Os Filhos do Padre Anselmo/XIII

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Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XIII: Denuncia


João Lazaro fôra pontual em comparecer á hora marcada para a ceia que os amigos offereciam em sua honra, no Palacio de Crystal.

O aventuareiro sentia-se intimamente lisonjeado e envaidecido por esta demonstração de affecto e estima que Eugenio de Mello e os seus amigos lhe davam. Mas apparentava grande desdem e indifferença por tudo quanto o cercava, assumindo a attitude altiva e soberana de quem dispensa uma honra quando recebe um favôr. Chegou mesmo a dizer a um de seus intimos, no tom cançado e aborrecido de quem se vê obrigado a aturar importunos:

— Estes idiotas massam-me, não me largam e offerecem-me banquetes para terem a honra de se sentarem ao meu lado!

— Não será bem isso — replicou o outro delicadamente, para não o ferir — Devemos conceder que a amizade, a justa admiração pelos teus talentos e, acima de tudo uma certa communhão de ideias, mais que a vaidade pessoal, são as determinantes d'estas manifestações de que és alvo...

— Communhão de ideias! — tornou o João Lazaro desdenhoso — Que communhão de ideias pódem elles ter comigo, se são uns idiotas, uns cretinos incapazes de terem no cerebro impenetravel outra coisa que não seja arroz cosido em vez de miolos?

— Talvez tenhas razão, talvez...

— Com toda a certeza que a tenho! Se eu não fosse um homem notavel, se não tivesse conquistado uma popularidade que me torna a primeira figura do meu paiz, cuidas tu que estes imbecis, estes biltres, teriam a generosidade de me pagar um café, quanto mais uma ceia? Eu conheço-os. Querem explorar-me, querem illuminar-se da radiosa aureola de immortalidade que me circumda a fronte. Com os olhos postos no futuro, querem, a troco de uma ceia, que os seus nomes brilhem a par do meu, quando se fizer a minha historia e quando os seculos repetirem com admiração o meu nome e o de todos aquelies a quem dei a honra de se aproximarem de mim.

O intimo, que era um homem sensato, porem delicado, não pôde conter-se que não dissesse:

— Agora, depois de te ouvir, convenço-me de que realmente os idiotas são elles, se pensam como tu dizes... Pois queres que te falle com franqueza?

— Dize lá.

— Creio que outro qualquer que te ouvisse, sem ser eu, juraria que o idiota és tu!

João Lazaro mordeu os grossos labios e, percebendo que irritara o amigo com a sua estupida filaucia, mudou de tom e disse brandamente:

— Confesso que fui talvez demasiado violento e um poucochinho injusto na apreciação d'esses sujeitos, que pódem ser muito bôas pessoas, e animados das melhores intenções, mas que me irritam profundamente, vindo, com esta futilidade d'uma ceia, roubar-me o tempo que necessito para tratar assumptos mais serios e de que depende a salvação de todos. Porque é preciso que tu o saibas, eu não vim ao Porto unicamente para os amigos me darem de cear...

— Para que então?

— Para ver se querem collaborar comigo na grande obra da salvação publica...

— Já lhes expuzeste o teu plano?

— O meu plano é tão vasto que não póde ser resumido n'um discurso para se repetir a cada um em particular; e é de tal modo melindroso, que tambem não póde ser publicamente revelado a uma assembleia. Aqui, de duas uma: ou ha confiança em mim, ou não ha. Se ha, faça-se o que eu digo, facultem-se-me os meios de que careço e mais tarde se verá a obra grandiosa que projecto e para cuja realisação todos devem concorrer. A gloria, porisso, será de todos. Eu não a quero só para mim... Se não ha, é inutil perguntar-me o que penso e o que desejo fazer. Se eu submetto o plano á discussão, admittindo emendas e correcções, então o plano deixa de ser meu para ser de todos, e eu deixo de ser a cabeça pensante para me converter n'um simples instrumento como os outros. Ora a isso não me sujeito. Sinto aqui dentro — e batia na testa com impeto — alguma coisa de grande e de superior, para que consinta em me nivelar com essas vulgaridades que nada teem feito e nada podem fazer, pela simples razão de que não nasceram para dirigir, nasceram só para serem dirigidas. Ora ahi tens a razão porque eu sou ás vezes injusto com aquelles mesmos para quem o não devo ser... É que queria vêr mais ardor, mais enthusiasmo e, sobretudo, mais desprendimento e menos egoismo n'aquelles que me rodeiam!...

— Bom! Mas, a final, o que queres tu?

— Dinheiro!

— Oh, diabo! isso é o mais difficil de obter, porque é isso precisamente o que todos querem...

— Pois se o querem, que m'o ponham ás ordens, que o semeiem, que eu lhes volverei cem por um! — exclamou o João Lazaro, convicto. — Não me falta mais nada. O meu plano está completo. Para o realisar, apenas careço de dinheiro. Dêem-me dinheiro e, dentro em tres mezes, eu terei mudado a face do paiz.

— Mas bem vês, meu caro, que isso depende de circumstancias...

— Quaes circumstancias?

— Se o dinheiro que tu pedes para a realisação do teu plano fôr uma somma tão importante que não esteja nas forças dos nossos amigos...

— Nas forças dos nossos amigos deve estar sempre tudo aquillo de que depende a salvação da patria. Quando se trata de um caso d'estes, ninguem está a medir e a calcular o que póde fazer. As forças medem-se pela grandeza da obra e da vontade de cada um para a realisar.

— Não é tanto assim. Convencido estás tu da excellencia e efficacia do teu plano, e tambem mais que ninguem deves sentir o desejo ardente de o realisar. E, no emtanto, tropeças na difficuldade suprema de o pôr em acção e pedes o concurso dos correligionarios para que o teu pensamento não fique na cathegoria das coisas irrealisaveis...

— Certamente. E creio que todos teem obrigação de me ajudar. O bem não é só para mim, o bem é para todos.

— Perfeitamente d'accordo. Isso não se discute. O que se discute é se as sommas que a realisação do teu plano exige estão nas forças dos nossos amigos. Bem sabes aquelle aphorismo: Onde não ha...

— Pois sim, mas aqui não é o rei que perde, é o povo.

— E o rei ganha, bem sei. Mas se a fatalidade das circumstancias assim o impõe, o que havemos de fazer?

— Assim o impõe, dizes tu! N'esse caso, já sabes que não ha dinheiro! — exclamou João Lazaro n'um tom de amargo despeito.

— Eu não sei nada! — volveu-lhe o interlocutor. — Isto são apenas considerações que eu faço sobre o que póde succeder. Ainda não me revelaste o teu plano, ainda não me disseste de quanto carecias... Como queres tu que eu saiba se é realisavel ou não a somma que desejas? Simplesmente, o que me parece é que, se essa somma fôr avultada, haverá difficuldade em a conseguir.

— Onde está então o amôr d'esses patriotas á ideia?

— Está no coração. Mas tu bem sabes que o coração sem dinheiro é uma força tão fraca que, hoje, nem sequer remove as difficuldades de um casamento, quanto mais as difficuldades da salvação de um povo.

João Lazaro fez um gesto de supremo desprezo.

— E é por um partido d'estes que eu penso, trabalho e me sacrifico! Vale bem a pena, realmente, expôr-se um homem a todas as violencias, a todos os odios e todas as perseguições, para melhorar a sorte de um povo que não está ainda educado para as grandes reformas sociaes! Cuida a gente que encontra ao seu lado crenças profundas, dedicações sinceras, homens capazes de sacrificarem tudo ao seu ideal, e dá mas é com um bando de egoistas, agarrados ao dinheiro como a ostra á casca, incapazes de soltarem um vintem sem se consummirem em calculos sobre o livro do Deve e Haver! Raça ignobil de bacalhoeiros ignaros, que estão a pedir João Branco e Pita Beserra!

Depois d'esta violenta explosão de colera, por não achar abertos os cofres dos homens a quem d'antes chamava filhos e netos de heroes e aos quaes agora malsinava de bacalhoeiros ignaros, visto que não lhe davam o dinheiro que elle queria para sustentar a ociosidade infame, o João Lazaro despediu o amigo com um gesto altivo.

— Bem! — disse elle — tenho entendido. Não se arranja nada. O peor mal é d'elles. Hão-de arrepender-se, mas ha de ser tarde...

E consultando o relogio:

— São horas. Vou ao Palacio, á tal ceia, mas recolherei cedo, porque não estou para os aturar. Amanhã, se quizeres, apparece. Mas vem de dia, porque á noite talvez retire para Lisboa.

— O que! Retiras sem conferenciar com os nossos amigos?

— Se me dizes que elles não estão dispostos a sacrificar-se...

— Entendamo-nos! Eu digo apenas o que penso... Mas isto não é nem póde ser tomado como uma resposta decisiva ao teu pedido...

— Não, que eu não peço! — exclamou Lazaro com enfatuada altivez — Eu proponho. Era o que me faltava! Servil-os com as minhas ideias, com o meu talento, com o meu nome e vir ainda implorar-lhes que mo acceitem o favor de os salvar! Se querem ser homens, se querem ser livres, aqui estou eu, prompto a resgatal-os com o meu plano: dêem o dinheiro preciso para o pôr em execução. Se, pelo contrario, preferem ser escravos abjectos, vis instrumentos de especuladores sem dignidade nem consciencia, fiquem-se com o seu dinheiro e a sua escravidão, que eu por mim não darei mais um passo em beneficio de semelhante canalha!

Disse e caminhou para a porta, magestoso e solemne como um deus sagrado.

— Vaes para a ceia dos teus amigos, não é isso? — perguntou o outro despedindo-se.

— Vou fazer ainda esse ultimo sacrificio á popularidade de um partido que me não merece.

— Pois bem; vae, que eu vou tocar a capitulo, a vêr o que se póde arranjar... Tu, porém, tens de ser ouvido...

— Não terei duvida em fallar e expôr as coisas com as reservas precisas, se porventura elles estiverem dispostos a entrar n'isto a sério. Se, porém, vires que se retrahem e que apenas desejam ouvir-me por simples devaneio, peço-te que não me incommodes, obrigando-me a descer até esses bilhostres.

Estendeu-lhe com superioridade dois dedos que o outro apertou, e desceu a metter-se na carruagem de praça, que o esperava á porta do hotel.

— Para o Palacio! — ordenou ao cocheiro.

Pelo caminho, ia monologando:

— Este idiota ficou aterrado com a minha attitude, e estou certo de que vae mover os outros estupidos a largarem o dinheiro... Se não fôr assim, á valentona, por boas palavras não se se faz nada... Preciso de lhes apanhar dinheiro para ir até Hespanha.

E com um sorriso lubrico a bailar-lhe nos labios sensuaes, n'uma atavica reminiscencia da tanga:

— Oh! as hespanholas... as hespanholas são um encanto!

Quando entrou no Palacio, passava já da hora marcada. Os amigos, com Eugenio á frente, vieram recebel-o n'uma doida expansão de alegria.

— Cuidei que não vinhas! — disse-lhe Eugenio. — Seria um grande desgosto para nós todos, que te estimamos, mas muito principalments para estas damas, que nos honraram com a sua presença e que estavam anciosas por te conhecer.

O aventureiro saudou gravemente, com um forçado sorriso de polidez e, respondeu n'um tom de pedantesca superioridade:

— Foi em verdade um sacrificio grande para mim o ter de comparecer a esta hora, e tanto que me vi forçado a transferir para amanhã uma reunião importantissima que devia effectuar-se hoje. Amigos politicos, que desejam ouvir-me sobre negocios da mais alta transcendencia, insistiam comigo para que vos enviasse um bilhete de desculpa e não protelasse a reunião que se havia marcado; mas eu recusei-me a acceder aos seus desejos, pois não quero que se diga que sou menos amavel com os velhos amigos da mocidade e com as bellas e gentis damas que os acompanham.

Seguiram-se as apresentações:

— Senhorita Lola...

— Senhorita Dolores...

— Senhorita Consuelo...

O João Lazaro, com os ademanes de um principe, sorria benevolamente a cada um d'estes nomes, inclinando-se amavel, com modos de grande senhor.

Abancaram á mesa e principiou o festim.

A esta mesma hora, a loura Leonor, despedido o commendador Garcia, que havia entrado ás sete, vinha debruçar-se á janella, na anciosa espectativa de sentir ao longe os passos de Eugenio, quando um moço de recados parou á porta da rua, espreitando para o numero, e bateu, depois de se certificar de que era realmente aquella a casa que procurava.

A criada desceu a vêr quem batia o pouco depois voltou com uma carta.

— Um moço de fretes com esta carta para a menina...

A criada, velha onzeneira e confidente das perfidias ao commendador, usava d'este tratamento meio familiar, meio respeitoso, sempre que se achava a sós com Leonor.

— Dê cá! — disse a loura, pegando na carta e examinando o sobrescripto. — Queres vêr que é algum massador a seringar-me com uma declaração?

— O portador não esperou reposta.

— Bem sei que não esperou. Eu estava á janella e vi-o partir logo que entregou a carta.

E rasgou com um sorriso de curiosidade o sobrescripto.

— É singular! O papel não vem perfumado — disse ella, mostrando o papel vulgar em que a missiva vinha escripta.

— É de homem de dinheiro! — commentou a velha, muito pratica em negocios d'amôr. — Os cheiros são para os pelintras que só querem agradar com bugigangas e a respeito de louça... nem um pires!... Homem sério, homem de massas, não está lá com essas coisas... Confia no seu dinheiro e é bastante...

Leonor, sem prestar attenção ao palanfrorio da criada, ia lendo n'uma agitação crescente. Quando chegou ao fim, exclamou horrivelmente pallida, amarfanhando o papel entre as mãos:

— Oh! mas isto é impossivel! Isto é uma infamia!

— O que é, menina? — perguntou a velha serviçal, n'um movimento de curiosidade.

— Dizem-me aqui — tornou Leonor com voz rouca de commoção — que Eugenio vae casar.

— Casar-se o sr. Eugenio! Credo, menina! Olhe que isso hão-de ser ditos de gente que lhe quer mal... Que isto é, eu direi... nos homens não ha que fiar... Elles prégam-n'a na menina do olho e, quando uma pessoa mal cuida, parece que estão muito seguros e põem-se a avoar!

Leonor, agitadissima, relia o papel para se certificar de que não tinha comprehendido mal o que n'elle se lhe dizia e que era o seguinte:

«Uma pessoa amiga, que muito a estima e que daria a vida para lhe ser agradavel, julga dever avisal-a de que Eugenio de Mello acaba de pedir em casamento uma menina de rara belleza, filha unica de um capitalista muito conhecido n'esta cidade, e que o enlace se prepara para muito breve.

«Na roda dos rapazes finos, onde este acontecimento é muito commentado, discute-se de maneira bastante humilhante para a gentilissima Leonor o procedimento de Eugenio.

«Uns affirmam que elle, cançado da amante, aborrecido de uns amôres que já não lhe offerecem encanto nem prazer, busca pelo casamento com uma menina rica, prendada, e muito formosa, a quem ama apaixonadamente, libertar-se de umas relações que considera despreziveis e improprias da sua dignidade. Outros sustentam que, pelo contrario, Leonor e Eugenio, receiando que o commendador Garcia, de um momento para outro, escandalisado com o mau uso que ambos fazem do seu dinheiro, suspenda pagamentos, combinaram que o melhor era garantirem-se contra a miseria provavel, casando Eugenio com uma mulher de dinheiro e ficando Leonor a receber d'elle o preço dos seus amores como agora o recebe do commendador Garcia.

«Quem estas linhas escreve tem a certeza de que Leonor é vilmente atraiçoada por Eugenio, e por isso caridosamente a previne d'este facto, afim de evitar que a sua reputação, continue a ser infamemente enxovalhada pelos mais intimos amigos do perfido e ingrato amante.

«Se fôr discreta e prudente e quizer informar-se em segredo da veracidade d'este aviso, a pessoa que lhe escreve esta carta estará amanhã ás 11 horas em sitio d'onde aviste a sua casa. Se a janella do meio estiver aberta, a sála illuminada e no piano se ouvir a valsa Leonor, é signal de que deseja recebel-a e então essa pessoa apresentar-se-ha para lhe dar todos os esclarecimentos que desejar.

«Até lá, silencio e discreção é a unica coisa que se recommenda.»

Relida esta carta em voz alta, Leonor encarou desvairada a velha confidente, exclamando:

— Se é verdade isto que aqui se diz, mato-o!

— Crédo, menina! — bradou a velha benzendo-se — Isso são tentações do demonio! Deixe lá, não faça isso, que não vale a pena uma pessoa ir pagar c'os ossos na cadeia um burro ruim por um ! Homens ha muitos, tão bôs e melhores do que aquelle... Olha agora, se a menina, com uma carinha d'essas, que parece mesmo uma image, não achava homem que lhe désse o merecimento senão aquelle! Crédo! andam ahi rapazes como uns soes, babadinhos pela menina que tomaram elles quem lhes désse attenção... Era só a menina abrir a bôcca e veria!... Eu é que não quero dizer nada, mas tenho osservado muita coisa... Só eu é que sei!

— Que e o que você tem observado, Joanna? — interrogou Leonor roida da curiosidade de saber alguma coisa que lhe esclarecesse a perfidia de Eugenio.

— Tenho-os visto por ahi a offerecer-me prendas se eu fizer com que a menina lhes dê attenção... Mas eu cá... como a via virada p'ró sr. Eugenio... mal haja elle, se é certo o que diz a carta!

— E você nunca ouviu dizer nada, Joanna? Nunca ouviu que Eugenio tivesse outro namoro?

— Não, lá isso, na minha salvação se eu ouvi boquejar nem tanto como isto!

E mostrava a ponta da unha suja, para indicar o têrmo da comparação.

— Mas será verdade? — tornava a loura passeando agitadamente na sala — Elle terá animo para me fazer uma affronta d'estas, sabendo quanto o amo, quanto me tenho sacrificado por elle?

— O amor dos homens é como a fôlha do olmo... ora vira para um lado, ora p'ró oitro, menina...

— Oh! mas isto é impossivel! Eu não lhe mereço um tamanho despreso, uma tamanha perfidia! É preciso que um homem seja muito infame para abusar assim do amôr d'uma pobre mulher, para andar assim nas trevas preparando um golpe de morte ao meu coração!

E irritada, anhelante de desespêro torcia as mãos, com frenesi.

A velha apaziguava:

— Ás vezes támem se diz mais do que é,..

— Mas diz-se, e nada se diz sem motivo... Alem d'isso, esta carta não póde ser uma impostura, porque a pessoa que a escreve presta-se a dar-me esclarecimentos... E ninguem ousaria vir comprometter-se affirmando uma coisa que mais tarde se saberia ser mentira... Oh, meu Deus! meu Deus! que mal te fiz eu para me fazeres tão desgraçada?! — exclamou por fim, rompendo em soluços.

— Desgraçado é o diabo! — consolou a velha Joanna — Quem conta um conto sempre lhe accrescenta um ponto... Isso ás vezes póde ser que não seja tanto assim... Mas se fôr, o que a menina deve fazer é botar o coração ao largo... Mal por mal, antes isso do que o sr. commandador Gracía dar por ella e não tornar cá... Antão sim, antão é que a menina se devia affligir, porque o amôr é muito bonito, mas sem dinheiro não se arranja nada...

— Cale-se, Joanna, cale-se! — bradou Leonor n'um impeto de desespero — Você pensa como elle, que tambem vae atrás do dinheiro, sem se lembrar que eu, para o amar, não estive a fazer calculos nem a perguntar-lhe quanto possuia! Oh! mas eu lhe juro que não chegara a gosar esse maldito ouro pelo qual me troca! Miseravel! neguei-lhe eu alguma vez todo o dinheiro que me pedia? Sendo uma pobre mulher, vivendo unicamente da protecção de um homem, eu nunca hesitei em sacrificar todos os meus recursos, o meu dinheiro, as minhas joias, a minha posição — o proprio amor do homem que me sustenta — ás suas necessidades, aos seus caprichos, aos seus prazeres! E anda em segredo tratando casamento com outra, vendendo ao dinheiro d'ella o meu coração, o meu socego, a minha tranquillidade! E expõe-me aos ditos e ás chufas dos seus amigos, arrasta o meu nome pelas mesas dos botequins onde me julgam capaz de me associar a elle na infame exploração de uma mulher! Oh! a ser verdade, mil vidas que elle tivesse não chegariam para pagar esta affronta!

No intimo de Leonor tumultuavam todas as paixões que pódem agitar um peito de mulher: o amôr despresado, o amôr proprio offendido, a vaidade irritada, o odio, o ciume, emfim.

A velha encarava-a receosa, sem já se atrever a proferir palavras de prudencia ou de banal consolação.

De pé, a um canto, com as mãos cruzadas sobre a barriga, limitava-se a suspirar, murmurando em voz lamurienta:

— Seja pelas almas! Ninguem diga que está bem... Nossa Senhora do Allivio nos accuda pela sua infinita misericordia!

Decorreram assim algumas horas. Por fim, Leonor, mais tranquilla, pareceu tomar uma resolução.

— Joanna — disse ella — de tudo isto que aqui se passou, você não dá uma palavra ao sr. Eugenio.

— Ó menina! Crédo! — protestou a velha — a minha bôcca não se abre para nada! Não diga a menina coisa nenhuma, que eu tàmem faço de conta que nada assucedeu... Mas a menina é capaz de não ter mão em si e começar-lhe por ahi com climas, que elle logo desconfia...

— Eu nada digo. Preciso inteirar-me da verdade, e para isso não convem que Eugenio suspeite que alguem me disse qualquer coisa...

— Por mim, não é que elle ha de desconfiar nada! E olhe que se a menina fizer isso, anda ás horas!... Ao menos, assim, não dá logar a que elle se encubra. E depois de se infirmar da verdade, já fica sabendo quem tem...

— É justamente isso o que eu quero.

— Porque ás vezes — commentou a velha — támem são malquerencias... Pobre do rapaz! póde ser que ás vezes nem lhe passe pela cabeça nenhuma coisa d'essas e lhe estejam a alevantar esse falso testemunho, só p'ra amôr da menina se dar mal co'elle... Olhe que no mundo támem hão muitas invejidades!...

— Pois é por isso... — tornou Leonor dominando-se — Eu vou-me deitar... Não desejo que elle me encontre a pé quando vier... E como isto é contra o meu costume, vocemecê, amanhã, quando eu a chamar ao meu quarto, a primeira coisa que tem a fazer é perguntar-me se estou melhor...

— Bem sei; a menina quer-se infingir doente esta noite p'ra elle não desconfiar...

— É isso mesmo. Vocemecê não esquece isto que lhe digo?

— Ora essa! A'gora esqueço!...

— Bem! Bôa noite! Pode-se ir deitar...

— Então, com bem passe a noite, menina!... Se fôr preciso alguma coisa, não tem senão chamar...

Quando Eugenio recolheu a casa, era madrugada. A ceia prolongara-se e a alegre companhia das hespanholas tivera o singular condão de fazer voar as horas com a rapidez de minutos.

Não foi sem um intimo constrangimento que o bohemio penetrou, ás quatro horas da manhã, no quarto da amante.

Comquanto a tivesse prevenido de que recolheria tarde, por motivo da ceia offerecida a João Lazaro, esperava uma scena de ciumes, recriminações e queixas, como succedia sempre que a fazia esperar.

Foi, pois, com grande surpreza que a encontrou deitada e, ao parecer, tranquilla.

— Deitaste-te? — disse elle — Fizeste bem, minha querida. A ceia prolongou-se mais do que eu esperava, e depois, conversa d'aqui, anecdota d'acolá, quando demos conta de nós eram estas horas que vês!

Leonor affectava uma grande serenidade e respondeu com ternura:

— Estava anciosa que viesses, porque me senti muito incommodada... Deitei-me por não poder estar de pé, mas não tenho dormido...

— Estás doente, meu amor! O que foi isso? O que sentes?

— Nem eu sei o que isto foi! Comecei a sentir muito frio e grandes dôres de cabeça... E creio que tive uma ponta de febre...

— Foi constipação, com toda a certeza! És uma descuidada, não te agasalhas... Quando Deus quer, puzeste-te por ahi á janella, a vêr quando eu chegava, e deu-te esse resultado!

— Não! Como sabia para onde tinhas ido, não te esperava senão mais tarde... Não sei, não posso calcular do que isto fôsse...

— Mas estás melhor, não é verdade?

— Sim... agora sinto-me um pouco melhor... Depois que tomei uma chavena de chá bem quente, as dôres abrandaram-me um pouco...

— Para que deixaste deitar a Joanna? Ella podia ter ido chamar-me... Tu sabias onde eu estava, e se mandasses dizer-me o teu estado, viria immediatamente.

— Não valia a penna ir incommodar-te por uma coisa tão ligeira... Isto passa.

A conversação proseguiu assim serena, e amigavel, podendo Leonor occultar aos olhos do amante o terrivel inferno que lhe ia n'alma.

O bohemio, confiado e desprevenido, acreditou na simulada doença da formosa loura e attribuiu a isso a pallidez mortal que no dia seguinte lhe notou nas feições.

Ella, pela sua parte, ameigava a voz, mostrava-se dôce e carinhosa, mais ainda do que de costume, e quando chegou ao fim da tarde e o bohemio teve de sahir para dar logar ao commendador Garcia, foi com um transporte de ternura infinita que lhe disse:

— Peço-te que não venhas tarde, mas tambem não desejo que sacrifiques a companhia dos teus amigos á ideia de que estou mal, porque, felizmente, sinto-me melhor...

— Não, eu venho cêdo...

— A que hora?

— Depois da meia noite. Mas tu deita-te, não me esperes a pé, filhinha...

— Sim... se me sentir doente, deito-me, e a Joanna, quando tu vieres, servir-te-ha a ceia, se ainda não tiveres ceiado...

— N'esse caso, combinemos assim: eu ceio hoje fóra para não dar trabalho á criada quando recolher. E tu não me esperas a pé... Valeu?

— Pois sim.

Beijaram-se e o bohemio partiu a encontrar-se com os amigos no botequim.

Pelas onze horas da noite, e tendo já sahido o commendador Garcia, Leonor, com a janella do centro aberta e a sala illuminada, sentou-se ao piano e começou executando a walsa Leonor, conforme o seu anonymo correspondente lhe havia indicado.

Quando mais não fosse senão a natural curiosidade de conhecer quem lhe escrevia denunciando-lhe a atroz perfidia de Eugenio, já era motivo mais que bastante para que Leonor acceitasse o offerecimento que se lhe fazia e désse o signal convencionado. Mas, muito mais que isso, imperava no espirito da ardente rapariga o sentimento do ciume e o irresistivel desejo de conhecer toda a verdade.

Ainda a walsa não tinha chegado aos ultimos compassos e já á porta da rua carregava no botão da campainha electrica um homem, embuçado n'uma ampla capa á hespanhola e tendo occulto o rosto pelas abas largas de um chapéo de feltro.

A velha Joanna desceu a escada e, abrindo a porta, franqueou a entrada ao desconhecido, indo em seguida postar-se de vigia n'outra janella, para avisar da chegada de Eugenio, se acaso o presentisse na rua.

Leonor, tendo descido a vidraça e corrido o store, esperava o denunciante, de pé, na sala, com o coração palpitante de anciosa curiosidade.

O desconhecido entrou desembaraçadamente, fechou a porta sobre si e, parando em frente de Leonor estupefacta, desembuçou-se, tirou o chapéo e disse, inclinando-se em garboso cumprimento:

— Não esperava que fosse eu, não é verdade?

— O senhor! — disse Leonor com pasmo, reconhecendo no embuçado as feições de João Lazaro.

— Eu mesmo, é verdade! — replicou João Lazaro n'um tom meio grave, meio galanteador; — julgava-me bem longe do Porto e completamente esquecido d'esse rosto lindo... Bem vê que se enganou e que o interesse que uma vez despertou na minha alma não desappareceu, antes mais se fortaleceu e acrisolou com a ausencia.

— Mas, perdão! — tornou Leonor, franzindo o sobr'olho n'um gesto de impaciencia — creio que não foi para insistir nos seus protestos de estima que aqui veio...

— Bem sei! Está impaciente por conhecer toda a negra perfidia de Eugenio... Vamos de vagar, minha querida, e deixe-me primeiro expôr-lhe quaes os motivos que me impelliram a dirigir-lhe a carta que hontem recebeu...

— Mas não estão elles expostos n'essa mesma carta? Se, como creio, os factos n'ella relatados são verdadeiros, basta a existencia d'esses factos para explicar o seu procedimento...

— Perdão, minha adoravel e gentil senhora! Tenho visto commetter muitas perfidias, tenho sido testemunha de villanias e infamias bem censuraveis, e nem por isso me tenho julgado no dever de intervir em favor das victimas. E isto por duas razoes bem simples: a primeira, porque, hoje em dia, no mundo a velhacaria, a traição, é moeda corrente; e a segunda, porque as pessoas a quem tenho visto ludibriar e escarnecer são em geral creaturas pelas quaes o meu coração não se interessa. Ora com a gentil Leonor não estamos no mesmo caso. Creio que já em tempo lhe declarei, e bem sinceramente, quanta sympathia, quanto interesse e quanta dedicação a sua estonteante formosura despertava na minha alma... Não me quiz attender, ou melhor, não tive a fortuna de lhe merecer a mais ligeira estima. Outro mais feliz, porém immensamente menos digno e mais ingrato do que eu, teve a dôce ventura de tocar o seu coração. Fui preterido. Paciencia! O que n'essa preterição houve de injusto e cruel para mim o de immerecido para elle vae agora a adoravel e encantadora Leonor sabêl-o...

— Por Deus, sr. Lazaro! conte-me tudo, não me occulte nada!

— É então certo que o ama muito? — perguntou o aventureiro com um sorriso ironico.

Leonor franziu ainda o sobr'olho e respondeu n'um impeto de irreprimivel desespêro:

— Não sei se o amo, se o aborreço; sei que desejo saber quem é, como se chama e onde mora a mulher com quem vae casar. Sei que o sr. accusa Eugenio de me haver illudido, de me haver trocado por outra, e de me haver ultrajado, fazendo suppôr que eu e elle entramos de sociedade e de intimo accordo n'um casamento de exploração infame. Estas accusações são gravissimas, quer para o caracter de Eugenio, quer ainda para o meu coração de mulher. É preciso que o senhor justifique perante mim, sem subterfugios e sem rodeios, tudo quanto hontem me escreveu, aliás...

— Aliás? — interrogou João Lazaro, sorrindo.

— Aliás terei o desgosto de lhe metter uma bala na cabeça.

E, n'um arrebatamento de justa indignação, os olhos faiscantes, os labios descorados e tremulos, Leonor tirou do bolso do vestido um pequeno revolver, com coronha de marfim, e apontou-o a João Lazaro.

— É justo! — disse elle tranquillamente, sem perder a linha do amavel galanteador. — O castigo deve sempre igualar o delicto, e eu não mereceria outra punição se calumniasse de maneira tão infame o homem que a senhora ama e que, além d'isso, é meu amigo... Mas, vejamos: se a mentira merece ser punida, a verdade não tem direito a ser premiada?

— O que quer dizer?

— Uma coisa muito simples e ao mesmo tempo muito justa. Se eu minto, mata-me... Se eu fallo verdade, não é justo que me dê vida? Porque é preciso que o saiba, Leonor: a morrer de amôr por esse esquivo e ingrato coração, que a outro se abandonou, ando eu ha muito tempo!

Leonor encarou-o com altiva dignidade:

— É o meu coração o que me pede ou... a minha belleza?

— Tudo, Leonor! Desejo tudo quanto póde dar-me a vida, a felicidade, que sem o seu amor não existe para mim, e que outro ingrato indignamente me tem usurpado! Prometta-me que não me recusará a esmola que lhe imploro do seu affecto, e terá de mim a prova evidente, clara, irrecusavel, da negra perfidia de Eugenio!

Leonor ficou um momento perplexa, fitando o João Lazaro attentamente, como se quizesse lêr-lhe no rosto os pensamentos mais intimos. Por fim, respondeu:

— O meu coração, por emquanto, não está livre.

— Mas se aquelle que n'este momento o occupa fôr d'elle expulso, como merece, poderei ao menos contar com um infimo logar no mais afastado recanto do seu peito, Leonor?

— Não costumo ser ingrata para os que uma vez me provaram dedicação e estima sincera.

— Não o será então para mim, porque, desilludindo-a, dou-lhe a prova mais completa de quanto lhe quero, de quanto a amo!

A loura indicou uma poltrona a João Lazaro e recostou-se no sofá que lhe ficava proximo.

— Assim entendidos — disse ella — queira dar-me as explicações que me prometteu.

— Perdão, minha querida! — tornou o aventureiro, sorrindo amavelmente — Por emquanto ainda não passamos de promessas vagas, que a nada obrigam...

— O que deseja então?

— Que me prometta, que me jure duas coisas...

— Dirá.

— A primeira que será discreta, que obedecerá em tudo e por tudo ás minhas indicações, para chegar a obter a certesa absoluta da infidelidade de Eugenio.

— Prometto.

— A segunda é que, confirmada a minha accusação e adquirida a certeza completa dos factos que lhe aponto, conceder-me-ha uma hora de felicidade, ao menos, consentindo que eu occupe durante ella, o logar que, n'esta casa, occupava Eugenio...

A loura hesitou, tomada de invencivel repugnancia por este homem que mercadejava infamemente com a paixão terrivel que abrasava o seu coração de mulher ciumenta.

— E se eu recusar essa ultima condição? — perguntou.

— Calar-me-hei, deixando-lhe o direito salvo de indagar por si o que póde ficar sabendo desde já.

— Pois bem, prometto. Falle e diga tudo o que sabe!

— Vê que confio na sua promessa e que não lhe peço como penhor a mais leve liberdade, nem sequer o adiantamento de um beijo...

— É de mais! — bradou Leonor, colerica e impaciente. — Se veio aqui, para se divertir á minha custa, fez muito mal, porque póde sahir-lhe cara a brincadeira!

— Ora vamos, minha querida... socegue! — volveu o Lazaro com um sorriso cynico. — Bem vê que eu sou incapaz de abusar da sua credulidade, submettendo o seu coração a um rude soffrimento por mero gracejo. Mas estes casos, porisso mesmo que são graves e sérios, querem-se meditados e reflectidos. Temos obrigação de os encarar com serenidade e sangue frio, para procedermos com acerto e prudencia.

— Pois bem; eu estou tranquilla e, se alguma impaciencia me nota, é apenas a de ouvir as revelações que me interessam e que certamente me vae fazer.

— Ora muito bem! — principiou o João Lazaro. — Disse-lhe na minha carta que Eugenio pediu em casamento uma menina formosa e rica. E disse a verdade.

— Como se chama essa menina?

— Beatriz.

— Onde mora?

— Na rua do Breyner e é filha do capitalista Custodio de Jesus.

— Diz então que o casamento está projectado para breve?

— Digo.

— N'esse caso, essa menina ama-o?

— Tanto não sei, mas é de suppôr que sim, visto que está disposta a recebel-o por marido. O que, porém, não offerece duvida é que Eugenio a ama, pois que pediu a sua mão.

— Foi Eugenio quem lhe disse que ia casar?

— Eugenio nada me disse. Não atraiçôo, portanto, o amigo, descobrindo o seu segredo...

— Como o soube então?

— Se é publico e notorio! Se nos cafés não se falla de outra coisa!

— Não será isso uma invenção de rapazes levianos, que gostam de se divertir á custa alheia?

— Citam-se nomes e fazem-se commentarios. Além d'isso, a pessoa que mais particularmente me elucidou d'este caso não conhecia Eugenio e veio pedir-me informações a seu respeito.

— O que lhe disse?

— O que não podia deixar de dizer de um homem de quem sou amigo: que Eugenio é muito bom rapaz, um cavalheiro a toda a prova.

— Mas é forçoso impedir esse casamento!

— Talvez não seja impossivel.

— Conhece o pae d'essa menina, esse tal Custodio de Jesus?

— De vista apenas. Não tenho com elle relações pessoaes; mas conheço amigos intimos seus. O que deseja d'elle?

— Informal-o de que Eugenio mantém relações comigo e fazer comprehender que não deve dar a filha a um homem que tem uma amante...

— Está doida! E o commendador Garcia?

— Que me importa a mim o commendador Garcia, comtanto que Eugenio não case! — bradou Leonor, erguendo-se arrebatadamente do sofá em que se achava sentada e dando alguns passos pela sala, n'uma agitação indescriptivel.

— Venha cá, socegue! — disse João Lazaro, tomando-lhe a mão. — Prometteu-me obedecer a todas as minhas indicações, e é forçoso que cumpra o que prometteu.

— Pois sim... Diga então o que devo fazer...

— Em primeiro logar, certificar-se de que é verdade o Eugenio trahil-a.

— Como?

— Pela sua criada, que deve merecer-lhe toda a confiança...

— Merece...

— Pois a sua criada procurará travar relações com alguma das criadas de Custodio de Jesus, e por esse modo saberá o que ha de verdade ácerca do que se diz. Os criados sabem tudo e são os melhores informadores d'este mundo.

— E obtida a certeza?

— Obtida a certeza, nada diz a Eugenio até ao momento que eu lhe marcar. Faz isto?

— Faço.

— Que Eugenio não suspeite que lhe está no rasto da perfidia.

— Não suspeitará.

— E eu voltarei a informál-a.

— Quando?

— Quando tiver obtido todos os informes que precisamos.

— E até lá nada devo dizer nem fazer?

— Nada, senão isto: pôr a sua criada em relações com as criadas do Custodio de Jesus.

— Mas sabe que me condemna a uma tortura horrivel? Como quer que eu, com o inferno no coração, guarde silencio e me sujeite ás dilações de uma informação tão morosa? Eu preciso de resolver e actuar immediatamente! Não está no meu genio occultar por muito tempo o que me vae n'alma...

— As circumstancias impõem-lhe dissimulação e prudencia.

— As circumstancias! Qual é a mulher que no meu caso attende ás circumstancias?

— Todas. No seu caso, todas — replicou João Lazaro com reflexiva gravidade.

E amaciando a voz, n'um tom de convicção profunda:

— Ora venha cá! — disse elle — Deixe-me pensar pela senhora e defender os seus interesses, o seu futuro, a sua posição, uma vez que essa cabecinha transtornada não se mostra em estado de pensar coisa alguma com acerto. E, creia, foi principalmente por isso que não quiz logo dizer-lhe tudo na minha carta... Calculei que faria escandalo se não tivesse ao seu lado alguem que a dirigisse, e procedi de fórma a obrigal-a a ouvir-me e a attender-me...

— Pois sim... já o ouvi e já o attendi... Mas o que não posso, o que os meus nervos não consentem é, obtida a prova da perfidia de Eugenio, remetter-me a uma passividade absoluta, deixando que o infame realise os seus torpes intentos!

— Não seja creança e vamos a vêr se consigo convencel-a de que um escandalo ruidoso nada impede e a mais ninguem prejudica senão á senhora...

— Só a mim, diz?

— Sim, só á senhora. Ora ouça, Leonor: Imagina que se se apresentar em casa de Custodio de Jesus e disser: «eu sou amante ostensiva do commendador Garcia, e o Eugenio de Mello é o meu amante clandestino», essa declaração pesará no espirito do abastado capitalista o bastante para impedir o casamento?

Leonor baixou os olhos e não respondeu. João Lazaro continuou:

— O mais que com isso poderá fazer, é provocar explicações da parte de Eugenio que, bem longe de negar, confessará essas relações, que nada affectam a reputação de um rapaz livre e em pleno goso da sua mocidade; pois, infelizmente, toda a gente considera perdoaveis uns amôres que sempre se calculam do duração ephemera e que, por isso mesmo, ninguem toma a sério.

A loura ergue-se como impellida por occulta mola. Os olhos faiscaram-lhe de colera, n'uma indignação suprema.

— Ninguem toma a sério o amor de uma mulher como eu! — exclamou ella — E porque? Acaso o meu coração vale menos do que o d'outra mulher? Acaso sou eu uma creatura differente de todas as outras, e porisso condemnada a não sentir no meu coração os dôces affectos que são a vida e a felicidade ainda dos seres mais despresiveis e obscuros? Não terei eu o direito de amar e de exigir que o homem que despertou na minha alma o terno sentimento a que jurou corresponder cumpra lealmente os seus juramentos?

João Lazaro ouviu impassivel esta rajada de indignação, sem perder um só instante o sorriso meio amavel, meio ironico, que desde o principio lhe brincava nos labios.

— Tem razão — disse elle por fim — Mas que quer, minha querida? A sociedade é quasi sempre cruel e iniquia nas suas decisões; e ahi está precisamente um caso em que ninguem, da boa fé, poderá attribuir-lhe rectidão e justiça. No emtanto, como a sociedade é que dicta a lei pela qual cada um se rege, segue-se que Eugenio, na sua perfidia, tem a seu favor a lei, que todos acatam, ao passo que a senhora tem apenas a razão, que ninguem attende.

— Ha de pelo menos attendel-a elle!

João Lazaro teve uma gargalhada de zombaria.

— Não o creia, minha querida! Se Eugenio prestasse ouvidos á razão, se ao menos tivesse uma sombra de respeito por esse coração que elle esmaga, por esse amor que calca aos pés, não teria pensado em casar-se. Mas, digo-lh'o eu, e a senhora vae em breve ter a confirmação do que lhe assevero, o Eugenio pensa, em se fazer homem sério por meio de uma alliança vantajosa e respeitavel, e está disposto a romper os laços de uma affeição que nunca reputou duradoura nem digna d'elle.

— Esbofeteal-o-hei publicamente como a um verdadeiro canalha que é! — bradou Leonor completamente dementada.

— Eis o perigo! Eis o gravissimo desatino que eu me julgo no dever de impedir, porque a amo, porque a estremeço, Leonor, e porque nunca poderia absolver-me de ter sido eu a causa indirecta d'essa grande loucura! O que lucraria com isso? Fazer um escandalo cujo ridiculo cahiria inteiro sobre a senhora? Obrigar a que a discutissem nos cafés e a ultrajassem nas conversações particulares, como a uma mulher despresada, uma mulher publicamente repellida? A sociedade é assim, minha querida amiga! Não perdôa aos vencidos. E depois, o ruido d'este escandalo chegaria aos ouvidos do commendador Garcia, seu protector. Por muito que elle lhe queira, por muito que transija com os despoticos impetos do seu temperamento e do seu coração de mulher galante, bem vê, Leonor, que seria crear-lhe uma situação que nenhum homem, nem mesmo o commendador Garcia, poderia acceitar... O rompimento, portanto, com este seria inevitavel, e d'ahi um accrescimo de desgraça e mais um motivo de prazer para todos aquelles a quem o seu desdem tem magoado. Repare bem n'isto, Leonor, olhe que é um amigo sincero e verdadeiro que lhe está fallando.

— Mas o que devo então fazer, santo Deus! — clamou a formosa Laura, estorcendo as mãos em desespero.

— Ter prudencia e esperar.

— Ter prudencia! Esperar... o que e como?

— Nunca ouviu dizer, Leonor, que a vingança é o prazer dos deuses? Pois tenha prudencia e vingue-se, Leonor...

— Vingar-me? Sim! quero e hei-de vingar-me... Porém, como? Como é que eu hei-de levar a cabo essa vingança tremenda que o meu coração anhela?

— Primeiro, convença-se serenamente do delicto. Depois, julgue com provas á vista, e fulmine a condemnação que o seu coração lhe ditar. Para a auxiliar na execução da sentença, cá estou eu. Façamos uma alliança, um pacto intimo, para nos auxiliarmos um ao outro. Eu ajudal-a-hei a vingar-se do homem que a trahiu; a senhora ajudar-me-ha a...

— A que?

— A realisar grandes emprezas que premedito...

Leonor fitou-o com uma viva curiosidade.

— E que emprezas são essas?

— Mais tarde lh'o direi... Por emquanto, basta só que saiba que podemos auxiliar-nos reciprocamente com grande vantagem e interesse para ambos. Posso contar com a senhora?

A loura hesitou. Por fim respondeu:

— Póde. Mas ha-de de ajudar-me a impedir o casamento de Eugenio, ou, pelo menos, a vingar-me d'elle.

— Isso mesmo é o que eu lhe estou propondo.

— Está bem! — disse a loura estendendo-lhe a mão — póde contar comigo.

João Lazaro embuçou-se no capote, carregou o chapéo sobre os olhos e dispoz-se a sahir.

— Ámanhã voltarei á mesma hora — disse elle á sahida. — E o signal convencionado para eu saber que me recebe, póde ser o mesmo de hoje.

— Espere! — reflectiu a loura — Se ás vezes, por qualquer motivo, não me fôr possivel recebel-o...

— Claro está que não dá o signal.

— Mas se me fôr preciso prevenil-o de que póde vir mais tarde...

— Toque então a marcha da Cadiz.

— Está bem.

— Ainda mais — tornou o Lazaro — se quizer prevenir-me de que não venha no dia seguinte, substitua. a marcha da Cadiz pela Cavallaria Rusticana. Ouvindo-a, já fico sabendo que só poderei vir dois dias depois.

— Não se dará esse caso, mas sempre é bom prevenir...

— Comprehendeu-me perfeitamente. Até amanhã.

— Até amanhã.

O aventureiro tomou a mão de Leonor, depositou n'ella galantemente um beijo, e sahiu.