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INTRODUCÇÃO


para os ouvir, porque ha muitos tão soffregos do Conto, ou Dito que sabem, que em o ouvindo começar a outrem ou se lhe adiantam, ou o vão ajudando a versos como se fora psalmo, o que a mim me parece notavel erro…» «tambem eu não sou de opinião, que se um homem souber muitos Contos ou Ditos de uma mesma materia que se fallou, que os traga todos ao terreiro como jogador que levou rifa de um metal, mas que deixe lugar aos outros, e que não queira ganhar o de todos, nem fazer a conversação só comsigo.» Rodrigues Lobo conhecia a collecçao hespanhola de Timoneda, El sobremesa e Alivio de Caminantes (1576), que tomava por typo:

«Antes me parecia a mim, que assim dos Contos galantes, Ditos engraçados e Apodos risonhos, se ordenasse que em uma d'estas noites, tomando um proposito, cada um contasse a elle o seu Conto, e dissesse o seu Dito: e seria um modo extremado para se tirar outro novo Alivio de Caminantes, com melhor traça que o primeiro.»[1] Na tradição popular portugueza temos encontrado contos que apparecem no Alivio de Caminantes, taes como: A mulher afogada que o marido busca indo contra a corrente do rio (n.º 1); Tudo andaremos (n.º 33); Não lhe dar com o tom (n.º 37); as Orelhas do abbade (n.º 51); Para quem canta o cuco? (n.º. 57); e o Cego que recobra o seu thesouro (n.º 49).

Nos Sermonarios e Livros asceticos do seculo XVII tão rhetorico nos paizes catholicos, é que os Contos receberam uma exclusiva intenção moral, continuando os Thesouros de Exemplos, dos prégadoras da Edade media. O livro de Francisco Saraiva de Sousa, Baculo Pastoral, é um apanhado de todas essas collecções predicaveis; ahi se encontra o conto do principe castigado pelo mestre nos seus doze condiscipulos, que por certo não veiu do Novellino (n.º XLVIII.) No Estimulo pratico do padre [[Autor:Manuel Bernardes|Ma-

  1. Côrte na Aldêa, Dialogo XI.