Peregrinaçam/XIX

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Peregrinaçam por Fernão Mendes Pinto
CAP. XIX. Do que paßey atè chegar ao reyno de Quedâ, na costa da terra firme de Malaca, & do que ahy me aconteceo.


A
O outro dia ſeguinte pela menham nos partimos deſte ilheo de Fingau, & corremos a coſta do mar Oceano em diſtancia de vinte & ſeis legoas, até abocar o eſtreito de Minhagaruu, por onde tinhamos entrado, & paſſados ã contracoſta deſtoutro mar mediterraneo , ſeguimos noſſa derrota ao longo della atè junto de Pullo Bugay, donde atraueſſamos a terra firme, & aferrando o porto de Iunçalão, corremos com ventos bonanças dous dias & meyo, & fomos ſurgir no rio de Parlès do reyno de Quedà, no qual eſtiuemos cinco dias ſurtos, por nos não ſeruir o vento, & nelles o Mouro & eu, por cõſelho de algũs mercadores da terra fomos ver o Rey, cõ hũa odià ou preſẽte

(como lhe nos cà chamamos) de algũas peças ſufficientes a noſſo propoſito, o qual nos recebeo com moſtras de bom gaſalhado. Neſte tempo que aquy chegamos eſtaua el Rey celebrando com grande aparato & põpa funebre de tangeres, bailos, gritas, & de muytos pobres a que daua de comer, as exequias da morte de ſeu pay, q̃ elle matara âs punhaladas para ſe caſar com ſua mãy, q̃ eſtaua ja prenhe delle, & por cuitar as murmuraçoẽs que ſobre eſte horrẽdo & nefandiſsimo caſo auia no pouo, mandou lançar pregaõ, q̃ ſo pena de grauiſsimas mortes ninguem falaſſe no que ja era feito, por rezão do qual, nos diſſeraõ ahy, que por outro nouo modo de tirannia tinha ja mortos os principaes ſenhores do reyno, & outra grande ſoma de mercadores, cujas fazendas mandou que foſſem tomadas para o fiſco, o que lhe importou mais de dous contos douro, & cõ iſto era ja neſte tempo que aquy cheguey, tamanho o medo em todo o pouo, q̃ não auia peſſoa q̃ ouſaſſe ſoltar palaura pela boca. E porque eſte Mouro Coja Ale q̃ vinha comigo, era de ſua natureza ſolto da lingoa, & muyto atreuido em falar o que lhe vinha à vontade, parecendolhe q̃ por ſer eſtrangeyro, & eom nome de feitor do Capitão de Malaca, poderia ter mais liberdade para iſto q̃ os naturais, & q̃ o Rey lho não acoimaria a elle como fazia aos ſeus, ſendo hum dia conuidado doutro Mouro que ſe daua por ſeu parẽte, mercador eſtrãgeyro natural de Patane, parece ſer ſegundo me deſpois contaraõ que eſtando elles no meyo do banquete, ja bem fartos, vieraõ os conuidados a falar neſte feito tão publicamente, que ao Rey, pelas muytas eſcutas q̃ niſſo trazia, lhe deraõ logo rebate, o qual ſabendo o que paſſaua, mandou cercar a caſa dos conuidados, & tomandoos a todos, que eraõ dezaſlete, lhos tronxeraõ atados. Elle em os vendo, ſem lhes guardar mais ordem de juſtiça, nem os querer ouuir de ſua boa ou mà razão, os mandou matar a todos com hũa morte crueliſsima, a que elles chamão de gregoge, que foy, ſerrarennos viuos pelos pees, & pelas maõs, & pelos peſcoços, & por derradeyro pelos peitos atè o fio do lombo, como os eu vy deſpois a todos. E temendo ſe el Rey que pudeſſe o Capitão tomar mal mandarlhe elle matar o ſeu feitor na volta dos condenados, & que por iſſo lhe mãndaſſe lançar mão por algũa fazenda ſua que là tinha em Malaca, me mandou logo naquella noite ſeguinte chamar ao lurupango onde então eſtaua dormindo, ſem atè aquella hora eu ſaber algũa couſa do que paſſaua. E chegando eu ja deſpois da meya noite ao primeyro terreyro das caſas, vy nelle muyta gente armada com treçados, & cofos, & lanças, a qual viſta ſendo para mym couſa aſſaz noua, me pòs em muyto grande confuſaõ, & ſoſpeitando eu que poderia ſer algũa traição das que ja em outros tempos neſta terra ouue, me quiſera logo tornar, o que os que me leuauão não conſentirão dizendo, q̃ não ouueſſe medo de couſa que viſſe, porque aquillo era gente que el Rey mandaua para fora a prender hum ladraõ, da qual repoſta confeſſo que não fiquey ſatisfeito, & começãdo eu ja neſte tempo a tartamelear, ſem poder quafi pronunciar palaura que ſe me entẽdeſfe, lhes pidi aſsi como pude, q̃ me deixaſſem tornar ao Iurupãgo em buſca de hũas chaues que me là ficaraõ por eſquecimẽto, & q̃ lhes daria por iſſo quarẽta cruzados logo em ouro, a q̃ elles todos ſete reſpõderaõ, nem q̃ nos dès quanto dinheyro ha em Malaca, porq̃ ſe tal fizermos, nos mandara el Rey cortar as cabeças. Neſte tempo me cercaraõ ja outros quinze ou vinte daquelles armados, & me tiueraõ todos fechado no meyo: até q̃ a menham começou a eſclarecer, que fizeraõ ſaber a el Rey q̃ eſtaua eu aly, oqual me mãdou logo entrar, & ſó Deos ſabe como o pobre de mim então hia, que era mais morto que viuo. E chegando ao outro terreyro de dentro, o achey encima de hũ Alifante, aeompanhado de mais de cem homẽs, a fora a gente da guarda, que era em muyto mor quãtidade, o qual quãdo me vio da maneyra que vinha, me diſſe por duas vezes, jangão tacor, não ajas medo, vem para cà, & ſaberàs o para que te mandey chamar, & acenando com a mão fez afaſtar dez ou doze daquelles que aly eſtauão, & a mym me acenou que olhaſſe para aly, eu então olhando para onde elle me acenaua, vy jazer de bruços no chão muytos corpos mortos, todos metidos num charco de ſangue, hum dos quais conheci que era o Mouro Coja Ale feitor do Capitão q̃ eu trouxera comigo, da qual viſta fiquey tão paſmado & confuſo, q̃ como homem deſatinado me arremeſſey aos pès do aliſante em q̃ el Rey eſtaua, & lhe diſſe chorando, peçote ſenhor q̃ antes me tomes por teu catiuo, que mandareſme matar como a eſſes que ahy jazem, porque te juro a ley de Chriſtão q̃ o não mereço, & lembrote que ſou ſobrinho do Capitão de Malaca, que te darà por mim quanto dinheyro quiſeres, & ahy tẽs o jurupango com muyta fazenda, quc tambẽ podes tomar ſe fores ſeruido; a q̃ elle reſpondeo, valhame Deos, como? taõ mao homẽ ſou eu q̃ iſſo faça? não ajas medo ele couſa nenhũa, aſſentate & deſcanſaràs, q̃ bẽ vejo q̃ eſtàs afrontado, & deſpois q̃ eſtiueres mais em ty te direy o porq̃ mãdey matar eſſe Mouro q̃ trouxeſte comtigo, porq̃ ſe fora Portuguez, ou Chriſtão, eu te juro em minha ley q̃ o não fizera, inda q̃ me matara hũ filho; então me mãdou trazer hũa panella com agoa, de que bebi hũa grande quantidade, & me mandou tambem auanar com hum auano, em que ſe gaſtou mais de hũa grande hora. E conhecendo elle então q̃ eſtaua eu ja fora do ſobreſalto, & que podia reſponder a propoſito, me diſſe, muyto bem ſey Portuguez q̃ ja te diriaõ como os dias paſfados matara eu meu pay, o qual fiz porq̃ ſabia que me queria elle matar a mim, por mexericos que homẽs maos lhe fizeraõ, certificandolhe que minha mãy era prenhe de mim, couſa que eu nunca imaginey, mas ja que com tanta ſem razão elle tinha crido iſto, & por iſſo tinha determinado de me dar a morte, quislha eu dar primeiro a elle, & ſabe Deos quanto contra minha vontade, porque ſempre lhe fuy muvto bom filho, em tãto, que por minha mãy não ficar como ficão outras muytas viuuas, pobres, &deſemparadas, a tomey por molher, & engeitey outras muytas com que dantes fuy cometido, aſſi em Patane, como em Berdio, Tanauçarim, Siaca, Iambè, & Andraguirè, irmãs & filhas de Reys, com que me puderaõ dar muyto dote. E por cuitar murmuraçoẽs de maldizentes que fallão ſem medo quãto lhe vem à boca, mandey lançar pregaõ que ninguem fallaſſe mais neſte caſo. E porque eſſe teu Mouro que ahy jaz, ontem eſtando bebado, em companhia de outros caẽs tais como elle, diſſe de mim tantos males que ey vergonha de tos dizer, dizendo publicamente em altas vozes, que eu era porco, & pior que porco, & minha mãy cadella ſayda, me foy forçado por minha honra mandar fazer juſtiça delle, &de eſſoutros perros taõ maos como elle. Pelo q̃ te rogo muyto como amigo, que te não pareça mal iſto que fiz, porq̃ te affirmo que me magoaras muyto niſſo, & ſe por ventura cuydas q̃ o fiz para tomar a fazenda do Capitão de Malaca, crè de mym que nunca tal imaginey, & aſsi lho podes certificar cõ verdade, porq̃ aſsi te juro em minha ley, porq̃ ſempre fuy muyto amigo de Portugueſes, & aſsi o ſerey em quanto viuer. Eu entaõ ficando algum tanto mais deſaſſombrado, com quãto não eſtaua ainda de todo em mim, lhe reſpondi que ſua alteza em mãdar matar aquelle Mouro, fizera muyto grãde amizade ao Capitão de Malaca ſeu irmão, porque lhe tinha roubado toda ſua fazenda, & a mym por iſſo ja por duas vezes me quiſera matar com peçonha, ſó por lhe eu não poder dizer as emburilhadas que tinha feitas, porq̃ era taõ mao perro que cõtinuamente andaua bebado, falando quanto lhe vinha à vontade, como cão que ladraua a quantos via paſſar pela rua. Deſta minha reſpoſta, aſsi toſca, & ſem ſaber o que dizia, ficou el Rey tão ſatisfeito & contente, que chamandome para junto de ſi me diſſe, certo que neſſa tua reſpoſta conheço eu ſeres muyto bõ homẽ, & muyto meu amigo, porq̃ de o ſeres te vẽ não te parecerem mal as minhas couſas, como a eſſes perros coẽs que ahy jazem, & tirando da cinta hum cris que trazia guarnecido douro, mo deu, & hũa carta para Pero de Faria de muyto ruins deſculpas do q̃ tinha feito. E deſpidindome então delle pelo milhor modo que pude, & com lhe dizer que auia ainda aly de eſtar dez ou doze dias, me vim logo embarcar, & tanto q̃ fuy dentro no Iurupango, ſem eſperar mais hũ momẽto, larguey a amarra por maõ, & me fiz â vella muyto depreſſa, porecendome ainda que vinha toda a terra apos mim, pelo grande medo, & riſco da morte em que me vira auia tão poucas horas.