Pensar é preciso/XI/Fernando Pessoa e os “heterônimos”

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Pensar é preciso por Salvatore D’ Onofrio
Fernando Pessoa e os “heterônimos”


Fernando Pessoa: a personalidade despedaçada (os “heterônimos”)

A produção literária em versos do maior poeta de língua portuguesa traz quatro principais assinaturas, as de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, além de outras de autores menores. Quer dizer, são quatro grandes poetas num só ou um poeta que se divide em quatro personalidades distintas. É o fenômeno da “heteronímia”, que tanto caracteriza a poesia de Fernando Pessoa. Heterônimo significa, etimologicamente, “outro nome”, diferente de pseudônimo que é um falso nome. Os heterônimos foram concebidos como seres diferentes de seu autor, pois Fernando Pessoa não apenas assinou poemas com nomes fictícios, mas criou, junto com cada nome, uma personalidade humana e poética com biografia e visão do mundo específica. Essencialmente, a heteronímia é um desdobramento de personalidade: da aparente unidade intelectual e psíquica de Fernando Pessoa emanam e se substancializam diferentes modos de sentir o mundo e a poesia. Ele procura entender e botar para fora as diversas tendências humanas, filosóficas e artísticas que estavam confusas no seu espírito:

“Multipliquei-me para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente...
Quebro a alma em pedaços
E em pessoas diversas”.

Estas “pessoas diversas” são os heterônimos, dos quais apresento um rápido esboço:


Fernando Pessoa “ortônimo” (com o nome verdadeiro): o poeta do saudosismo português.

Fernando Pessoa (1888-1935), “ele próprio”, nasceu em Lisboa, mas com apenas sete anos de idade foi morar na África do Sul, pois sua mãe contraiu segundas núpcias com o cônsul português em Durban. Lá, ele completa os estudos do ginásio e do colégio, familiarizando-se com os principais autores da literatura anglo-americana: Shakespeare, Milton, Byron, Keats, Edgar Allan Poe. Com 17 anos, em 1905, ele volta para Portugal e nunca mais sai do país natal, inteirando-se com a tradição poética portuguesa e participando da renovação modernista. Ele se sustenta fazendo traduções, especialmente do inglês para o português. Sua primeira produção literária, anterior à criação dos heterônimos, é uma coletânea de poemas líricos e saudosistas, publicada com o título Mensagem, onde Fernando Pessoa enaltece os fundadores da nacionalidade portuguesa, as viagens marítimas e o mito do Sebastianismo. Transcrevo e analiso brevemente um poema famoso que ilustra a estética e a temática desta primeira fase do escritor português:

Ulisses
O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos creou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade.
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.


O título do poema remete ao mito de Ulisses, o herói grego que participou da Guerra de Tróia e, depois de dez anos de lutas e mais dez anos de sofrimento no mar, conseguiu retornar para sua terra natal, a ilha de Ítaca, onde o esperava a fiel esposa Penélope. Durante esta longa viagem, ele teria chegado até a ponta extrema da península ibérica, onde estavam as lendárias Colunas de Hércules, e lá teria fundado a cidade de Lisboa, nome que é uma evolução fonética de Ulissipona (“a cidade de Ulisses”). É este nome latino que aparece como título do livro Mensagem. No primeiro verso, Fernando Pessoa nos dá sua definição do mito, de um modo geral: o mito é “o nada que é tudo”. Para entendermos o paradoxo poético: o mito é o “nada”, uma mentira, do ponto de vista da realidade histórica, porque é fruto da imaginação popular que inventa fatos fantásticos acerca de seres sobrenaturais; mas o mito é “tudo” do ponto de vista espiritual, porque o povo não consegue viver sem crenças que lhe expliquem a causa dos fenômenos e lhe determinem as regras de conduta. Assim, através de outro oxímoro, o poeta define o Sol, símbolo do renascimento diário, como o corpo “morto” de Deus, pois coisificado num astro, mas, ao mesmo tempo, “vivo” porque é sua luz que dá calor e possibilita a existência da vida no universo. Na segunda estrofe, Fernando Pessoa faz referência ao mito específico de Ulisses (“Este”, um anafórico do título do poema), que chega à costa atlântica (“aqui”) e dá origem ao povo lisboeta (“nos criou”). E continua o mesmo jogo de oposições entre existir e vir (no plano mítico) e não existir e não vir (no plano histórico). Enfim, é a crença numa origem sobrenatural que estimula o povo português a imitar as façanhas de seu fundador Ulisses, aventurando-se no mar e conquistando novas terras. A última estrofe tem como momento ideológico a proliferação do mito: este fecunda a realidade e se espalha entre os povos. A oposição da parte espiritual, alimentada pelo mito, e de sua parte material, expressa pelo advérbio de lugar “em baixo”, na terra, é apresentada por um dúplice oxímoro de contrários: vida, em oposição à morte, e metade, em oposição ao nada. O poeta, tendo definido o mito como um nada-tudo, a vida “metade de nada”, passa a ser também “metade de mito”. Quer dizer, a vida humana é regida, de um lado, pela força do mito, e, de outro lado, pela força da realidade. O que “morre” no ser humano é a sua parte material, que é perecível, ao passo que o elemento mítico, por ser espiritual, perpetua-se no seio da humanidade, sendo fator de seu progresso civilizacional.


Alberto Caeiro: o poeta da natureza

A este heterônimo Fernando Pessoa atribui a autoria de três coletâneas de poemas: “O Guardador de Rebanhos”, “O Pastor amoroso” e “Poemas inconjuntos”. Transcrevo um trecho do poema 5º do Guardador de Rebanhos:

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, “Aqui estou”! ...

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então, acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.


Os versos acima dispensam qualquer tratado de metafísica ou de teologia. Afinal, se Deus existisse realmente e quisesse se comunicar com os homens por que não o faria? Acreditar que ele se revelou a Moisés, a Maomé ou a qualquer outro profeta é ter uma concepção mesquinha de Deus, que privilegiaria um homem ou um povo em detrimento de outros. O que, por um simples raciocínio lógico, é a negação de sua própria existência, visto que é inconcebível a idéia de um deus injusto ou faccioso. A concepção religiosa deste heterônimo, mais do que ateísta, é panteísta: a idéia que ele tem de deus não é transcendente, mas imanente à natureza. Se ele existe, se ele é o próprio projeto inteligente, ele rege o mundo como matéria e não como espírito e, por isso, não está nem um pouco preocupado com a individualidade de cada um de nós!

Alberto Caeiro é imaginado por Fernando Pessoa como um jovem loiro, de olhos azuis e inocentes, que nasceu em Lisboa em 1889, mas viveu toda sua vida na roça, na companhia de uma velha tia. Morreu tuberculoso, em 1915. Sua formação escolar não passou do curso primário e sua poesia pretende ser como sua vida: simples e instintiva, inspirada pelo contato direto com a natureza, cuja presença ele sente pelo olhar, cheiro e tato. Ele é considerado o “mestre” dos outros heterônimos por ter criado uma nova escola estética, o versolivrismo, livrando a poesia das normas tradicionais e dos esquemas de estrofes, de rimas, de ritmos, de figuras de estilo.

Ele representa a faceta de Fernando Pessoa como poeta da realidade objetiva, que descreve o que vê e sente, sem qualquer elucubração mental, inimigo de todas as filosofias, superando todos “os ismos” de sua época: saudosismo ou futurismo, simbolismo ou decadentismo. Se quisermos atribuir um “ismo” à poética de Alberto Caeiro, o que mais lhe convém é o “Sensacionismo”: a poesia deve descrever, numa linguagem clara, os seres e os objetos assim como são apreendidos pelos sentidos. Pela visão deste heterônimo, Fernando Pessoa parece aceitar os princípios da Fenomenologia, proposta pelo filósofo seu contemporâneo Edmund Husserl, que afirmava a verdade dos seres e dos objetos estar em si mesmos, sendo captada pela experiência que deles temos. Por tal estética, o objeto artístico deve ser visto como algo que está à nossa frente, como um “fenômeno”, algo que aparece a nós, e que pode ser analisado em seus elementos constitutivos, independentemente de sua origem.


Ricardo Reis: a herança clássico-pagã. Pela pseudobiografia, este heterônimo nasceu na cidade do Porto, em 1887, um ano antes de seu criador, Fernando Pessoa, que o define como “latinista por educação alheia” e “semi-helenista por educação própria”. Ele teria estudado num colégio de jesuítas e se formado em medicina. Por cultivar ideais monárquicos, Ricardo não concordou com o regime político dominante em Portugal e, em 1919, emigrou para o Brasil, onde morreu, em 1935, no mesmo ano de Fernando Pessoa.

Embora se considere discípulo de Alberto Caeiro pelo amor à natureza e pela liberdade de espírito, o heterônimo Ricardo Reis não aceita o versolivrismo, achando que a superioridade da poesia sobre a prosa está em submeter a emoção a uma forma rigorosa, seguindo os cânones estéticos dos autores clássicos. Também quanto ao conteúdo, a poesia deve entender e expressar a realidade objetiva assim como é vista e sentida pela generalidade dos homens, e não através de um prisma individual que a deforma. Deste modo, Ricardo Reis retoma os ideais greco-romanos de vida e de arte: a harmonia de formas, o equilíbrio do sentimento, as normas da conveniência e da decência, o desejo da inteligibilidade do homem e do mundo, a busca da felicidade nesta terra. Talvez a leitura de um poema nos ajude a entender a faceta da personalidade de Fernando Pessoa, apresentada pelo heterônimo Ricardo Reis:

Como se cada beijo
Fora de despedida,
Minha Cloe, beijemo-nos, amando,
Talvez que já nos toque
No ombro a mão, que chama
A barca que não vem senão vazia;
E que no mesmo feixe
Ata o que mútuo fomos
E a alheia soma universal da vida


Neste poema, como em outras Odes deste heterônimo, encontramos explorados temas fundamentais da alma humana, presentes especialmente na filosofia do grego Epicuro e na poesia do romano Horácio: a fugacidade do tempo, a imprevisibilidade e a imparcialidade da morte, a inelutabilidade do destino, a efemeridade da juventude e, portanto, o convite a viver o momento presente, o carpe diem. O conteúdo ideológico é expresso por imagens belíssimas: a necessidade de viver intensamente qualquer momento de amor, como se fosse o último, face à inevitabilidade da morte, apresentada como uma mão que bate no ombro, chamando-nos para o barco que faz a travessia para o mundo do desconhecido. Lá, no vale comum, é anulada qualquer individualidade.


Álvaro de Campos: o poeta da era das máquinas. O heterônimo Alberto Caeiro foi imaginado por Fernando Pessoa como um mestre de civilização e a ele foram atribuídos dois discípulos em antítese entre si: o poeta clássico Ricardo Reis, que recorda e exalta a cultura greco-romana, olhando para o passado; e Álvaro de Campos, o poeta do mundo moderno, que olha para frente. Este heterônimo teria nascido em Tavira, em 1890, filho de judeus portugueses. Teria estudado na Universidade de Glasgow, na Escócia, e se formado em engenharia naval. Ele acusa as influências literárias de Walt Whitman, escritor norte-americano considerado escandaloso em sua época, quer pela forma de sua poesia (verso livre e vocabulário de baixo calão), quer pelo conteúdo (exaltação da sensualidade impudica), e de Marinetti, o poeta italiano fundador do Futurismo. Mais do que explicar, prefiro sentir sua poesia pela leitura de alguns trechos da sua Ode Triunfal, onde o poeta lusitano retrata a corrupção dos políticos e manifesta sua simpatia pela massa popular, a “maravilhosa gente humana que vive como os cães”, sempre mantida longe da civilização:

À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos...

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa de um regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!...

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas de mercearias
E cujas filhas aos oito anos – e eu acho isto belo e amo-o! –
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão,
Maravilhosa gente humana que vive como os cães,
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!


Concluindo este leve ensaio sobre a poética de Fernando Pessoa, entendo que o tradutor, o pastor, o médico e o engenheiro, apesar de suas características antitéticas, devem ser considerados como configurações diferentes de um mesmo ser, preocupado em expressar artisticamente os problemas vitais que o afligem: a luta entre o livre- arbítrio e a obediência às normas estéticas e sociais; a constatação do que tudo é ilusão, não existindo valores absolutos; a hipocrisia humana; o pensamento como destruidor da beleza original das coisas; a impraticabilidade da vivência de qualquer ideal, clássico ou moderno. A meu ver, Fernando Pessoa na poesia, como Machado de Assis na prosa, é um grande cético na vida e na arte. Construiu vários modos de ver e de poetar para que se negassem reciprocamente. Mas a grandeza da literatura não está em resolver problemas, mas em questionar o mundo, expressando em forma de arte seus absurdos.

Quero ainda salientar que a descoberta de uma pluralidade dentro da pseudo- unidade da personalidade humana ocorre, a partir do início do séc. XX, não apenas na arte poética, mas também na prosa literária (o romance Ulisses, de James Joyce), no teatro de Pirandello (Seis personagens em busca de um autor), na pintura cubista de Picasso. E tal postura estética é influenciada pela filosofia existencialista de Kierkegaard, pelo intuicionismo de Bergson, pela teoria da relatividade de Einstein. Enfim, estava no ar a nova visão do homem, não mais como ser monolítico, mas plurifacetado. Com efeito, os nomes regidos pelo prefixo grego monos (monarquia, monogamia etc.), correspondente ao latino solus (solitário, único) entraram em declínio, iniciando a época da biodiversidade.