Peregrinaçam/V

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Peregrinaçam por Fernão Mendes Pinto
CAP. V. Como nos partimos do porto de Arquico, & do que nos ſoccedeo cõ tres vellas de Turcos que topamos.


T

ORNADOS nos ao porto de Arquico onde achamos os noſſos companheiros, deſpois de eſtarmos aly mais noue dias acabando de eſpalmaras ſuſtas,& prouellas do neceſſario, nos partimos hũa quarta feira ſeys dias do mes de Nouembro do anno de 1537. E leuamos com noſco o Vaſco Martins de Seixas co preſente & carta q̃ a Mãy do Preſte Ioão mandaua ao Gouernador, & leuamos tambem hum Biſpo Abexim, que vinha para vir a eſte reyno, & daquy yr a Santiago de Galiza, & a Roma, & dahy a Veneza, para dahy ſe paſſar a Ieruſalem. E vellejando deſde hũa hora ante menham, que ſaymos do porto, fomos com ventos bonanças ao longo da coſta ate quaſi a veſpora, & ſendo ja tanto auante como a ponta de Gocão, antes de chegarmos ao ilheo do arrecife, vimos tres vellas ſurtas, & parecendonos q̃ ſerião geluas,ou tarradas da outra coſta, fomos guinando a ellas a vella,& a remo,porque ja neſte tempo o vento nos hia acalmando, & cõ tudo porfiamos tanto neſta ida,que em eſpaço de quaſi duas horas nos chegamos tão perto dellas que lhe enxergamos toda a apellacão dos remos, & conhecemos que eraõ galeotas de Turcos, pelo qual nos tornamos a fazer na volta da terra com a mòr preſſa q̃ pudemos, como quẽ deſejaua de fugir do perigo em que ja eſtaua metido. Os Turcos entendendo, ou ſoſpeitando noſſa determinação, deraõ hũa grande grita, & em menos de hum credo ſe fizerao todos à vella, & bordejando por noſſa eſteyra com as vellas quarteadas de cores,& muytas bandeyras dc ſeda; como o vento lhes ficaua mais largo, forão logo ſenhores do balrauento, com que ſem nenhum trabalho vieraõ arribando ſobre nos, & tanto que foraõ a tiro de berço,deſpararaõ em nos toda ſua artilharia, & nos mataraõ logo noue homẽs & feriraõ vinte & ſeis, & ficando cõ iſto as noſſas fuſtas de todo mancas, porq̃? a mais eſquipacão ſe lançou toda ao mar, os Turcos ſe chegaraõ tanto a nos q̃? das ſuas popas nos ferião a bote de lança.Dos noſſos a eſte tẽpo inda auia quarẽta & dous q̃ podiaõ pelejar,eſtes vẽdo q̃ ſó no ſeu braço eſtaua a ſua ſaluaçaõ,cõ tanto impeto & esforço cometeraõ a Capitaina das tres, em q̃ vinha Soleymão Dragur, Capitão mor da frota, q̃ a axoraraõ logo toda de popa a proa, cõ morte de vinte & ſete laniçaros, porem acudindolhe

então as outras duas, que eſtauão mais afaſtadas hum pouco atras, lhe lançaraõ dentro quarenta Turcos, com o qual ſocorro os noſſos ficaraõ de todo rendidos, & de tal maneyra foraõ tratados, que do numero dos cinquenta & quatro que erão por todos, ſós onze ficaraõ com vida, dos quais ao outro dia falleceraõ dous, que os Turcos fizeraõ em quartos, & para triũfo os leuarão pindurados nas pontas das vergas ate a cidade de Mocaa, cujo Capitão era ſogro deſte Soleymão Dragut q̃ nos tomara; & ao tempo que aly chegamos, eſtaua ja na praya cõ todo o pouo para receber o genro, & darlhe os parabẽs da vic‍toria, & tinha conſigo hum Caciz ſeu Moulana que elles tinhão por ſanto, por auer poucos dias que viera da caſa do ſeu Mafoma, o qual em hum carro toldado de ſeda com grandes bençoẽs & celàs prouocaua os ouuintes a darem muytos louuores a Mafamede pela vic‍ttoria que dera contra nos aquelle Turco. Aly deſembarcamos os noue que ficamos viuos, todos preſos em hũa corrente, & cõ noſco tambẽ o Biſpo Abexim, o qual hia tão ferido que ao outro dia falleceo com moſtras de muyto bom Chriſtão, o q̃ a todos nos animou, & nos conſolou muyto. A gente do pouo vendonos vir aſsi preſos, & conhecendo q̃ eramos os Chriſtaõs catiuos, foraõ tãtas as bofetadas q̃ nos deraõ q̃ em verdade afirmo q̃ nunca cuidey q̃ eſcapaſſemos daly cõ vida, porq auião, pelo q o Caciz dizia, que ganhauão indulgencia plenaria em nos vituperarem & maltratarem. Deſta maneyra fomos leuados por toda a cidade a modo de triunfo, com grandes gritas & tangeres, onde ate as molheres encerradas, & os moços & mininos nos lançauão das genellas muytas panellas de outina por vituperio & deſprezo do nome Chriſtão. E ja quaſi Sol poſto nos meteraõ em hũa mazmorra que eſtaua debaixo do chaõ, na qual eſtiuemos dezaſſete dias cõ aſſaz de deſauentura & de trabalho, ſem em todos elles nos darem mais que hũa pouca de farinha de ceuada para todo o dia, & algũas vezes graõs crùs molhados em agoa ſem mais outra couſa nenhũa.