Peregrinaçam/IX

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Peregrinaçam por Fernão Mendes Pinto
CAP. IX. Do que Gonçallo Vaz Coutinho paßou com a Raynha de Onor.


D

ESPOIS que a armada foy ſurta, & ſe fez no porto a ſalua q̃ diſſe, o Capitão Gonçallo Vaz Coutinho mandou logo à Raynha hũa carta que lhe leuaua do Viſorrey, por hum Bento Caſtanho homem diſcreto, & bem criado, pelo qual lhe mandou dizer o paraque aly era vindo, & que pois ſua alteza era amiga del Rey de Portugal, & tinha com elle pazes & amizade auia tanto tempo, que como recolhia no ſeu porto Turcos, que eraõ noſſos capitais inimigos? ao que ella reſpondeo, que ſua merce foſſe muyto bem vindo com toda a ſua companhia, que quãto ao que lhe mãdaua dizer das pazes que tinha com el Rey de Portugal, & cos ſeus Gouernadores, era muyta verdade, & aſsi as teria em quanto viueſſe, porem quanto aos Turcos em que lhe apontaua, que ſó Deos, a quẽ ella tomaua por Iuiz neſte caſo, ſabia quanto contra ſeu goſto elles aly eraõ vindos, & que pois ſua merce trazia forças para os poder lançar fora, o fizeſſe, que ella lhe daria para iſſo todo o fauor quanto lhe foſſe poſsiuel, que para mais bem ſabia elle que não era ella poderoſa, nem ſe atreuia a pelejar com tamanha força, & que lhe juraua pelas alparcas douradas do ſeu pagode, que tanto folgaria com a victoria que Deos lhe deſſe contra elles, como que o Rey de Narſinga, cuja eſcraua ella era, a aſſentaſſe a meſa com ſua molher. Ouuindo Gonçalo Vaz a efficacia deſte recado, & os comprimentos que a Raynha lhe fazia, inda que iſto era menos do que elle eſperara della, todauia o diſsimulou com prudencia, & informandoſe da gente da terra do que os Turcos determinauão, onde eſtauão, & o que fazião, deſpois de cõſultado o negocio, & tratada muyto deuagar a importãcia delle, em fim ſe aſſentou por parecer de todos os q̃ ſe niſſo acharão, q̃ por honra daquella bãdeyra del Rey noſſo Senhor, a Galè ſe cometeſſe, a ver ſe ſe podia tomar, & quãdo não

ſe trabalhaſſe todo o poſsiuel por ſe queimar, porque Deos noſſo Senhor por quem pelejauamos, nos ajudaria contra aquelles inimigos da ſua ſanta Fè. Aſſentado iſto aſsi & jurado, & feito diſto hum aſſento em que os mais aſsinaraõ, o Capitão mòr ſe leuou mais para dentro do rio, diſtancia de dous tiros de falcão, & antes que ſurgiſſe chegou â ſua fuſta hũa almadia de terra, na qual vinha hum Bramene que falaua muvto bẽ Portuguez, o qual deu ao Capitão mòr hum recado da Raynha em que lhe mandaua pedir muyto, & requeria da parte do ſenhor Viſorrey, que por nenhum caſo elle pelejalſe cos Turcos, porque tinha ſabido por eſpias q̃ ſobre iſſo trazia, que eſtauão muyto fortes em hũa tranqueyra junto da foſſa em q̃ tiuhaõ metida a ſua Galè, pelo que lhe parecia que auia myſter muyto mór poder que o que trouxera para tamanho feito, & que a Deos tomaua por teſtemunha da grãde dór & ſentimento que tinha pelo receyo em que eſtaua de lhe acõtecer algum deſaſtre. A que o Capitão mór reſpondeo cõ palauras prudentes & de corteſia, dizendo que beijaua as mãos a ſua alteza por tamanha merce, & taõ bom conſelho, mas que quanto a cometer os Turcos, por nenhum caſo deixaria de fazer, porque não era cuſtume de Portugueſes deixarem de pelejar por medo dos inimigos ſerem muytos nem poucos, porque quãtos mais foſſem, tanto mayor ſeria a ſua perda delles, & com eſta reſpoſta foy o Bramene deſpidido, a quem o Capitão mòr deu hũa peça de chamallote verde & hum chapeo forrado de citim crameſim, com que foy muyto contente.