Peregrinaçam/I

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Peregrinaçam por Fernão Mendes Pinto
CAPITVLO I.
Do que paſſey em minha mocidade neſte Reyno ate que me embarquey para a India.


Q

Vando às vezes ponho diante dos olhos os muitos & grãdes trabalhos & infortunios q̃ por mim paſſarão, começados no principio da minha primeira idade, & continuados pella mayor parte, & milhor tẽpo da minha vida, acho q̃ com muita razão me poſſo queixar da vẽtura que parece q̃ tomou por particular tenção & empreza sua perseguirme, & maltratarme, como ſe iſſo lhe ouuera de ſer materia de grande nome, & de grande gloria, porque vejo que não contente de me por na minha patria logo no começo da minha mocidade, em tal eſtado q̃ nela viui ſempre em miſerias, & em pobrezas, & não ſem alguns ſobreſaltos & perigos da vida me quis tambẽ leuar às partes da India, onde em lugar do remedio q̃ eu hia buſcar a ellas, me forão crecendo com a idade os trabalhos, & os perigos. Mas por outra parte quãdo vejo que do meyo de todos eſtes perigos & trabalhos me quis Deos tirar ſempre em ſaluo, & porme em ſeguro, acho que não tenho tanta razão de me queixar por todos os males paſſados, quãta de lhe dar graças por eſte ſó bẽ preſente, pois me quis conſeruar a vida, paraq̃ eu podeſſe fazer eſta rude & toſca eſcritura, que por erança deixo a meus filhos (porq̃ ſó para elles he minha tenção eſcreuella) paraque elles vejão nella eſtes meus trabalhos, & perigos da vida q̃ paſſei no diſcurſo de vinte & hũ ãnos em q̃ fuy treze vezes catiuo, & dezaſſete vendido,nas partes da India, Etiopia, Arabia felix, China, Tartaria, Macaſſar, Samatra, & outras muitas prouincias daquelle oriental arcipelago, dos confins da Aſia, a q̃ os eſcritores Chins, Siames, Gueos, Elequios nomeão nas ſuas geografias por peſtana do mũdo, como ao diante eſpero tratar muito particular, & muito diffuſamente, & daqui por hũa parte tomem os homẽs motiuo de ſe não deſanimarem cos trabalhos da vida para deixarem de fazer o q̃ deuem, porque não ha nenhũs, por grandes que ſejão, com q̃ não poſſa a natureza humana, ajudada do fauor diuino & por outra me ajudem a dar graças ao Senhor omnipotence por vſar comigo

da ſua infinita miſericordia, a peſar de todos meus peccados, porq̃ eu entendo & cõfeſſo que delles me nacerão todos os males q̃ por mim paſſarão, & della as forças, & o animo para os poder paſſar, & eſcapar delles com vida. E tomãdo por principio deſta minha peregrinação o q̃ paſſey neſte Reyno, digo q̃ deſpois que paſſei a vida atê idade de dez ou doze annos na miſeria & eſtreite za da pobre caſa de meu pay na villa de Montemór o velho, hum tio meu, parece que deſejoſo de me encaminhar para milhor fortuna, me trouxe a cidade de Lisboa, & me pos no ſeruiço de hũa ſenhora de geração aſſaz nobre, & de parentes aſſaz illuſtres, parecẽdolhe que pella valia aſsi della como delles poderia auer effeito o q̃ elle pretendia para mim. E iſto era no tempo em q̃ na meſma cidade deLisboa ſe quebrarão os eſcudos pella morte del Rey dom Manoel da glorioſa memoria, que foy em dia de ſanta Luzia treze dias do mes de Dezẽbro do anno de 1521. de q̃ eu ſou bẽ lẽbrado, & doutra couſa mais antigua deſte reyno me não lẽbro. Atenção deſte meu tio não teue o ſuceſſo q̃ elle imaginaua, antes o teue muito differente, porq̃ auendo anno & meyo pouco mais ou menos q̃ eu eſtaua no ſeruiço deſta ſenhora, me ſocedeo hum caſo q̃ me pos a vida em tanto riſco, que para a poder ſaluar me foy forçado ſairme naq̃lla meſma ora de caſa, fugindo cõ a mayor preſſa q̃ pude, & indo eu aſsi tão deſatinado co grande medo q̃ leuaua, q̃ não ſabia por onde hia, como quẽ vira a morte diãte dos olhos, & a cada paſſo cuidaua q̃ a tinha comigo, fuy ter ao cayz da pedra onde achey hũa carauella d’Alfama, q̃ hia com cauallos & fato de hum fidalgo para Setuual, onde naq̃lle tempo eſtaua el Rev dô Ioão o terceiro que ſanta gloria aja cõ toda a corte, por cauſa da peſte q̃ então auia em muytos lugares do Reyno: neſta carauella me embarquei eu, & ella ſe partio logo, & ao outro dia pella manhã ſendo nos tãto auante como Cezimbra nos cometeo hum Frances coſſairo, & abalroando com noſco, nos lãçou dentro quinze ou vinte homẽs, os quais ſem reſiſtencia, nẽ contradição dos noſſos, ſe ſenhorearão do nauio, & deſpois que o deſpojarão de tudo quãto acharão nelle, que valia mais de ſeis mil cruzados, o meterão no fundo, & a dezaſete q̃ eſcapamos cõ vida, atados de pés & de mãos nos meterão no ſeu nauio, cõ fundamento de nos leuarem a vender a Larache, para onde ſe djzja que hião carregados de armas q̃ de veniaga leuauão aos Mouros, & trazendonos cõ eſta determinação mais treze dias, banqueteados cada ora de muitos açoutes, quis ſua boa fortuna que no cabo delles ao pordo ſol,ouuerão viſta de hũa vella, & ſeguindoa aquella noite marcados pella ſua eſteira, como officiaes velhos praticos naquella arte, forão com ella antes do quarto da modorra rendido, & dandolhe tres çurriadas de artilharia a abalroarão muito esforçadamente, & ainda que na defenſaõ ouue da parte dos noſſos algũa reſiſtencia, nem iſſo baſtou para os inimigos deixarem de a entrar, com morte de ſeis Portugueſes, & dez ou doze eſcrauos. Era eſte nauio hũa fermoſa nao de hum mercador de Villa de Conde que ſe chamaua Silueſtre Godinho, que outros mercadores de Lisboa trazião fretada de S. Tome, com muytos açucares, & eſcrauaria, a qual os pobres roubados, que lamentauão ſua deſauentura, punhão em valia de quarenta mil cruzados. Tanto que eſtes colſayros ſe viraõ com preſa tão rica, mudandoo propoſito que antes trazião, ſe fizerão na volta de França, & leuarão comſigo algũs dos noſſos para ſeruiço da mareação da nao que tinhão tomada. E aos outros mandarão hũa noite lançar na praya de Melides, nús, & deſcalços, & algũs cõ muytas chagas dos açoutes q̃ tinhão leuado, os quais deſta maneira forão ao outro dia ter a Santiago de Cacem, no qual lugar todos forão muyto bem prouidos do neceſſario pela gente da terra, & principalmente por hũa Senhora que ahi eſtaua, por nome dona Britiz filha do Conde de Villanoua, & molher de Alonſo Perez Pantoja, Commendador & Alcaide mòr da meſma Villa. E deſpois que os feridos & os doentes forão conualecidos, cada hum ſe foy para onde lhe pareceo que teria o remedio de vida mais certo, & o pobre de my com outros ſeis ou ſete tão deſamparados como eu, fomos ter a Setuuel, onde me cahio em ſorte lãçar mão de mim hum fidalgo do Meſtre de Santiago por nome Franciſco de Faria, ao qual ſerui quatro annos, em ſatisfação dos quais me deu ao meſmo Meſtre de Santiago por ſeu moço da Camara, aquem ſerui hum anno & meyo. E porque a moradia que então era cuſtume darſe nas caſas dos Principes, me não baſtaua para minha ſuſtentação, determiney embarcarme para a lndia, inda que com pouco remedio, ja offerecido a toda ventura ou má ou boa, que me ſoccedeſe.