Peregrinaçam/III

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Peregrinaçam por Fernão Mendes Pinto
CAP. III. Como de Diu me embarquey para estreito de Meca, & do que paßey nesta viagem.


A

VENDO ſós dezaſſete dias que eu era chegado a eſta ſortaleza de Diu, fazendoſe nella preſtes duas fuſtas para irem ao eſtreyto de Meca, a ſaberem a certeza da armada dos Turcos, de que ja na India auia algum receyo , me embarquey em hũa dellas de que hia por Capitão hum meu amigo, por me elle fazer grandes encarecimentos da ſua amizade naquella viagem, fazendome muyto facil ſayr eu della muyto rico em pouco tempo, que era o que eu então mais pretendia que tudo. Confiado eu neſta promeſſa, & enganado com cſta eſperança, ſem pòr diante dos olhos quão caro muytas vezes iſto cuſta, & quão arriſcada eu então leuaua a vida, aſsi por fer fora de tempo, como pelo que deſpois ſocedeo por peccados meus & de todos os que nella fomos, me embarquey com eſte meu amigo nũa Fuſta que ſe chamaua a Sylueira. Partidas ambas eſtas fuſtas deſta fortaleza de Diu, & nauegando juntas em hũa conſerua com tempo aſſaz forte,na deſpidida do inuerno, com grandes chuueyros, & contra monção, ouuemos viſta das ilhas de Curia, Muria, & Abedalcuria, nas quais eſtiuemos de todo perdidos, ſem nenhũa eſperança de vida; & tornandonos, por não auer outro remedio, na volta do ſudueſte, prouue a noſſo Senhor que ferramos a ponta da ilha Çacotorà, hũa legoa abaixo donde eſteue a noſſa fortaleza que dom Franciſco d’Almeida, primeyro Viſorrey da India fez, quando no anno de 1507. foy deſte reyno, & aly fizemos noſſa agoada,& ouuemos algum refreſco, que por noſſo reſgate compramos aos Chriſtãos da terra, que decendem daquelles que antiguamente o Apoſtolo São Tomè conuerteo nas partes da India, & Choromandel. Deſta ilha nos partimos com fundamento de abocarmos as portas do eſtreito, & em noue dias de tempo bonança nos puſemos na altura de Maſſuaa, onde ao pòr do Sol ouuemos viſta

de hũa vella, a qual ſeguimos com tanta preſſa, que ao quarto da prima rendido chegamos a ella. E querendo nos por via de boa amizade auer falla do Capitão della, pera nos enformarmos delle do que pretendiamos ſaber da armada do Turco, ſe era ja partida de Suez, ou que nouas auia della; a repoſta dos da nao ſoy taõ fora do que eſperauamos, que ſem fallarem palaura nos aſſombrarão com doze pilouros,dos quais os cinco erão de falcoẽs,& roqueyros,& os ſete de berços , a fora muytas arcabuzadas que tambem nos tirarão, como gente que nos naõ tinha em conta. E de quando em quando nos dauão muytas gritas & apupadas, & capeandonos com bandeyras & toucas, nos moſtrauão de cima do chapiteo de popa muytos terçados nùs, eſgrimindo com elles no ar,pera que nos chegaſſemos a elles. Com a primeyra viſta deſtas ſuas fonfarrices ficamos nos algum tanto embaraçados. E praticando os Capitaẽs ambos & os outros companheyros ſobre o que ſe faria neſte caſo, ſe concruyo por parecer dos mais, que os inimigos ſe não foſſem tanto a ſeu ſaluo, mas que ſe trabalhaſſe tudo o poſsiuel pelos irmos gaſtãdo com a artilharia ate que foſſe menham, porque então nos ficaria mais facil & menos perigoſo o abalroalos, o que aſsi ſe fez. E dandolhe caça todo o mais que reſtaua da noite, prouue a noſſo Senhor que ja quaſi menham ella meſma ſe rendeo por ſy com morte de ſeſſenta & quatro homẽs dos oitenta que nella vinhaõ, & os que ficarão viuos quaſi todosſe lançarão ao mar, tendo eſte por milhor partido que morrerem queimados das panellas de poluora que lhe nos lançauamos. Aſsi que de todos os oitenta não eſcaparão mais que ſós cinco muyto feridos, dos quais hum foy o Capitão da nao, o qual metido a tormento confeſſou que vinha de Iudaa donde era natural, & que a armada do Turco era ja partida de Suez, com tencão de vir tomar Adem, & fazer ahy fortaleza primeyro que cometeſſe a India, porque aſsi o trazia o Baxá do Cayro, que nella vinha por Capitão môr, num dos capitolos do ſeu regimento que o Turco lhe mandara de Conſtantinopla. E diſſe tambem outras muytas couſas particulares muyto importantes a noſſo propoſito. E entre algũas que nos diſſe,nos veyo a confeſſar que era Chriſtão renegado, Malhorquy de nação,natural de Cerdenha, filho de hum mercador que ſe chamaua Paulo Andrès, & que não auia mais que ſós quatro annos que ſe tornara Mouro por amor de hũa Grega Moura com que era caſado. Os Capitaẽs ambos lhe cometerão então ſe ſe queria tornar a fè, & fazerſe Chriſtão, a que elle reſpondeo tão duro, & tão fora de toda a rezão, como ſe nacera & ſe criara ſempre naquella maldita ſeita. Os Capitaẽs ambos vendo quão cego & deſatinado eſtaua eſte malauenturado no conhecimento da ſanta & Catholica verdade de que lhe tratauão,auendo ainda tão pouco tempo que fora Chriſtão, como tinha confeſſado, crecendolhe a colera, com hum zelo ſanto da honra de Deos o mandaraõ atar de pès & de maõs, & viuo foy lançado ao mar com hum grande penedo ao peſcoço, donde o diabo o leuou a participar dos tormentos de Mafamede em que taõ crente eſtaua, & a nao com os mais foy metida no fundo, por ſer a fazenda fardos de tintas como cà he o paſtel, que nos não ſeruia então para nada tirando algũas peças de chamalote que os ſoldados tomaraõ para ſe veſtirem.