O moço loiro/XXVI

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O moço loiro por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XXVI: Ciúmes


Venâncio entrou na sala alegre e risonho, trazendo debaixo do braço um embrulho que continha duas dúzias de cartas; em menos de três horas havia arranjado com que encher uma mala de correio. Tão às boas se apartara há pouco de Tomásia, que, indo sentar-se junto dela, não reparou na tromba enfarruscada que a querida metade já tinha amarrado no rosto.

Manduca e Rosa entraram para o gabinete; e ao mesmo tempo que a moça se atirava furiosa sobre uma cadeira, o rapaz se lançava entusiasmado em outra.

— Não há que duvidar, mana Rosinha; tenho já doze colégios fechados aqui na mão!... está decidido; sou deputado!... é preciso dar-me ao estudo de palavras antigas e rabiosas... e isso quanto antes; porque no primeiro dia de sessão, peço a palavra!... oh!... ela há de ler o meu discurso; empenhar-me-ei para que saia no Jornal do Commercio, todo cheio de apartes; apoiados, apoiadíssimos, muito bem... e, terminando com bravos, apoiados e aplausos! só penso na sensação que lhe há de produzir o meu début!...

— Produzir sensação em quem, mano?...

— Em quem?... nela!... pois é pouco vir a ser mulher de um deputado?... e quem te diz que eu não subirei em breve tempo a mais alta posição?...

— Manuel, abandona os teus projetos... esquece aquela mulher.

— Então, que novidades há?... que quer dizer com isso?...

— Todos nós estávamos iludidos... ela não te ama.

— Ora, isso sei eu há muito tempo; até dou-lhe alguma razão... eu nem deputado era!

— Qual deputado, nem meio deputado! Torno a dizer-te, que estávamos iludidos: aquela mulher nem te ama, nem é digna de ti.

— Hem?...

— É uma refinada namoradeira!...

— Mana Rosa... olhe que você me insulta!... faça de conta que D. Honorina é já minha mulher... que somos ambos solitários...

— É uma insolente!...

— Mana Rosa, contenha-se, senão digo-lhe também das últimas...

— Teve a audácia de perseguir em um só dia cinco homens ao mesmo tempo!...

— Isso é uma calúnia!... não era capaz de tal!... todas vocês têm raiva dela por ser mais bonita, mais engraçada, mais...

— Manduca, você é um grandíssimo tolo, ouviu!...

— E você tem uma lingüinha de cobra!...

— Sim, por dizer verdades de uma mulher, que se abaixou ao ponto de mostrar-se apaixonada de um original como o Brás-mimoso.

— É falso!... é uma mentira daquele ventas de mono!...

— Que se fingiu namorada de Otávio...

— Ora... ora... ora... isto não se pode sofrer quando ela parecia até não gostar de semelhante impostor!

— Que se mostrava sensível às tontices que você lhe dizia...

— Isto só pelo diabo! mana Rosa, não tenho vergonha de dizer que levei tábua redonda em todas as vezes que a ela me dirigi.

— Que namorou a meu primo Félix...

— Mana Rosa, olhe que se vai por aí, eu rasgo-lhe o capote em cinco minutos!

— Que nem mesmo perdoou a meu pai com ser velho; que deu-lhe cotoveladas, que apertou-lhe a mão... que...

— Ai!... já sei donde vem esta embrulhada!... você, senhora mana Rosa, era capaz de levantar três dúzias de aleives a D. Honorina pela inveja que dela tem; mas no que acaba de dizer conhece-se o dedo do gigante!... por isso o tal brejeiro escamou-se daqui apenas me viu chegar; porém, deixe-o estar, que há de pagá-lo com língua de palmo: quer saber de uma coisa?...

— O que é? diga.

— A primeira vez que encontrar o Sr. Brás-mimoso, corto-lhe as orelhas.

— Não foi ele...

— Foi!...

— Juro que não foi ele.

— Quer fosse, quer não; tenho sede naquele atrevidaço... ainda mais agora, que me asseguram tentar também o tal sujeito a deputação provincial!

— Manduca, eu hei de dizer a minha mãe.

— Pode fazê-lo... ou é melhor que vá eu mesmo assegurar-lhe as minhas últimas determinações.

Isto dizendo, Manduca atirou-se para a sala, sendo imediatamente seguido por sua mana Rosa.

Como fizemos notar, Venâncio não tinha reparado no carão assustador de Tomásia, e, por isso, sentando-se junto dela, começava por dar conta de todos os meios empregados a fim de ganhar votação para o jovem candidato; depois a sua má sina o foi empurrando para a fogueira em que tinha de arder, de modo que Venâncio concluiu, dizendo:

— Agora só me falta ir falar ao Sr. Hugo de Mendonça; tem relações com muita gente dos colégios da serra... e pode alcançar-nos boa votação: oh! há de dar-nos uma carga cerrada...

— Sim... sim... disse Tomásia com terrível sorriso; uma carga cerrada... é o que se precisa!

— Tu, minha Tomásia, podes bem dispor a nossa boa D. Honorina em prol do querido Manuelzinho... ela te estima tanto!...

— E a ti não menos; não é assim?... D. Honorina é tão agradável!...

— É verdade!... tão agradável!...

— Interessante!... disse Tomásia levantando a voz.

— Interessante!... repetiu Venâncio procurando imitar o fogo com que falava sua mulher.

— Bonita!... linda!...

— Bonita!... linda!... exclamou Venâncio.

— Chega mesmo a ser encantadora!...

— Mesmo a ser encantadora!... disse o velho com entusiasmo.

— É um anjo!...

— Um anjo do céu, Tomásia!...

— Eu a amo mesmo como se fosse minha filha!...

— E eu, Tomásia!... e eu!...

— E então tu a amas também muito?...

— Oh!... pouco mais ou menos como tu mesma.

— E por que te não diriges antes a ela, do que a seu pai, para falares sobre a eleição?...

— Eu... porque... não me tinha lembrado...

— D. Honorina pode empenhar-se com o pai...

— É verdade!... que juízo que tu tens, Tomásia!

— Por conseqüência...

— Achas que devo ir falar a D. Honorina?...

— Sem dúvida...

— E quando, Tomásia?...

— O mais cedo possível.

— Agora, por exemplo?...

— Sim; podes jantar com ela: não gostas da sua companhia?...

— Muito, Tomásia!...

— A gente não se lembra de mais nada no mundo; não é assim, Venâncio!

— Ora... pois se ela é tão feiticeira!...

— Então, Venâncio, vai... vai já...

— Pois sim... até logo, Tomásia.

Venâncio levantou-se, e, tomando o chapéu, ia cheio de prazer pelas boas maneiras com que o tratava sua formidável esposa; quando ao chegar à porta, sentiu-se agarrado pelas abas da casaca e sofreu tão terrível arrancada, que foi parar no meio da sala, fazendo a pirueta mais brilhante do mundo.

— Passa para ali, grandíssimo insolente!... bradou Tomásia.

Venâncio abriu a boca para soltar um grito de admiração; mas, como arregalasse os olhos e visse uma das abas de sua casaca nas mãos de Tomásia, exclamou dolorosamente:

— A melhor aba da minha casaca nova!...

E, enquanto Tomásia pálida, trêmula e fora de si, queria, procurava e não achava palavras assaz fortes para exprimir o furor de que se sentia acendida, Venâncio em piedosa contemplação diante da aba de sua casaca, tinha pronunciado como automaticamente, três vezes:

— A melhor aba da minha casaca nova!...

— Ó miserável!... ó tolo!... ó vil!... disse tremendo de raiva Tomásia.

— Serei tudo quanto a senhora quiser, respondeu Venâncio afastando-se prudentemente; mas juro que não a entendo, e ainda que a entendesse, não sei que culpa teve a minha casaca nova...

Tomásia não o deixou concluir: fazendo um rolo da aba da casaca, atirou-o contra o marido; e acertou-lhe em cheio sobre o nariz.

Já dissemos uma vez que Venâncio amava o seu nariz sobre todas as coisas.

— A senhora não se pode nunca enraivecer, que não implique com o meu nariz!... exclamou ele.

— Miserável! miserável! miserável!...

— Que o sou, sei-o eu há mais de vinte anos, senhora!

— Depois de velho, de torpe... depois de ser capaz de causar nojo a todo mundo, dar em namorador!...

— Eu?! bradou Venâncio, fazendo uma terrível careta.

— Tentaria, sem dúvida envenenar-me a ver se casava com ela.

— Casar-me?... oh, Sr.ª Tomásia, falando sério, se eu tivesse a felicidade de ficar viúvo, não me casava nem com uma santa!...

— Pois hei de viver!... hei de viver!... e hei de viver!...

— Obrigado... obrigado... irei assim ganhando mais direitos ao reino do céu.

— Hei de persegui-lo!... maltratá-lo!... martirizá-lo!...

— Isso não me faz mossa... já estou habituado.

— Sou capaz de fugir-lhe de casa!...

— Minha senhora, a porta da rua é a serventia da casa; mas não creio que chegue a fazer tal.

— Por quê?... penso que preciso de sua pessoa?...

— Ao contrário: porque seria uma pessoa como a minha muita felicidade junta.

— O senhor come pelo meu dote!...

— Sim, senhora... sim, senhora... os seus dotes são extraordinários!...

— Sabe?... o senhor está hoje muito atrevido!...

— E a senhora não se lembra que ainda há pouco atirou com a aba da minha casaca sobre o meu nariz?...

— Um homem casado ofender assim sua mulher!...

— Ora, isto só pode ouvir um homem prudente como eu!... Sr.ª D. Tomásia, a senhora tem venetas, tem acessos de loucura?... que diabo lhe fiz eu?... diga, senão desta vez estouro!...

— Hipócrita!...

— Atacar-me na pessoa da minha casaca!... ofender-me no indivíduo do meu nariz!... e sem nenhum motivo plausível, sem nenhuma razão sensível, dar um golpe de estado em circunstâncias ordinárias!...

— Miserável!... e ainda quer encobrir?!...

— Encobrir o quê, senhora da minha alma?... ora, dá-se um inferno, como este em que vivo?...

— Pois aonde ia o senhor ainda agora?...

— Trabalhar para a eleição de Manuelzinho; não era isso da sua vontade?

— Todos eles têm sempre um pé por onde se desculpam! por que não confessa antes, senhor hipócrita, que ia ver a sua namorada?...

— Pois eu tenho namorada, mulher dos meus pecados?!

— Então tem ainda o atrevimento de negar que anda apaixonado pela filha de Hugo de Mendonça?...

— Misericórdia! que calúnia! que falsidade!...

— E há pouco por que o senhor a chamava agradável, interessante, linda, encantadora, e até anjo?!...

— E não foi a senhora quem deu-lhe primeiro todos esses nomes?... se eu dissesse o contrário disso, tínhamos trovoada por três dias!... caí na asneira de repetir o que ouvia, e eis o resultado! nesta casa sou preso por ter cão, e preso por não ter cão; mas vou apelar para outro meio: fale, minha senhora; que de hoje em diante ficarei mudo, como o Pão de Açúcar.

— E hei de falar, gritar e bramir!...

— Hum.

— Anjo!... anjo!... anjo aquela lambisgóia!...

— Hum.

— Uma amarela sem graça!

— Hum.

— Entendeu?... não quero que se trate mais de eleições.

— Hum.

— Não quero mais amizade com aquela gentinha.

— Hum.

— Não quero que o senhor me ponha mais os pés da porta para fora.

— Hum.

— Pois que é um velho estúpido e namorador...

— Hum.

— Miserável!... torpe!... covarde!...

— Hum.

— Tão covarde, que ouve os insultos que lhe estou dirigindo, e não me diz palavra!...

— Hum.

— Digo-lhe que não me sai mais de casa! que hei de tê-lo preso num quarto escuro! que hei de pô-lo em penitência de pão e água!...

— Hum.

— Homem sem sangue!... fale!... senão desespero!...

— Hum.

— Oh, velho desgraçado!... desculpe-se, ou grite; mas fale!... ou ver-me-á fazer alguma asneira!

— Hum.

— Oh, narigudo de uma figa!...

Tomásia furiosa com o propósito em que estava Venâncio de não dizer palavra, triunfou inesperadamente: o pobre velho não pôde ouvir em silêncio um insulto dirigido ao seu nariz.

— Oh, Sr.ª Tomásia, por quem é, não me deite a perder!... diga tudo quanto quiser; mas não toque no meu nariz!...

— Narigudo!... narigudo!...

— A senhora devia ser casada com um homem sem nariz!

— Narigudo!... narigudo!...

— E a senhora!... é uma mulher que se diz com vinte e nove anos, sendo capaz de ser minha mãe!...

— O que é que diz?... gritou Tomásia avançando.

— Pois se não quer ver-me perder o meu sangue-frio, não fale do meu nariz!... disse Venâncio afastando-se temeroso.

— Narigudo! bradou Tomásia.

— E a senhora é um... estu... víbo... dia... dragão!...

— Espera, que eu te ensino, narigudo duma figa!

Tomásia lançou mão de uma cadeira e atirou-se contra Venâncio, que deitou a correr em roda da sala, tomando outra cadeira para defender-se; ao passar junto da porta do gabinete, viu que Manduca aparecia e exclamou:

— Manduca! salva teu pai das garras daquela mulher!

E, como para isto dizer fizesse uma pequena parada, Tomásia atirou-lhe com a cadeira; mas já então Manduca se havia posto entre ambos, e foi ele quem recebeu nas costas tão grande pancada, que caiu derreado.

— Manduca!... exclamaram os dois velhos, esquecendo-se por um momento de seus furores, e correndo a acudir o filho.

— Manduca!... assobiou Rosa com voz de falsete.

No entanto, Manduca fazia no rosto contrações horríveis, e, por duas ou três vezes que tentou levantar-se, caiu de novo.

Os dois irmãos ocupados em sua disputa fraternal, não haviam dado atenção aos gritos que seus pais soltavam na sala, aos quais, aliás, por muito afeitos, já ouviam sem grande cuidado; enfim, no momento de entrar na sala, o filho apanhou em lugar de seu pai o golpe de que acabamos de falar.

— Quem tem culpa és tu, velho narigudo! disse Tomásia.

— Quem tem culpa é a senhora, mulher despropositada! disse Venâncio.

— Quem tem culpa, minha mãe, é a amarela da moda, acudiu Rosa.

— Quem tem culpa é o Sr. Brás-mimoso, balbuciou Manduca falando como a espremer-se.

— Meu filho, tornou Tomásia; eu te vingarei no nariz de teu pai.

— Meu filho, acudiu Venâncio, eu te vingarei não dando mais resposta a tua mãe.

— Meu irmão, bradou Rosa; eu te vingarei, pondo a boca no mundo contra aquela bruxinha desenxabida!

— Obrigado! disse Manduca; mas a vingança quero eu tirá-la das orelhas do Sr. Brás-mimoso.

— Minha mãe, exclamou Rosa, Manduca quer cortar as orelhas do Sr. Brás!...

— Manduca! eu te defendo, sob pena de minha maldição, de tocares em um só cabelo do Sr. Brás!...

— Está bem, minha mãe, disse Manduca; eu lhe juro que não tocarei em um só cabelo do Sr. Brás-mimoso.

E depois continuou, dizendo consigo mesmo:

— Ainda bem que o tal bichinho é careca.