Peregrinaçam/VI

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Peregrinaçam por Fernão Mendes Pinto
CAP. VI. De hum motim que ouue nesta cidade: & da causa; & do ſucceſſo delle, & porque via eu fuy daqui leuado pera Ormuz.


C

Omo os mais dos miſeraueis de nos vinhamos maltratados das feridas, que eraõ grandes & perigoſas, ajuntandoſe a iſto a deshumanidade cõ que naquella triſte priſaõ fomos tratados, quando veyo ao outro dia pela menham, dous do conto dos noue amanheceraõ mortos , hum por nome Nuno Delgado, & outro Andre Borges, ambos de boa geração & homẽs esforçados, porque como eſtes ambos vinhaõ feridos
nas cabeças das feridas penetrãtes, & aly não tiuerão beneficio de cura, ou de outro remedio algum, iſſo foy cauſa de elles acabarem tão depreſſa. O Mocadão da mazmorra que era o carcereyro daquella priſaõ, tanto que os vio mortos deu logo rebate diſſo ao Guazil da juſtiça, que entre elles he como Corregedor entre nos, o qual veyo em peſſoa acompanhado de muytos miniſtros de juſtiça com hũ grande & temeroſo fauſto, & lhes mandou tirar os grilhoẽs & as algemas cõ q̃ ambos eſtauaõ preſos, & mandandoos atar com cada hum ſua corda pelos pès, os tiraraõ fora a raſto, & aſsi foraõ leuados por toda a cidade, com grande ſoma de moços q̃ os hiaõ apedrejando, ate os lançarem no mar. Ao outro dia a tarde os ſete que ficamos viuos fomos poſtos em leilaõ em hũa praça, onde todo o pouo da cidade eſtaua jũto, & o primeiro que o porteyro tomou pela maõ para fazer ſeu officio, foy o pobre de mym, & começando a dar o primeyro pregão, o Caciz Moulana q̃ ja ahy era chegado cõ mais outros dez ou doze ſeus inferiores tambẽ Cacizes da maldita feita, requereo ao Heredim Soſo Capitão da cidade, q̃ nos mandaſſe de eſmola a caſa de Meca para onde elle eſtaua de caminho, paraq̃ em nome daquelle pouo fizeſſe aquella romaria, porq̃ naõ era razão, nem taõ pouco honra do meſmo Capitaõ, mandar veſitar o corpo do Profeta Noby com as maõs vazias, & ſem leuar couſa em q̃ o Rajaa Dato Moulana mayor da cidade de Medina pudeſie pòr os olhos, porq̃ o não quereria ver nem concederlhe perdaõ nenhũ q̃ lhe elle pidiſſe para os moradores daquella cidade q̃ taõ neceſſitados eſtauaõ dos fauores de Deos por ſeus peccados: a q̃ o Capitaõ reſpondeo q̃ não tinha poder naquella preſa para diſpenſar nella tão largo como lhe elle pidia, mas q̃ fallaſſe elle ao Soleymão Dragut ſeu genro, porq̃ elle o faria de muyto boa võtade. O Caciz lhe replicou dizẽdo, q̃ as couſas de Deos, & das eſmollas pedidas em ſeu nome, naõ auiaõ de ſer joeyradas por tantas maõs como elle dizia, ſenão ſomente pelas daquelles a quem ſe pediſſem. E que pois elle sò era Capitaõ daquella cidade, & daquelle pouo que aly eſtaua junto, que a elle só pertencia condecender em petitorio taõ juſto & tão ſanto, & taõ agradauel ao Profeta Noby Mafamede, pois elle so fora o que dera a vitoria daquella preſa a ſeu genro, & não o esforço dos ſeus ſoldados como elle dizia. O que ouuindo hum Ianicaro Capitão de hũa das tres Galeotas, homẽ honrado, & de muyto ſer & valia entre elles, por nome Coja Geinal, lhe reſpondeo quaſi menencorio do que lhe tinha ouuido em deſprezo ſeu, & dos mais que foraõ na noſſa tomada: mas quanto milhor vos fora para ſaluaçaõ da voſſa alma partirdes cos pobres ſol‐ dados do voſſo que vos ſobeja, que cõ palauras de hypocreſia quererdeslhe roubar o ſeu, como tendes por officio fazer continuamente, & ſe
quereis não leuar as mãos vazias como dizeis, para por voſſo intereſſe peitardes os cacizes de Meca, ſeja co patrimonio que voſſo pay vos deixou, & não cos catiuos que cuſtarão muytas vidas dos que ja eſtaõ enterrados, & a nos os que eſtamos viuos muyto infindo ſangue; de que vos eu não vejo a voſſa cabaya tão tinta, como me vos podeis ver a minha, & as deſtes pobres ſoldados que eſtão preſentes. A qual repoſta dada tão liuremente por eſte Capitão em ſauor dos ſoldados, o Moulana Caciz tomou tão mal, & fallou tão ſoberbo, & com hũas palauras tão mal concertadas. que afrontado o Capitaõ Geinal dellas, & os mais ſoldados Turcos & Mouros que eſtauão â roda, hũs & os outros fizerão hũa taõ grande vnião com a gente do pouo que o Moulana tinha por ſy, & com cuja afouteza fallaua tão ſolto, que durou todo aquelle eſpaço que reſtaua do dia ſem ſe poder pacificar, nem o Heredim Sofo Capitão da cidade ſer poderoſo para iſſo, de maneira que por cuitar prolixidade, & não me deter nas particularidades deſte caſo, que ſerião muyto largas de contar; deſta vnião ſe veyo a trauar antre elles hũa briga taõ alpera, & tão aceſa; que veyo a parar em mais de ſeiſcentos mortos de ambas as partes, & em fer ſaqueada mais de meya cidade, & roubada a caſa do Moulana, & elle feito em quartos, & lançado no mar com ſete molheres ſuas, & noue ſilhos, & toda a mais gente da ſua familia que os ſoldados tomaraõ naquelle fragante, ſem a nenhum quererem dar a vida. E nos os ſete Portugueſes que a eſte tempo, como ja diſſe, eſtauamos na praça para nos venderem em leylão, tomamos por remedio mais certo de noſſa ſaluação tornarmonos a meter na mazmorra, ſem que miniſtro algum de juſtiça, ou outra peſſoa nos leuaſſe, ou foſſe com noſco, ouuemos que em o Mocadão carcereyro della nos meter das portas a dentro, nos não ſazia pequena merce. Eſta tão aſpera & taõ perigoſa reuolra ſe veyo em fim a pór em paz pelo meyo & authoridade do Soleymão Dragut Capitaõ das Galeotas, o qual quiz tomar eſte negocio a feu cargo, porque o Heredim Sofo ſeu ſogro, & Capitão da cidade eſtaua a eſte tempo na cama maltratado de hum braço que lhe cortaraõ na briga, & daly a treze dias em que a couſa acabou de eſtar de todo quieta, nos puſeraõ outra vez em leilão com toda a mais preſa, aſsi de fato como de artilharia que ſe tomou nas fuſtas, de que por então ſe fez bom barato. E ao pobre de mim quiça como menos ditoſo coube em ſorte comprarme hum Grego renegado, de que eu arrenegarey em quanto viuer, porque me tratou de maneyra em ſôs tres meſes que fuy ſeu catiuo, que por ſete ou oito vezes eſtiue tentado para me matar com peçonha ( ſe noſſo Senhor me naõ fizera merce de me ter da ſua mão) para lhe fazer perder o que por mym tinha dado,

porque era o mais deshumano, & cruel inimigo que nunca ſe vio no mudo. No cabo dos tres meſes prouue a noſſo Senhor que receoſo elle q̃? por ſer inſofriuel perdeſſ?e o que dera por mim, como algũs ſeus vizinhos lhe tinhão ja dito, me vendeo a troco de tamaras por preço de doze mil reis a hum Iudeu por nome Abrão Muça, natural da cidade do Toro, duas legoas & meya do monte Sinay, o qual em hũa Cafila de mercadores que partio de Babylonia para Cayxem me leuou a Ormuz, & me apreſentou a dom Fernando de Lima que então ahi eſtaua por Capitão da fortaleza, & ao Doutor Pero Fernandez Ouuidor geral da lndia, que de poucos dias ahi era vindo por mandado do Gouernador Nuno da Cunha a ſazer algũas couſas de ſcruiço del Rey, & elles ambos por eſmolas que tirarão pola terra, & polo que tambem derão de ſuas caſas, ajuntarão duzentos pardaos, que derão por mim ao Iudeu; com que ſe elle ouue por muyto bem pago.