Peregrinaçam/XLVI

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N

A boca deſte rio de Tanauquir

nos deixamos eſtar ſurtos toda aquella noite, com tenção de tanto que foſſe menham nos yrmos para a cidade, que era daly cinco legoas, a ver ſe nella por qualquer via de concerto podiamos vender a fazenda q̃ leuauamos, porque como era muyta, traziamos as embarcaçoẽs tão carregadas, que não auia dia que não deſſemos duas tres vezes em ſeco nos baixos dos parceis, que em partes eraõ de quatro cinco legoas, com hũs alfaques de coroas de area tão baixos q̃ não ouſauamos a velejar ſenão muyto de dia, & ſempre co prumo na mão, pelo q̃ ſe aſſentou q̃ antes q̃ ſe entendeſſe em outra couſa algũa, nos deſpejaſſemos de toda a fazenda que leuauamos, & por iſſo Antonio de Faria não cuydaua

em outra couſa ſe não em buſcar

porto onde a vendeſſe. E trazẽdonos noſſo Senhor a eſte para nelle ſe dar effeito a eſſa vontade, trabalhamos quaſi toda aquella noite para às toas nos metermos da boca do rio para dentro, porque era tamanho o impeto da corrente, que com todas as vellas metidas nos abatia a jula vẽto do porto. E eſtando nos neſte trabalho, & co conuẽs todo empachado de amarras & calabretes q̃ quaſi nos não podiamos reuoluer, nos ſayrão de dentro do rio dous juncos muvto grandes, forçados de baileus poſtiços de popas proas, com ſuoas ſobregauias de toldos de ſeda, & apaueſados todos em roda de paueſes pintados de vermelho & preto, que os fazião muyto guerreyros. E encadeandoſe hum no outro paraque a força lhe ficaſſe toda junta, nos cometeraõ tão aceleradamente, que nem vagar tiuemos para nos aparelharmos, pelo qual nos foy forçado lançar as amarras & as driças aſsi como eſtauão ao mar por fazer a artilharia leſta, que era o que então mais nos ſeruia. Chegados os dous juncos a nòs cõ grande grita & eſtrondo de tambores & finos, a primeyra çurriada de tres cõ que nos hoſpedarão foy de vinte & ſeis peças de artilharia, de que as noue eraõ falcoẽs & camelos, por onde ſe entendeo logo que era iſto gente da outra coſta do Malayo, o que algũ tanto nos meteo em confuſaõ. Antonio de Faria, como ſagaz que era, como os vio ambos encadeados, logo lhe entendeo a tenção com que vinhão, & fez que lhe hia fugindo para o mar, aſsi por lhe ficar tempo para ſe aparelhar, como por lhe dar a entender q̃ eramos outra gente; mas elles tambẽ como praticos neſte officio em que andauão, deſejando que ſe lhe não foſſe a preſa das mãos, ſe deſaferrarão hum do outro, para nos poderem milhor alcançar, & chegãdo a nos, nos abalroarão logo, & nos lançaraõ̃ tanta quantidade de lanças de arremeſſo, que não auia couſa que os eſperaſſe. Antonio de Faria recolhendoſe para debaixo da tolda cos vinte & cinco ſoldados que tinha no ſeu junco, & com mais dez ou doze eſcrauos & marinheyros, eſteue daly jugando cõ elles às arcabuzadas por eſpaco de quaſi meya hora, ate que os deixou deſpẽder toda a munição que trazião, a qual foy tanta que todo o conues ficou juncado della, & determinando quarenta delles q̃ parecião ſer os mais esforçados, de darem concluſaõ ao que tinhão cometido, ſaltarão no noſſo junco cõ tenção de ſe ſenhorearem da proa, pelo qual foy forçado ao noſſo Capitão ilos receber, & chegandoſe hũs aos outros com boas vontades, ſe trauou entre elles hũa briga tão aceſa, que em eſpaço de pouco mais de tres credos foy noſſo Senhor ſeruido, q̃ dos quarenta ficaſſem aly os vinte & ſeis, & os outros todos ſe lãçaraõ ao mar; os noſſos ſeguindo eſte bom ſucceſſo dado da mão de Deos, ſe lançaraõ vinte dentro no ſeu junco, em q̃ não ouue muyta reſiſtencia, porq̃ os principais

eraõ ja mortos, & matando a
hũa parte & a outra todos os que achauão,

ſe lhe acabou de render de todo a gente do mar, a que foy neceſſario darſe a vida, por não auer eſquipação para tantos nauios. Iſto ſeito acudio logo Antonio de Faria com muyta preſſa a Chriſtouão Borralho, que eſtaua abalroado co outro junco, & muyto duuidoſo da vitoria, porque a mayor parte dos noſſos eſtauão feridos, mas prouue a noſſo Senhor que com eſta ajuda ſe lançaraõ os inimigos ao mar, dos quais ſe afogou a mayor parte, & os juncos ficarão ambos em noſſo poder. E fazẽdoſe logo reſſenha do que nos cuſtara eſta vitoria, ſe achou hum Portuguez morto, & cinco moços, & noue marinheyros, a fora os feridos; & dos inimigos forão mortos oitẽra, & quaſi outros tantos catiuos. Deſpois que os noſſos foraõ curados, & agaſalhados o milhor que então foy poſsiuel, Antonio de Faria mandou recolher os marinheyros que ſe tinhão lançado ao mar, os quais andauão bradando que lhe valeſſem q̃ ſe afogauão, & trazidos ao ſeu junco grande onde elle eſtaua, os mandou prender a todos, & perguntandolhes que juncos erão aquelles, & como ſe chamaua o Capitão delles, & ſe era viuo ou morto, nenhum quiz fallar a propoſito, mas deixandoſe morrer emperradamente ſem fazerem caſo dos tratos oue lhe dauão, bradou Chriſtouão Borralho do outro junco em q̃ eſtaua, dizendo, ha ſenhor, ha ſenhor, acuda voſſa merce cà, porqtie temos mais cuſtura do que cuydamos, & ſaltando Antonio de Faria logo com quinze ou dezaſſeis ſoldados dentro no junco, lhe perguntou que era, ao que elle reſpondeo, ouço cá na proa fallar muyta gente que deue de eſtar eſcondida; acudindo elle então com todos os que tinha comſigo, & mandando abrir a eſcotilha, ouuio logo embaixo hũa muyto grande grita q̃ dezia, Senhor Deos miſericordia, cõ tão eſpantoſos vrros & prantos que parecia couſa de encantamento; eſpantado elle diſto, ſe chegou com algũs dos noſſos à boca da eſcotilha, & viraõ todos jazer embaixo no prão hũa grande quãtidade de gente prefa, & não podendo ainda o Capitão acabar de entender o que eſtaua vẽdo cos olhos, mandou que foſſem ver o que era, & ſaltando embaixo dous moços, trouxeraõ acima dezaſſete peſſoas Chriſtãs, as quais eraõ dous Portugueſes, & cinco meninos, & duas moças, & oito moços, os quais todos vinhão de maneyra que era hum laſtimoſiſsimo eſpectaculo velos, & tirandolhes logo as priſoẽs em q̃ vinhão, q̃ erão colares & algemas, & cadeas de ferro muyto groſſas, forão prouidos do neceſſario, porq̃ os mais delles vinhão de todo nùs, ſem trazerem couſa algũa ſobre ſy. Apos iſto perguntado hum dos dous Portugueſes, porque o outro eſtaua como morto, cujos filhos erão aquelles mininos, & como vierão ter ao poder daquelle ladraõ, & como ſe elle chamaua, reſpondeo que o ladraõ tinha dous nomes, hum de Chriſtão, & outro

de gentio, o de gentio porque ſe
então nomeaua era Necodà Xicaulem,

& o de Chriſtão era Franciſco de Saa, o qual auia cinco annos que em Malaca ſe fizera Chriſtão, ſendo Garcia de Saa Capitão da fortaleza, & que porque elle fora ſeu padrinho do bautiſmo lhe puſera aquelle nome, & o caſara com hũa moça orfam meſtiça muyto gentil molher, & filha de hum Portugues muyto honrado a fim de o fazer mais natural da terra, & que indo no Anno de 1534 para a China em hum junco ſeu muyto grãde, no qual leuaua vinte Portugueſes dos mais honrados, & ricos da fortaleza, & tambem ſua molher, chegando à ilha de Pullo Catão fizera ahy agoada, com tençaõ de paſſar ao porto do Chincheo, & auendo ja dous dias que ahy eſtaua, como a eſquipaçaõ do junco era toda ſua, & Chim como elle, ſe leuantaraõ hũa noite eſtando os Portugueſes dormindo, & com as machadinhas que traziaõ, os mataraõ a todos, & aos ſeus moços, ſem a nenhum que tiueſſe nome de Chriſtaõ, ſe dar a vida, & cometeo à molher que ſe fizeſſe gentia, & adoraſſe hum idolo q̃ o ſeu Tucão meſtre do junco leuaua nũa arca, & que aſsi deſatada da ley Chriſtam a caſaria com elle, porque o Tucaõ lhe daua por iſſo hũa irmam ſua que aly leuaua comſigo, tambem gentia & China como elle, & porque a molher não quiſera adorar o idolo, nem cõſentir em tudo o mais que lhe elle dezia, o perro lhe dera com hũa machadinha na cabeça, com que logo lhe lançara os miolos fora. E partido daly ſe fora ao porto de Liãpoo, onde aquelle anno fizera fazenda, & receoſo de yr a Patane por cauſa dos Portugueſes que là reſidiaõ, ſe fora inuernar a Siaõ, & o anno ſeguinte ſe tornara ao porto do Chincheo, onde tornara hum junco pequeno cõ dez Portugueſes, que vinha da Çunda, & os matara a todos. E porque ja ſe ſabiaõ por toda a terra os males q̃ nos tinha feitos, receando poder encontrar com algũa força noſſa, ſe viera a eſta enſeada da Cauchenchina, onde como mercador fazia fazenda, &como coſſayro tambem ſalteaua os cõ que ſe atreuia; & que auia ja tres annos que tomara aquelle rio por colheita de ſeus furtos, & tambem por auer que nelle eſtaria mais ſeguro de nós, porque não cuſtumauamos fazer fazenda nos portos daquella enſeada & ilha de Ainaõ. E pergutãdolhe Antonio de Faria ſe eraõ aquelles mininos filhos dos Portugueses q̃ dezia, reſpondeo que naõ, mas q̃ eraõ filhos de Nuno Preto, & de Giaõ Diaz, & de Pero Borges cujos eraõ tãbem os moços & as moças, os quais Portugueſes elle tambem matara em Mompollacota na barra do rio de Siaõ, num junco de Ioaõ de Oliueyra, em que tambem matara dezaſſeis Portugueſes, & que a elles ambos, hũ por ſer carpinteyro, & outro por ſer calafate, dera a vida, & q̃ auia ja perto de quatro annos que os trazia aſsi cõſigo, mataridoos ſempre de fome, & de açoutes, & que quando nos cometera, naõ lhe pareceo que eraõ Portugueſes,

ſe naõ Chins mercadores

como os mais que elle ſempre cuſtumaua a roubar onde os achaua de bõ lanço, como cuydaua q̃ achara a nòs; & perguntado ſe conheceria o ladrão entre aquelles mortos, diſſe que ſy, cõ que Antonio de Faria ſe leuantou logo, & tomandoo pela mão ſe paſſou com elle ao outro jũco q̃ eſtaua abalroado com eſte, & moſtrandolhe todos os q̃ eſtauão mortos no conuès, diſſe que nenhum daquelles era, & mandando eſquipar as manchuas, o foy em peſſoa buſcar entre os outros mortos q̃ andauaõ pelo mar, onde foy achado com hũa grande cutillada na cabeça, & hũa eſtocada por meyo dos peitos, & trazendoo acima ao conues do junco lhe tornou a perguntar ſe era aquelle, a q̃ elle reſpondeo que ſy ſem falta nenhũa, a q̃ Antonio de Faria lhe deu credito por cauſa de hũa cadea de ouro groſſa que trazia cingida, com hum idolo de duas cabeças da feiçaõ de lagarto, tambẽ de ouro, co rabo & maõs, eſmaltados de verde & preto. E mandãdoo a raſto leuar à proa lhe cortaraõ a cabeça, & o fizeraõ em pedaços.