Os Filhos do Padre Anselmo/XII

Wikisource, a biblioteca livre
Ir para: navegação, pesquisa
Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XII: Velhos conhecimentos


Em S. Martinho de Campo, concelho da Povoa de Lanhoso e não longe da casa de Norberto de Noronha, que os leitores da Irmã Dorothea já conhecem, havia uma outra casa de bôa apparencia, — casa nobre, como lá se diz, — mas de severo e melancholico aspecto.

Permanecia a maior parte do anno fechada, e apenas na quadra estival as suas janellas se abriam e as salas se illuminavam n'um rumor de alegria e de festa.

É que a proprietaria d'essa casa, D. Aurelia de Magalhães, tendo casado e perdido marido e filho no curto espaço de quinze dias, ao cabo de cinco annos do seu consorcio, envolvera-se nos crepes da viuvez e encerrara-se n'uma tristeza calma e resignada que a solidão do seu viver tornava ainda mais profunda.

Occupando um aposento interior do edificio, servida apenas por uma velha criada que fôra sua ama de leite, raras vezes sahia do seu quarto; mas quando sahia, n'um curto passeio, nunca transpunha os limites da vasta propriedade murada e inaccessivel ás vistas exteriores.

Os caseiros encarregados do amanho e semeadura das terras passavam mezes que a não viam, nem mesmo ao domingo á hora da missa, na capella da casa; porque a pobre viuva, occulta nas sombras do côro que communicava com o interior da vivenda, podia assistir sem ser vista á celebração do santo sacrificio.

O irmão d'esta senhora, Gustavo de Magalhães, o sensato academico que na Irmã Dorothea vimos desempenhar um curto mas sympathico papel como amigo de Julio de Montarroyo e do infeliz Norberto de Noronha, doutorara-se em direito e, impulsionado pelo talento, fôra abrir banca de advogado em Lisboa, onde conquistou rapidamente uma reputação brilhantissima de orador e jurisconsulto notavel.

Quando soube que a irmã enviuvára, quiz leval-a a viver comsigo na capital; mas a magoada viuva recusou, preferindo gemer as saudades do esposo e do filho mortos na solidão de S. Martinho do Campo, a abafal-as no ruidoso e atordoante bulicio da grande cidade.

Gustavo de Magalhães, respeitando a dôr da irmã, não insistiu, e como tambem na vida agitada da capital as saudades da sua aldeia o pungiam, reservava os mezes do estio para ir em piedosa romagem ao berço natal, e alli se demorava de junho a setembro.

Era então, quando elle chegava com a mulher e os filhos — e já contava nada menos de tres — que a vida entrava na casa, e ao silencio e á tristeza succediam o ruido e a alegria.

Os amigos vinham de Braga e Guimarães visital-o, demoravam-se dias, havia passeios, jantares na Senhora do Porto, os pequenos chilreavam na casa logo de madrugada e arrastavam a titi a longas caminhadas pelo campo.

E D. Aurelia, sempre triste e resignada na sua dôr e no seu luto, acariciava os pequenos e mostrava-se contente com a alegria dos outros.

— Aurelia — dizia-lhe o irmão — se vivesses um anno em Lisboa, verias como isso te fazia bem.

— Não, Gustavo, não — replicava a dolorida viuva. — Aqui nasci, aqui vivi feliz na companhia de meu marido e de meu filho, e aqui desejo morrer na saudade dos que me fôram queridos.

— Mas este ruido, esta alegria de que nós te cercamos contraria-te, não é verdade?

— Não, meu irmão! De modo nenhum. A vossa alegria é a minha alegria, a unica que póde ser-me suave alem da que sinto na recordação dos entes que perdi.

No emtanto, D. Aurelia, quando o irmão se retirava para a capital, sentia como que uma especie de allivio intimo, por poder regressar ao silencio e á solidão dos seus habitos, silencio e solidão que eram um linitivo ás amarguras do seu espirito.

Ora é justamente n'uma d'estas visitas de Gustavo á sua aldeia que nós vamos encontrar a casa de D. Aurelia de Magalhães em festa.

Gustavo chegara havia oito dias e os velhos amigos e condiscipulos, ao saberem da sua chegada, apressaram-se a visital-o.

Vamos encontral-os reunidos no vasto salão, á noite, com as janellas e sacadas abertas, rindo e conversando, emquanto que D. Albertina, a gentil esposa de Gustavo, sentada ao piano, executa algumas das modernas composições mais em voga.

A noite estava bella, de luar — d'esse luar sereno e calmo das noites claras do estio.

Em volta do velho palacete, reinava a dôce paz silenciosa das aldeias, apenas quebrada pelo rumôr dos mil insectos que, n'um admiravel concerto, faziam ouvir essa magica symphonia dos campos adormecidos, symphonia cujo maravilhoso segredo de orchestração nenhum grande maestro pôde ainda devassar.

Na sala, o piano calara-se e os hospedes de Gustavo de Magalhães, attrahidos pela belleza da noite, vieram debruçar-se nas sacadas continuando as conversações em que estavam entretidos.

— É verdade, sabes, Gustavo? — disse D. Aurelia — vende-se outra vez o palacete que foi de Norberto de Noronha.

— Vende? — respondeu o advogado — Então o Pinho, o brazileiro para onde vae?

— Volta para o Brazil, segundo contou hoje a mulher do caseiro á Mathilde, á minha criada de quarto.

— É singular! Mas o Pinho, segundo se dizia, veio senhor de uma grande fortuna e não tencionava tornar para o Brazil.

— O Pinho — esclareceu o medico de partido, o dr. Gomes, que fôra substituir o Negrão, fallecido ha annos — tem soffrido, ao que me consta, prejuizos importantes no Brazil... Depois, elle não é um homem economico... tem dispendido.

— Pois parece que não deveria ser assim — objectou Gustavo — Um homem, com uma fortuna superior e que vem enterrar-se n'uma aldeia, não tem rasões para dissipar as fabulosas sommas que o doutor diz... Em que? Se vivesse no Porto ou em Lisboa, comprehendo. Mas aqui, em S. Martinho de Campo!

— Pois é verdade! — tornou o doutor — Aqui mesmo, em S. Martinho de Campo, o Pinho tem tido a habilidade de dar cabo de mais de cincoenta contos em dez annos.

Houve um murmurio de incredulidade no pequeno auditorio.

— Não póde ser! — insistiu Gustavo — Elle comprou a casa que foi de Norberto de Noronha, por um preço inferior; gastou alguma coisa em a reformar, mas não foi muito, porque não lhe alterou a planta e apenas se limitou a uma simples questão de limpesa... Não me consta que tenha dado bailes, que reuna em sua casa grandes companhias ou que se haja cercado de uma opulencia tal que justifique as loucas despezas que o doutor lhe attribue.

— Pois ahi é que está a desgraça! — retorquiu o medico — Soube ganhal-o e não o soube gastar... O Pinho desfez-se em dadivas a todo o mundo desde que chegou...

— A todo o mundo!?

— É um modo de dizer. Deu um manto bordado a ouro a Nossa Senhora do Porto; offertou um pallio novo á junta de parochia; mandou fazer um painel á irmandade das almas; mandou construir á sua custa a torre que faltava na egreja, pôz-lhe dois sinos, um relogio, e tem sido elle o que tem feito á sua custa a festa a Santo Emilião... Tudo isto parece que não é nada, mas bocado hoje, bocado amanhã, no fim vae-se a vêr e somma contos de reis...

— Isso é verdade! — concordaram alguns do grupo.

— Mas cincoenta contos, doutor, olhe que é muito dinheiro! — contestou ainda Gustavo.

— Mas não se teem limitado só a isso as despezas do Pinho... Tem protegido muita gente... tem dotado muita rapariga pobre cá dos sitios, tem sido padrinho de todos os afilhados, tem emprestado dinheiro a toda a gente e d'onde se tira e não se põe...

— Bem sei! Em todo o caso...

— Em todo o caso — concluiu o doutor — se não fossem os ultimos revezes soffridos lá no Brazil, o Pinho, com um bocado de juizo, podia ainda aguentar-se. Mas, ao que me consta, as perdas foram importantes e elle não tem remedio senão ir acudir ao resto, para não ficar litteralmente sem nada.

— Pobre homem! Tenho pena.

— O Pinho é um bello coração. Um bocadinho vaidoso, gostando de se impôr pelo seu dinheiro, mas, no fundo, um pobre diabo. Os de cá conheceram-lhe o fraco; começaram a lisonjeal-o, tudo era o sr. Pinho isto, o sr. Pinho aquillo... Se até o metteram em folias de eleições! A ultima não lhe ficou por menos de dez contos...

— E nem sequer o fizeram visconde? Pois admira!

— A esse respeito, houve umas historias muito compridas... O titulo estava-lhe arranjado, mas quem lh'o arranjava, á ultima hora, precisou de uma somma importante... O Pinho soube-o e não se lembrou de a offerecer. N'isto, o Pires de Briteiros, que andava com o cheiro em ser titular, apresentou-se a fazer o offerecimento, e apanhou o titulo para elle...

— Que miseria! — disse Gustavo enojado.

— E até foi bom para o Pinho — tornou o doutor. — Porque, se lhe tivessem dado o titulo, agora a sua situação era muito mais difficil. Imaginem: um homem sem dinheiro e com um titulo ás costas...

— Deve ser horrivel!

— Pois foi do que elle se livrou! Ha males que veem por bem...

— E quanto quer elle agora pela casa?

— Não sei... Deve vendel-a barata. Como sabe, elle não ficou com todas as propriedades do velho Noberto. Apenas comprou os campos que circumdam o predio e que pódem valer, com os melhoramentos que elle lhes tem feito, os seus nove a dez contos de reis. Mas estou persuadido que se apparecer quem lhe dê oito, o homem não diz que não...

N'este momento ouviu-se o rodar de uma carruagem que parou ao portão da casa de Gustavo.

— Quem nos honra? — disse o doutor, ao ver apear um sujeito de sobretudo claro e franquear o portão de entrada, depois de fallar ao criado.

— Querem vocês vêr que é o Sampaio que se aborreceu nas Taypas e veio até cá para se distrahir um pouco?

Disse e ia a encaminhar-se para a porta, afim de o receber, quando Sebastião, o criado da casa, appareceu no limiar, dizendo:

— Senhor doutor, saberá v. ex.ª que está lá em baixo um senhor que diz que deseja fallar ao sr. doutor....

— A qual de nós? — disse rindo Gustavo. — Aqui ha uns poucos de doutores... Solicita o soccorro da medicina ou as luzes da jurisprudencia, esse estranho recemchegado?

— Elle diz que é ao sr. doutor Gustavo.

— Ah! então é comigo... Não disse o seu nome?

— Não quiz dezer... É um senhor de barbas...

— Bem! Vamos lá ver as barbas d'esse senhor.

E voltando-se para os hospedes:

— Meus amigos, deem-me licença... Isto é por força gracejo de algum amigo de nós todos... A esta hora, não é natural que um desconhecido me procure... Eu volto já.

Gustavo de Magalhães passou á sala onde o aguardava o desconhecido visitante.

Era este um homem que figurava ter quarenta a quarenta e cinco annos, estatura regular, barba loura em que se entremeavam já muitos fios brancos, accusando, com as rugas profundas que lhe cavavam as faces, uma vida de longo soffrimento moral. Vestia correctamente um sobretudo escuro apesar da estação calmosa ser mais propria ao uso das côres claras.

Ao vêr entrar Gustavo, caminhou para elle de braços abertos, n'uma expansão de velha amizade, dizendo:

— Já me não conheces, não é assim, Gustavo?

— Julio! Pois és tu?

— Sou eu, meu amigo!

E Julio de Montarroyo, pois que era elle, estreitou effusivamente nos braços o seu amigo e companheiro de infancia.

— Mas o que é feito de ti? — perguntou Gustavo — Ha quantos annos não tenho tido noticias tuas!

— Tenho viajado. Ha perto de dezoito annos que deixei o paiz...

— Singularissima ausencia!

— Que queres? Precisava de movimento, precisava das estranhas commoções do imprevisto, porque precisava de esquecer...

— E esqueceste, afinal? Ainda bem!

— Não, não esqueci nem esquecerei jamais... E a prova é que, ainda agora, velho, doente, alquebrado, eu venho ao sitio onde ella viveu e d'onde partiu para não mais voltar, dar á minha alma o supremo lenitivo de contemplar os logares que a viram creança, pura, innocente, feliz, e onde tudo me hade ainda fallar d'ella!

Gustavo encarou surprehendido o seu amigo. Atravessára-lhe o cerebro a suspeita de que as faculdades mentaes d'aquelle homem estavam desgraçadamente transtornadas.

Julio percebeu esta suspeita no olhar do amigo e disse, sorrindo:

— Julgas-me doido, não é verdade?

— Não, não julgo... — replicou o irmão de Aurelia de Magalhães — Surprehende-me apenas que, volvidos tantos annos, as viagens e o tempo não pudessem ainda desvanecer-te do peito essa fatal paixão.

— Nada a desvaneceu nem desvanecerá, meu amigo. Ama-se uma vez na vida, uma unica; e aquelle que póde esquecer a mulher que uma vez disse amar, é porque sinceramente não a amou.

— Mas não tiveste mais noticias de Helena de Noronha?

— Nunca mais. Recebi d'ella uma carta, participando-me que ia para Pariz, transferida para uma casa de irmãs Dorotheias e pedindo-me que a fosse esperar n'aquella grande cidade, onde me daria noticias suas. Fui. Esperei muitos mezes inutilmente uma carta, um recado, uma palavra que me tirasse da infernal situação em que me encontrava e me désse uma esperança, ainda que longinqua, de a tornar a vêr...

— E como pudeste esperar tanto tempo?

— Esperaria até ao fim do mundo se, pelas indagações a que procedi, pudesse capacitar-me de que ella estava em Paris. Relacionei-me com os jesuitas, apparentei uma crença profunda, fiz-me beato, frequentei as egrejas, as casas religiosas, percorri todos os institutos, todos os collegios jesuiticos e não a encontrei. Então tive a suspeita de que talvez houvessem descoberto a intenção em que aquella infeliz estava de se unir a mim e a tivessem enviado a outra parte. Passei á Hespanha, percorri todas as cidades e usei de todos os meios que podiam permittir-me o encontral-a. Tudo inutil. Tomado da febre da investigação, segui para a Belgica, passei á Italia, familiarisei-me com toda a ala negra, occultando sempre o meu pensamento secreto. D'alli fui á Africa Oriental, percorri as missões onde me seria facil encontral-a, e sempre baldadamente. Nem pelo nome, nem pela figura, nem ainda pela familia, me foi possivel obter noticias d'ella. Afinal, desalentado, velho, gasto, alquebrado e doente, resolvi regressar a Portugal, convencido de que Helena de Noronha, na ala negra conhecida pela irmã Dorotheia, já não existe!

— Meu pobre amigo! — disse Gustavo envolvendo-o n'um olhar de funda compaixão — que grande fatalidade foi para ti essa mulher na tua existencia!

— Bem pensado, não foi — volveu Julio — Devo-lhe soffrimentos acerbos, mas tambem lhe devo alegrias intensas, esperanças dulcissimas que outra mulher jámais poderia alentar-me! Quando em meio dos meus desalentos me sorria uma probabilidade de a encontrar, que felicidade meu amigo! que doida alegria a minha! Agora, regressando a Braga, leio n'um jornal que se vende o palacete de Norberto de Noronha, e venho compral-o.

— Comprar a casa de Norberto de Noronha!

— Sim.

— Com que fim? O que pretendes fazer?

— Viver n'ella os ultimos dias da minha vida, que não será longa...

— Mas vens só, não tens familia?

— Minha mãe morreu ha mais de dez annos. Minhas irmãs casaram, constituiram familia, e eu encontro-me só... só com as minhas recordações!

— Muito bem, meu Julio. Aqui me tens como amigo e como irmão, hoje como sempre. És meu hospede, e espero que me darás o prazer da tua companhia emquanto me demorar por estes sitios.

— Já sabia que estavas aqui, e por isso te procurei. Desejo a tua interferencia n'este negocio.

— Estou ao teu dispôr, meu caro. Mas deixa-me apresentar-te aos meus amigos que tiveram a santa caridade de vir alegrar-me as horas d'esta triste solidão. Tambem quero apresentar-te minha mulher e meus filhos, que já te conhecem de me ouvirem fallar muitas vezes de ti... Minha irmã, essa já t'a apresentei n'outros tempos, e has-de gostar de a vêr, porque, como amiga de infancia de Helena de Noronha, fallar-te-ha d'ella com aquelle entranhado affecto que sempre lhe tributou, apesar da sua ingratidão... Vem!

Deu-lhe o braço e conduziu-o até á sala onde já todos os esperavam com grande curiosidade.

A entrada de Julio de Montarroyo produziu geral impressão nos circumstantes.

Alguns d'elles, antigos companheiros, mal reconheciam n'aquelle velho o elegante moço bracarense de ha 18 annos, notavel nas duas cidades — Braga e Guimarães — pelo apurado esmêro no trajar e pelos distinctos primôres da educação.

Feitas as apresentações, todos quizeram ouvir da bôca do recemchegado a relação das suas viagens, que elle narrou n'uma linguagem viva, scintillante, pittoresca, cheia de encantos, occultando, no emtanto, o secreto motivo de tão longa e demorada permanencia em paizes estranhos.

— De modo que — disse por fim o commendador Seabra, um dos mais velhos condiscipulos de Julio — eis-te de novo entre nós, qual filho prodigo que regressa á casa de seus paes!

— É verdade, meu amigo! Verdadeiramente um filho prodigo, que desperdiçou vida, mocidade e dinheiro entre os estranhos e que regressa velho, cançado e cheio de achaques, a pedir á terra em que nasceu um canto onde possa morrer descançado.

— Morrer! Quem falla aqui em morrer? — atalhou Gustavo alegremente — Tens ainda vida para muito tempo, meu amigo! Vens robusto, vigoroso, cheio de saude, e fallas em morrer! O que direi eu, gasto e cançado por uma vida inteira de trabalho, pae de tres filhos, tres enormes traquinas, que reclamam constantemente os meus cuidados e que todos os dias me recordam a necessidade impreterivel que tenho de viver para elles, até os fazer homens e acompanhar a sua entrada no mundo com os conselhos da minha experiencia e do meu amôr de pae? E, no emtanto, não penso em morrer sem ter cumprido a minha missão...

— É justo — respondeu Julio — Ha um objectivo na tua existencia, que te faz amar a vida e te dá força e coragem para a não perderes: são os filhos, é a esposa, é a familia, é toda essa inquebrantavel cadeia de affectos que prende o homem ao mundo e o faz triumphar dos desalentos, das dôres physicas e moraes, conduzindo-o, confiado e alegre, através a velhice como o viajeiro através os areaes do deserto, com os olhos fitos no oasis que, de longe, lhe promette repouso e frescura. Mas eu, abandonado e só, sem familia, sem o estimulo dos grandes affectos que tornam o homem superior a si mesmo, que outra coisa posso desejar senão a morte redemptora dos grandes desgraçados?

— Casa-te, meu amigo, casa-te! — aconselhou o commendador Seabra n'um tom de convicta auctoridade. — Olha que não ha como o casamento para fazer um homem perder certas ideias... Eu tambem fui rapaz, tambem tive as minhas estroinices, as minhas excentricidades... Não andei lá por fóra, porém, cá dentro mesmo, no meu paiz, e até sem sahir de Guimarães, fiz o que pude... Mas quando cheguei a certa altura e senti que começava a aborrecer-me da vida, disse commigo: «Nada! isto não está bem... Preciso ter alguem a quem me dedique de alma e coração... alguem a quem eu estime e que me estime tambem, porque um barco só não faz carreira...» Tive a fortuna de encontrar o que desejava, uma esposa que é um anjo, um genio em tudo igual ao meu, e foi dito e feito! Casei e temo-nos dado muito bem... Não é assim, Gracianinha? — rematou, pondo os olhos na esposa, a D. Graciana, uma senhora adiposa, de enorme carão vermelhusco, toda cheia de requebros e denguices, mais do que é permittido a uma mulher que passa dos quarenta.

— É assim, meu amigo! — suspirou a D. Graciana, revirando para o marido os olhos ternos e abanando-se com o leque, na pudibunda attitude de uma paixão confessada.

— Não temos tido filhos — tornou o commendador, muito roliço, muito gordo, envolvendo a mulher n'um olhar carinhoso — mas não é por falta de amôr... É que ella não é de qualidade de os ter... Mas vê tu que eu era um espeto... lembras-te que eu era um espeto? Pois estou isto que vês! Gordo e forte, que nem pareço o mesmo!... E tudo isto foi depois que casei... Não ha nada como o casamento para dar saude a um homem!

E empertigava-se vaidoso, com os pollegares mettidos na cava do collete, e tamborilando com os dedos restantes no peito, n'uma exhibição grotêsca das fartas enxundias que lhe repuxavam a pelle e lhe avolumavam o rotundo abdomen.

Os circumstantes riam d'esta apologia do matrimonio feita pelo commendador que, segundo resavam as más linguas, soffria uma cruz em casa com os destemperos da D. Graciana, ciumenta e desconfiada.

— Ora agora o que é preciso — propôz o juiz de direito, um velhote de oculos, bigodes brancos, com uma voz aflautada e cheia de impetuosidades nervosas — é não deixar passar despercebido este feliz acontecimento do regresso de um querido e distincto filho do Minho aos encantos da sua provincia e aos braços dos velhos amigos, que todos gemiam saudades pela sua prolongada ausencia!

E, n'uma voz de cada vez mais aflautada e repassada de sentimento:

— Isto é mais do que um regresso, isto é uma resurreição! Propunho, pois, uma Paschoa inter amicus, uma festa alleluitica, em que se celebre condignamente o resurrexit d'este illustre cavalheiro, que eu não tinha a honra de conhecer pessoalmente, mas a quem já estimava e de quem era sinceramente amigo, pelo conhecimento de seus primores e gentilezas, que a tradição oral tinha trazido até mim!

Este alvitre do festeiro magistrado obteve calorosa approvação e logo alli se decidiu promover uma festa ruidosa em honra de intrepido viajante, que dezoito annos gastara em percorrer as sete partidas do mundo, como o infante D. Pedro.

O juiz foi o encarregado de elaborar o programma e nomear a commissão que havia de proceder aos festejos.

Era uma alegria louca entre os hospedes de Gustavo pela perspectiva de mais um dia de grossa pandega.

— Livra-me d'esta gente, meu amigo! — segredou Julio a Gustavo. — Tu, que conheces o estado do meu espirito, bem deves avaliar quanto esta alegria me mortifica!

— Nem eu, nem poder algum da terra poderá livrar-te d'estas honras, que só aos eleitos da amizade se concedem, meu caro; salvo se tiveres a má lembrança de emigrar outra vez; e, ainda assim, ha-de ser clandestinamente, porque, se constar que andas a tirar passaporte, agarram-te e não te deixam partir sem gramares a festa!

— Meu Deus! Em que má hora eu vim a tua casa! — murmurou Julio. — Venho a fugir do bulicio, do ruido, da curiosidade dos amigos e conhecidos, e eis-me o alvo de alegrias, quando mais devêra ser um objecto de tristezas!

— Tem paciencia, meu amigo! A tua larga ausencia do paiz fez-te esquecer, pelo que vejo, os habitos festivos da nossa provincia, que ainda não mudaram. O portuguez, especialmente o minhoto, não perde occasião, e tudo lhe serve de pretexto, para se evadir ás melancholias do temperamento. Um casamento, um baptisado, um dia d'annos, um amigo que chega, um amigo que parte, tudo isso constitue motivo de festa. Fóra d'ahi, é sisudo, sorumbatico, macambuzio, incapaz de, por coisa alguma d'este mundo, se arredar da linha inquebrantavel de uma inquebrantavel bisonhice. Deixa-os, pois, deixa-os divertir-se, que a alegria d'elles não é d'aquellas que magoam o coração dos que soffrem...

No dia seguinte, Julio levantou-se cêdo e, n'um curto passeio, dirigiu-se sósinho para os lados da velha casa de Norberto de Noronha.

O brazileiro Pinho, que conservava os habitos madrugadores, adquiridos no Brazil, todo vestido de linho crú e na cabeça um bonnet de gorgorão preto, debruçava-se no caramanchão erguido em um dos angulos do jardim.

Respirava a longos haustos o ar fresco da manhã, tendo cravado no horisonte um vago olhar de tristeza.

Pensava talvez nas fundas saudades que já curtira longe da patria, e n'aquellas que ainda o haviam de consummir, agora que, depois de velho e quando esperava morrer tranquillo n'aquelle adorado canto da sua aldeia, era outra vez obrigado a expatriar-se.

Julio, ao vêl-o, parou na estrada e cortejou:

— Bons dias!

O Pinho levou a mão ao bonnet e correspondeu, saudando:

— Muito bons dias!

— É o proprietario d'esta casa?

— Um seu criado!

— Li que ella se vende. Posso vêl-a?.

— Pois não! Eu lhe vou mandar abrir a porta...

E chamando pelo criado:

— Ó Manéca, vae na porta abrir ao cavalheiro, hein! — ordenou.

O Manéca, um labrego de jaqueta, chapéo braguez e suissa talhada em fórma de foicinha, foi abrir, com grandes zumbaias, levando no labio escanhoado o sorriso humilde e servil de quem nasceu para sêr mandado e obedecer.

Julio entrou e d'ahi a pouco travava com o brazileiro Pinho este dialogo:

— V. s.ª vende esta propriedade, não é assim?

— Me résólvi á vender ella, porque estou preparando minhas coisas p'ra tornar no Brazil...

— Esta casa — disse Julio — era de um antigo fidalgo que aqui morou e aqui morreu, o sr. Norberto de Noronha...

— Não conheci elle, mas tenho ouvido fállár... Bôa péssôa, pelas informações que dão-me d'elle, hein!

— Não foi, portanto, ao velho fidalgo que v.ª s.ª comprou a casa?

— Nada. Quando vim do Brazil e cheguei em Portugal, a primeira coisa que lembrou-me foi comprar casa bôa, que tivesse commodos ella... Mas eu a queria já feita, hein! Me aborrecia estar esperando que fizesse-se ella, já viu? Depois meu compadre Damião me escreveu um dia para o Porto, dizendo que tinham botado annuncio n'uma gazeta de Braga p'ra vender este palacete... Vim vêr ella, me agradou por ficar nos meus sitios e a comprei... É uma rica peça, que tenho muita pena de deixar ella!... Mas como vou no Brazil outra vez e não sei o tempo que demorarei-me por lá...

— Norberto de Noronha — tornou Julio — tinha uma filha... Foi a essa senhora que comprou esta casa?

— O négocio foi tratado com um procurador d'essa minina, qui estava ella, dizem, nas irmãs da caridade e tinha passado procuração a esse tal João Ignacio para vender elle todos os bens, já viu? Mas eu lhe fiquei só com a casa e com estes campos de ao pé da porta... As outras propriedades si venderam a differentes... Vossa excélléncia conheceu a familia de Norberto, já vejo...

— Conheci. A casa soffreu modificações?

— Não altérei-lhe a planta, a ella, não... Lhe mandei botar papel e pinturas novas, hein! mas lhe deixei ficar as divisões todas... O mesmo jardim ainda é do risco que estava elle no tempo do fidalgo...

O Pinho, muito amável, convidou Julio a vêr a casa para certificar-se de que era uma vivenda muito bôa ella e que se conservava quasi no mesmo estado em que o fidalgo a deixára.

Julio, ao entrar na sala onde fallára pela primeira e ultima vez a Norberto de Noronha, já paralytico, cerrou um momento os olhos, commovido, e a sua memoria evocou a figura d'aquelle pobre morto-vivo, que alli jazêra por tanto tempo ainda, na esperança de tornar a vêr a filha, criminosamente ingrata ou assombrosamente desgraçada, por quem morria.

Esse compartimento da casa, por uma d'estas casualidades difficeis de explicar, não merecêra as attenções do brazileiro para o mandar reparar. Conservava-se no mesmo estado e na mesma disposição em que Julio o vira a primeira vez quando alli entrou. Apenas alguns dos velhos moveis de Norberto, inclusivè a cadeira de rodas em que tão longamente agonisara, achavam-se alli accumulados, em monte, a um canto.

— Isto áqui me tem sérvido para arrumações — explicou o brazileiro. — Aqui encontrei esta cangalhada quando vim na casa e, de dia em dia, p'ra pôr ella fóra, nunca résolvi-me, hein! e ahi ficou, já viu?

— Quanto pretende v. s.ª pela casa? — perguntou Julio.

— Com mobilia ou sem ella?

— Tal como está, excepto os objectos de seu uso pessoal...

— Me custou a mim dez contos... Com mais de dois que gastei em mobilia e concertos, anda isso por doze, hein! Más se v. ex.ª me quizer comprar ella por dez, eu lhe deixo ficar tudo, já viu?

— Não, senhor! — acudiu Julio. — Se por doze contos lhe ficou, doze contos lhe darei por ella.

O Pinho teve um olhar de espanto para o comprador. Julgára que elle iria regatear o preço, achar caro, desfazer no valor da propriedade e reservava-se para, em ultimo caso, fazer uma reducção de um ou dois contos de reis. E via com surpresa que este generoso desconhecido queria embolsal-o integralmente de tudo quanto havia dispendido, elevando a somma, de dez, a doze contos, que era o que calculava ter gasto.

— Quer assim? — interrogou Julio.

— Mas... — objectou honradamente o brazileiro consciencioso — eu tenho vivido na casa, os moveis me custaram dinheiro que já não valem elle ágora...

— Pequenas coisas! Não compro isto para negocio, e por isso não penso em o adquirir por menos do seu justo valor.

— Mas então a casa é de v. ex.ª! — decidiu o brazileiro com uma profunda cortezia.

— V. s.ª não me conhece — disse Julio — mas eu dou como fiador á validade d'este contrato o meu amigo dr. Gustavo de Magalhães, aqui seu vizinho. Quando quizer, faremos a escriptura!

— O sr. doutor Gustavo! Pois não! Conheço elle muito bem. V. ex.ª é hospede d'elle, já vejo...

— Sou. V. s.ª dirá agora quando quer legalisar o contrato e quanto devo dar-lhe de signal.

— Signal! — protestou o brazileiro — não é priciso elle... Os homens se conhecem pelas palavras, já viu?

— Como queira.

— Me dê v. ex.ª oito dias para tratar de minha mudança, e iremos no tabellião fazer a escriptura, hein!

— Não lhe dou oito, dou-lhe vinte, dou-lhe um mez. Não tenho pressa de vir para esta casa, mas tenho-a de lhe chamar minha.

— Lhe póde chamar desde já. Minha palavra vale uma escriptura! Mas não ha pricisão de mais demora, não... Homens de bem se entendem sempre elles... Quando v. ex.ª quizer, vamos no tabellião...

Julio offereceu-lhe a mão e despediu-se, voltando a casa de Gustavo.

— Já comprei a casa de Noberto de Noronha — disse elle ao amigo, logo que chegou.

— O que! — exclamou Gustavo. — Pois logo de manhã, tão cedo, foste tratar um negocio d'essa ordem?

— Se eu tinha resolvido compral-a, não vejo motivo para protelar a compra. Agora conto comtigo, como advogado, para que o contrato tenha uma realisação legal.

— Por quanto a compraste?

— Por doze contos, tal como está.

— Podias tel-a adquirido por oito ou nove!

Alguns dias depois, legalisava-se o contrato e Julio era o proprietario da casa que pertencera a Noberto de Noronha.

O brazileiro Pinho, tendo recebido o preço da venda, apressava agora a sua partida, no intuito sómente de não occupar por muito tempo a casa alheia.

Os convidados de Gustavo, em assembleia magna, tendo sabido que Julio comprára a casa de Noberto e se constituira, por este facto, um dos proprietarios da localidade, resolveram addiar a celebração dos festejos para o dia em que elle tomasse posse e fixasse residencia na sua nova propriedade.

Esta deliberação fôra tomada em segredo e mantinha-se discretamente guardada entre todos, sem chegar ao conhecimento do melancholico amigo de Gustavo de Magalhães.

— Havemos de fazer d'elle um companheiro alegre, sociavel, sem os absurdos preconceitos de um homem que, tendo percorrido o mundo e visto tudo, chega a capacitar-se de que nada mais ha no mundo capaz de o emocionar e lhe causar alegria — dizia o magistrado de voz aflautada, presumindo de habil conhecedor das diversas fraquezas e aberrações do espirito humano.

— Fatalmente — commentava o medico — alli ha desiquilibrio de faculdades... Aquella melancolia profunda, aquelle afastamento systematico de todo o ruido e de toda a convivencia, accusa uma grave enfermidade mental, propria d'um homem que passou a vida em viagens, sob a impressão dos variados aspectos da natureza e sob a influencia de diversos e oppostos costumes...

— Quem sabe? Talvez alli haja mysterio do coração... amôres mal succedidos... — aventou um dos menos theoricos e mais praticos.

— Não, alli o que ha é tedio, cansaço, o spleen dos inglezes — opinou o juiz. — O homem correu tudo, viu tudo, gozou tudo — menos a amizade dos amigos e o amôr inconsutil da mulher que toda se dedica ao homem amado. Nas viagens — accrescentou com grande auctoridade e emphase de sabedor — perde-se a sensibilidade pela frequente e repetida excitação dos sentidos. O espirito habitua-se á contemplação dos espectaculos grandiosos e desdenha, como insignificantes e mesquinhos, os suaves e dulcissimos prazeres da convivencia remansosa e placida de almas irmãs, prazeres que são a vida do coração... Amôres mal succedidos, como diz aqui o nosso amigo Gilberto, não creio... Mais me inclino a crêr que seja o desdem pelos demasiados amôres bem succedidos, pelos amôres faceis que não faltam nunca aos viajantes ricos e que são, por via de regra, os unicos que elles conhecem... E quem me diz a mim que o que este homem sente é justamente a falta de um amôr sério, verdadeiro, como é o de uma esposa por seu marido?...

— Pelo menos, quando não seja isso — disse o commendador — o casar devia fazer-lhe bem... Se a mulher fosse d'estas que ás vezes apparecem na vida de um homem como um flagello, que com tudo embirram e com coisa alguma se satisfazem quando estão a sós com os maridos, elle buscaria a convivencia da sociedade como um refugio contra as impertinencias da esposa!

Todos se riram a esta indiscreta confirmação dos rumôres que corriam acerca da vida torturada que o commendador passava, de portas a dentro, com a D. Graciana.

— Que eu por mim — emendou logo com solicita dissimulação — com bem o diga, não sei praticamente o que isso é... Mas tenho ouvido varios maridos queixarem-se do inferno que passam em casa com as mulheres, e faço ideia do petisco que ha-de ser...

— Nós tambem fazemos ideia... — atalhou o juiz sarcasticamente, na sua voz de assobio.

— Meus amigos — interrompeu Gustavo, que ouvira esta conversação sem tomar parte n'ella — não se cancem em conjecturas sobre os motivos que pódem ter feito do Julio de Montarroyo o mysanthropo que hoje é. A vida d'este homem é um mysterio que não seria facil decifrar nem mesmo aos que na mocidade o conheceram intimamente, quanto mais áquelles que só agora o encontram, depois de velho. De resto, pouco deve preoccupar-nos a sua tristeza, se não está na nossa mão o dissipar-lh'a. Querer á força fazer de um homem triste um homem alegre, parece-me coisa tão insensata e absurda como querer mudar as tardes melancholicas do outono nas risonhas manhãs da primavera. Cada qual é como é; e nem me parece que a nós nos seja licito avaliar da tristeza ou da alegria intima de um homem, pelo simples aspecto da sua physionomia ou pela estranha soturnidade dos seus habitos. O que para nós é tedio póde ser para elle distracção; o que para nós é dôr póde muito bem ser para elle um grande prazer. Quantas pessoas ha que, por temperamento, por indole, ou por caracter, se comprazem, desde a infancia, na solidão mais absoluta, achando insupportavel a convivencia em que outras pessoas encontram uma verdadeira felicidade, um incomparavel prazer?

— Isso é verdade! — accudiu o commendador — eu já tive uma epocha na minha vida em que todo o meu prazer era agarrar môscas para as dar a comêr a um pisco que tinha mettido n'uma gaiola... Passava n'isso horas e horas, sem dar palavra, e se alguem me interrompia n'aquella tarefa em que sentia um prazer enorme, ia tudo com seiscentos diabos! E em todo o caso, aposto que nenhum dos senhores acharia distracção n'uma coisa tão simples...

— Não tanto! — replicou o juiz — Quem não tem que fazer caça môscas, diz o vulgo. Ora se o meu amigo não tinha mais que fazer, acho acertado que se distrahisse por esse modo... e não estranho que ainda agora se entregue ao divertimento...

— Agora não! — tornou o commendador.

— Por falta de pisco? — perguntou o medico.

— Por falta de pisco e por falta de paciencia... Mudei completamente... Agora não me entretem nada d'essas coisas. Minha mulher embirra com passaros em casa.

A conversação proseguiu animada de ditos picarescos a proposito d'esta ingenua confissão do commendador que, sem o querer, veio desviar as attenções do grupo disposto a escalpellar a vida de Julio de Montarroyo.

A esta mesma hora, Julio encontrava no jardim a D. Aurelia de Magalhães e travava-se entre os dois este dialogo:

— Então, já sei que vou tel-o por vizinho, não é verdade, sr. Julio de Montarroyo? Disse-me o Gustavo que v. ex.ª já comprou a casa de Norberto de Noronha.

— A casa de Helena, minha senhora... É verdade, comprei-a.

— Na intenção de a habitar?

— Sim, minha senhora. Faço tenção de passar n'ella os ultimos dias da minha vida.

— É muito triste este sitio a que n'este momento empresta uma apparencia de alegria a permanencia dos nossos hospedes... Mas, quando meu irmão retirar para Lisboa e todos regressarem a suas casas, tudo isto recahe n'um silencio e n'uma tristeza que só póde agradar ás almas tristes...

— É justamente esse silencio e essa tristeza que a minha alma anceia...

— A solidão e a tristeza são um lenitivo para a alma quando nos prendem recordações saudosas aos sitios em que habitamos e em que outr'ora fomos felizes. Estou eu n'esse caso, porque aqui nasci, aqui me criei, aqui passei dias felizes na companhia dos que me eram caros, e aqui os vi desapparecer para sempre e para nunca mais. Mas v. ex.ª, snr. Julio de Montarroyo, que aqui veio apenas uma vez, que me lembre, e em dias bem luctuosos e bem tristes para o pobre Norberto de Noronha...

— E para o meu coração, minha senhora! Quando se é verdadeiramente desgraçado, quando nunca se teve uma hora de felicidade, sente-se um prazer amargo, um prazer cruel, em permanecer nos sitios em que mais soffremos, em que o nosso coração sentiu mais profundos e mais lancinantes os golpes da desventura. Foi justamente n'esse predio que hoje comprei que eu presenciei um dos mais dolorosos e lancinantes espectaculos de toda a minha vida. Ao entrar n'aquella casa, dezoito annos volvidos, pareceu-me vêr ainda, ao canto da mesma sala, sentado na mesma poltrona de rodas, aquelle pobre velho semi-morto, com os olhos fitos em mim, ouvindo com a alma anciada a espelhar-se-lhe na pupilla dilatada e immovel, as palavras de animadora esperança que então proferi, e que deviam ser-lhe um balsamo consolador no meio d'aquelle infernal martyrio! E esta evocação terrivel, bem longe de augmentar o meu soffrimento, suavisa-o. Comparando o que soffro e o que tenho soffrido com o que soffreu aquelle pobre pae, encontro motivo para me julgar feliz. Depois, foi alli que ella viveu, que ella passou os unicos dias venturosos da sua infancia cheia de sonhos vãos e de anhelos de felicidade, até que a negra mão da desventura a veio empolgar...

— Pobre Helena! — murmurou D. Aurelia — se v. ex.ª a conhecesse n'esse tempo, se pudesse avaliar os finos quilates d'aquelle espirito, a suave candura d'aquelle nobre coração! Eu, que fui sua amiga, sua companheira de infancia, eu que tão de perto privei com ella e conheci todos os primôres d'aquella alma nobilissina, ainda hoje me espanto, e não sei como explicar aquelle rapido e insolito reviramento, senão pela loucura. Para mim, Helena de Noronha soffreu grande abalo nas faculdades mentaes, antes de abandonar o pae, por quem era extremosa, e esquecer os sagrados deveres de filha, que ella se esmerava em cumprir sempre com uma religiosa pontualidade!

— V. ex.ª nunca mais teve noticias d'ella?

— Nunca mais. E isso mesmo me faz pensar que a minha pobre amiga perdeu a rasão antes do fatal passo que havia de custar-lhe não só a propria ventura, mas tambem a vida do pae e do primo.

— Alvaro, segundo me disseram, morreu assassinado em casa de um taberneiro da Serra do Carvalho...

— É certo. Foi um tal Perneta quem, attrahindo-o alli sob pretexto de que encontraria Helena, lá conseguiu matal-o e roubal-o. A principio, suppôz-se que a morte fôra obra de malfeitores que o tivessem assaltado em viagem, porque o cadaver appareceu na estrada. Mas uma denuncia anonyma, enviada ás auctoridades e confirmada mais tarde por um sapateiro de Braga, por alcunha o Tomba, que foi testemunha no processo, pôz a justiça na pista do criminoso, e o Perneta foi julgado e condemnado a galés por toda a vida.

— O Tomba! — disse Julio — Conheci muito bem esse sapateiro e procurei-o agora no meu regresso a Braga, esperançado em obter d'elle esclarecimentos que talvez me explicassem o destino de Helena. Mas ha muitos annos que desappareceu, e ignora-se o rumo que levou, podendo ser até que já tenha morrido...

— Não sei, não conheci o Tomba. Ouvi fallar muito n'esse homem por aquella occasião e sei que veio depôr como testemunha no tribunal de Lanhoso, mas ignoro completamente o que fosse feito d'elle.

— Se o Tomba esclareceu a justiça e depôz como testemunha, então o assassinato do pobre Alvaro obedeceu a um plano de vingança a que não foi estranho o raptor de Helena...

— O padre Anselmo?

— Justamente. Como conhece v. ex.ª esse nome?

— Pois não sabe v. ex.ª que elle andou por aqui missionando e que foi com as suas perniciosas praticas ao canto do confissionario que conseguiu desvairar a minha pobre amiga ao ponto de a fazer abandonar a casa paterna?

— E v. ex.ª era sabedora das intenções de Helena?

— Eu! Se ella me tivesse dito alguma coisa, eu trataria de impedil-a d'um semelhante passo. Guardou-se de mim como de toda a gente. O que eu lhe notava era uma tristeza profunda, um recolhimento mystico de que cheguei por vezes a reprehendel-a. Mas, como ella insistia, não me preoccupei muito com isso, por suppôr que, retirando os missionarios, breve retomaria a sua habitual despreoccupação de espirito. Enganei-me! O mal tinha lavrado fundo, e o que eu suppunha não passar de um momentaneo devaneio mystico, era afinal a monomania religiosa, com todos os symptomas da loucura incuravel! Pobre Helena! nem chego sequer a accusal-a de ingratidão pelo seu procedimento para comigo, porque, apesar de quanto se possa dizer e de quanto tenho ouvido a meu irmão Gustavo, julgo-a irresponsavel.

— É esse o juizo que v. ex.ª forma de Helena de Noronha?

— É. E formo-o assim, porque a conheci desde a infancia, e posso assegurar a v. ex.ª que não havia mais nobre alma, coração mais terno e cheio de affectos. Extremamente sensivel e impressionavel, de uma boa fé e candura de anjo, foi talvez tudo isso que a perdeu.

— O pae, segundo creio, projectava casal-a com o primo, com o Alvaro...

— Sim, essas eram as supremas aspirações de Norberto.

— E Helena amava o primo?

— Não o amava. Mas tambem não tinha preferencia por outro homem. Muitas vezes fallámos n'isso e lhe ouvi dizer que, posto o primo lhe fosse indifferente, casaria com elle por obediencia ao pae. Recordo-me até que, de uma das ultimas vezes em que nós fallámos a tal respeito, ella me affirmou: «Meu primo é para mim um homem como os outros. Caso com elle como casaria com outro que meu pae indicasse. O mesmo não succederia, se eu tivesse, como muitas meninas da minha edade, algum rapaz a quem quizesse mais...»

— Não foi, portanto, a repugnancia invencivel pelo primo que a levou a abraçar a vida religiosa....

— Decerto não foi. Mesmo porque Norberto de Noronha amava muito a filha para a constranger a casar com um homem que ella abertamente recusasse. Em Helena, o que houve foi a imaginação excitada pelas perigosas e seductoras pinturas que o padre Anselmo lhe fez da vida religiosa, fanatisando-a e enlouquecendo-a com infernal habilidade.

Os dois calaram-se por instantes.

— Sabe v. ex.ª — disse Julio de Montarroyo por fim — que me tem sido immensamente grata ao espirito esta conversação a respeito de Helena?

— É natural. Dei-lhe talvez esclarecimentos que v. ex.ª ignorava...

— Por isso, e porque não ha para mim felicidade igual áquella que experimento em poder fallar de Helena com pessoa que a tivesse conhecido. Com effeito, v. ex.ª acaba de me contar pormenores que me eram de todo o ponto desconhecidos... Mas ainda isso não é tudo: é que sinto verdadeiramente um grande lenitivo em ouvir fallar de Helena de Noronha e de coisas que de longe ou de perto se relacionem com ella. Foi esse, e não outro, o motivo porque vim comprar a casa onde ella nasceu, onde se creou, onde se passou a sua infancia. Parece-me que alli tudo me hade fallar d'ella. Cada um d'aquelles logares me dará como que uma recordação d'aquella creatura, que o destino pôz no meu caminho para logo a fazer desapparecer com a rapidez com que foge e desapparece um meteoro no espaço, em noite calmosa de estio!

— V. ex.ª, sr. Julio de Montarroyo, amou Helena de Noronha com uma paixão que tornaria feliz a minha pobre amiga, se ella tivesse podido apreciar como eu toda a vehemencia do seu affecto!

— Helena, minha senhora, sabia bem quanto eu a amava...

— Sabia e não lhe correspondeu a esse amôr que preencheria as mais ardentes aspirações de um coração sedento de affectos?

— Correspondeu! Helena correspondeu tanto quanto a sua nobre alma lh'o permittia, a esta paixão que me inspirou. E se não abandonou o convento para vir salvar o pae moribundo e tornar feliz o homem que ella amava, é porque foi victima de alguma infame cilada que para sempre a perdeu.

Então Julio de Montarroyo contou a D. Aurelia que tivera repetidas entrevistas com Helena no convento do Sardão; que ahi combinára com ella a fuga, quando uma inesperada e repentina enfermidade veio transtornar todo o plano concertado entre os dois; e que, sendo compellida a seguir para Paris, lhe escrevera uma carta convidando-o a ir esperar noticias d'ella na grande capital do mundo civilisado. E tendo ahi passado muitos mezes, aguardando as promettidas noticias, nunca mais lhe fôra possivel ouvir sequer fallar d'ella.

— Conclue portanto que Helena...

— Foi infamemente illudida mais uma vez pelos seus crueis algozes!...

— Se Helena tinha alguma vez pensado sériamente em abandonar a vida religiosa, creio bem que não seria facil impedil-a de realisar o seu pensamento. Helena de Noronha era por demais altiva e dotada de energia de caracter sufficiente para não se deixar prender e illaquear por outra vontade que não fosse a sua.

— Eu creio que Helena de Noronha já não vive... Procurei-a por toda a parte, percorri o mundo em sua procura, e em parte alguma pude jamais achar quem de longe sequer houvesse tido conhecimento d'ella. Isto me leva a crêr que a supprimiram antes que ella pudesse effectuar a sua evasão.

— Seria possivel?

— Nos antros jesuiticos tudo é possivel, minha senhora.

— Mas não sabe v. ex.ª que o padre Anselmo foi quem resolveu Helena a professar?

— Sei muito bem.

— Pois esse padre não poderia dar noticias de Helena, se lh'as exigissem?

— O padre Anselmo! Esse decerto poderia informar-me com verdade do destino de Helena, se me fosse facil encontral-o. Mas é homem de quem tambem ninguem me deu noticias... A unica pessoa que poderia talvez dizer-me o que foi feito d'elle morreu ha muitos annos em Lisboa... Era uma tal D. Carlota que, tendo auxiliado Alvaro e a mim proprio em todos os esforços que empregámos para libertar Helena do convento, á ultima hora nos trahiu, reatando as suas relações com o padre Anselmo... Regressando a Braga, alimentava ainda esperanças de a encontrar; mas a morte incumbiu-se de tornar ainda mais negro o mysterio que envolve tanto a existencia de Helena como a do jesuita que a arrebatou para sempre á familia e á sociedade.

— Pobre Helena! — suspirou D. Aurelia — que negro destino foi o seu!

— Infelicitou-se e infelicitou quantas pessoas se lhe aproximaram. Ha creaturas assim dotadas d'este fatal condão de trazerem o soffrimento e a desgraça comsigo.

— E no emtanto as suas intenções eram sempre nobres e puras. Ninguem conviveu mais de perto com ella e tambem por isso ninguem melhor do que eu póde avaliar o thesouro de bondade que se abrigava n'aquelle coração!

— V. ex.ª que vae ter-me por vizinho, hade ter paciencia, sr.ª D. Aurelia, e permittir-me que alguma vez peça ás suas recordações o dôce lenitivo de me fallar de Helena...

— A minha vida é tambem uma interminavel cadeia de amargas tristezas n'este solitario canto do mundo, onde nasci e me criei, onde gosei e soffri todas as alegrias e todas as dôres da existencia... Posso dizer que hoje vivo, como v. ex.ª, só de tristes recordações... — replicou D. Aurelia com um fundo suspiro.

A conversação foi interrompida n'este ponto pela chegada do juiz e do commendador que desciam ao jardim discutindo entre si o programma das festas em honra de Julio.

Ao vêrem-n'o a distancia, em conversa animada com a D. Aurelia, os dois entreolharam-se e, com um sorriso significativo, disse o magistrado:

— Quer vêr que andamos, sem o pensar, preparando uma festa de nupcias?

— Póde ser... — replicou o commendador — A D. Aurelia está ainda muito fresca e, se o Julio tiver juizo, o que deve fazer é casar com ella para se distrahir.

Assim dizendo, fôram aproximando-se sem darem a perceber nos gestos ou nas palavras a impressão. que aquelle encontro lhes causára.

Mais tarde veremos se o juiz tinha razão.