúvida, fingiu à vista das duas moças, está agora extremamente pálido; seus olhos se acham encovados; ainda assim, porém, ardentes e vivos; e, apesar de fraco e abatido, ele sempre alegre e fagueiro deixa brincar nos lábios descorados um sorriso engraçado, que sabe tornar melancólico, irônico, picante ou agradável, segundo as circunstâncias do momento.

Mas como se chama o moço loiro?... ficamos como dantes; é essa uma questão que ele nunca trata de decidir; uma vez, em que Sara lhe perguntou qual era o seu nome:

— Há suas dúvidas a esse respeito, mãe Sara, disse ele com voz meiga: eu mesmo ainda não sei como me devo chamar; no entanto, pode ir chamando-me, como lhe parecer, porque eu acudo por todos os nomes da folhinha.

Todavia, apesar do mistério de que se rodeia, há uma coisa que à primeira vista de olhos se aprecia devidamente em suas ações e mesmo em seu semblante: é o caráter dele. Na parte superior da sua fronte desenha-se descendo, e estreitando-se até o meio dela, com sua forma cônica, e apenas sensível, o órgão da sagacidade e vivacidade de espírito. Basta, além disso, observar esse moço durante breves momentos para conhecê-lo todo; com efeito, tudo nele é fogo e ardideza; ágil, rápido e precipitado, quase em um só tempo pensa e executa; jovem, e parecendo cheio de esperanças, ele se ri para o mundo com uma audaz confiança no futuro; forte, decidido, bravo e imprudente, não hesitaria um instante ao ver-se à borda de profundo abismo, antes atirar-se-ia no seu fundo para salvar uma vítima, qualquer que fosse, que lá se debatesse; talentoso, ardente e romanesco despreza a vida de vegetação e de monotonia, e, todo entregue aos sonhos e desvarios de sua imaginação, cria em derredor de si, e para viver a seu gosto, um mundo de ilusão, de mistérios e de belas fantasias; finalmente, compassivo e alegre, independente e brando é sempre o amigo dos desgraçados, tem sempre piedade dos outros e nunca de si; está constantemente alegre, não odeia a ninguém, estima muita gente e morre de amores por Honorina.

O gênero de amor que entretém deve, pois, sua origem e alimentação a uma de duas causas: ou a seu caráter, ou a uma razão ainda desconhecida.

É possível que, extravagante e ardente como é, tendo ouvido o primeiro diálogo de Honorina e Raquel, e então devidamente apreciado a imaginação daquela moça, que devia ser com tanta facilidade inflamável, lhe viesse ao pensamento desafiar-lhe primeiro a curiosidade, e depois ganhar-lhe o amor com suas aparições inopinadas e preparados mistérios: se ele pensou assim, tirou completo resultado de seu plano.

Mas é possível também que, amando desde muito a bela moça e temendo que seu rosto, visto à luz do dia possa recordar um crime, ou uma infâmia que faça recuar horrorizado de seu aspecto aquele anjo de pureza, se furte aos olhos de todos, e à mercê da noite, ou quando, aparecendo só a ela, ninguém haja para apontá-lo com o dedo, e dizer: eis um monstro! trate de prender em duros laços o inocente coração da menina, a fim de que, se uma hora soar em que seja conhecido, seja também já impossível escapar-lhe a presa.

Pode, porém, existir tanta malvadeza em um homem tão nobre, que se expõe à morte para salvar uma mulher?... em um homem que, ainda estando só, está sempre alegre?... a alegria na solidão não será um privilégio exclusivo da virtude?...

Além disto, uma consideração há a fazer notar em todos os passos desse mancebo: como pode ele penetrar nas noites que lhe agradam, dentro do jardim de Hugo?... quem lhe foi dizer que Honorina esperava um cabeleireiro no dia do sarau de Tomásia?... quem o foi prevenir de que Hugo voltaria com sua filha para Niterói na mesma noite?... quem o avisou de que haveria um passeio marítimo na noite da tempestade?...

Embora não se possa explicar semelhantes dúvidas, nada há mais certo do que o conhecimento prévio que o moço loiro teve de tudo aquilo; ele, pois, sabe de todos os passos de Honorina, de suas ações, de seus projetos, e, jogando com eles, ganha sempre as partidas em que compra cartas.

Em seu engraçado contender de amor, ainda não abandonou o campo uma só vez, como vencido. De duas uma: ou deixa a confusão no arraial inimigo, e de longe com isso se recreia, ou vai bater-se face a face e ganha de ordinário um troféu de vitória. Sempre imprevisto, nunca esperado, jamais o mesmo, muda de armas em cada batalha, de gênero de combate em cada campo. Há só um objeto constante nele — a sua bandeira, a divisa de seu escudo: amor!

Assim, testemunha ocular, ouvindo a conversação de duas moças horas inteiras de uma noite, ouvindo, sem ser visto, ele confunde a ambas com sua primeira carta, que nada menos significou do que a declaração da guerra do amor.

Dias depois, ridiculamente vestido e ainda pior toucado, apresenta-se diante da moça que ama, rouba-lhe um anel de madeixas e desaparece.

Mais algumas horas, e ei-lo metamorfoseado em moço loiro, sentimental e melancólico: fala, e de seus lábios escorre veneno para o coração de duas moças; olha, e de seus olhos partem setas de fogo, que fazem arder o sossego de ambas elas; tem entrado em um sarau para o qual não o convidaram, vê a gente que chega, e foge sem ser sentido, sem ser notado, deixando sua imagem e a relação de um sonho para atormentar duas belezas.

Para logo inteiramente novo, é já um rude bateleiro; que com sua voz áspera e grossa assusta Honorina, e faz-lhe fechar os olhos: aproveita-se do vento... beija-lhe uma luva, e dentro dela lança o seu hino de vitória, e ao amanhecer, na janela da moça, a flor que devia explicar o sonho!

Não muito depois responde a um canto com outro, em que demonstra que ouviu ou que sabe de um doce pensamento escapado da alma e dos lábios de Honorina. Na noite seguinte o velho pescador, como um enviado do céu, atira-se ao mar e salva aquela a quem ama. Não tem por armas mais do que cabeleiras e vestidos singulares, e à mercê deles triunfa sempre.

Quem é, pois, esse mancebo que não sabe toucar e faz-se cabeleireiro; que nada compreende de pilotagem e se improvisa patrão de batéis?...



Meio-dia soou: o moço loiro acordou-se, e, ouvindo a voz de Sara na varanda, levantou-se e se foi sentar em uma banquinha junto dela.

— Então como vai, moço?...

— Cada vez melhor, mãe Sara; mas confesso-lhe que sinto outra vez uma fome dos meus pecados; a minha galinha estará pronta?...

— Ainda não, moço; o senhor disse que queria pela volta das duas horas da tarde.

— Paciência... paciência; porém, mãe Sara, quero pedir-lhe um favor: não me chame de moço; chame-me de filho.

— Pois bem: meu filho...

— Assim... mas o que é?...

— O que é, o quê?

— Ah! eu pensei que mãe Sara me perguntava alguma coisa; como ia dizendo — meu filho...

— Não, nada perguntei; e, todavia, alguma pergunta poderia ser-lhe feita.

— O quê?...

— Eu não sou curiosa, meu filho; recebi-o em minha casa sem o conhecer; mas... cheio de sangue... que queria isso dizer?...

— Que o sangue era de minha cabeça, mãe Sara.

— E como se quebrou a sua cabeça?...

— Ora... como se quebrou?... quebrando-se; não há nada mais natural; nunca se viu uma cabeça quebrada?...

— Sim; mas era possível temer...

— Está bom... está bom, mãe Sara; falemos em outra coisa; não há nada pior do que dormir com fome.

— Por quê?...

— Porque sonha-se muito.

— Sim?... então sonhou?...

— Esta noite... muito; dois longos sonhos... olhe, mãe Sara, em parte eu gosto bastante de sonhar; se soubesse como eu tenho sido feliz com sonhos!...

E o moço pôs-se a rir.

— E sonha muitas vezes?...

— Faço ainda mais, mãe Sara: quando não posso sonhar, invento sonhos.

— Mas, meu filho, isso também é mentir; e, portanto, é pecado.

— Há certos pecados que Deus perdoa facilmente; porém, como lhe dizia, esta noite tive dois sonhos... e um com mãe Sara!

— Comigo?...

— Sem dúvida; mãe Sara é bem pobre, não é assim?...

— É verdade, mas não da graça de Deus.

— Pois eu sonhei que me ia hoje embora, e, querendo dar-lhe algum dinheiro, mãe Sara o não quis receber...

— E era isso o que havia de acontecer.

— Obrigado... obrigado... nem eu me atrevia a oferecer-lhe nada; mas o sonho continua... e amanheceu o dia de amanhã... mãe Sara acordou e achou debaixo do travesseiro uma carteira cheia de dinheiro...

— E quem a tinha posto lá?... perguntou rindo-se a velha.

— Provavelmente a mão de algum gênio benfazejo.

— E depois?...

— Mãe Sara ficou com o dinheiro, e acabou-se o sonho.

O moço loiro ria-se agradavelmente, observando a impressão que seu sonho produzia na pobre velha; depois de alguns instantes de silêncio, ela perguntou:

— E o outro sonho feiticeiro?

— O outro... o outro é com Miguel; eu queria repeti-lo à vista dele, porém mãe Sara lho contará.

— Vamos lá; e nada de inventar.

— Eu sonhei que ontem à noite tinha vindo uma moça visitar a mãe Sara...

A velha olhou espantada para o moço.

— Sonhei até que essa moça se chamava... se chamava... espere que me lembro... chamava-se Raquel!

— É possível...

— Sonhei que Miguel tinha faltado à sua promessa, contando à moça tudo quanto havia a meu respeito...

— Perdão, meu filho! exclamou a velha, perdão para Miguel; porque tudo isso é verdade!...

— Ah! é verdade?... melhor: pobre Miguel! se fosse eu, tinha feito ainda mais, inventava uma história bem comprida e mentia, como é de meu costume... pobre Miguel! por isso não o estimo eu menos.

— Meu bom filho!... feiticeiro!... feiticeiro!...

— Espere, mãe Sara; o sonho continua. Sonhei que a moça veio observar-me da porta do quarto... como era bonita!...

— É verdade... tudo verdade...

— Sonhei que logo depois ela entrou em outro quarto... no seu, mãe Sara; e foi escrever a uma amiga... também muito bonita, muito, mãe Sara! essa então era mais bonita ainda!... ora bem: quando a moça estava fechando a carta, chegou o pai, que a vinha buscar, e ela correu à sala...

— Sim... sim... foi assim mesmo.

— Agora o resto é melhor ainda: sonhei que eu me ergui da cama, e, encostando-me pelas paredes, fui pé por pé ao quarto de mãe Sara, abri a carta que a moça tinha escrito... oh! o ladrão da moça escreve bem!... mãe Sara, eu beijei a carta!...

— Brejeiro!... brejeiro!...

— E depois... olhe que tudo isto é sonho; depois eu virei a folha e escrevi no verso duas ou três linhas com quanta pressa podia; feito isto, retirei-me, e fingi outra vez dormir.

— Agora é muito! se fosse verdade...

— Estou dizendo que é sonho, mãe Sara, sonho só; olhe, pergunte à moça se, quando ela me observou, eu não estava dormindo; porém, mãe Sara, não me deixa acabar nunca!...

— Acabe... acabe, meu filho.

— Sonhei que, apenas tinha eu deixado o quarto, a moça tornou a entrar, e, selando a carta, entregou-a a Miguel.

— É tudo verdade.

— Sonhei, enfim, que a moça partiu com o pai para sua casa, e Miguel para Niterói... lá, Miguel entregou a carta... mãe Sara; no meu sonho eu vi também a outra moça lendo; ainda uma vez... como era bonita!...

— Meu filho, se isso é um sonho, foi um poder sobrenatural quem o fez tê-lo, para castigo de Miguel...

— Pobre Miguel! não falemos dele... eu o perdôo de todo o meu coração!... por conseqüência, tudo o que eu sonhei foi realidade?...

— Pelo menos quase tudo...

— Ah! mãe Sara!... se se realizasse o resto...

— Pois ainda temos mais?...

— A última parte.

— Então acabe.

— Eu dizia que a moça que recebeu a carta era muito bonita... encantadora, mãe Sara!... pois bem... no meio de tudo isto... sonhei que me tinha casado com ela...

— Extravagante!...

— Despertei, soltando um grito de alegria...

— Enfim?...

— Achei-me, quando procurei minha mulher, só... com a cabeça quebrada... cheio de sangue... aborrecido de mim mesmo...

— Louco!... e por isso se faz de repente tão triste!

Nesse momento ouviu-se um sino que dava horas.

— Que horas são?... perguntou o moço com vivacidade.

— Uma.

— Mãe Sara, a minha galinha?...

— Às duas horas.

— Que fome, meu Deus!... que fome!... que fome!...

A velha desatou a rir.