O moço loiro/XXXVI

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O moço loiro por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XXXVI: A cruz da família


O desconhecido e Félix saíram da casa de comércio de Hugo de Mendonça às sete horas e meia da noite, e, subindo ambos para uma sege, que esperava esse homem misterioso, que se nomeara simplesmente o moço loiro, foram caminho do bairro da Glória.

Segundo as ordens que recebeu, o boleeiro fez levar a sege a galope, e, deixando atrás de si diversas ruas tortuosas e feias da nossa cidade velha, e depois o Largo da Ajuda, o Passeio Público, o Largo da Lapa e o cais da Glória, entrou finalmente na rua diplomática, e foi parar exatamente defronte da casa de Hugo de Mendonça.

Toda a curta viagem se fizera em completo silêncio entre os dois; e só quando parou a sege, foi que o desconhecido, saltando para fora, e ajudando Félix a descer, disse-lhe, apontando para uma árvore frondosa, que ficava dentro do jardim, e a alguns passos da casa de Hugo:

— Ali vou eu esperá-lo; no meu rosto poderá o senhor ler o propósito em que estou de me não deixar iludir; vá pois... cumpra o que prometeu, e receba o perdão de que carece.

E, conduzindo a Félix pela mão, até o corredor de entrada da casa de Hugo de Mendonça, o desconhecido empurrou-o para dentro, e foi colocar-se debaixo da árvore como firme sentinela.

Félix, sempre trêmulo e irresoluto, arrastou-se até chegar à escada, e aí, apoiando-se sobre o corrimão... demorou-se por minutos.

Nesse instante os sinos das igrejas deram o sinal das oito horas da noite.

Havia luzes na casa de Hugo de Mendonça, porém todas as vidraças estavam cerradas.

E por detrás de uma das vidraças desenhou-se uma sombra de mulher, que se voltou para o lado da árvore, e que desapareceu imediatamente, percebendo ali um homem, que agitou no ar seu lenço branco.

Esse movimento teria sido feito por acaso, ou era um sinal de antes ajustado?...

Como o resto do dia tinha corrido para Honorina, é fácil de pensar; mas o que não é por demais explicável, depois daquele sim escrito à viúva, sim à primeira vista tão simples, como bem compreendido prenhe de terríveis conseqüências, era o sossego que a moça mostrava na sua dor.

Honorina suspirava, gemia sempre, porém em uma espécie de inércia; nem falava, nem mais lamentava o seu estado, como se de uma vez, certa de que não estava em sua mão remediar o mal que sofria, não quisesse também dar-se a inúteis reflexões, ela suspirava, gemia sempre, esperando a noite, que devia ser a de seu último julgamento; semelhante a um relógio, que vai em sua marcha, gastando o tempo que lhe foi marcado até à hora em que irrevogavelmente deve parar, se a mão de alguém não fizer andar de novo a mola de sua vida.

Hugo de Mendonça continuara frio e resoluto, como homem que havia tomado um partido, que julga o único possível... o único; se de seus olhos esperava alguma lágrima, pertencia ela toda inteira à filha de seu coração.

Ema não pronunciara mais uma só palavra em todo o resto do dia. Ela conhecia que sua influência já pouco podia no ânimo de seu filho, no estado em que se achavam os negócios da casa, e, sobretudo, lembrando-se da má vontade que sua neta mostrara a Otávio, temia cada vez dobradamente ver ultimado o projeto que a fazia corar, o casamento de Honorina com Lauro.

Ema, como Hugo de Mendonça, ignorava que Lauro tinha um rival poderoso nesse homem sem nome, que à sombra da noite ou do mistério velava por Honorina, e em troca disso fazia entranhar sua imagem pela alma dela.

E assim como Félix estremecera e se apoiara no corrimão da casa de Hugo, este, sua mãe, e sua filha estremeceram também, ouvindo que os sinos marcavam oito horas da noite.

Porque Hugo de Mendonça avisara a sua filha de que a essa hora lhe viria ela dar a resposta... a decisão... a sentença.

Honorina ergueu-se, deixando seu quarto, dirigiu-se e entrou para a sala, onde a esperavam seus maiores.

Honorina estava pálida e melancólica; mas em seu rosto lia-se a expressão da coragem: seu porte tinha tomado um não sei quê de majestoso e grande, que assombrou a Ema e a Hugo de Mendonça; ela trazia nos lábios triste e brando sorriso... dir-se-ia um sorrir de mártir, votado em despedida ao mundo.

Honorina, obedecendo a seu pai, sentou-se entre ele e sua avó.

— Minha filha, disse Hugo, pensaste bem?...

— Estou determinada, meu pai.

— E o que decides?... perguntou o pai com espantador sangue-frio.

— Decidi confessar-me a meu pai, respondeu a moça, dizer-lhe tudo o que comigo se tem passado e se está passando, e pedir-lhe que me aconselhe como amigo.

— A decisão deve partir de ti, minha filha.

— E o conselho de vós, meu pai.

— Fala pois...

No instante mesmo em que Honorina ia começar, ouviu-se bater na escada, e uma escrava anunciou o Sr. Félix.

— Que entre, disse Hugo.

— Uma nova desgraça!... exclamou Ema.

— Não, minha mãe, tornou o negociante, não há mais desgraça possível para nós, à exceção do martírio desta menina.

Félix entrou na sala. A fisionomia do moço demonstrava por quantas torturas lhe faziam passar a vergonha e os remorsos; a fisionomia de Félix espantava!... era um condenado, que se mostrava de cima do patíbulo, horrorizado... covarde... Hugo de Mendonça temeu vê-lo cair no assoalho, e correu para ele, levando-lhe uma cadeira...

— Que é isto, Félix?!

O moço, sem responder, deu alguns passos para a frente da sala, e, lançando os olhos para o jardim, através das vidraças viu o desconhecido, estático e firme, debaixo da árvore fronteira.

Ema, Hugo e Honorina estavam em derredor do infeliz mancebo.

— Que é isto, Sr. Félix?!

— Perdão!... perdão!... perdão!... exclamou ele, caindo aos pés da filha do negociante.

Hugo de Mendonça e as duas senhoras recuaram de surpresa e espanto; só depois de alguns minutos foi que o negociante fez assentar e sossegar o seu guarda-livros.

— Félix, disse-lhe enfim, tu nos estás assustando; deves explicar-nos o que é que se passa, e que tanto te perturba; ouvimos que pedias perdão à minha filha... fala; tens razão de sobra para contar com a bondade do coração de Honorina.

— Sr. Hugo de Mendonça, o que eu vou fazer é a relação de uma infâmia!... relação que os senhores me jurarão que não há de passar daqui...

— Mas uma infâmia de quem?...

— Minha! minha só.

E, dizendo isto, Félix trancou por dentro as portas, que davam entrada para a sala.

Os três continuavam estupefatos do que viam e ouviam. Félix parecia haver adquirido força admirável comparativamente com o estado de prostração que mostrara há pouco: era como o vigor e aspecto animado de um febrífugo no maior acesso.

— Os senhores me prometem inviolável segredo?...

— Sim, disseram os três.

— Pois bem, eu o vou dizer, e dito seja em castigo de meu crime; possa a minha vergonha lavar a mancha que me nodoa... quanto ao meu perdão... no fim, eu o conseguirei de joelhos!...

— Tu aumentas nosso espanto, Félix!

— Ouvi-me, senhores, disse Félix. Eu fui ainda bem criança recebido por vós, criado e educado como se fora vosso filho; tive para camarada de meus passatempos, para colega de meus estudos, para companheiro nos meus trabalhos um moço pouco mais ou menos de minha idade, que me estimou como seu melhor amigo: foi o Sr. Lauro de Mendonça. Esse moço, porém, era do vosso sangue, tinha pais, e, portanto, recebia mais desvelos que eu; ainda mais, a natureza lhe havia dado talento, espírito, imaginação, coragem e nobreza de ações; valia, pois, o dobro de mim. Semelhante certeza me torturava, e eu, que devia tudo à família desse mancebo, eu, que era por ele tratado como irmão, senhores, eu tinha inveja do Sr. Lauro de Mendonça!... eu o detestava!...

— Félix!...

— Oh!... se vós, senhores, soubésseis o que é a inveja!... se tivésseis sido invejosos uma só hora na vida!... mas não, não! vós não podeis compreender o que é sentir dentro do coração esse demônio, que agiganta o merecimento alheio e com isso nos tortura; que nos consome, nos rouba o sossego, o prazer, a saúde, e nos vai mirrando... nos vai enchendo a alma de amargor, de veneno, de raiva, de malvadeza!... que nos ensina a mentira e a calúnia... a intriga e a traição!... que nos promete a paz a troco de uma ação indigna, e nos ilude depois... e depois de nos tornar infames, nos aperta ainda com suas garras, e nos conserva tão desgraçados, tão miseráveis como dantes!... oh!... era esse demônio que eu tinha no coração!... cada triunfo do talento do Sr. Lauro era um golpe doloroso que eu recebia; cada raio de seu espírito me lançava o desespero na alma; os arroubos de sua imaginação, o ardor de sua coragem, a grandeza, a galhardia de suas nobres ações eram para mim um tormento cruel... doloroso... incessante!...

— Félix! Félix!...

— Uma consideração única me animava: eu conheci que os avós dele, que o falecido Sr. Raul de Mendonça, e que a respeitável viúva, diante de quem falo, pouco se interessavam por Lauro. A viveza e o talento do moço, acendidos nas chamas dos novos princípios, nas inspirações do século, desagradavam a seus avós, arraigados aos costumes e idéias das passadas eras; fingi-me, pois, inimigo das inovações e das novas instituições... ganhei, assim, a confiança dos chefes da família, ao mesmo tempo que o Sr. Lauro perdia tanto quanto eu lucrava. Todavia, isto não era tudo: eu sofria sempre os tormentos da inveja; porque o Sr. Lauro era feliz... tinha uma mãe, que o amava!... Um dia...

Félix interrompeu-se, estremecendo.

— Um dia... disse Hugo.

— Senhores; nos planos e nos desejos que me inspirava a inveja, eu esperava, eu contava achar um meio de perder para sempre na opinião de seus parentes ao Sr. Lauro de Mendonça; um dia...

O infeliz guarda-livros hesitou de novo.

— É preciso concluir, Félix!

Eu concluo, senhores, tornou o moço, animando-se. Um dia... foi há sete anos, pouco mais ou menos, a Sr.ª D. Honorina acabava de contar nove anos de idade. Houve um belo jantar de família, ao qual eu fui presente; findo ele a Sr.ª D. Ema de Mendonça chamou sua neta para junto de si, convidou-nos a ouvi-la, e contou uma história de uma cruz de família, cruz milagrosa, que por direito pertencia à Sr.ª D. Honorina, desde o dia em que fizesse nove anos de idade. Consequentemente, a cruz apareceu riquissimamente preparada, cravada de preciosos brilhantes...

— Aí esteve o meu primeiro erro... disse Ema.

— Deixe-o continuar, acudiu Hugo.

— A Sr.ª D. Honorina, criança como era naquele tempo, demonstrou com todas as graças infantis o prazer que sentia por possuir a bela cruz. Então, o Sr. Lauro, que amava e muito a sua prima, e que gostava de mover suas respostas, com ela gracejando, disse-lhe — eis uma bela cruz para ser furtada... tem ricos brilhantes, que se podem vender... — e foi a Sr.ª D. Ema quem lhe respondeu, dizendo: — Lauro, tu és um louco; não se graceja sobre um objeto sagrado.

— Foi assim, disse Ema; eu me lembro de tudo isso.

— Nós nos demoramos até à noite; uma salva contendo a cruz foi deposta sobre um aparador no quarto da Sr.ª D. Honorina; às dez horas da noite a jovenzinha dormia; então, o Sr. Lauro foi pé por pé... entrou no quarto... e quis acordar sua prima... depois, vendo-a nos braços do mais sossegado sono, arrependeu-se do que ia fazer... e retirou-se sem acordá-la, e depois de beijá-la nos lábios...

Honorina corou até à raiz dos cabelos.

— E a cruz de brilhantes?! perguntou Ema.

— A cruz de brilhantes?! exclamou Félix; a cruz de brilhantes?!... ouvi-me até o fim, senhores. Um homem, que ouvira a história dessa cruz, e o gracejo do Sr. Lauro, introduziu-se furtivamente no quarto da menina; já estava aí, quando este entrou, querendo acordá-la; esse homem escondeu-se; e depois, tendo saído o Sr. Lauro, ele apoderou-se da cruz... e saiu cuidadosamente. O Sr. Lauro entrara nesse quarto, como homem honrado que era, e, pois, mais de dois olhos o viram também sair; o outro entrou como um ladrão... e, com as precauções de um ladrão, retirou-se sem ser percebido.

— Meu Deus!... exclamou Ema levantando as mãos.

Hugo e Honorina estavam tão silenciosos como estupefatos.

— Quando se procurou a cruz... ela tinha desaparecido; a princípio julgaram todos que o Sr. Lauro a havia escondido por zombaria... ele jurou que não, mas algumas pessoas asseguraram tê-lo visto entrar no quarto... ele o confessou também... finalmente, os senhores o sabem: o Sr. Lauro de Mendonça foi expulso desta casa como um homem infame!...

— Tu o denunciaste!... bradou Ema exasperada.

— Eu fui um miserável caluniador!...

— E o ladrão?

— O ladrão?!... o ladrão?!... o ladrão?!... exclamou Félix com voz lúgubre; o ladrão fui eu!

— Maldito!... gritou Ema levantando a mão como querendo amaldiçoá-lo.

— Miserável!... bradou Hugo.

— Desgraçado!... disse Honorina.

Terríveis tormentos deviam estar dilacerando o coração do infeliz guarda-livros.

— Tudo isso!... maldito!... miserável!... desgraçado!... maldito, sim: porque fui capaz de ceder a essa influência satânica do demônio da inveja! maldito porque manchei a minha vida! maldito porque cometi um crime infame, e denunciei a um inocente como perpetrador dele!... miserável, porque, sofrendo torturas indizíveis, remorsos despedaçadores, nunca tive ânimo em sete anos que são passados, de vir aqui ajoelhar-me, confessar o meu crime, e obter o meu perdão!... desgraçado, sim, oh! muito desgraçado!... porque as penas que tenho sofrido, que sofro, e que sofrerei, são ainda maiores do que meu próprio delito!...

No entanto, Ema arquejava exasperada!... seu semblante deixava adivinhar que havia no fundo da sua alma uma dor cruel; Hugo o percebeu, e cuidadoso lhe falou:

— Que tem, minha mãe?

— Arrependimento também!... ele era inocente!...

— Eu o pensava, minha avó!... disse Honorina.

— E a cruz?... e a cruz?... exclamou a velha voltando-se de repente para Félix.

O guarda-livros arrancou do seio a caixa forrada de veludo preto, e de joelhos aos pés de Honorina:

— Só a ela!... disse, só a ela, que me há de perdoar!...

— Nunca!... nunca!... bradou Ema arrancando a caixa da mão da neta.

— Perdão!... perdão!... perdão!...

— É ela!... é a mesma!... a cruz sagrada!... a cruz da família!... exclamou a velha beijando a santa relíquia com entusiasmo.

— Perdão!... perdão!... perdão!...

— Possa meu primo perdoar-lhe, disse Honorina, como eu de todo o meu coração o perdôo...

— Nunca!... nunca!... sai desta casa!... disse Ema.

— Minha mãe! acudiu Hugo; ele deve estar bem arrependido!...

— Nunca!... nunca!... bradou a velha afastando-se até o fundo da sala, como horrorizada.

Era tal a comoção que experimentava Ema, que Hugo a seguiu ao sofá, onde ela acabava de cair sufocada.

Félix aproveitou esse momento, e falando a Honorina:

— O meu perdão!... disse ele.

— Eu já lhe perdoei de todo o meu coração, respondeu ela.

— Oh! mas é preciso conseguir para mim o perdão de sua avó e de seu pai! eu podia esconder para sempre o meu crime; uma pessoa, porém, por amor da senhora talvez, uma única pessoa no mundo me arrastou a face pela vergonha, e me obrigou a vir aqui! não há, pois, virtude no que fiz!... confesso-o; eu estava arrependido; mas o medo... o medo só de um homem pôde fazer tanto; e é em nome desse homem que eu exijo também da senhora o meu perdão! e que faça com que sua família me perdoe e esqueça o meu delito!... não sou eu1... é ele quem lhe restitui a sua cruz, quem prova a inocência de seu primo, quem exige que eu seja por todos perdoado!... é ele!... ele só!...

— E quem é ele?... perguntou Honorina admirada.

— O moço loiro!...

Honorina não pôde esconder o prazer imenso que sentia; sorrir belo e divino espraiou-se em seus lábios... abriu a boca para exalar um longo suspiro... e soltou um grito...

Hugo e Ema acudiram, medrosos.

— Minha avó!... meu pai!... exclamou a virgem fora de si, o perdão!... o perdão deste homem pelo amor de Deus!...

Minutos depois Félix descia as escadas de Hugo de Mendonça, perdoado por toda aquela família.

Antes que o guarda-livros acabasse de descer a escada, outra vez desenhou-se atrás de uma das vidraças uma sombra de mulher, que se voltou para o lado da árvore, debaixo da qual ainda estava o desconhecido; mas desta vez não foi ele, mas, sim, a mulher quem agitou no ar um lenço branco.

Portanto, não era acaso, era um sinal de antes ajustado.

Quando Félix chegou à rua, o desconhecido aproximou-se dele e disse:

— Sei tudo: o senhor cumpriu a sua palavra, e foi perdoado. Adeus!

Um momento depois, Félix caminhava apressadamente para o lado da casa de comércio, onde morava, e um pouco atrás dele o desconhecido descia pelo cais da Glória.

Às nove horas da noite dois vultos se aproximaram um do outro junto à igreja da Lapa do Desterro.