Os Retirantes/III/IV

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Os Retirantes por José do Patrocínio
Terceira parte: a capital, Capítulo IV


Pouco depois que d. Ana e suas sobrinhas passaram pela rua da Assembléia atravessavam-na também duas pessoas, cujo encontro era ansiosamente desejado pela família.

Uma dessas pessoas era uma rapariga loira, extremamente pálida e emagrecida, cujo trajo revelava mais do que pobreza - verdadeira miséria. Estava descalça, e no corpinho os cerzidos longos traíam uma preocupação de compostura e asseio pouco comum no grosso da população adventícia que enchia a capital.

Via-se num lance de olhos que a infeliz moça fora vítima de uma grande catástrofe; lembrava um pedaço de mármore esculpido no meio de um esterquilínio; tamanha era a diferença que havia entre ela e qualquer outra retirante.

Quem demorasse a contemplar aquele semblante tinha necessariamente por ele interesse compassivo. Da exagerada palidez ressaltavam dois olhos azuis, muito grandes e amortecidos, que pareciam diluir-se numa umidade luminosa, e o olhar que deles transudava trazia alguma coisa de sobrenatural. Duas tranças loiras, enroladas sobre o occipúcio, completavam-lhe a cabeça simpática.

Pela mão dessa rapariga caminhava tropegamente um velho, que apresentava mais idade do que a real. Os sofrimentos tinham-no acabrunhado de tal forma, que dar-se-lhe-ia mais de 60 anos.

Estes dois infelizes, caminhando através da soalheira das 11 horas da manhã, paravam de porta em porta, mas, em vez de pedirem esmolas, a moça oferecia rendas para vender.

Ordinariamente à oferta correspondia um movimento triste da moça, que suspirava, abaixando a cabeça.

— Tem paciência, minha filha - murmurava o velho; - acharemos adiante quem no-las compre.

— Não me incomodo, não, meu pai; já estou acostumada.

Mas, enquanto a voz se encarregava de dar este conforto ao velho, a infeliz não raras vezes levava a mão aos olhos para enxugar as lágrimas que neles marejavam; e, quando, depois de algumas passadas, ela parava em outra porta, era já receosamente que oferecia as suas rendas.

— O dia está hoje aziago, rainha filha - ponderou o velho, depois de ouvir várias recusas.

— Mas ainda é muito cedo; ainda podemos correr outra rua.

— És uma santa, minha Irena - murmurou o velho; - não desencorajas.

— O negócio é assim mesmo, meu pai; um dia bom, outro mau; não há, pois, que estranhar.

Um suspiro do velho Rogério Monte respondeu à frase que estereotipava a enorme valentia moral de Irena.

A tímida amiga de Eulália tinha-se de feito modificado radicalmente. O seu natural retraimento como que se transformara numa concentração de força de ânimo, de tal sorte que ela se mostrava heroicamente sobranceira a todas as desgraças.

Rogério muitas vezes desacoroçoava de todo e revoltava-se contra o destino cruel que o fustigava desapiedadamente, mas a voz de Irena achava tais argumentos na própria desventura, que para logo fazia voltar-lhe a calma e a resignação.

Houve dois dias de máxima provação para Rogério, depois das tremendas decepções que o perseguiram desde que se retirou da paróquia.

A primeira dessas foi a morte de um dos escravos, com a venda dos quais contava saldar inteiramente as suas dívidas e readquirir a boa vontade dos seus credores.

Por mais que o honrado velho documentasse a morte do escravo, não conseguiu autorizar a sua palavra.

— É um excelente subterfúgio - respondiam-lhe os credores; - mas infelizmente já não pegam as bichas.

Em Aracati, portanto, longe de encontrar quem o amparasse, Rogério só teve perseguidores, e foi obrigado a refugiar-se para que não tivesse de amargar na prisão dois crimes que lhe eram imputados com iguais fundamentos: a tentativa de assassinato contra Augusto Feitosa e a sonegação de um escravo, com o intuito de defraudar àqueles que haviam confiado em sua honra.

Todavia a sua vida não se repassou ali de todo o amargor, que lhe estava reservado; o honrado velho tinha ainda sorrisos para repartir com Irena, cujo coração reagia contra o infortúnio, para não dilacerar a última parte não ulcerada do de seu pai: aquela em que ele encerrava a consciência da amizade que ela lhe dedicava.

Breve, porém, a penúria, estreitando cada vez mais o círculo em torno dos dois náufragos da fortuna, impôs a Rogério como condição de salvar-se a retirada de Aracati. Foi então que, mudando de nome, resolveu partir para o Ceará.

Medonha recordação deixou-lhe tal viagem, e agora, cego, ainda mais se lhe avivava na memória.

Para iludir a vigilância, aliás pouco temível da polícia, agravara ainda mais as aparências das suas necessidades. Pôs-se descalço, e pediu a Irena que fizesse o mesmo e, carregando cabeça os poucos objetos que lhe restavam, foi dar o nome num abarracamento de retirantes.

Daí seguiu, no primeiro vapor, para a capital.

— Sabes em que estou pensando? - dizia às vezes o cego à sua filha.

— Aposto que está pensando em mim - respondia-lhe dando à voz uma entoação acariciadora; - não faz isto.

— Sim, penso em ti, mas naqueles dias da viagem.

E punha-se a recordar as cenas que via com essa vista do cego, que é três vezes mais perfeita do que a dos homens.

Vinha à proa e, como ele e a filha, vinham centenas de retirantes. Aquela aglomeração de farrapos e de enfermidades antecipava-lhe a amarga existência que o esperava na capital. Tinha visto o que podia haver de mais horroroso nas horrorosas cenas da seca.

A maior parte dos passageiros retirantes nem tinha lugar para estender as pernas. Entontecidos pelo enjôo, os infelizes juntavam ao mal-estar geral a imundícia, porque alagavam o convés com vômitos abundantes. Outras enfermidades sórdidas colaboravam nessa obra nauseabunda.

Irena padecera muito e Rogério chegou a perder a esperança de vê-la chegar à capital.

Durante uma dessas horas de angústia, mais uma porção de fel veio misturar-se ao muito que já amargurava o desgraçado. As trouxas que trouxera para bordo desapareceram, e entretanto dentro delas estava tudo que restava ao descendente de uma das mais fidalgas famílias da província.

Rogério, sempre que se lembrava do fato, deixava medir a extensão da cólera que experimentara.

— Tinha coragem de arrancar os olhos a quem me roubou.

O fato alucinou-o no momento e, apesar de ser expressamente proibida a passagem dos retirantes da proa para a ré, afrontou a ordem e foi ter com o comandante.

As providências tomadas foram tão fracas, que não foi possível descobrir o autor do roubo, e além disso em vez de consolo encontrou apenas escárnio e humilhação.

— Tu estavas fora de ti com o maldito enjôo e não viste o que se passou, Irena. Sabes apenas que a punição do comandante foi tamanha, que eu nunca a pediria aos céus.

E Rogério estremecendo referia o desastre, que, no seu entender, punira o pouco caso com que foi tratado pelo comandante.

Quando recebeu o triste desengano de que não era possível descobrir os objetos Rogério voltou à ré.

Sentados junto à borda do vapor, o comandante e a esposa conversavam, e entre os dois brincava uma criancinha, que teria, no máximo, quatro anos.

Embevecido na felicidade que lhes causava tão intimo conchego, o comandante respondeu às lamentações do velho com algumas palavras em que a indiferença repassava a piedade mal simulada.

— Bem viu que tomei logo providências, mas vá lá descobrir o homem da capa preta, entre centenas de indivíduos.

Rogério, por um grito da consciência, repeliu a suspeita que era lançada sobre os seus companheiros de infortúnio, e, com um tom grave, acrescentou:

— Fosse eu o comandante e o senhor a vitima e eu lhe mostraria como descobria em meia hora o autor do roubo.

— Pois dou-lhe poderes, vá descobrir.

— Descobrirei, mas hei de ter permissão para correr as caixas dos seus marinheiros.

— Meu velho - replicou o comandante -, eu perdôo-lhe, porém não repita o que disse. Está decidido, não tenho mais nada a fazer. Pode ir.

Monte retirou-se duplamente ferido pela repulsa do comandante e pela perda inestimável que acabava de sofrer.

Chegando junto de Irena e vendo-a profundamente abatida, todas as desgraças, que imaginou desde logo no futuro, assaltaram-no em tropel. A presença da filha torturava-o; quando ela, entontecida e desanimada, estendia-lhe os braços e rodeava-lhe com eles o pescoço, afigurava-se à imaginação alucinada de Rogério que apertavam-lhe com uma tenaz em brasa.

"O que vai ser de nós?" - pensava ele; - "que mundo de sofrimentos desabará sobre nós? Irena, Irena, melhor fora que morresses.”

O enjôo da moça reunido à falta de comodidades prostrou-a extraordinariamente. Depois da violência dos acessos caiu em um profundo torpor bem semelhante ao espasmo de um moribundo.

— Ela morre, santo Deus - suspirava Monte - e eu não posso ao menos cumprir com o meu dever de pai.

Olhava em vão em torno de si para pedir socorro: a sua desgraça só encarava com desgraçados.

— Não, não morrerás à mingua, minha filha, eu te salvarei.

Cambaleando, dirigiu-se de novo para a banda de ré. Marinheiros postados no passadiço impediram-lhe a passagem.

— Para lá, velho; basta de incomodar o comandante, basta.

— Mas eu sou pai, entendem? E vejo que a minha filha vai morrer.

— É o mesmo, não será o primeiro pai a perder um filho.

Rogério, vendo que inútil seria apelar para a força, não pôde mais conter as lágrimas e, com uma entoação compungente, exclamou:

— Veja, meu amigo, eu estou velho, só tenho aquela filha; se a perder, morrerei também.

— É exato, é - murmurou o marinheiro -, eu bem sei que dói, mas cumpro ordens.

— Esta ordem não pode se estender até um pai que tem a filha moribunda. Olhe, o comandante é pai também; veja-o, está ali contente a rir porque o seu filhinho brinca. Ele perdoará a falta que eu preciso cometer; deixe-me passar.

O marinheiro voltou os olhos para o lugar assinalado por Monte, e depois observou:

— Estou vendo, sim; ele está alegre com o filho, é feliz e não quererá que se dê aos outros a mesma alegria; coisas do mundo!

— Não pense isto; ninguém desdenha da dor de um pai, ninguém se zanga com outrem por saber que se compadeceu dos sofrimentos do seu semelhante. Veja como a criança brinca, e ele e a esposa sorriem?

Houve um instante de silêncio, durante o qual o marinheiro coçava a cabeça como que para afastar daí a idéia de desobedecer à ordem do comandante.

De repente, ambos exclamaram com uma entoação indefinível:

— Virgem!

Um ai que parecia trazer dentro de si pedaços de um coração ecoou em todo o navio, e a esposa do comandante caiu redondamente sobre o tombadilho.

— O que tens tu? - bradou o esposo, precipitando-se sobre ela.

Rogério e o marinheiro, estatelados, sem voz, olhavam-se, ao passo que os outros marinheiros e alguns dos passageiros de ré, correndo para junto do comandante, ajudavam-no a levantar o corpo desmaiado da senhora.

A confusão e o espanto causados pela cena inesperada cresciam, porque todos tratavam de inquirir a causa do desmaio da senhora e limitavam nela os seus cuidados.

Só depois de alguns minutos - longos como um século, porque eram medidos por uma enorme catástrofe - o marinheiro, cambaleando, veio por sua vez parar em face do comandante.

— A menina - disse ele com um acento gutural de enorme comoção - a menina...

O mísero pai atirou-se de encontro ao bordo do vapor com a prontidão de uma bala. Só então pôde medir a extensão do golpe que transpassara-lhe o coração e, levando as mãos à cabeça e contraindo-se como uma serpente no momento do bote, tentou atirar-se nas ondas.

Os braços possantes dos seus companheiros o detiveram, não sem um grande esforço, e ao mesmo tempo todos a uma voz bradaram:

— Escaler ao mar; para trás o vapor.

O velho Rogério parava então para resfolegar e concluía, enxugando lágrimas que marejavam-lhe impertinentemente dos olhos sem luz:

— Eu tinha pedido a Deus que te levasse, minha Irena; mas, ao ver a tremenda dor daqueles pais, fui abraçar-me contigo. Dormias à espera de futuros infortúnios.

Passando então a ocupar-se de Irena, Rogério acentuava as tristezas que vieram recebê-lo no desembarque.

Fora como todos os outros retirantes acomodar-se em um dos abarracamentos e aí, para fazer jus ao socorro do Estado, era obrigado a carregar pedras nas horas da canícula.

Uma noite, de volta do trabalho, chegou à mísera choupana em que morava, ardendo em febre.

Irena padeceu tanto como ele, porque a infeliz em cada gemido paterno ouvia os ecos dos próprios prantos de orfandade.

Rogério por sua vez sentia que a dor da filha agravava-lhe a enfermidade, mas por um dom do acaso veio o delírio roubar-lhe a consciência do infortúnio!

A febre, porém, declinou um pouco e ao romper da alva desapareceu de todo.

Rogério, acordando então, chamou pela filha.

— Diz-me, Irena, o que tive eu à noite?

— Uma febrezinha, mas passou.

— Sim, e onde estás tu? Por que não vens para o pé de mim?

Irena, que não lhe havia abandonado a cabeceira, respondeu a sorrir:

— Olhe para cá e verá que não estou longe.

— Estou a olhar, filha, repara; tenho os olhos abertos, e entretanto não te vejo.

Irena, inclinando-se sobre o rosto de Rogério, abriu os seus tanto quanto estavam abertos os olhos do pai, e fundiu em soluços:

— Somos bem desgraçados! - suspirou a desditosa.

— Muito, minha filha, muito!

Rogério Monte estava cego.