Peregrinaçam/IV

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Peregrinaçam por Fernão Mendes Pinto
CAP. IV.
Como daquy fomos a Maſſuaa, & dahy por terra â May do Preste Ioaõ, à fortaleza de Gileytor.


D

AQVY deſta paragem nos partimos para Arquico, terra do Preſte Ioaõ, a dar hũa carta que Antonio da Sylueira mandaua a hum Anrique Barboſa feitor ſeu,que là andaua auia tres annos por mandado do Gouernador Nuno da Cunha, o qual com quarenta homens que trazia comſigo eſcapara do aleuantamento de Xael,onde catiuaraõ dom Manoel de Meneſes, com mais cento & ſeſſenta Portugueſes, & tomarão quatrocentos mil cruzados, & ſeis naos Portugueſas, que forão as que Soleymão Baxâ Viſorrey do Cayro leuou cos mantimentos & muniçoẽs da ſua armada, quando no anno de mil,quinhentos & trinta & oito veyo pór cerco á fortaleza de Diu, por lhas o Rey de Xael mandar ao Cayro com ſeſſenta Portugueſes de preſente, & dos mais fez eſmola ao ſeu Mafamede, como cuydo que as hiſtorias que tratão da gouernança de Nuno da Cunha diraõ largamente. Chegando nos a Gotor hũa legoa abaixo do porto de Maſſuaa,fomos todos bem recebidos da gente da terra, & do hum Portuguez que ahy achamos, por nome Vaſco Martins de Seixas natural da villa de Obidos, que por mandado de Anrique Barboſa auia hum mes que aly eſtaua, eſperando por algum nauio de Portugueſes, com hũa carta do meſmo Anrique Barboſa que deu aos Capitaẽs, em que lhe daua as nouas que tinha ſabido dos Turcos, & lhe pidia que em todo caſo ſe foſſem ver alguns Portugueſes com elle , porque importaua muyto ao ſeruiço de Deos & del Rey, & que elle os não podia yr buſcar, porque eſtaua naquella fortaleza de Gileytor em guarda de princeſa de Tigremahom Mãy do Preſte com quarenta Portugueſes que ahy tinha comſigo. Os Capitaẽs ambos puſeraõ eſta yda em conſelho cos mais que para iſſo forão chamados, & ſe aſſentou por parecer de todos que quatro ſoldados

o foſſem ver em companhia do Vaſco Martins, & lhe leuaſſem a carta que Antonio da Sylueira lhe mandaua, o que aſsi ſe fez. E partidos os quatro, dos quais eu fuy hum, logo ao outro dia ſeguinte, caminhamos por terra em boas caualgaduras de mulas que o Taquaxy Capitão da terra nos mandou dar por hũa prouiſaõ da princeſa Mãy do Preſte, que o Vaſco Martins trouxera pera iſſo, com mais ſeis Abexins que nos acompanharaõ. E aquelle meſmo dia fomos dormir a hum Moſteyro de officinas nobres & ricas que ſe dizia Satilgão, & como ao outro dia foy menham, caminhamos ao longo de hum rio mais cinco legoas, atê hum lugar que ſe chamaua Bitonto, no qual nos agaſalhamos aquella noite em hum bom Moſteyto de Religioſos que ſe chamaua São Miguel, com muyta feſta & gaſalhado do Prior & Sacerdotes que nelle eſtauão, onde nos veyo ver hum filho do Barnagais Gouernador deſte imperio de Ethyopia, moço de idade de dezaſſete annos, & muyto bem deſpoſto, acompanhado de trinta de mulas,& elle ſomente vinha em hum cauallo ajaezado à Portugueſa, com hum arreyo de veludo roxo franjado douro, que da India lhe mandara o Gouernador Nuno da Cunha auia dous annos, por hum Lopo Chanoca, que deſpois foy catiuo no Cayro,ao qual eſte Principe mandaua reſgatar por hum mercador Iudeu natural de Azebibe, porem quãdo eſte là chegou, o achou ja morto,de que dizem que moſtrou muyto ſentimento, & nos affirmou o Vaſco Martins, que aly naquelle Moſteyro de São Miguel lhe mandara fazer o mais honrado ſaymento que elle nunca vira em ſua vida,no qual ſe ajuntarão quatro mil Sacerdotes, a fora outra mor copia de nouiços aque elles chamão Santileus. E ſabendo que fora caſado em Goa, & que tinha tres filhas moças pequenas, & muyto pobres, lhes mandara de eſmolla trezentas oqueas douro, que da noſſa moeda tem cada oquea doze cruzados. Ao outro dia nos partimos deſte Moſteyro em boas caualgaduras que eſte Principe nos mandou dar, com quatro homens ſeus que nos acompanhaſſem, os quais nos foraõ agaſalhando por todo o caminho eſplendidiſſimamente, & fomos dormir a hũas caſas grandes que ſe dizião Betenigus, que quer dizer caſas de Rey, cercadas em diſtancia de mais de tres legoas de aruoredo muyto alto de acipreſtes,& cedros & palmeyras de datiles & cocos como na India. E continuando daquy por noſſas jornadas de cinco legoas por dia por campinas de trigo muyto grandes & muyto fermoſas,& chegamos a hũa ſerra que ſe dizia Vangaleu, pouoada de Iudeus, gente branca, & bem proporcionada, mas muyto pobre, ſegundo o que nos pareceo della. E dahy a dous dias & meyo chegamos a hũa boa pouoação que ſe chamaua Fumbau, duas legoas da fortaleza de Gileytor, onde achamos Anrique Barboſa cos quarenta Portugueſes, os quais nos receberaõ com muyta alegtia, acompanhada de grande copia de lagrimas, porque ainda que ( como nos elles diziaõ) aly eſtiueſſem muyto à ſua vontade, ſendo em tudo ſenhores abſolutos de toda a terra, com tudo ſe não auião por ſatisfeitos nella, por ſer aquillo deſterro, & não patria ſua. E porque ja ao tempo que aquy chegamos era muyto noite,não pareceo a Anrique Barboſa ſaber a Princeſa da noſſa chegada. E ao outro dia pela menham que era hum Domingo quatro dias de Outubro nos fomos com elle & cos quarenta Portugueſes ao apoſento onde a Princeſa viuia, a qual tanto que ſoube que eramos chegados, nos mandou entrar na capella onde ja então eſtaua para ouuir Miſſa, & pondonos em joelhos diante della, lhe beijamos o auano que tinha na mão, com mais outras cerimonias de corteſia ao ſeu vſo que os Portugueſes nos tinhão inſinado. Ella nos recebeo com muyta alegria, & nos diſſe: a vinda de voſoutros, verdadeyros Chriſtaõs, he ante mym agora taõ agradauel, & foy ſempre tão deſejada, & o he todas as horas deſtes meus olhos que tenho no roſto, como o freſco jardim deſeja o borrifo da noite, venhais embora, venhais embora, & ſeja em tão boa hora a voſſa entrada neſta minha caſa, como a da Raynha Ilena na terra ſanta de Ieruſalem. E mandandonos aſſentar em hũas eſteyras, quatro ou cinco paſſos afaſtados de ſy, nos enſteue perguntando com aboca cheya de riſo, por algũas couſas nouas & curioſas, a que dizião que ſempre fora muyto inclinada, pelo Papa, como ſe chamaua, quantos Reys auia na Chriſtandade, ſe fora ja algum de nos à cala Santa, & porque ſe deſcuydauão tãto os Principes Chriſtaõs na deſtruyção do Turco, & o poder que el Rey de Portugal tinha na lndia ſe era grande, & quantas fortalezas auia nella, & em que terras eſtauão, & outras muytas couſas deſta maneyra. E das reſpoſtas que os noſſos lhe dauão moſtraua ficar ſatisfeita. E com iſto nos deſpidimos della, & nos recolhemos ao noſſo apoſento. E deſpois de auer ja noue dias que aquy eſtauamos, nos fomos deſpidir della, & beijandolhe a mão nos diſſe: certo que me peſa de vos yrdes tão cedo, mas ja que he forçado ſer aſsi, ydeuos muyto embora, & seja em tão boa hora a voſſa tornada à India,que quando là chegardes vos recebão os voſſos como o antigo Salamão recebeo a noſſa Raynha Sabaa na caſa admirauel de ſua grandeza. A todos quatro nos mandou dar vinte oqueaas douro, que ſaõ duzentos & quarẽta cruzados,& mãdou tambem hum Naique com vinte Abexins que nos veyo guardando dos ladrões,& prouendonos de mãtimeto & caualgaduras ate o porto de Arquico onde as noſſas Fuſtas eſtauão , & o Vaſco Martins de Seixas trouxe hum preſente rico de muytas peças de ouro para o Gouernador da India, o qual ſe perdeo no caminho,como logo ſe dirá.