Peregrinaçam/II

Wikisource, a biblioteca livre
< Peregrinaçam
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Peregrinaçam por Fernão Mendes Pinto
CAP. II. Como deste reyno me party para a India, & do ſucceßo que teue a armada am que fuy.


A

OS onze dias do mès de Março do Anno de mil & quinhentos & trinta & ſete party deſte reyno em hũa armada de cinco naos, em que não foy Capitão mór,ſenão ſomente os Capitaẽs particulares das naos, os quais erão,na nao Raynha,dom Pedro da Silua, que d’alcunha ſe chamaua o Gallo, filho do Conde Almirante dõ Vaſco da Gama,na qual trouxe a oſſada de ſeu pay, que el Rey dõ Ioão que então eſtaua em Lisboa, mandou receber co mòr aparato & pompa funebre que ate oje ſe recebeo nenhũa que não foſſe de Rey: & na nao S. Roque dom Fernando de Lima filho de Diogo Lopez de Lima

Alcaide mòr de Guimaraẽs, que logo no anno ſeguinte de 1538. falleceo em Ormuz ſendo Capitão da fortaleza, & na nao ſanta Barbora, ſeu primo Iorge de Lima, que hia prouido em Capitão de Chaul;& na nao frol de la mar, Lopo Vaz Vogado Capitão ordinario de viagens; & na nao Galega que foy a em que ſe perdeo deſpois Pero Lopez de Souſa; hum Martim de Freitas natural da ilha da Madeyra, qne aquelle anno mataraõ em Damaõ com mais trinta & cinco homẽs que leuaua comſigo. E velejando todas eſtas naos por ſua derrota prouue a noſſo Senhor que chegarão a ſaluamento a Moçambique, onde achamos de inuernada a nao São Miguel de que era Capitão & ſenhorio hum armador que ſe chamaua Duarte Triſtaõ, a qual partindo deſpois para o reyno muyto rica,deſapareceo,ſeni ate oje ſe ſaberem nouas della, como por noſſos peccados a outras algũas tem acontecido neſta carreyra da India. Deſpois de eſtas cinco naos ſerem todas auiadas & preſtes para ſe partirem de Moçambique, o Capitão da fortaleza, que era Vicente Pegado, apreſentou aos Capitaẽs dellas hũa prouiſaõ do Gouernador Nuno da Cunha, em que mandaua que todas as naos que aquelle anno deſte reyno aly foſſem ter, foſſem a Diu, & deixaſſem a gente na fortaleza, pela ſoſpeita que ſe tinha da armada do Turco, porque ſe então eſperaua na lndia, por cauſa da morte do Soltão Bandut Rey de Cambaya,que o Gouernador tinha morto o veraõ paſſado. Eſte negocio foy logo poſto em conſelho, & ſe determinou por todos que as tres naos que eraõ del Rey foſſem a Diu como a prouiſaõ mandaua, & as duas de mercadores foſſem a Goa, por algũs requerimentos & proteſtos de encampaçaõ que ſeus Procuradores ſobre eſte caſo ja tinhão feitos. Partidas as tres naos del Rey para Diu, & as duas de mercadores para Goa, prouue a noſſo Senhor leuallas todas a ſaluamento. E ſurgindo as tres na barra de Diu a cinco de Setembro do meſmo anno de 1538. Antonio da Sylueira irmaõ do Conde de Sortelha Luys da Sylueira, que entaõ ahi eſtaua por Capitão, as feſtejou & recebeo com aſſaz de alegria, gaſtando largamente com todas de ſua fazenda, aſsi em dar de comer a mais de ſetecentos homẽs, como em outras merces de dinheyro & eſmolas que fazia continuamentem. E vendo a gente deſta armada tãta largueza & abaſtança, & que a fora iſto lhe pagauaõ ſoldos & mãtimento, ſe deixou aly ficar quaſi toda por ſua propria vontade, ſem ſer neceſſario para iſſo nenhum rigor nem pena de juſtiça, como ſempre ſe cuſtumou nas fortalezas em que auia ſoſpeita de cerco. As tres naos, deſpois de venderem aly bem ſuas fazendas, ſe foraõ para Goa com ſòs os officiaes dellas, & a gente do mar, onde eſtiuerão mais algũs dias, ate que o Gouernador acabou de as deſpachar para Cochim, & dahi, tomada mada a carga, ſe tornarão todas cinco para o reyno, onde chegaraõ a ſaluamento, leuando tambem conſigo em companhia outra nao noua que ſe fizera na lndia, por nome São Pedro, de que veyo Por Capitão Manoel de Macedo que trouxe o Baſiliſco, a que câ chamaraõ o tiro de Diu, por ſe tomar ahy na morte do Soltão Baudur Rey de Cambaya,com mais outros dous do meſmo teor, os quais foraõ dos quinze que o Rumecaõ Capitão mor da armada do Turco trouxe de Suez no anno de 1534. quando deſte reyno foy dom Pedro de Caſtelbranco nas doze Carauellas do ſocorro que partirão em Nonembro.