Peregrinaçam/VIII

Wikisource, a biblioteca livre
< Peregrinaçam
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Peregrinaçam por Fernão Mendes Pinto
CAP. VIII. Do que nos ſoccedeu na viagem de Chaul para Goa, & do que eu paſſey depois que cheguey a ella.


L

Ogo ao outro dia nos partimos daquy de Chaul na volta de Goa, & ſendo quaſi tanto auante como o rio de Carapatão, encontramos Fernão de Morais Capitão de tres fuſtas, que por mandado do Viſorrey dõ Garcia de Noronha, que então chegara do reyno, hia para Dabul a ver ſe podia tomar ou queimar hũa nao de Turcos que eſtaua ahy no porto

carregando de mantimentos por mãdado do Baxà. O qual Fernão de Morais tanto que conheceo a noſſa nao, requereo ao Capitão della que de vinte homẽs que leuaua comſigo lhe deſſe os quinze, por quãto vinha muyto falto de gẽte pela muyta preſſa com que o Viſorrey o mãdara embarcar, por aſsi ſer neceſſario ao ſeruiço de Deos & de ſua alteza. E deſpois de auer ſobre iſto muytos deſgoſtos de ambas as partes, de q̃ não trato por encurtar rezoẽs, em fim ſe vieraõ a concertar que o Capitão da noſſa nao lhe deſſe doze homẽs dos quinze que Fernão de Morais lhe pidia, de que elle ficou ſatisfeito, & deſtes fuy eu tambem hum, por ſer ſempre o mais engeitado, & com iſto ficarão ambos auindos. Partida a nao para Goa, Fernão de Morais com as ſuas tres fuſtas ſeguio ſua viagem na volta do porto de Dabul, onde chegou ao outro dia às noue horas, & tomando nelle hum paguel de Malalauares, que no meyo da angra eſtaua ſurto, carregado de algodão, & de pimenta, pós logo a tormento o Capitão & o piloto delle, os quais confeſſaraõ que os dias atras viera aly ter hũa nao do Baxà a buſcar mantimentos, & trouxera hum Embaixador que leuaua hũa cabaya muyto rica para o Hidalcão, a qual elle não quiſera aceitar, por não ficar vaſſallo do Turco, viſto não ſer cuſtume entre os Mouros mandarenſe eſtas cabayas, fenão do ſenhor ao vaſſallo, pola qual deſauença a nao ſe tornara ſem mantimẽtos, nem outra couſa algũa. E que o Hidalcão reſpõdera por palaura aos offerecimentos que o Baxà lhe mandara fazer em nome do Turco, que antes queria a amizade del Rey de Portugal, com lhe ter tomada Goa, que a ſua, com lhe prometer a reſtituição della: & que ſós dous dias auia que a nao era partida, & que o Capitão della que ſe chamaua Cide Ale, deixara apregoada guerra co Hidalcão, jurando que como a fortaleza de Diu foſſe tomada (o qual não tardaria oito dias, ſegũdo o eſtado em que ja ficaua poſta) o Hidalcaõ perderia o reyno & a vida, & então conheceria quão pouco lhe podiam aproueitar os Portugueſes, Fernão de Morais vendo que ja não tinha aly que fazer, ſe tornou para Goa, a dar conta ao Viſorrey do que paſſaua, onde chegou daly a dous dias, & achamos nella ſurto Gonçallo Vaz Coutinho, que cõ cinco fuſtas hia para Onor, a pedir à Raynha da terra hũa Galè das da armada do Soleymão, que com tempo eſgarraõ aly fora ter. E porque hum dos Capitaẽs deſtas ſuſtas era muyto meu amigo, & me via vir tão desbaratado, deſejando de me poder ajudar em algũa couſa, me cometeo que me embarcaſſe com elle, & que me faria aly logo pagar cinco cruzados, o que eu aceitey de boa vontade, parecendome tambem que la me poderia Deos abrir algum caminho com que me proueſſe de outra milhor capa que a que então trazia, ja q̃ de meu não tinha mais que o que pretendia alcançar por minhas mãos. E acudindome então os ſoldados da fuſta com alguns petrechos neceſſarios, de que eu vinha falto, fiquey feito aſsi de pedaços como qualquer dos ourros meus companhevros que hião na armada, tão neceſsitados como eu. Ao outro dia pela menham, que foy humSabbado, partimos da barra de Bardees, & à ſegunda feyta ſeguinte ſurgimos no porto de Onor, com grande eſtrondo de artilharia, & as vergas ao modo de guerra em torno de elpada, & grande vozaria de pifaros & tambores, para que a gente da terra neſtas moſtras exteriores lhe pareceſſe que não tinhamos nos os Turcos em conta.